sábado, 18 de abril de 2020

DONG XI

OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

13ª Vinheta


DONG XI


Dong Xi (1966-) é um escritor chinês que, desde os finais dos anos oitenta, tem publicado uma significativa obra narrativa, principalmente nos domínios da novela (onde se tem mais destacado), do conto e do romance. No entanto, foi apenas quando o seu trabalho narrativo foi adaptado ao cinema e à televisão (em que o próprio escritor participou) é que passou a ser reconhecido a nível nacional. Saliente-se que, desde a década de noventa, Dong Xi é escritor profissional e, como tal, membro da Associação de Escritores da China, tendo ganho, ainda nessa década, com uma novela (“Life Whitout Language”, na versão inglesa e “Une vie de silence”, na versão francesa), o prestigiado Lu Xun Literary Prize.

A crítica literária tem acentuado que uma das tónicas essenciais da obra de Dong Xi é o princípio de que nada é partilhável, porque a comunicação é sempre imperfeita. Além disso, que cada homem transporta consigo um passado que inevitavelmente é sombrio e que condiciona qualquer relação. Há quem considere que este espírito resulta do autor ter nascido numa família rural pobre, oriunda de uma província chinesa (Guangxi) distante dos grandes centros urbanos e de ter passado fome na sua infância durante os períodos do Grande Salto em Frente e da Revolução Cultural.

Por isso, é uma componente constante, na caracterização das personagens das suas novelas e romances, o peso do passado e a necessidade de o entender, como forma de sobrevivência no presente. E a superação da mágoa desse passado processa-se sempre através da ironia, mesmo que ela se torne, por vezes, negra e cínica, e por uma atitude de refluxo em relação ao universo em redor, temendo sempre que dele venha o pior.

Compreende-se assim que, em termos estilísticos, as obras de Dong Xi agreguem diversos elementos aparentemente em conflito: por um lado, a utilização do non-sense como instrumento de humor, como se a própria realidade (em particular, a realidade política e o seu efeito nefasto no quotidiano individual) só pudesse ser entendida no registo de absurdo; por outro, um registo realista, mas minimalista e elíptico, repleto de evasivas e silêncios, com que se procura retratar a vida banal no seio de famílias comuns. Daí que a crítica assinale que os autores que mais “influenciaram” a obra de Dong Xi sejam Franz Kafka e Raymond Carver.

“Life Whitout Language” (1996), uma das suas primeiras novelas, é, ainda hoje, considerada como a mais relevante e significativa de Dong Xi. A história desenrola-se no seio de uma família, vivendo numa aldeia rural da China recôndita, constituído por um pai cego e um filho surdo, aos quais se junta, uma jovem, muda, que naturalmente a integra, quando chega à aldeia, passando a viver com o filho. No momento em que nasce uma criança normal nesta estranha e marginalizada família, gera-se um momento de júbilo entre todos, crentes que vão superar, através dela, todas as dificuldades de comunicação com os vizinhos e serão aceites e integrados; só que, conforme cresce, esta criança vai sentir sobre si, o estigma que a aldeia tinha lançado sobre a família, repudiando-a, perseguindo-a e ostracizando-a: a sua salvação, ou pelo menos, a sua sobrevivência obriga-a a repudiar o mundo, voltando a confinar a sua existência ao núcleo familiar, aceitando a sua comunicação fragmentada e o seu silêncio.

Há, como é evidente, nesta parábola, uma significação aberta que permite que represente de certo modo várias realidades possíveis (e os comentadores referem as relações entre os cidadãos e o Estado, as relações entre o mundo rural, repleto de seres sem voz, e a afirmação crescente da vida urbana, etc.). Porém, a interpretação mais consensual assenta de que esta obra é uma forma de revelar as dificuldades de comunicação entre os homens, cujo relacionamento é essencialmente feito de esparsos sinais que apenas exprimem de forma desajeitada e lateral o âmago da necessidade de afecto e de partilha que todos procuram.

Existem obras de Dong Xi traduzidas e editadas em inglês e francês. Em inglês, estão traduzidas a novela “Life Whitout Language” (publicado na “Chinese Literature Today”, vol. 6) e o romance “Record of Regret”. Em francês, estão publicados o romance “Sauver une vie”, a colectânea de novelas “Tu ne sais pas combien elle est belle” (que inclui a novela “Une vie de silence”, acima referida) e a colectânea de contos “Accrocher les coins de la bouche au bord des oreilles”.

