sexta-feira, 20 de março de 2020

ANTHONY DE SA


OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

10ª Vinheta


ANTHONY DE SA


Anthony de Sa (1966-) é um escritor canadiano, originário de uma família portuguesa, que nasceu e cresceu no seio da nossa comunidade (a “Little Portugal”) em Toronto. Na última década, publicou dois romances (“Kicking the Sky” e “Children of the Moon”) e uma colectânea de “stories” interligadas (“Barnacle Love”). Aliás, este último livro, o primeiro do autor, foi o que obteve maior sucesso crítico, pois ficou, aquando da sua publicação, na “shortlist” do Scotiabank Giller Prize, um dos mais prestigiados prémios literários do Canadá.

Como é evidente, não é por acaso que toda a produção literária de Anthony de Sa gira em redor de temas, directa ou indirectamente, relacionados com Portugal. Assim, em “Barnacle Love”, debruça-se sobre as motivações que levaram a emigrar para o Canadá a população açoriana, em particular, a necessidade de procurar uma outra vida sem os constrangimentos económicos e sociais das ilhas, sobre as dificuldades de integração num meio social totalmente díspar, e, por último, sobre a sua relação com os filhos, uma segunda geração que tem uma visão do mundo bem distinta e, muitas vezes, conflituosa em relação à dos pais.

“Kicking the Sky”, o seu primeiro romance, também passado na comunidade imigrante portuguesa de Toronto, desenrola-se a partir de um facto real: a violação e o assassinato, nos finais da década de setenta, de um jovem engraxador de origem portuguesa na Baixa da cidade. Como é natural, este caso abalou profundamente a comunidade imigrante, porque, de uma forma brutal, se viu obrigada a confrontar os seus sonhos e a expectativa de uma melhor vida, que a motivaram a emigrar, e a realidade bem crua em que de facto vivia. É esse confronto que vive o narrador do romance (o mesmo António Rebelo, da segunda parte de “Barnacle Love”), um jovem que se habituou a “fugir” dos pais, correndo de bicicleta, com os amigos, pelas ruelas e pátios de Toronto, e que descobre, a meio do percurso formativo da sua adolescência, que há um “mundo” adulto que ele apenas pressente e que se pode tornar profundamente perigoso.

Mas, provavelmente, o romance que justifique maior destaque seja o último, “Children of the Moon”, nem que seja porque o autor decidiu “descontextualizá-lo” da comunidade portuguesa de Toronto. “Inspirando-se em histórias familiares”, o romance situa-se em Moçambique e processa-se no quadro das guerras de libertação e civil que, durante algumas décadas, assolou aquele país. A caracterização dos narradores permite perspectivar alguns dos temas deste romance: Pó, a albina, de origem massai, que, nascida na Tanzânia, se vê obrigada a fugir do ostracismo e da “maldição” que lhe lançam por causa da sua cor de pele, até se encontrar “acampada” num hotel da Beira à espera da morte; Serafim, o jornalista brasileiro, corroído por um passado culpabilizador, que está a realizar uma investigação sobre a segregação do “albinismo” em África e procura recolher o testemunho de vida de Pó; e Ezequiel, o moçambicano, filho de pai português e mãe maconde, que, repudiado por ambas as comunidades, se vê mergulhado, desde jovem adolescente, na brutalidade da guerra, entre guerrilheiros e militares, “salvo” apenas pela sua intensa paixão por Pó, mas que presentemente se encontra em Toronto, a sofrer de demência e de stress pós-traumático, resultantes da sua experiência de guerra. No essencial, tenta-se perceber como o facto de ser marginalizado, mesmo que seja por motivos díspares, pode intensificar as relações entre as pessoas na procura de sobreviver a esse mal-estar e de ganhar um novo sentido para a vida.

O primeiro livro de Anthony de Sa, “Barnacle Love”, foi publicado em Portugal, com o título “Terra Nova”, pelas Publicações Dom Quixote, numa tradução de Maria Eduarda Colares, revista por Maria João Freire de Andrade. Estranhamente (ou talvez não…), apareceu subtítulado de “Romance”.


Março de 2020.

