segunda-feira, 14 de novembro de 2016

FRANCIS GEFFARD




DAS DIFICULDADES DE EDITAR TRADUÇÕES

O editor Francis Geffard, diretor da importante coleção “Terres d’Amérique” da ed. Albin Michel, numa recente entrevista ao jornal Le Monde, refere que, decorrentes dos custos de tradução, oito em dez livros de origem estrangeira, publicados em França, não são rentáveis. E que, mesmo com boas críticas e boa imprensa, poucas são as obras deste tipo que atingem a venda de 1500 exemplares.

Confesso que estes dados, assim expostos, me deixaram perplexo.

Eu sei (mal de mim se não soubesse…) que os custos de tradução são importantes condicionantes da edição. Sempre assim foi.

Também é sabido que as dificuldades colocadas à circulação das obras pelos custos da tradução são um dos motivos que levaram à criação de programas públicos de apoio à tradução na maior parte dos Estados do chamado “1º mundo” (e não só), com excepção dos países de língua inglesa (à parte a Irlanda que também tem estes programas públicos).

Mas, por tudo isto, intriga-me esta informação dada na entrevista por Francis Geffard, pois é apresentada como se fosse uma situação recente. Ora, mesmo tendo em consideração a actual crise no consumo, sempre entendi que as dificuldades de comercialização das obras traduzidas (em relação às outras…) não se tinham substancialmente agravado. Ou terão?  

Sem ter uma informação de todo rigorosa, creio que as dificuldades em editar traduções no nosso país devem ser similares à França ou até mais graves.

Eu sei que os problemas da edição e da comercialização de livros em Portugal são muito diversos e que os riscos deste negócio são tantos que fazem com que todos os agentes (autores, editores e livreiros) vivam inquietos e com enormes angústias.

Sei também que não é muito relevante debater este assunto neste local. São outras as formas onde isso é mais útil.

Porém, sucede que nunca vi este problema referenciado (e muito menos analisado…) na comunicação social generalista ou “da especialidade”.

E isso é que é preocupante. Pois, se a tendência for para o agravamento das condições de comercialização de obras traduzidas, decorrente do seu baixo consumo, não será pertinente considerar que esta situação irá ter, a curto ou médio prazo, inevitáveis efeitos na diversidade das obras publicadas deste tipo com os consequentes (maus) resultados para a cultura portuguesa?

E não será também de considerar que esta situação, se for tão generalizada e universal como parece, estará a condenar os povos, incluindo o nosso, a um isolamento (só contrariado, de um modo insatisfatório, pelos media e pelo audiovisual, dando-lhes um estatuto cada vez mais preponderante) que só prenuncia um futuro bem sinistro?

Ou será que apenas acordei demasiado pessimista?
 
 
 
 
 
 


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