Lisboa, Abril de 2020

Desconheço a autoria da foto do escritor.



domingo, 5 de abril de 2020

MAURICIO WACQUEZ


OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

12ª Vinheta


MAURICIO WACQUEZ

Mauricio Wacquez (1939-2000) foi um escritor chileno, tradutor e professor, que publicou cinco romances, algumas colectâneas de contos, ensaios e artigos, coligidos postumamente (segundo a sua própria definição, era um “escritor parco”). Começou a publicar na década de sessenta e integrou a chamada “generación de los novíssimos”, onde se destacaram Poli Delano e António Skarmeta (para apenas referir os mais conhecidos no exterior do Chile). Algumas das suas obras foram finalistas de prémios (Casa de las Americas, Seix-Barral, etc.), na sua maioria publicadas em Espanha, país onde residiu uma boa parte da sua vida.

Provavelmente por causa deste facto e porque a sua obra assume uma postura claramente gay, ela, enquanto o autor foi vivo, passou por completo desapercebida no seu país, com exceção de alguns autores (é o caso, por exemplo, de Júlio Cortázar, José Donoso e Jorge Edwards) que muito a apreciavam.  

Uma das características reconhecidas na obra de Mauricio Wacquez é a sua preocupação com o estilo, procurando utilizar a língua espanhola de forma inovadora e criativa. Aliás, as suas primeiras obras, pelas razões acima referidas, eram curtas, resultantes de um pendor fortemente autocrítico e da sua necessidade de pensar a frase, como um ourives de filigrana, palavra a palavra. Não admira por isso, que, nas palavras do próprio autor, as suas obras mais relevantes sejam as suas últimas, que considera com maior maturidade e mais próximas do que pretendia. Aliás, a leitura do conjunto da sua obra transmite a ideia, como sucede em muitos outros autores, de que Maurício Wacquez desejou sempre escrever o mesmo livro (até quando enveredou pelo romance histórico, como foi o caso de “Frente a un Hombre Armado”), dado que todos eles rodeiam uma mesma problemática: a incomunicabilidade, a castração social, a angustiante incapacidade de consumar no objecto amado o seu desejo.

Outra componente da sua obra é o seu carácter (quase) autobiográfico e a importância das experiências vividas na infância e na adolescência, em particular, as resultantes das dificuldades de comunicação e de satisfação afectiva. De certo modo, a infância e a adolescência na obra de Mauricio Wacquez apenas parcialmente são fases de esplendor; pelo contrário, a impossibilidade de afirmar desejos e afectos, os constantes equívocos, a opressão de uma moralidade paterna plena de certezas, leva as personagens principais e os narradores dos seus romances a um obscuro e angustiante mal-estar.

 No entanto, há um significativo consenso de que a obra mais relevante deste autor é “Epifania de una Sombra”, a sua última obra, e que integrava uma trilogia, intitulada “La Obscuridad”, em que Mauricio Wacquez trabalhava quando morreu e que não chegou a concluir (o escritor morreu de SIDA)

“Epifania de una Sombra” é, mais uma vez, sobre a infância e adolescência, mas apresentada de uma forma não cronológica e linear, amalgamando diversos espaços (o campo e a cidade) e distintos tempos, em que as situações são associadas por nexos profundos, procurando assim entender melhor o fluir e a formação emocional da personagem principal, Santiago Warni (assumidamente uma representação ficcional do autor) e dos seus amigos. Saliente-se que o narrador deste romance se identifica com o autor, que, a partir do presente, feito de cansaço e doença, rememora, de forma fragmentária e fantasista, e procura perceber aquilo que no seu “duplo”, ainda criança e adolescente, já gera sentido para o que hoje vive. Por último, salientar que a descrição tanto da paisagem rural como urbana, tem uma componente funcional na obra, pois sincretiza os diversos estados emocionais que atravessam as personagens.

Algumas das suas obras estão traduzidas para francês.