Foto do autor de Matthew Sherwood




sábado, 7 de março de 2020

O ESTADO CHINÊS E A CRIAÇÃO LITERÁRIA








ALGUMAS NOTAS SOBRE O ESTADO CHINÊS E A CRIAÇÃO LITERÁRIA


Uma postura bem comum a alguns leitores ocidentais (incluindo os de Portugal), que sempre me intrigou, é a de, quando abordam a literatura chinesa, considerarem que um escritor, só porque decidiu permanecer na sua terra natal e se sujeitou a aceitar as regras impostas pelo regime político que governa o seu país há várias décadas, deixa de ter interesse, pois inevitavelmente produz uma literatura “domesticada”; e que, por isso mesmo, só interessam os autores “dissidentes” e se estiverem eventualmente no exílio. Não só me perturba essa sobreposição dos critérios políticos aos estritamente literários e estéticos, como não a vejo extensível à obra de escritores que vivem em regimes autocráticos similares, mas de sinal contrário. Além disso, este posicionamento leva ao repúdio liminar de obras de vários autores muito respeitáveis e interessantes, como é o caso de Mo Yan ou Yan Lianke (para apenas referir escritores chineses já traduzidos e editados em Portugal). Não me admira, por isso, no caso dos leitores que conseguem ultrapassar esta atitude preconceituosa, o seu espanto e perplexidade quando descobrem que as obras destes autores veiculam visões claramente críticas em relação aos poderes estabelecidos na China continental.

É indiscutível que na China existe um regime político autoritário que cerceia as liberdades individuais e, por conseguinte, entre outras, as liberdades de criação artística. Por isso mesmo, gostaria que lessem o que vou escrever não como resultante de qualquer atitude de benevolência para com um regime que, mesmo tendo as suas justificações históricas, sociais e económicas, tem um posicionamento político de todo condenável, principalmente quando se constata que hoje a China é a segunda economia mundial e que vive uma prosperidade económica e social como nunca existiu na sua milenar história.

De facto, a postura, que acima referi, não tem em consideração a complexidade e as especificidades da situação sociopolítica chinesa. Veja-se o que se passa, por exemplo, no mundo da edição e da literatura.

Para analisar este assunto, é preciso ter presente as dimensões descomunais da população chinesa, os seus actuais níveis de alfabetização, próximos dos cem por cento, e as suas bem razoáveis taxas de literacia. São estes dados, antes do mais, que fazem com que a China dos dias de hoje seja, em termos mundiais, o segundo maior mercado nacional de livros (logo a seguir aos Estados Unidos) e que seja um dos países que mais compra direitos autorais no exterior.

Este imenso universo determina necessariamente uma maior dificuldade, por parte das entidades estatais, em controlá-lo. E, por isso mesmo, o Estado chinês foi forçado, em particular a partir do massacre da Praça Tiananmen no final do século passado, a tomar algumas medidas que é necessário perceber.

A primeira, é que decidiu abdicar de uma política activa de controle ideológico e estético, impondo espartanas orientações à produção artística e literária, para uma postura mais recuada, isto é, em que se exige apenas aos artistas e escritores que não afrontem directamente o poder político nem as orientações estabelecidas pelo Partido Comunista da China (PCC), dando assim, dentro deste quadro, uma maior liberdade estética e ideológica aos criadores.

A segunda, é que foi obrigado a abrir a edição, a distribuição e a comercialização de livros à iniciativa privada, incluindo aos investidores estrangeiros. Assim, hoje, cerca de metade dos livros editados na China pertencem a empresas privadas, sendo os restantes produzidos por organismos públicos, nacionais e regionais, e por entidades, directa ou indirectamente, dependentes do poder político, como é o caso, por exemplo, das universidades. O mesmo se passa na área da distribuição e comercialização de livros.  

Esta situação levou a reforçar o papel da General Administation of Press and Publication (recentemente transformada na State Administration of Press, Publication, Radio, Film and Television) que não só é a única entidade que pode passar licenças para as empresas privadas poderem editar (ou distribuir e comercializar), seja em que suporte for, como tem o poder de censurar e retirar essa mesma licença, obrigando o editor a abandonar esta actividade. De facto, mais uma vez, o cerceamento da liberdade de criação literária passa pelo condicionamento da edição, como sucede na maior parte dos regimes autocráticos.

Mas é necessário ter em consideração que existe uma expressiva edição de âmbito regional (não existe na China, como sucede em muitos outros países, um circuito nacional, devidamente estruturado, de distribuição de livros), cujo controle é mais difícil de estabelecer, e que existe uma cada vez maior e mais importante edição inteiramente marginal a este sistema, produzida por pequenas editoras locais. Recordo também, para se perceber bem a dimensão deste mercado, que existem mais de 6.000 editoras (incluindo, de forma estimada, as editoras não licenciadas), mais de 220.000 livrarias e que, segundo a associação chinesa de editores, a facturação bruta do comércio livreiro rondou, em 2018, os 55 biliões de dólares…

