quinta-feira, 22 de outubro de 2020

VÉRONIQUE TADJO

 

OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

23ª Vinheta


VÉRONIQUE TADJO

 

Véronique Tadjo (1955-) é uma importante escritora da Costa do Marfim, que, desde os finais da década de oitenta, escreveu e publicou vários livros de poesia, romances e obras para a infância e juventude. Formada na Sorbonne, com uma tese sobre cultura americana, viveu em diversos países europeus e africanos. Já venceu, entre outros, o Grand Prix littéraire d’Afrique noire, com o romance “Reine Pokou”, em 2005. No domínio dos livros para a infância e juventude, área a que Véronique Tadjo tem dedicado intensamente a sua capacidade criativa como escritora e ilustradora, as suas obras têm obtido um significativo sucesso, pois foram traduzidas para diversas línguas e estão editadas em vários países europeus e africanos.

Para além de três livros de poesia e dos já referidos livros para a infância e juventude, Véronique Tadjo publicou seis romances, todos centrados em temáticas muito distintas e recorrendo, quase sempre, à mitologia e à tradição cultural africana. A recriação destas fontes, através de uma linguagem com fortes conotações líricas, é principalmente notório nos seus primeiros romances, em particular, no conjunto de narrativas fragmentárias de “À vol d’oiseau”, 1992, do “apocalíptico” “Le Royaume aveugle”, 1991, e em “Reine Pokou, concerto pour un sacrífice”, 2005, onde recorre a uma lenda para perceber não só a origem do seu país, mas também a violência que o domina na actualidade. Depois, mudando de registo, os seus romances seguintes orientam-se para as relações familiares, em “Loin de mon père”, 2010, e para a incomunicabilidade amorosa, em “Champ de bataille et d’amour”, 2006. Por fim, há ainda os seus romances que se debruçam sobre algumas das tragédias que recentemente assolaram o continente africano, como o genocídio dos tutsi no Ruanda, em “L’Ombre d’Imana”, 2001, ou a epidemia do Ébola, em “En compagnie des hommes”, 2017.

Por fim, deve assinalar-se que uma das características da obra da autora é que as suas narrativas decorrem sempre à partir de um “olhar” interior que vai reflectindo sobre as situações descritas, procurando retirar delas uma certa forma de sabedoria que consiga conciliar a vida mesmo com os factos mais terríveis. Quer isto dizer, que os seus romances diluem os contextos situacionais a breves anotações, sem muitos pormenores, centrando-se, no essencial, nos “efeitos” que produziram nos narradores ou personagens principais. Daí que a sua obra tenho um forte registo poético e monológico, em que os mitos e as lendas tradicionais africanas aparecem como “background” dos narradores e personagens.

Não há dúvida, porém, que, no conjunto da obra de Véronique Tadjo, se destaca o romance “L’Ombre d’Imana”. Com o objectivo de melhor compreender o genocídio no Ruanda, a autora aceitou participar numa residência literária neste país, e, em parte para redimir pela criação e pela afirmação da vida a presença avassaladora da morte, decidiu escrever este romance. Nele, tenta entender como é que a “sombra de Deus” (os Ruandeses acreditam que a “sombra de Deus", a que chamam Imana, “cobre” o seu país) desapareceu durante (e após) o genocídio, deixando os homens à mercê dos seus impulsos mais brutais e criminosos, o que provocou não só um rastro de morte como deixou marcas indeléveis na memória dos sobreviventes e até na própria realidade concreta que os rodeia (recordo que uma das “chagas” vivas destes acontecimentos foram os “filhos de guerra”, isto é crianças geradas com as violações que ocorreram durante o genocídio). Recorrendo a três personagens femininas, à sua própria experiência e ao confronto com a experiência dos outros, no seu estilo já característico, em que concilia géneros com os modelos narrativos assentes na fragmentação e na elipse, Véronique Tadjo vai dar voz neste romance às vítimas e aos carrascos, recolhendo depoimentos e testemunhos presenciais, procurando entender como conseguiram superar aquele colossal trauma, em particular quando aqueles papéis muitas vezes se inverteram. De facto, a autora parte do pressuposto que aqueles acontecimentos imanam da própria condição humana, capaz, conforme as circunstâncias, tanto do Bem como do Mal. Por isso, não procura efectivamente exorcizar o impossível, mas, em particular, compreender como a sobrevivência e a necessidade de reconstruir a vida se foi sobrepondo à referida presença da morte num penoso caminho em que a memória procura libertar-se, possibilitando a continuidade da vida e apaziguando o ódio, dos sinais que, em seu redor, registam uma violência abjecta.