Lisboa, Abril de 2020

Desconheço a autoria da foto do escritor.


quarta-feira, 1 de abril de 2020

DÁMIAN TABAROVSKY


OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

11ª Vinheta



DÁMIAN TABAROVSKY


Dámian Tabarovsky (1967-) é um escritor argentino que, desde o início dos anos noventa, tem escrito várias novelas e ensaios. Também efectuou algumas traduções e é editor. Provavelmente a sua obra mais conhecida é um ensaio, “Literatura de Izquierda”(2004), uma análise polémica da actual situação do universo literário e em que preconiza uma estratégia social e estética para a literatura de hoje, reflectindo sobre o peso dos mercados e dos editores nas opções estéticas dos autores (o título desta obra é um pouco equívoco, pois não se relaciona directamente com a literatura de autores que se posicionam socialmente “à esquerda” nos termos convencionais, mas sobre o que deve ser, na opinião do autor, uma “literatura de esquerda”). Mais tarde, prolonga esta reflexão e análise com “Fantasma de la Vanguardia” (2018). É um dos críticos e analistas literários mais interventivos do seu país, colaborando com regularidade em jornais e revistas espanhóis e argentinos, sempre com posições acentuadamente polémicas e irreverentes.

Os seus romances que mais se destacam serão, provavelmente, “Autobiografia Médica”, “Una Belleza Vulgar” e “El Amo Bueno”.

Na caracterização da sua obra, refere-se sistematicamente a forma como Dámian Tabarovsky articula ironia, erudição e ainda uma postura anti-capitalista, numa perspectiva externa à esquerda convencional. Daí que as suas obras reflictam uma atitude que entende a literatura como um acto de resistência, assente na linguagem, considerada como o núcleo essencial do acto literário. Por isso, as suas narrativas, assumindo o autor o seu carácter expositivo e ilustrativo das suas teses sobre a literatura, recusam-se a qualquer interpretação alegórica e/ou metafórica, evidenciando o papel estético da frase e a relevância do trabalho sintáxico e efectuando um permanente confronto com os modelos clássicos e com os códigos convencionais da narrativa.

Uma das componentes, que integram o modelo clássico da narrativa, e que a obra de Dámian Tabarovsky sistematicamente confronta, é o da trama. Mas não através das opções estéticas do “Nouveau Roman”, mas antes através de um método digressivo, para utilizar os termos ao autor, ou “derivativo”, o que leva a que as suas narrativas interliguem constantemente os elementos ficcionais com perspectivas ensaisticas. Dois exemplos bem claros deste método, para que se tem encaminhado a obra de Dámian Tabarovsky, são as suas duas últimas novelas: “Una Belleza Vulgar” e “El Amo Bueno”.

“Una Belleza Vulgar” tem como eixo uma circunstância banal: uma folha que cai de um plátano numa rua de Buenos Aires. A partir daí, e enquanto a folha vai esvoaçando até ao chão, o autor anota a vida comum das pessoas que habitam nos edifícios nas proximidades, reflectindo sobre ela, o que lhe permite remeter para inúmeras questões sociais, políticas e até estéticas e literárias. No essencial, a folha que tomba é apenas um “alibi” para o autor remeter para o que lhe é essencial: pensar o mundo, a sociedade e a literatura, partindo do pressuposto de que nada ultrapassa o nível do banal, e que, por isso mesmo, a narrativa não tem sustentabilidade nem para uma simples trama. A folha que cai é um acto “vazio” (nem metáfora chega a ser) onde tudo cabe.

Em “El Amo Bueno”, o modelo narrativo é absolutamente idêntico ao da anterior obra (daí que o autor considere que as duas obras façam um díptico): três cães, num quintal de Buenos Aires, fazem um enorme buraco (um autêntico túnel), conseguindo encontrar vestígios de anteriores ocupações daquele lugar. Mais uma vez, partindo de uma circunstância vulgar, Dámian Tabarovsky elabora inúmeras digressões reflexivas sobre a trágica história recente do seu país, sobre o actual estádio do capitalismo, sobre os resíduos em que o neoliberalismo transforma as nossas vidas, e até sobre o lugar da palavra literária em relação ao poder.

Algumas das obras de Dámian Tabarovsky estão traduzidas para francês (publicadas pela Ed. Christian Bourgois), inglês e alemão.

Abril de 2020

Foto do autor de Mauro Rico e Romina Santarelli.