quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

PEDRO SALINAS

 
 
“A VOZ A TI DEVIDA”
 
            No quiero que te vayas,
            dolor, última forma
            de amar. Me estoy sintiendo
            vivir cuando me dueles
            no en ti, ni aquí, más lejos:
            en la tierra, en el año
            de donde vienes tú,
            en el amor com ella
            y todo lo que fue.
 
O que logo nos intriga, ao contactar com a obra poética de Pedro Salinas, é a inexistência de qualquer tradução (mesmo uma simples antologia) em língua portuguesa. Porque, apesar de tudo, nas últimas décadas, sempre se foi publicando alguma poesia traduzida… onde se tem destacado o número de obras de poetas de língua espanhola: lembro o papel editorial da Assírio & Alvim, da Relógio d’Água, da Cotovia, da Campo das Letras e da Quasi (constato agora que a maior parte delas faliu recentemente ou desistiu de se dedicar a esta linha editorial) e de tradutores, com trabalho consagrado e premiado, como José Bento, Albano Martins e Joaquim Manuel Magalhães. Recorde-se também que Pedro Salinas não só integra a chamada Geração de 27 (onde pontuam autores como García Lorca, Rafael Alberti, Vicente Aleixandre, Luis Cernuda, Jorge Guillén, Dámaso Alonso e Gerardo Diego), considerada como decisiva no percurso da poesia espanhola contemporânea e já relativamente bem conhecida e editada em Portugal, como é reconhecido como um dos maiores poetas de língua espanhola (de todos os tempos, mas em particular do século XX) de temática amorosa, tendo elaborado uma obra em que concilia uma enorme exigência conceptual e estética com uma linguagem mais acessível do que obscura.
 
 Pedro Salinas (1891-1951) dedicou toda a sua vida ao ensino universitário. Mal se formou, foi para leitor na Sorbonne, onde se doutorou. De seguida, deu entrada como professor nas universidades espanholas, tendo passado pelas de Sevilha, Múrcia e Madrid. Quando despoletou a Guerra Civil, estava a organizar e a dirigir a Universidade Internacional de Santander, e percebeu de imediato que não tinha condições para continuar em Espanha o seu trabalho pedagógico; por isso, aceitou o convite para ensinar no Wellesley College, nos Estados Unidos. Viveu o resto dos seus dias no exílio, ensinando, de forma alternada, na Universidade de Johns Hopkins e na de Puerto Rico. Morreu em Boston e foi enterrado em San Juan de Puerto Rico, junto ao mar que, na última etapa da sua existência, se tornou para ele uma referência simbólica à serena eternidade da vida.
 
 É comum imaginar-se que os poetas de temática amorosa tiveram uma atribulada vida afectiva, repleta de paixões arrebatadoras e de enorme dramaticidade… Não parece ser o caso de Pedro Salinas. Sabe-se apenas que as obras do autor, que são consensualmente consideradas como as mais perfeitas e acabadas (La Voz A Ti Debida, Razón De Amor e Largo Lamento), publicadas na década de trinta, foram motivadas por uma intensa (mas discreta) paixão amorosa por uma estudante norte-americana (e mais tarde professora de língua e literatura espanholas), Katherine R. Whitmore, bem documentada por um epistolário agora publicado.
 
O livro que li do autor é uma antologia da Alianza Editorial, publicada pela primeira vez no início da década de setenta e organizada por Julio Cortázar. O critério da selecção, para lá do gosto pessoal do organizador, assenta, em consonância com a concepção de poesia de Pedro Salinas, numa “visión atemporal”, “reuniendo poemas por afinidades y ritmos y contactos, de manera que todo está barajado como hay que barajar um mazo antes de esa gran partida en la que el poeta y su lector se juegan lo mejor que tienen.” E, como conclusão, Julio Cortázar constata que, sem ser esse um critério prévio, agregou essencialmente a poesia amorosa do autor (onde sobressaem, repito, as obras já acima referidas), entendendo que é nela que se torna mais relevante a sua dimensão lírica, alcançando a envergadura da poesia do seu parceiro de geração Luis Cernuda, ou de Octávio Paz, ou ainda, reclama o autor destas linhas, de Vicente Aleixandre e de Pablo Neruda.      
 
