sexta-feira, 18 de novembro de 2016

PAUL ÉLUARD

 
 
A IMPLACÁVEL UNIVERSALIDADE DO AMOR
 
É sabido que uma das estratégias habituais do discurso poético tem sido a tentativa de “diluição” da circunstância que está na sua origem e que essa tem procurado ser, ao longo dos tempos, um dos seus elementos distintivos em relação ao discurso narrativo. Diga-se de passagem que essa estratégia tem também “contaminado” e fundamentado a orientação teórica dos estudos literários nos últimos anos, em particular, no esforço de procurar autonomizar o(s) universo(s) literário(s) do registo biográfico dos autores.
 
Porém, há um caso na literatura francesa contemporânea em que esta estratégia do discurso poético aparece acentuada de forma obsessiva e em permanente tensão com exigências éticas e sociais que determinam um compromisso com a circunstância: é o caso da obra de Paul Éluard (1895-1952). De facto, quem ler a poesia deste autor só de modo elíptico e “transversal” se aperceberá das circunstâncias históricas, pessoais e sociais, que o autor viveu e que muitas vezes motivaram de forma directa a sua produção literária.
 
Isto pode parecer tanto mais estranho quanto é conhecido que Éluard manteve posições bem comprometidas na cultura (e na política) francesa do seu tempo e um papel activo nos tremendos acontecimentos históricos porque passou a Europa durante a existência dele: relembro que participou como enfermeiro militar na I Guerra Mundial, tendo essa experiência um papel decisivo na formação da sua sensibilidade e da sua consciência cívica, assim como, mais tarde, também foi importante a Guerra Civil de Espanha e, obviamente, a resistência ao nazismo e à ocupação da França (onde, mais uma vez, o poeta participou de forma militante). Além disso, Éluard teve um papel empenhado nas vanguardas estéticas da primeira metade do séc. XX: se deixarmos de lado – como fez o poeta – a sua produção até 1916, ainda tingida de um lirismo um pouco “fin-de-siècle”, recordo o seu envolvimento no dadaísmo, depois no surrealismo e, por fim, como assumiu, na última fase da sua vida, o estatuto de bardo do comunismo mundial.
 
A intensidade com que Éluard viveu todos estes movimentos e acontecimentos históricos já seria motivo para que se esperasse que, para além das inevitáveis mutações de orientação estética, a sua “presença” se tornasse bem legível na sua poesia. Saliente-se que, ainda por cima, além destes factos “públicos”, é também conhecido que Éluard passou por uma acidentada vida amorosa, onde grandes paixões foram estilhaçadas por rupturas e lutos sufocantes: a sua paixão por Gala (1913), o seu casamento (1917), e depois o rompimento (1930); o amor e o casamento com Nusch (1934) e a sua morte súbita (1946); por último, a redentora relação com Dominique (1947) e o casamento, um ano antes de morrer.
 
Quando afirmo isto, não escondo que alguns dos acontecimentos referidos – e, em particular, algumas mulheres da sua vida – são “enunciados” na sua poesia; mas uma leitura “branca” desses poemas permite perceber que esses dados são referenciados em “nomes”, sem que estes afectem a substância temática (?) do poema - que continua a pretender superar pela universalidade a circunstância nomeada.
 
Hoje, salienta-se que Éluard foi um grande “poeta da liberdade e do amor” e que, em particular sobre este último tema, ascende ao lugar de um dos poetas cimeiros da história da literatura francesa.
 
Porém, convém recordar que existe uma articulação orgânica entre o projecto político que Éluard preconizava e defendia e a sua concepção da relação amorosa, visto que, segundo o autor, os valores que dão densidade a esta são os que fundamentam o projecto político. E, por isso mesmo, não se pode escamotear – principalmente na avaliação da figura pública que também foi Éluard – o seu entusiástico apoio a Estaline e à sua linha política. Mas também não é lícito minimizar, por este facto, a elevada qualidade da sua poesia, como aconteceu, em parte, nas comemorações recentes do centenário do seu nascimento. De facto, mesmo em França, estas comemorações foram muito “pardacentas” e a esta situação não é, decerto, estranho as referidas opções políticas do poeta…
 
Recorde-se que a concepção amorosa de Éluard (e daí a sua conexão com a poética e com a política) é a de uma “harmonia primordial” só possível de atingir através da mulher amada - que, no fundo, serve de elo perfeito entre o amante e a natureza e a vida: nesse sentido é que se tem de compreender como a relação amorosa, por si só, se opõe e combate a “besta cega” da tirania e da opressão.
 
