DAS DIFICULDADES
DE EDITAR TRADUÇÕES
O editor Francis
Geffard, diretor da importante coleção “Terres d’Amérique” da ed. Albin Michel,
numa recente entrevista ao jornal Le Monde, refere que, decorrentes dos custos
de tradução, oito em dez livros de origem estrangeira, publicados em França,
não são rentáveis. E que, mesmo com boas críticas e boa imprensa, poucas são as
obras deste tipo que atingem a venda de 1500 exemplares.
Confesso que
estes dados, assim expostos, me deixaram perplexo.
Eu sei (mal de
mim se não soubesse…) que os custos de tradução são importantes condicionantes
da edição. Sempre assim foi.
Também é sabido
que as dificuldades colocadas à circulação das obras pelos custos da tradução
são um dos motivos que levaram à criação de programas públicos de apoio à
tradução na maior parte dos Estados do chamado “1º mundo” (e não só), com
excepção dos países de língua inglesa (à parte a Irlanda que também tem estes
programas públicos).
Mas, por tudo
isto, intriga-me esta informação dada na entrevista por Francis Geffard, pois é
apresentada como se fosse uma situação recente. Ora, mesmo tendo em
consideração a actual crise no consumo, sempre entendi que as dificuldades de
comercialização das obras traduzidas (em relação às outras…) não se tinham
substancialmente agravado. Ou terão?
Sem ter uma
informação de todo rigorosa, creio que as dificuldades em editar traduções no
nosso país devem ser similares à França ou até mais graves.
Eu sei que os
problemas da edição e da comercialização de livros em Portugal são muito
diversos e que os riscos deste negócio são tantos que fazem com que todos os
agentes (autores, editores e livreiros) vivam inquietos e com enormes
angústias.
Sei também que não
é muito relevante debater este assunto neste local. São outras as formas onde
isso é mais útil.
Porém, sucede
que nunca vi este problema referenciado (e muito menos analisado…) na
comunicação social generalista ou “da especialidade”.
E isso é que é
preocupante. Pois, se a tendência for para o agravamento das condições de
comercialização de obras traduzidas, decorrente do seu baixo consumo, não será pertinente
considerar que esta situação irá ter, a curto ou médio prazo, inevitáveis
efeitos na diversidade das obras publicadas deste tipo com os consequentes
(maus) resultados para a cultura portuguesa?
E não será
também de considerar que esta situação, se for tão generalizada e universal
como parece, estará a condenar os povos, incluindo o nosso, a um isolamento (só
contrariado, de um modo insatisfatório, pelos media e pelo audiovisual,
dando-lhes um estatuto cada vez mais preponderante) que só prenuncia um futuro
bem sinistro?
Ou será que
apenas acordei demasiado pessimista?





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