segunda-feira, 14 de novembro de 2016

DANIEL MELLA

 
 
 

DESEJO DE LER (2): DANIEL MELLA
 
Horacio Quiroga, Felisberto Hernández, Juan Carlos Onetti, Mario Benedetti. Armonia Somers, Eduardo Galeano, Cristina Peri Rossi, Carmen Posadas, Mario Delgado Aparaín e Jorge Majfud. Esta lista de dez nomes de autores do séc. XX, pelo menos para os amigos mais metidos nestas andanças da leitura, deverá bastar para referenciar uma das literaturas mais ricas e diversificadas da América Hispânica: a do Uruguai (não sei porquê, mas embirro com o adjectivo “uruguaia”).
Recordando a obra destes autores, e os seus títulos principais, alguns deles com uma relevância mítica, torna-se intrigante ler, em depoimentos redigidos pela mão de vários comentadores das literaturas em língua espanhola, que um jovem autor, com apenas três novelas, publicadas de jacto, umas a seguir às outras, tenha provocado uma verdadeira inflexão (?) na narrativa do Uruguai. É o caso de Daniel Mella (n. 1976) que, com apenas vinte e um anos publicou Pogo, seguindo-se Derretimiento e, em 2000, Noviembre.
Nesses comentários, realça-se sistematicamente a violência dos ambientes e das situações descritas e a elevada qualidade estilística das obras.
O intrigante é que o autor, depois de ter publicado estas obras, só voltou a publicar um breve livro de contos, intitulado Lavra (e que a crítica, mais uma vez, não poupou em encómios), em 2013. Além de dar aulas de inglês num liceu de um subúrbio distante de Montevideu, pouco mais se sabe dele pelas notas biográficas.  
Numa entrevista recente, por ocasião de uma reedição de um dos seus romances da década de noventa, o jornalista perguntou-lhe como está a reagir ao facto de se encontrar há tanto tempo sem publicar. E a resposta de Daniel Mella foi, pelo menos, interessante: disse que descobriu que se pode viver em plenitude sem publicar; mais: que se vive bem sem a pressão constante de escrever para publicar; que continua a escrever imenso, mas que, aquilo que escreve, não é para ser publicado; que escrever e escrever para ser publicado são duas actividades completamente distintas (já Delphine de Vigan, numa entrevista deste ano a um jornal português, dizia o mesmo), e que, como já foi referido, consegue viver bem sem a pressão desta última.
Esta posição é compreensível e aceitável. Sucede é que esta resposta oculta uma outra pergunta e a correspondente resposta: por que motivo foi tão premente publicar numa altura (a década de noventa, no caso de Daniel Mella) e depois deixou de o ser?    






 


Sem comentários:

Enviar um comentário