DESEJO DE LER (6):
PÁDRAIG BREATHNACH
Para quem não
saiba, esclareço que o gaélico, como língua nativa, é falado por cerca de
duzentas mil pessoas; que, com o esforço do Estado Irlandês em ensinar gaélico
nas escolas, existem pouco mais de meio milhão de pessoas que o falam com
fluência; e que, com umas “luzes” desta língua, haverá o triplo dos habitantes
acima referidos. Isto, numa população de seis milhões de habitantes (incluindo
a Republica da Irlanda e a Irlanda do Norte).
Por isso, optar por escrever em gaélico,
quando se tem a possibilidade de escrever numa língua de difusão universal como
o inglês, tem um significado que não pode ser descurado.
É óbvio que a
primeira razão que leva a esta opção tem um sentido extra-literário: existe
aqui uma forte motivação nacionalista, de afirmação de uma cultura nacional.
Em termos
literários, a consequência imediata desta opção é que o escritor, ao redigir em
gaélico, hierarquiza os leitores. Para ele, o leitor não é todo igual: está a
dar preferência ao de gaélico do que ao leitor comum (e universal). Ora, é
necessário entender que existe nesta opção uma dimensão que me parece
anti-literária ou que, pelo menos, questiona o essencial da literatura (veja-se
o meu texto neste blog intitulado “Escrever Para Publicar”).
Pádraig Breathnach
é um narrador, nascido no Condado de Galway, uma das poucas regiões da Irlanda
onde o gaélico é ainda falado no dia-a-dia, o que poderá explicar a sua opção
de só publicar obras em gaélico. Tem publicado, desde meados da década de
setenta, vários romances e colectâneas de contos, obtendo, nesta última
modalidade narrativa, vários prémios e um manifesto reconhecimento no seu país.
Um dos motivos
da opção em escrever em gaélico de Pádraig Breathnach é resultante da sua
tentativa de dar continuidade à tradição do “seanchaí” (termo por que é
conhecido o contador de histórias da riquíssima literatura oral irlandesa),
agora através da expressão escrita. Assim, os seus contos utilizam, de acordo
com a referida tradição, um constante jogo de trocadilhos verbais (em
particular, fónicos) e um ritmo narrativo que acentua a componente dramática da
trama. Além disso, utiliza, por vezes, “leitmotive” para acentuar a matriz oral
da narração.
Os seus contos e
romances centram-se, de forma realista, na descrição e análise da vida rural da
sua terra natal, expondo costumes e uma vivência que, gradualmente, se vão
extinguindo e que o autor sabe ser uma das derradeiras testemunhas. Aliás, esta
vivência está associada à própria infância dos narradores e personagens
principais dos seus contos, e, por conseguinte, entende-se que esta comunidade
natal, ao absorver comportamentos alógenos, integrando uma vida urbana e ritmos
de quotidiano que nada têm a ver com a sua ancestralidade e com as referências
transmitidas, de geração em geração, por uma estrutura familiar patriarcal e
fechada, está, no fundo, a entrar numa idade adulta onde se esfuma a magia de
uma consonância com o pulsar natural da vida (que estaria na infância e no modo
de ser que vai desaparecendo).
Percebe-se, por
último, que existe, na obra de Pádraig Breathnach, uma atitude de manifesta
solidariedade, através do testemunho, por um povo que foi marginalizado na sua
própria terra e que, a pouco e pouco, vai perdendo as suas referências
culturais.
Existem alguns
contos deste autor traduzidos para inglês e francês.