Na caracterização da obra de Pedro Salinas, deve-se, antes de mais, assinalar que, em termos de “ars poetica”, ela deriva bastante das concepções que Juan Ramón Jiménez (poeta que profundamente influenciou Pedro Salinas no início da sua obra) delineou para definir o seu próprio universo lírico. Como é sabido, na sua fase de maturidade, Jiménez defendeu uma poesia “pura”, despojada de circunstâncias que dessem um lastro inútil às imagens e metáforas que deveriam arquitectar, com precisão e rigor, mas sem referências a lugar e a tempo, a ordem interna do poema: o efeito estético resultava assim da objectividade sem mácula com que eram construídos os arquétipos simbólicos. Esta concepção da poesia, que impera nas colectâneas da década de vinte de Pedro Salinas, torna-se, nas obras seguintes (e que em substância “preenchem” a antologia que estamos a comentar), numa espécie de húmus para uma nova visão da poesia: esta passa a ser entendida como uma tentativa incessante de compreender a realidade, superando as suas opacidades imediatas; para conseguir atingir este Absoluto, a realidade deverá metamorfosear-se em símbolo no poema, e essa mutação só será possível se o poeta não se sujeitar à emoção, esforçando-se por usar as armas da inteligência sensível na elaboração da sua linguagem poética. Saliente-se que os detractores da obra deste poeta, que a acusam de ser demasiado “intelectualizada” e abstracta, cheia de exercícios lógicos e de sofisticados paradoxos, estão, no fundo, a reagir, sem aceitar nem compreender, aos próprios parâmetros estéticos em que foi concebida.
 
Não há dúvida, porém, que o aspecto mais relevante da obra de Pedro Salinas emana da sua concepção da relação amorosa. O poeta, em particular nas três colectâneas já acima referidas, reformula numa variante peculiar a concepção que encara o Amor como uma obsessiva busca para a fusão entre amante e amado, já com uma longa tradição no Ocidente (remonta, pelo menos, à Grécia Arcaica, com o mito do ovo cósmico/casal primordial, e prolonga-se até à “simbiose emotiva e espiritual” do romantismo e à “dissolução vitalista” de D. H. Lawrence). Na sua poesia, Pedro Salinas destaca principalmente a transfiguração do amante pelo objecto amado; quer isto dizer, que o amante perde por completo a sua autonomia ôntica, transformando-se numa espécie de “duplo” (de casulo) do amado: é este que “produz sentido” no amante, dando-lhe significado existencial e, desse modo, a todo o universo. Note-se que é essa a interpretação que se deverá deduzir de um dos títulos de uma das colectâneas mais importantes de Pedro Salinas, La Voz A Ti Debida (retirado, por sua vez, de um verso de Garcilaso de la Vega): o poeta não passa de um “médium” do amado(a) que, através dele, “fala e diz”. Por outro lado, também se pode perspectivar neste mesmo título uma radicalização da imagem romântica da “musa”: o poeta/amante é uma mera caixa de ressonância que vibra pelo efeito que sobre si produz a simples existência do amado(a).
 
E saliento o facto de a “simples existência” do amado(a), na lírica de Pedro Salinas, transformar o amante na sua vítima emotiva: como alude a epígrafe/subtítulo de La Voz A Ti Debida, subscrita por Shelley (“Thou Worder, and thou Beauty, and thou Terror”), tudo no amado – incluindo a sua ausência, física ou afectiva – gera um complexo emocional que transforma o amante num ser vibrátil, perdido entre o desespero e um dilacerante júbilo, entre a melancolia e uma irradiante e solar euforia. O Amor torna-se assim no Absoluto que o amante vê reflectido em tudo o que o rodeia e tudo transfigura: por isso, não existe maior prova do carácter totalizador do Amor do que sentir a sua presença avassaladora, mesmo (para não dizer principalmente) na ausência do amado...
 
Pedro Salinas, de modo coerente com a sua concepção de uma poesia “pura” (que almeja esse núcleo da realidade que está sempre para além do horizonte da palavra), restringe diversas vezes a nomeação do amante e do amado a um “eu” e a um “tu”, globalizantes e, de certo modo, abstractos. Esta utilização dos pronomes para indicar os agentes amorosos visa, de forma bem nítida, realçar a dialéctica dialogante do Amor. Porém, ao contrário do que consideram os detractores desta poesia, não há nenhuma intenção de gerar uma polissemia difusa que possa levar a uma contaminação dos conceitos de amante e de amado por outros conceitos filosóficos ou literários laterais (a Verdade, a Poesia, etc.): a leitura atenta dos poemas permite perceber que os pronomes são contextualizados de forma a estabelecer (tantos são os sinais de erotização corpórea) um perfeito equilíbrio entre símbolo e carnalidade no seu substrato.
 