Os romances de Véronique Tadjo estão traduzidos para inglês, alguns para espanhol e italiano, e foram editados em vários países europeus e africanos, o mesmo sucedendo, ainda com maior destaque, com as suas obras para a infância e juventude.

Apenas tenho conhecimento da edição de um título de uma obra sua para a infância e juventude no nosso país. No entanto, recolhi a informação de que “L’Ombre d’Imana” foi traduzida para português por Francisco Guesdes, e editada em Angola, com o título “A Sombra de Imana”. Não conheço esta edição.

Outubro de 2020.

Direitos da foto da autora pertencentes à RAMA




segunda-feira, 12 de outubro de 2020

KAREN AABYE

 

OS ESCRITORES IMPOSSÍVEIS


I


KAREN AABYE

 

Karen Aabye (1904-1982) foi uma escritora dinamarquesa que começou a publicar nos finais dos anos trinta, e que, na década seguinte, se tornou particularmente popular no seu país com uma ampla saga histórica (uma trilogia), intitulada “Det skete ved Kisum Bakke”, situada no séc. XIX, e onde retrata a gradual afirmação da mulher na sociedade patriarcal dinamarquesa. Além disso, publicou também um outro conjunto narrativo, composto por cinco romances, de novo situado no séc. XIX, iniciado por “Martine”, 1950, e concluído com “Den røde dal”, 1954, contextualizado na emigração da população rural da Jutlândia para a América, neste caso concreto para o Canadá.

Segundo os seus leitores, as suas obras contem sempre personagens femininas bem delineadas, sensitivas, mas, ao mesmo tempo, fortemente determinadas na busca da sua afirmação social e da sua felicidade. Os quadros sociais em que se processam os seus romances são bastante amplos, indo desde a população camponesa à aristocracia dinamarquesa.

Estas protagonistas, marcadamente positivas, contribuíram para que a mulher dinamarquesa entende-se que era possível ter um estatuto social mais autónomo e independente e, de certo modo, funcionaram como exemplo na prossecução deste objectivo.

A situação de jornalista e de correspondente de jornais dinamarqueses de Karen Aabye deu-lhe o gosto pelas viagens, publicando alguns livros onde descreve esta sua experiência. Escreveu também algumas biografias.

Continua a ser uma autora bastante popular e reconhecida no seu país.  

De acordo com a informação recolhida, dois dos seus romances foram traduzidos e editados em francês nas décadas de quarenta e cinquenta. Hoje estão fora do mercado.

Outubro de 2020

 

Desconheço a autoria da foto da escritora.


terça-feira, 6 de outubro de 2020

DAVID WAGNER

 

OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

22ª Vinheta




DAVID WAGNER

 

David Wagner (1971-) é um escritor alemão que já publicou, desde o início deste século, três romances, uma colectânea de contos, um livro de poesia e diversas obras de um género indefinido, a que aqui chamaremos de narrativas. É neste género, bem característico e generalizado na literatura alemã contemporânea, que o autor se tem distinguido, unanimemente elogiado pela crítica e obtendo vários galardões, onde se destaca o Prémio Literário da Feira do Livro de Leipzig, com a sua obra “Leben”.