Mas, obviamente, não é apenas através da edição que se efectua o condicionamento da criação literária. Para se ser autor de obras publicadas pelas editoras estatais ou licenciadas, deve-se, sublinho, deve-se ser associado da poderosíssima China Writers Association (hoje dirigida pela escritora Tie Ning, mas que já foi dirigida por Mao Dun e Ba Jin, autores muito respeitados e considerados na China), organização não-governamental, com cerca de 9.000 associados, que deve orientar politicamente os escritores de acordo com as directivas estabelecidas pelo PCC. Além disso, é esta associação que gere, parece que de forma direcionada e não muito transparente, um dos principais fundos de apoio à tradução e edição de obras de autores chineses no exterior, o que, obviamente, lhe dá um significativo ascendente sobre estes. No entanto, é evidente, que o papel “orientador” da China Writers Association é notoriamente frágil, pois só intervém no caso de obras que ostensivamente afrontam as directivas referidas e que, por isso mesmo, ocasionam “escândalos sociais” e provocam “denúncias” generalizadas.

Percebe-se assim, como referem alguns estudos efectuados sobre a censura no actual regime chinês, que a intervenção dos organismos estatais é apenas indirectamente sobre o “conteúdo” das obras publicadas, visto que a sua preocupação essencial está no “impacto social” das críticas ao poder político que essas obras possam originar – daí que o seu papel censor seja fundamentalmente orientado para a edição. E percebe-se ainda que o estatuto de “dissidentes” de certos escritores, deriva não tanto da sua produção literária, mas principalmente das suas posições cívicas, mais ou menos públicas, de apoio, ou de directa participação, em movimentos insurrecionais, como foi o que ocorreu na Praça Tiananmen, que motiva a acção repressiva e prepotente do Estado, empurrando-os para o exílio ou enviando-os para a prisão.

Neste quadro, há dois factos objectivos e indiscutíveis que podem gerar alguma estranheza para quem observa a literatura chinesa contemporânea a partir do exterior. O primeiro, é que alguns desses autores, com posições críticas em relação aos poderes estabelecidos, viram não só as suas obras premiadas e reconhecidas pelas instituições literárias oficiais, mas eles próprios foram colocados, muitas vezes, em posições relevantes nessas mesmas instituições, ou que tenham sido integrados no corpo docente de diversas universidades ou ainda tenham sido agraciados com doutoramentos “honoris causa”. O segundo, sem dúvida o mais relevante, é que esta posição não estritamente dirigista do Estado chinês possibilitou o aparecimento de várias gerações de escritores que, confrontando activamente, e com riscos, os condicionalismos estatais, produzem obras com uma temática muito diversificada, debruçando-se de forma bastante exaustiva e arrojada sobre os contextos sociais, tanto urbanos como rurais, da China contemporânea, como além disso as elaboram com uma clara dimensão inovadora e experimental, bem longe do convencional “realismo socialista”. Saliente-se, por último, que esta constatação é extensível a outros domínios artísticos e não apenas à literatura. Hoje, cidades, como Xangai, Pequim, Cantão, Yangzhou ou Tianjin, são centros artísticos com uma dinâmica criativa em tudo semelhante às dos grandes centros ocidentais.

Perguntar-me-ão: então porque é que essa realidade não é amplamente conhecida no exterior da China? Ora, essa pergunta é uma das mais prementes e graves que coloca a si próprio o Estado chinês no domínio cultural e que resulta de uma constatação dramática: a de que o enorme ascendente económico e político da China em termos mundiais não tem a devida correspondência na projecção da sua cultura (com excepção de algumas regiões do Extremo Oriente) e que isso está a condicionar gravemente o seu posicionamento no quadro das nações e dos Estados. É evidente que há inúmeras razões para este facto, onde se destacam o ter herdado um Estado imperial (e socialista) fechado e há muitos séculos centrado em si próprio, o de possuir uma língua nacional, o mandarim, com uma grafia complexa e bem distante do alfabeto greco-romano, o que torna difícil afirmá-la como segunda ou terceira língua nos diversos países, e, por fim, o seu actual Estado ter uma má imagem externa, pois é consensualmente considerado como anti-democrático e persecutório. Por isso mesmo, o Estado chinês está hoje fortemente empenhado em inverter esta situação, dispondo-se a efectuar colossais investimentos na projecção da sua língua e cultura. Se o conseguir, e se esta política der os frutos desejados, irá transformar significativamente as relações entre o Oriente e o Ocidente e reconfigurar por completo o presente modelo civilizacional.


Março de 2020




segunda-feira, 2 de março de 2020

JONATHAN RABAN


OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

9ª Vinheta



JONATHAN RABAN


Jonathan Raban (1942-) é um escritor inglês, que vive, desde a década de noventa, nos Estados Unidos, e que publicou uma vasta obra, nos domínios do romance, do ensaio e da chamada “literatura de viagens”. Aliás, tem sido neste último género que se tem destacado, tendo escrito alguns livros que já são hoje considerados como clássicos. Neste domínio também, obteve vários prémios, devendo referir-se o National Book Critics Circle Award para Não Ficção (“Bad Land”) e, por duas vezes, o extinto Thomas Cook Travel Book Award (com “Old Glory” e “Hunting Mister Heartbreak”).