Creio que, um pouco como sucedeu com Julio Cortázar e que com a maioria dos seus leitores, fui impelido a privilegiar a componente do lirismo amoroso da obra de Pedro Salinas. Provavelmente, porque é, com a passagem do tempo, aquela que se revela mais fascinante e mais original. Porém, é correcto assinalar que o presente texto não pretende ser mais do que uma introdução muito genérica à obra do autor e que, por isso mesmo, poderá dar uma visão muito estática dela, sem reflectir a diversidade filosófica (e até psicológica) com que, de poema para poema, num quadro formal muito constante, se vai analisando a problemática amorosa. Além disso, é injusto não anotar aqui, pelo menos, duas outras temáticas, entre várias, com significativa expressão na obra do poeta e que, em particular, se destacaram na sua fase final: a consciência da infinitude da dimensão temporal (bem representada pela já referida simbólica do mar) e das brutais adversidades que o Homem sujeita o seu próprio Destino. Creio que não vale a pena recordar que Pedro Salinas, mesmo no exílio, viveu de um modo doloroso a Guerra Civil que dilacerou o seu país e assistiu à tremenda carnificina da última Guerra Mundial, e que isso, naturalmente, teve de deixar decisivas “marcas” na sua obra.
 
 
Publicado na web em 2010.
 
Título: Poesía
Autor: Pedro Salinas
Selecção e nota preliminar: Júlio Cortázar
Editor: Alianza Editorial
Ano: 1999
190 págs., € 4,50
 
 
 
 



domingo, 11 de dezembro de 2016

HALIM BARAKAT

 
 
DESEJO DE LER(4): HALIM BARAKAT
Quem já contactou com a academia norte-americana sabe que está repleta de intelectuais de todos os cantos do mundo que ela seduziu para o seu sistema. É o que sucede, por exemplo, no domínio das humanidades e das ciências sociais: não deve haver país nenhum do mundo que não tenha um intelectual a ensinar ou a investigar nas universidades americanas. No caso português, são bem conhecidos os casos de escritores e outros intelectuais que, ao longo do séc. XX, foram acolhidos, por temporadas variáveis, pela academia norte-americana e ali desenvolveram competências, saberes e criatividade.
Os motivos, que levam a que tal suceda, são inúmeros e é inútil aqui referenciar.
Mas há um caso que sempre me intrigou e que é o dos intelectuais árabes. Porque é importante lembrar: o confronto de civilizações e a diabolização dos Estados Unidos ou do Mundo Árabe não são de hoje e estes intelectuais sempre viveram planando por cima de um universo de incompreensão e hostilidade que seguramente lhes provocou (e provoca) um tremendo mal-estar.
É o caso do contista, romancista e ensaísta Halim Barakat (cuidado: não confundir com Salim Barakat, um escritor sírio mais novo, actualmente também exilado na Suécia, e que é considerado como um dos mais importantes narradores em língua árabe em plena actividade), que nasceu na Síria, numa família cristã ortodoxa, mas cresceu no Líbano e formou-se na Universidade Americana de Beirute.
Talvez a sua origem e formação expliquem a sua “transferência” para as universidades americanas, onde ensinou toda a vida, em particular na Universidade de Georgetown.
Mesmo radicado nos Estados Unidos, Halim Barakat sempre escreveu em árabe. Hoje já tem oitenta anos, e o seu primeiro livro, uma colectânea de contos, foi publicada em meados da década de cinquenta, tinha ele vinte. Depois foi publicando vários romances e livros de contos, em redor do conflito Israelo-árabe e sobre a particular complexidade da sociedade libanesa. Os mais importantes, provavelmente, são Six Days (1961) (um romance profético…), Days of Dust (1967), cuja tradução inglesa veio acompanhada de um prefácio do seu amigo Edward Said, e The Crane (1988).
Creio que são homens, como Halim Barakat, que, pelo seu estatuto de árabes não-islâmicos e pelo seu trabalho, poderão “minar” as colossais muralhas que os dois lados civilizacionais se obstinam em cimentar.
Talvez, por isso, não seja de estranhar que a obra mais conhecida deste autor nos Estados Unidos seja um ensaio com um título programático: The Arab World: Society, Culture and State.    

