DESEJO DE LER (2): DANIEL MELLA
Horacio Quiroga,
Felisberto Hernández, Juan Carlos Onetti, Mario Benedetti. Armonia Somers, Eduardo
Galeano, Cristina Peri Rossi, Carmen Posadas, Mario Delgado Aparaín e Jorge
Majfud. Esta lista de dez nomes de autores do séc. XX, pelo menos para os
amigos mais metidos nestas andanças da leitura, deverá bastar para
referenciar uma das literaturas mais ricas e diversificadas da América
Hispânica: a do Uruguai (não sei porquê, mas embirro com o adjectivo
“uruguaia”).
Recordando a
obra destes autores, e os seus títulos principais, alguns deles com uma
relevância mítica, torna-se intrigante ler, em depoimentos redigidos pela mão
de vários comentadores das literaturas em língua espanhola, que um jovem autor,
com apenas três novelas, publicadas de jacto, umas a seguir às outras, tenha
provocado uma verdadeira inflexão (?) na narrativa do Uruguai. É o caso de
Daniel Mella (n. 1976) que, com apenas vinte e um anos publicou Pogo,
seguindo-se Derretimiento e, em 2000, Noviembre.
Nesses
comentários, realça-se sistematicamente a violência dos ambientes e das
situações descritas e a elevada qualidade estilística das obras.
O intrigante é
que o autor, depois de ter publicado estas obras, só voltou a publicar um breve
livro de contos, intitulado Lavra (e que a crítica, mais uma vez, não poupou
em encómios), em 2013. Além de dar aulas de inglês num liceu de um subúrbio
distante de Montevideu, pouco mais se sabe dele pelas notas biográficas.
Numa entrevista
recente, por ocasião de uma reedição de um dos seus romances da década de
noventa, o jornalista perguntou-lhe como está a reagir ao facto de se encontrar
há tanto tempo sem publicar. E a resposta de Daniel Mella foi, pelo menos, interessante:
disse que descobriu que se pode viver em plenitude sem publicar; mais: que se
vive bem sem a pressão constante de escrever para publicar; que continua a
escrever imenso, mas que, aquilo que escreve, não é para ser publicado; que
escrever e escrever para ser publicado são duas actividades completamente
distintas (já Delphine de Vigan, numa entrevista deste ano a um jornal
português, dizia o mesmo), e que, como já foi referido, consegue viver bem sem
a pressão desta última.
Esta posição é
compreensível e aceitável. Sucede é que esta resposta oculta uma
outra pergunta e a correspondente resposta: por que motivo foi tão premente
publicar numa altura (a década de noventa, no caso de Daniel Mella) e depois
deixou de o ser?





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