OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES
13ª Vinheta
DONG XI
Dong Xi (1966-) é um escritor chinês
que, desde os finais dos anos oitenta, tem publicado uma significativa obra
narrativa, principalmente nos domínios da novela (onde se tem mais destacado),
do conto e do romance. No entanto, foi apenas quando o seu trabalho narrativo
foi adaptado ao cinema e à televisão (em que o próprio escritor participou) é
que passou a ser reconhecido a nível nacional. Saliente-se que, desde a década
de noventa, Dong Xi é escritor profissional e, como tal, membro da Associação
de Escritores da China, tendo ganho, ainda nessa década, com uma novela (“Life
Whitout Language”, na versão inglesa e “Une vie de silence”, na versão francesa),
o prestigiado Lu Xun Literary Prize.
A crítica literária tem acentuado que
uma das tónicas essenciais da obra de Dong Xi é o princípio de que nada é
partilhável, porque a comunicação é sempre imperfeita. Além disso, que cada
homem transporta consigo um passado que inevitavelmente é sombrio e que
condiciona qualquer relação. Há quem considere que este espírito resulta do
autor ter nascido numa família rural pobre, oriunda de uma província chinesa
(Guangxi) distante dos grandes centros urbanos e de ter passado fome na sua
infância durante os períodos do Grande Salto em Frente e da Revolução Cultural.
Por isso, é uma componente constante,
na caracterização das personagens das suas novelas e romances, o peso do
passado e a necessidade de o entender, como forma de sobrevivência no presente.
E a superação da mágoa desse passado processa-se sempre através da ironia,
mesmo que ela se torne, por vezes, negra e cínica, e por uma atitude de refluxo
em relação ao universo em redor, temendo sempre que dele venha o pior.
Compreende-se assim que, em termos
estilísticos, as obras de Dong Xi agreguem diversos elementos aparentemente em
conflito: por um lado, a utilização do non-sense como instrumento de humor,
como se a própria realidade (em particular, a realidade política e o seu efeito
nefasto no quotidiano individual) só pudesse ser entendida no registo de
absurdo; por outro, um registo realista, mas minimalista e elíptico, repleto de
evasivas e silêncios, com que se procura retratar a vida banal no seio de famílias
comuns. Daí que a crítica assinale que os autores que mais “influenciaram” a
obra de Dong Xi sejam Franz Kafka e Raymond Carver.
“Life Whitout Language” (1996), uma
das suas primeiras novelas, é, ainda hoje, considerada como a mais relevante e
significativa de Dong Xi. A história desenrola-se no seio de uma família,
vivendo numa aldeia rural da China recôndita, constituído por um pai cego e um
filho surdo, aos quais se junta, uma jovem, muda, que naturalmente a integra, quando
chega à aldeia, passando a viver com o filho. No momento em que nasce uma
criança normal nesta estranha e marginalizada família, gera-se um momento de
júbilo entre todos, crentes que vão superar, através dela, todas as
dificuldades de comunicação com os vizinhos e serão aceites e integrados; só
que, conforme cresce, esta criança vai sentir sobre si, o estigma que a aldeia
tinha lançado sobre a família, repudiando-a, perseguindo-a e ostracizando-a: a sua
salvação, ou pelo menos, a sua sobrevivência obriga-a a repudiar o mundo, voltando
a confinar a sua existência ao núcleo familiar, aceitando a sua comunicação
fragmentada e o seu silêncio.
Há, como é evidente, nesta parábola,
uma significação aberta que permite que represente de certo modo várias
realidades possíveis (e os comentadores referem as relações entre os cidadãos e
o Estado, as relações entre o mundo rural, repleto de seres sem voz, e a
afirmação crescente da vida urbana, etc.). Porém, a interpretação mais
consensual assenta de que esta obra é uma forma de revelar as dificuldades de
comunicação entre os homens, cujo relacionamento é essencialmente feito de
esparsos sinais que apenas exprimem de forma desajeitada e lateral o âmago da
necessidade de afecto e de partilha que todos procuram.
Existem obras de Dong Xi traduzidas e editadas em
inglês e francês. Em inglês, estão traduzidas a novela “Life Whitout Language”
(publicado na “Chinese Literature Today”, vol. 6) e o romance “Record of
Regret”. Em francês, estão publicados o romance “Sauver une vie”, a colectânea
de novelas “Tu ne sais pas combien elle est belle” (que inclui a novela “Une
vie de silence”, acima referida) e a colectânea de contos “Accrocher les coins de la bouche au bord des
oreilles”.
Lisboa, Abril de 2020
Desconheço a autoria da foto do escritor.