 



 






segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

MARGUERITE DURAS

 
 

A DENSIDADE DA ESPUMA DOS DIAS

 
Comecei a ler Outside com uma atitude preconceituada, confesso-o. Temo sempre os livros de autores, em termos sociais, excessivamente amados, que são feitos de textos de circunstância, de “repescagens”. Parece-me que isso deriva sempre de um “culto” que é ignominioso para o leitor…e para o autor. Receava, portanto, que este livro fosse, na verdade, qualquer coisa de sórdido e pouco recomendável.

 
Abri-o, por isso, a receio, tacteando-o, antes de o começar. Mas a premência da leitura empurrou-me. E o resultado foi de um relativo espanto.

 
É evidente que se reconhece nestes textos o “tom” de Marguerite Duras. Textos, de facto, ocasionais (ela própria o diz no prefácio), resultado de propostas de trabalho, ou da necessidade de compensar o esforço “interior” de oito horas diárias de escrita, ou, ainda, de dar ressonância e eco a qualquer assunto de quotidiano, opressivo em excesso.

 
Textos muito diversos, que vão desde o comentário ao “fait-divers”, à entrevista a Georges Bataille ou a um director literário, à análise de um facto cultural, considerado pela autora como relevante, ou até à descoberta íntima de certas ofuscantes actrizes. Comum, têm o de serem textos à margem de uma obra que noutro lugar se fazia, textos feitos na premência de intervir na cultura e na sociedade francesa.

 
No entanto, estes textos revelam, como em “flash”, certas constâncias e preocupações de base na obra de Marguerite Duras. Todos respiram uma espécie de “acto de amor” que, à partida, é difícil de classificar, mas que lhes permite uma “proximidade” ao facto, uma “intensidade” no acontecer, liberta de mediações, que nos faz lembrar os preceitos que Leiris precisou no início de L’Âge de l’Homme em relação à literatura e à própria vida. É como se a autora recusasse ler os “destinos” e as figuras que retrata com outros instrumentos que não fossem os abertos por eles próprios.

 
Não se quer dizer com isto que estes textos de Marguerite Duras derivem de qualquer tipo de “neutralismo”, de um "grau zero de escrita" ou de um “vazio teórico”. É notório, em todos eles, que a autora não acredita nisso. Existe, de facto, uma metodologia de análise, uma posição teórica que nos faz lembrar a história de mosca num dos contos de Cortázar: revela-se, primeiro, “por dentro” o acontecimento, para entendê-lo tal como é, descobrindo-se assim como o meio (o sistema) está totalmente às avessas em relação a ele. Como, em resumo, não é a mosca que voa de pernas para o ar, mas sim o mundo que está, todo ele, de pernas para o ar em relação à mosca.

 
Este método faz-nos, parece, “ver” aquilo que todos nós já víamos; e, portanto, seria fácil classificar estes textos como resultantes de uma “retórica” do conhecido. Simplesmente, a grande diferença está no desvio de posicionamento em relação ao acontecimento. O que caracteriza, no essencial, o “tom” de Marguerite Duras é essa mudança de lugar, situando-se noutro, próprio, inqualificável. E o seu estilo não é mais do que a energia emanante, estruturada, desse lugar.

 
Deseja-se, antes do mais, com um vivo clamor, assinalar que o destino de uma vida, mais anónima e “animal” que aparentemente seja, tem a sua soberania, de tal ordem imponente, que qualquer juízo, vindo dos códigos sociais, só a reduz. O que sobressai, é que todo o destino tem um estilo, uma forma de o corpo se movimentar e de se entregar aos percursos que lhe criaram, digno do mais profundo amor, digno dessa silenciosa veneração - que é o único modo possível de encarar a esplendorosa criação divina:seja uma mulher analfabeta que revela todo o medo que a cidade lhe produz, com os seus sobranceiros códigos, mas que se encanta com a beleza gráfica da palavra “Lilaz”; ou a velha marginal, de setenta e um anos, que continua, até ao fim, a roubar e a ser presa, por não ter outra alternativa e por amar tanto viver que nem sequer imagina um fim deliberado; ou o assassino que, cumprindo a lógica de um destino e de um desejo, caminha para a mais brutal destruição, apagando o rasto de uma vida que assim o quis; ou a paixão de um homem por uma criança de doze anos que a incompreensão social obriga, por dignidade e terror, ao suicídio; ou a obstinação de uma mulher que, para satisfazer a noite dilacerante de desejo do seu amante, mata, renunciando-se até à mudez; etc., etc..

