OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES
24 º Vinheta
ACHY OBEJAS
Achy Obejas (1956-) é uma escritora americana
de origem cubana. Segundo declarações da própria autora, com apenas seis anos
emigrou com a família para os Estados Unidos, sendo recolhida pela Marinha
americana num pequeno barco, com mais quarenta pessoas, que estava à deriva no Atlântico.
Depois da sua formação académica,
começou a escrever para diversas revistas e jornais americanos, até que se
fixou como colunista no “The Chicago Tribune”, onde obteve vários prémios
nacionais como jornalista. De seguida, empenhou-se na divulgação da narrativa
antilhana nos Estados Unidos, tanto a que foi originariamente escrita em inglês
como a que foi em espanhol, traduzindo obras de Junot Dias, Wendy Guerra e Rita
Indiana, entre outros. Paralelamente, com o mesmo objectivo, efectuou um relevante
trabalho como editora e tem dado aulas em diversas universidades americanas de
escrita criativa e tradução. Presentemente, em complemento das suas actividades
académicas, tem trabalhado como argumentista e guionista para a Netflix.
Para contextualizar a obra desta
autora, há que entender que, para além deste percurso de vida, Achy Obejas
sempre assumiu o seu estatuto de lésbica, já que o encarou com inteira
naturalidade. A autora, como referiu em entrevistas, sentiu-se sempre muito
mais cubana e antilhana nos Estados Unidos do que em Cuba (que voltou a visitar
já com quarenta anos e onde regressa com regularidade), nem que fosse pelo
simples facto de ser assim permanentemente classificada. E o seu estatuto de
lésbica e a necessidade de se sentir inteiramente livre em termos
comportamentais, e consequentemente o seu percurso pessoal no país onde veio
parar ainda criança, permitiu-lhe também perceber que a sua vida teria sofrido
sérios revezes se tivesse ficado em Cuba ou a ela regressasse definitivamente (recordo
que a homossexualidade em Cuba foi criminalizada até aos finais da década de
setenta e que ainda hoje existe na ilha um clima social manifestamente
homofóbico), mesmo tendo em conta os condicionalismos afectivos e sociais que,
mesmo assim, o seu estatuto sexual teve e ainda tem nos Estados Unidos. Mas,
paralelamente, foi tomando consciência que era muito forte o seu vínculo
cultural a sua terra natal e que ele, no fundo, se revelava determinante na sua
vida e nas suas opções estéticas e éticas.
Como é previsível, a obra literária
de Achy Obejas, iniciada nos finais dos anos noventa, já com três romances,
duas colectâneas de contos e uma de poemas, espelha de forma nítida estas
diversas condições da sua existência. É de assinalar que os seus dois primeiros
romances, “Memory Mambo”, 1996, e “Days of Awe”, 2001, foram galardoados com o
Lambda Literary Awards, o prémio literário americano que, desde os finais dos
anos oitenta, destaca obras com uma ambiência ou problemática LGBT explicita.
A sua obra mais significativa, na
minha opinião, continua a ser “Memory Mambo”, o seu primeiro romance, principalmente
tendo em conta o seu carácter inovador no quadro da literatura norte-americana
e porque, de certo modo, define um conjunto de problemáticas que a posterior
narrativa da autora irá desenvolver e aprofundar. O romance tem, como
personagem principal, uma jovem cubano-americana, Juani Casas, lésbica, a
trabalhar numa lavandaria pertencente à família, em Chicago, e narra as
relações conflituosas, mas muito intensas em termos afectivos, com a sua
família (ampla, pois integra membros que estão nos Estados Unidos e outros que
permaneceram em Cuba) e os particulares escolhos da sua vida amorosa e social,
resultantes em grande parte do facto de a sua amante não desejar assumir
publicamente a sua orientação sexual. Por outro lado, é inquestionável que o
romance procura retratar a vivência das famílias cubanas em diáspora, realçando
como, a maior parte das vezes, são minadas por contradicções, ódios e omissões,
em particular com as componentes familiares que permaneceram em Cuba e que, de
forma mais ou menos consentânea com a realidade política e económica da ilha,
procuram sobreviver.
Esta personagem, com o seu estatuto próximo
do “alter-ego”, irá permitir à autora colocar por via narrativa uma
problemática (ética, social e política), por vezes contraditória, que considera
determinante, pois a situação criada pelas categorias sociais de raça/etnia,
classe, nacionalidade, género, orientação sexual e modo de estar, é geradora de
um forte mal-estar existencial e de uma ambiência opressiva que só uma análise
interseccional permite perceber e que “Memory Mambo” procura evidenciar de
forma romanesca.
Assim, aparecem, através das
situações que a protagonista vai vivendo e dos confrontos que tem com a família
e as amantes, os problemas da
identidade pessoal (colocando a questão do papel da(s) memória(s),
principalmente o confronto entre aquela que aceita como “verdadeira” e a que,
transformada em mitologia familiar, é reproduzida em distintas narrativas
assumidas por diversos familiares sobre os mesmos acontecimentos, levando a
protagonista a questionar-se sobre se a sua identidade não resulta de uma
narrativa imposta e criada pela sua família e pela sociedade), da nacionalidade
(levando-a a denunciar o conceito de “americanização”, mas, ao mesmo tempo, a permitir-lhe
perceber o que deve, em termos culturais e sociais, a cada uma das “pátrias”, criando-lhe
a sensação incómoda de se encontrar numa situação de despertença e
desterritorialização), dos direitos humanos (tendo em conta as diferenças radicais
de perspectiva e de postura política sobre este assunto entre o seu país de
adopção e a terra de onde é originária), do género e da orientação sexual (visto
que tem consciência, dado o passado e os valores da sua formação cultural e
religiosa, que os modelos da sua família subalternizam e repudiam a sua
condição, mas, por outro lado, tem também consciência que esta sua necessidade
de afirmação plena em termos emocionais e intelectuais irá fazer sofrer
amargamente a sua família e até destroça-la), etc. Para além disso, “Memory
Mambo” destaca bem o papel do sexo nas relações das pessoas, evidenciando como
ele pode ser um instrumento de poder, e até gerar situações de opressão e
humilhação, refletindo sobre a motivação das suas manifestações mais violentas
e abusivas, inclusive num contexto homossexual.
Deve-se também chamar a atenção que a
obra de Achy Obejas, e em concreto este romance, reflecte bem a relevância do
conceito de literatura transnacional (conceito que a autora tem explorado e
defendido em termos teóricos) para compreender certas valências da história
literária contemporânea.
Foto da autora de Kaloian
Fevereiro de 2021


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