OUTRAS
LITERATURAS, ALGUNS AUTORES
2ª Vinheta
WILL EAVES
Will Eaves (1967-) é um escritor
inglês que já publicou cinco romances e dois livros de poemas neste século.
Para além disso, foi um colaborador regular do "Times Literary Suplement" e é
hoje professor de Escrita Criativa na Universidade de Warwick. A sua obra já
foi finalista em diversos prémios britânicos.
A sua obra narrativa, muito
experimental, evidencia um estilo que utiliza uma ironia delicada e subtil e
uma acentuada tonalidade melancólica. Além disso, é também de salientar o
carácter peculiar e a justa adequação dos seus diálogos. As personagens têm, na
maior parte das vezes, comportamentos imprevisíveis, integradas em situações
aparentemente bizarras. Porém, Will Eaves procura, até nestes contextos
invulgares, exprimir compreensão e empatia pelas suas personagens, mesmo pelas
suas imperfeições.
Os seus romances abordam temas bem
distintos, como a descoberta da sexualidade gay num “romance de formação” (“The
Oversight”) ou o jogo de frustrantes peripécias e rivalidades no seio de uma
companhia de teatro (“Nothing To Be Afraid Of”) ou ainda os conflitos surdos que
existem dentro dos códigos de afecto de uma família, cujos membros, depois se
dispersarem pelos seus destinos, regressam a casa para se confrontar e procurar
entender o que correu mal (“This Is Paradise”). Mas a análise conjunta da sua
obra permite que os críticos entendam que, no meio destes mundos díspares, haja
sempre uma subterrânea coerência e uma visão em complexidade crescente.
Natural, por isso, que seja de
destacar os seus dois últimos romances, dadas as suas características bem
distintas.
O primeiro, “The Absent Therapist”, 2014,
é um breve conjunto de mini-narrativas, reflexões, observações, pequenos
comentários, redigidas em registos muito diferentes, que o autor intitula
intrigantemente como “romance”, e que revelam a constante bizarria das
existências, ou melhor, como as pessoas “são o que realmente parecem” e como a
maioria delas têm uma singela opacidade que não permite nem justifica uma
“leitura” segmentada.
O segundo, o último do autor, que
saiu no ano passado, “Murmur”, centra-se numa personagem, Alec Pryor, que é inequivocamente
um “duplo” do cientista Alan Turing (recordo que este matemático britânico, na
década de cinquenta, optou por “aceitar” um tratamento hormonal de castração
química como alternativa à prisão, a que fora condenado num processo-crime por
atos homossexuais, o que terá motivado um possível suicídio, segundo a tese de
David Leavitt, por exemplo). O romance busca compreender as mutações por que a mente
de Pryor/Turing passa, após aceitar o tratamento que o leva à castração, e de
como os sonhos (registados pelo próprio a conselho do analista junguiano que o acompanha
neste processo) contribuem para a sua "programação" e como são “sinais” da sua
gradual transformação psicológica para uma outra identidade, onde o desejo foi
(ou será) “silenciado”.
“Murmur” foi traduzido para italiano.
Janeiro de 2020.
Desconheço a autoria da foto do escritor.



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