Por tudo isto, nunca é de mais dizer o seguinte: goste-se ou não da intervenção cívica do “intelectual” Paul Éluard, compreenda-se ou não os seus erros de análise histórica, não se deve escamotear, seja que de forma for, o facto objectivo de que Éluard é um dos grandes poetas de sempre da problemática amorosa.
 
Justificam-se estas considerações com a minha recente leitura de Últimos Poemas de Amor, numa tradução (e prefácio) de Maria Gabriela Llansol, editada pela Relógio d’Água.
 
Para quem não conhece a poesia de Éluard aconselho vivamente a sua leitura. Não só porque a edição é bilingue, como a tradução é feita por um dos mais complexos escritores portugueses contemporâneos (infelizmente, faleceu há poucos dias…). Além disso, a escritora redigiu um prefácio que dá, por um lado, uma interessante visão do poeta e, por outro, permite compreender o que aproxima Llansol de Éluard…
 
A terminar, gostaria de assinalar que considero esta tradução “irregular”… Quando utilizo este termo, estou a ponderá-lo com rigor: não que haja “erros” de tradução (nem isso seria de esperar de uma escritora de reconhecida probidade intelectual e que, ainda por cima, viveu uma larga temporada na Bélgica francófona), mas porque, a par de luminosas versões para português de alguns versos, há, aqui e além, algumas soluções que me parecem resultantes de uma típica sensibilidades de prosadora (mesmo peculiar, como era o caso de Maria Gabriela Llansol).
 
É evidente que este meu comentário resulta da facilidade de confrontar o texto original com o traduzido e poder com uma simples leitura questionar as opções de tradução (é essa, não há dúvida, uma das virtudes da edição bilingue). Repito, no entanto, para que não haja equívocos: estas minhas reticências são apenas resultantes de divergências de gosto…E quanto a gosto cada um tem o seu…
 
Publicado na web em 2008.
 
 
Autor: Paul Éluard
Título: Últimos Poemas de Amor
Tradução (e prefácio): Maria Gabriela Llansol
Editor: Relógio d’Água
Ano: 2003
293 págs.,  € 15,00
 



segunda-feira, 14 de novembro de 2016

DANIEL MELLA

 
 
 