 
É o movimento subterrâneo, que está para lá da afirmação social de um rosto, aquilo que verdadeiramente o desenha, que interessa a Marguerite Duras. Escrever, como aparece na badana do livro, que estes textos têm origem numa sensibilidade de mulher, parece bastante irrelevante e supérfluo. O que importa salientar, é a tremenda força amorosa que é necessária para esta posição num sistema cultural que nos pretende transmitir uma Razão com ambição totalizante, e que, no fundo, apenas nos cria “culpabilizações”, “terrores”, por aquilo que fica de fora, pelo resíduo constante com que a Natureza se afirma.

 
Talvez, por isso, estes textos sejam, neste momento, contra a História, contra a ordem com que ela procura acompanhar o tempo. E, como tal, tão surdamente subversivos. Mas também tão generosos e fraternos para quem se sente, como Marguerite Duras, cada vez mais num desespero solidário com o destino dos outros (que, no fundo, é sempre o seu…).

 
 
 
Publicado na revista Plural em 1983.

 

Título: Outside
Autor: Marguerite Duras
Tradução: Maria Filomena Duarte
Editor: Difel
Ano: 1983
280 págs., 12,72 €
 
 




quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

CARLOS MOORE

 
DESEJO DE LER(3): CARLOS MOORE
 
No caso deste autor, a aproximação não foi tanto pela sua obra, mas pela sua biografia, porque há vidas que se tornam sintomáticas dos tempos (e é necessário entender o lado trágico e banal desta afirmação), de tal forma a História pesa sobre o destino pessoal.
Carlos Moore nasceu em Cuba e ainda adolescente, apanhado pela guerra civil que levou os castristas ao poder, fugiu com a família para os Estados Unidos. Aqui, o facto de ser negro levou-o a aproximar-se da comunidade afro-americana, da escritora Maya Angelou e do Harlem Writers Guild. Estes contactos permitiram-lhe descobrir a acção e o pensamento dos intelectuais americanos contra a segregação racial e a necessidade de estruturar uma “visão” que dignificasse a condição de negro. Convencido que a revolução castrista defenderia esses valores, decidiu regressar a Cuba.
Mas enganou-se. O problema da raça e da segregação racial não integrava os quadros do pensamento marxista e o novo poder não o reconhecia como uma temática com relevância social. E pagou o seu erro com a prisão e o exílio: em 1963 foi obrigado a abandonar definitivamente a ilha.
Mas esta situação traçou-lhe o destino. No exílio, passou a dedicar-se ao estudo dos fenómenos raciais nas sociedades contemporâneas (doutorou-se em França, na Universidade Paris VII, e tem dado aulas, em redor desta temática, em diversas universidades dos dois lados do Atlântico) e, de forma militante, à causa do pensamento sobre a condição negra (pan-africanismo, negritude, etc.), divulgando o papel dos activistas e dos intelectuais mais relevantes que combatem a descriminação racial.
Publicou, por isso, importantes ensaios que visam compreender a formação dos fenómenos racistas mas actuais sociedades ocidentais e sobre o papel “oculto” da população de origem africana no mundo contemporâneo.
E foram esses estudos que o encaminharam para uma nova causa militante, acompanhada, como sempre, de mais investigação etnográfica e social: a situação das populações aborígenes que, ainda presentemente, continuam a ser perseguidas e marginalizadas, em particular no Sudoeste Asiático e na Austrália. 
Mas as obras que lhe deram mais notoriedade pública não foram, naturalmente, os estudos, mas a sua autobiografia e a biografia de Fela Kuti, um músico rock nigeriano. A sua autobiografia, intitulada “Pichón: Race and Revolution in Castro’s Cuba”, descreve e analisa os seus confrontos com o poder castrista; a biografia, intitulada “Fela, Fela: This Bitch of a Life”, retrata a figura muito peculiar (e malograda) de Fela Kuti, um músico nigeriano, criador do afrobeat, e um radical opositor da corrupta clique governamental nigeriana doa anos setenta e oitenta que o vai procurar destruir, a ele e ao movimento que, entretanto, criou, através de uma brutal violência policial e militar.
O exílio de Carlos Moore, por razões de militância e ensino, tem-se revelado de um constante nomadismo: já viveu em França, no Senegal, na Nigéria, no Egito, nos Estados Unidos, nas Antilhas, etc. Até que descobriu o Brasil: hoje vive em Salvador e não pensa abandonar a cidade e o país.
Em Portugal, como se sabe, a problemática tratada pela obra de Carlos Moore é irrelevante (desculpem a ironia); talvez, por isso, o autor seja cá, de todo, desconhecido.