A sua obra é habitualmente considerada como fundamental na transformação da “literatura de viagens”, pois abriu-a a novas soluções narrativas, em particular ao conciliar a descrição da paisagem e a observação das pessoas que a habitam, com a sua vivência pessoal e uma constante reflexão sobre a circunstância que está a viver, e ainda com uma análise (sociológica, histórica, etc.) do contexto geográfico onde decidiu viajar. De facto, desde o primeiro livro que deu notoriedade a Jonathan Raban, “Soft City”, publicado em 1974, (que não pode ser considerado um verdadeiro livro de viagens, já que é, no essencial, uma reflexão, de cariz mais sociológico, sobre certas “tribos” urbanas de Londres e sobre a relação entre o homem e a cidade), que já estão presentes todas as componentes que o autor vai desenvolver ao longo da sua obra. Um outro aspecto comum aos seus livros de viagens, e que hoje também já é considerado um modelo clássico neste género, é que, na generalidade dos casos, Jonathan Raban parte de uma “inspiração” literária que o “guia” no percurso a efetuar e sobre o qual irá escrever.

Mesmo tendo escrito e viajado por outras regiões (é o caso de “Arabia Through the Looking Glass” (1979), através do Médio Oriente, ou “Coasting” (1986), em que relata a sua viagem de veleiro em redor da costa da Grã-Bretanha), os livros de viagens mais importantes de Jonathan Raban centram-se no território dos Estados Unidos e na sua população. É o caso de “Old Glory: An American Voyage” (1981), em que relata a sua descida do Mississippi, “Hunting Mister Heartbreak”: A Discovery of America” (1990), em que prossegue a rota dos “pioneiros”, desde os portos europeus, através do continente norte-americano, até à costa do Pacifico, “Bad Land: An American Romance” (1996), onde narra os seus contactos e as vivências de várias gerações de camponeses das regiões despovoadas e isoladas de Montana e do Dakota do Norte, ou ainda “Passage to Juneau: A Sea and Its Meanings” (1999), em que descreve a sua viagem de barco desde Seattle a Juneau.

Mas, no conjunto da sua obra, talvez mereça um maior destaque o livro “Bad Land: An American Romance”. Utilizando documentos históricos, notícias de jornais, memórias, histórias de vida, em particular de pessoas que foi encontrando, ao longo de dois anos em que deambulou por Montana e pelo Dakota do Norte, Jonathan Raban vai não só descrevendo todo o processo de colonização desta região (que se iniciou no princípio do século XX e se prolongou até aos anos trinta), mas também como o governo dos Estados Unidos (através do Homestead Act), ao satisfazer os interesses da ferroviária Milhaukee Road (que necessitava, para s sua rentabilidade, de povoar aquelas regiões), vai ludibriando e atraindo os colonos que, convencidos, por um optimismo ingénuo, de que estavam a ser agentes activos de um grande projecto nacional, esgotam todas as suas economias, deslocando-se para a região e adquirindo algumas parcelas de terra.

 Mas a própria natureza e a diminuta dimensão das parcelas distribuídas vão destruindo as ilusões destes colonos: rapidamente percebem que foram arrastados para a miséria e que o seu sonho de independência, assente na ancestral convicção de que a posse da terra é o seu fundamental suporte, foi um imenso logro. Perante esta situação, só tiveram duas alternativas: desistir do seu projeto, migrando novamente para o Estado de Washington, em particular para Seattle, à procura do sustento para si e para as suas famílias, ou ficar, adquirindo as terras dos que as abandonaram, procurando subsistir, resignados a uma vida medíocre, e procurando soluções alternativas ao cultivo da terra, como, por exemplo, um fictício turismo. A paisagem que fica, e que Jonathan Raban literariamente retrata, é apenas o “desperdício” desse sonho colectivo: casas abandonadas, fazendas despovoadas, estradas que não vão a lado nenhum, estacas e arame farpado a delimitar propriedades que já ninguém explora nem deseja. Uma “bad land”.

A obra de Jonathan Raban está amplamente traduzida para francês e alemão, assim como existem alguns títulos seus em espanhol e em italiano.


“Bad Land” foi traduzido e editado para português, na década de noventa, com o título de “Terra Madrasta”. A edição foi da Quetzal Editores e a tradução, de elevada qualidade, de José Lima. Segundo declarações recentes da editora, a obra “passou completamente despercebida”.

Março de 2020.

Desconheço a autoria da foto do escritor.