DESEJO DE LER (2): DANIEL MELLA
 
Horacio Quiroga, Felisberto Hernández, Juan Carlos Onetti, Mario Benedetti. Armonia Somers, Eduardo Galeano, Cristina Peri Rossi, Carmen Posadas, Mario Delgado Aparaín e Jorge Majfud. Esta lista de dez nomes de autores do séc. XX, pelo menos para os amigos mais metidos nestas andanças da leitura, deverá bastar para referenciar uma das literaturas mais ricas e diversificadas da América Hispânica: a do Uruguai (não sei porquê, mas embirro com o adjectivo “uruguaia”).
Recordando a obra destes autores, e os seus títulos principais, alguns deles com uma relevância mítica, torna-se intrigante ler, em depoimentos redigidos pela mão de vários comentadores das literaturas em língua espanhola, que um jovem autor, com apenas três novelas, publicadas de jacto, umas a seguir às outras, tenha provocado uma verdadeira inflexão (?) na narrativa do Uruguai. É o caso de Daniel Mella (n. 1976) que, com apenas vinte e um anos publicou Pogo, seguindo-se Derretimiento e, em 2000, Noviembre.
Nesses comentários, realça-se sistematicamente a violência dos ambientes e das situações descritas e a elevada qualidade estilística das obras.
O intrigante é que o autor, depois de ter publicado estas obras, só voltou a publicar um breve livro de contos, intitulado Lavra (e que a crítica, mais uma vez, não poupou em encómios), em 2013. Além de dar aulas de inglês num liceu de um subúrbio distante de Montevideu, pouco mais se sabe dele pelas notas biográficas.  
Numa entrevista recente, por ocasião de uma reedição de um dos seus romances da década de noventa, o jornalista perguntou-lhe como está a reagir ao facto de se encontrar há tanto tempo sem publicar. E a resposta de Daniel Mella foi, pelo menos, interessante: disse que descobriu que se pode viver em plenitude sem publicar; mais: que se vive bem sem a pressão constante de escrever para publicar; que continua a escrever imenso, mas que, aquilo que escreve, não é para ser publicado; que escrever e escrever para ser publicado são duas actividades completamente distintas (já Delphine de Vigan, numa entrevista deste ano a um jornal português, dizia o mesmo), e que, como já foi referido, consegue viver bem sem a pressão desta última.
Esta posição é compreensível e aceitável. Sucede é que esta resposta oculta uma outra pergunta e a correspondente resposta: por que motivo foi tão premente publicar numa altura (a década de noventa, no caso de Daniel Mella) e depois deixou de o ser?    






 


FRANCIS GEFFARD




DAS DIFICULDADES DE EDITAR TRADUÇÕES

O editor Francis Geffard, diretor da importante coleção “Terres d’Amérique” da ed. Albin Michel, numa recente entrevista ao jornal Le Monde, refere que, decorrentes dos custos de tradução, oito em dez livros de origem estrangeira, publicados em França, não são rentáveis. E que, mesmo com boas críticas e boa imprensa, poucas são as obras deste tipo que atingem a venda de 1500 exemplares.

Confesso que estes dados, assim expostos, me deixaram perplexo.

Eu sei (mal de mim se não soubesse…) que os custos de tradução são importantes condicionantes da edição. Sempre assim foi.

Também é sabido que as dificuldades colocadas à circulação das obras pelos custos da tradução são um dos motivos que levaram à criação de programas públicos de apoio à tradução na maior parte dos Estados do chamado “1º mundo” (e não só), com excepção dos países de língua inglesa (à parte a Irlanda que também tem estes programas públicos).

Mas, por tudo isto, intriga-me esta informação dada na entrevista por Francis Geffard, pois é apresentada como se fosse uma situação recente. Ora, mesmo tendo em consideração a actual crise no consumo, sempre entendi que as dificuldades de comercialização das obras traduzidas (em relação às outras…) não se tinham substancialmente agravado. Ou terão?  

Sem ter uma informação de todo rigorosa, creio que as dificuldades em editar traduções no nosso país devem ser similares à França ou até mais graves.

Eu sei que os problemas da edição e da comercialização de livros em Portugal são muito diversos e que os riscos deste negócio são tantos que fazem com que todos os agentes (autores, editores e livreiros) vivam inquietos e com enormes angústias.

Sei também que não é muito relevante debater este assunto neste local. São outras as formas onde isso é mais útil.

Porém, sucede que nunca vi este problema referenciado (e muito menos analisado…) na comunicação social generalista ou “da especialidade”.

E isso é que é preocupante. Pois, se a tendência for para o agravamento das condições de comercialização de obras traduzidas, decorrente do seu baixo consumo, não será pertinente considerar que esta situação irá ter, a curto ou médio prazo, inevitáveis efeitos na diversidade das obras publicadas deste tipo com os consequentes (maus) resultados para a cultura portuguesa?

E não será também de considerar que esta situação, se for tão generalizada e universal como parece, estará a condenar os povos, incluindo o nosso, a um isolamento (só contrariado, de um modo insatisfatório, pelos media e pelo audiovisual, dando-lhes um estatuto cada vez mais preponderante) que só prenuncia um futuro bem sinistro?

Ou será que apenas acordei demasiado pessimista?