Estas obras de “narrativa” caracterizam-se por serem trabalhos reflexivos sobre situações concretas vividas pelo narrador, num registo muito próximo da autoficção. O que distingue estes livros de David Wagner, no conjunto da produção narrativa similar alemã, é a originalidade e profundidade dessa reflexão, associada a uma inegável capacidade de descrição e observação, numa prosa de indiscutível qualidade estética em termos estilísticos. Saliente-se ainda que, na nossa opinião, estas características são generalizáveis às obras subtítuladas como “romances”, pois, no essencial, não se distinguem das restantes obras “narrativas” do autor.

O foco em que se centra estas obras é muito variado: desde as mutações que a cidade de Berlim sofreu ao longo dos tempos e que o narrador vai descobrindo com as suas deambulações (“In Berlin”, “Welche Farbe hat Berlin?”, “Mauer Park” e “Drüben und drüben”, este em co-autoria com Jochen Schmidt, onde se confronta as infâncias dos autores ocorridas em Berlim Ocidental e Oriental); ou as suas leituras, que o narrador considera que efectuam um todo com o lugar em que as fez (“Sich verlieben hilft”); ou a análise minuciosa e interpretativa da vida própria dos quartos de hotel (“Ein Zimmer im Hotel”); ou a estadia num país “estranho”, a Roménia, para escrever um romance, que não consegue produzir, mas que leva o narrador a reflectir sobre esse absorvente quotidiano do lugar onde se encontra (“Romania”); ou ainda a relação que o narrador estabelece com o pai, gradualmente demente e incapacitado, e que o leva a cuidar com o afecto de se tornar “substituto” da memória dele, dando-lhe a felicidade e a alegria que já se lhe tornavam impossíveis sem esse apoio (“Der vergessliche Rise”).

Da mesma forma, como já referi, os romances e o livro de contos, no essencial, assumem o mesmo registo das narrativas. Assim, em “Meine nachtblaue Hose”, a sua primeira obra, a personagem principal rememora, em tom melancólico e desencantado, a sua vida, feita de pequenos nadas, vazios e alguns amores, referenciando-os a objectos do quotidiano, como umas calças “azul meia-noite”; ou “Spricht das Kind”, onde se reflecte sobre a infância, os seus constantes rituais, que aparecem em todas as gerações, e, por conseguinte, como o seu entendimento está interligado com o estatuto de pai; ou “Vier Äpfel”, em que a personagem principal, a partir de um acto banal num supermercado, sente necessidade, de súbito, de reflectir sobre a passagem do tempo, as formas de consumir e os amores passados; ou ainda, por último, a colectânea “Was alles fehlt”, provavelmente o seu livro menos conseguido, onde as breves situações encenadas aparecem como fruto de reminiscências do passado das personagens, num registo lacónico e elíptico muito próximo de Raymond Carver.

 Mas não há dúvida que é “Leben”, a narrativa que obteve o Prémio Literário da Feira do Livro de Leipzig, a sua obra mais relevante. A obra desencadeia-se quando o narrador recebe o telefonema do hospital a avisá-lo que em breve será internado para efetuar uma operação de transplante de fígado, momento que há algum tempo aguardava. É este acontecimento que o leva a reflectir sobre o significado da vida, o sentido da morte do Outro para que ele possa ter uma extensão da sua, o papel da doença, os motivos que o levam a enfrentar uma “segunda vida”, o papel do corpo, físico e orgânico, na existência, etc. No seu leito do hospital, enquanto espera pela sua operação, o narrador vai observando em redor o comportamento dos outros pacientes, ouvindo as suas histórias e confissões, tentando perceber o que os motiva a estar ali numa expectativa de uma sobrevivência que lhes permita perceber o que viveram, ao mesmo tempo que vai rememorando o seu passado e os seus afectos.

Há obras de David Wagner traduzidas para francês e espanhol. “Leben” está traduzido e editado, com o título “En vie”, em França, e “Welche Farbe hat Berlin?”, com o título De qué color es Berlín”, e “Spricht das Kind”, com o título Cosas de Niños”, em Espanha.

 

Outubro de 2020

Foto do autor de Horst Galuschka.