domingo, 7 de fevereiro de 2021

ACHY OBEJAS

 

OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES


24 º Vinheta


ACHY OBEJAS

 

Achy Obejas (1956-) é uma escritora americana de origem cubana. Segundo declarações da própria autora, com apenas seis anos emigrou com a família para os Estados Unidos, sendo recolhida pela Marinha americana num pequeno barco, com mais quarenta pessoas, que estava à deriva no Atlântico.

Depois da sua formação académica, começou a escrever para diversas revistas e jornais americanos, até que se fixou como colunista no “The Chicago Tribune”, onde obteve vários prémios nacionais como jornalista. De seguida, empenhou-se na divulgação da narrativa antilhana nos Estados Unidos, tanto a que foi originariamente escrita em inglês como a que foi em espanhol, traduzindo obras de Junot Dias, Wendy Guerra e Rita Indiana, entre outros. Paralelamente, com o mesmo objectivo, efectuou um relevante trabalho como editora e tem dado aulas em diversas universidades americanas de escrita criativa e tradução. Presentemente, em complemento das suas actividades académicas, tem trabalhado como argumentista e guionista para a Netflix.

Para contextualizar a obra desta autora, há que entender que, para além deste percurso de vida, Achy Obejas sempre assumiu o seu estatuto de lésbica, já que o encarou com inteira naturalidade. A autora, como referiu em entrevistas, sentiu-se sempre muito mais cubana e antilhana nos Estados Unidos do que em Cuba (que voltou a visitar já com quarenta anos e onde regressa com regularidade), nem que fosse pelo simples facto de ser assim permanentemente classificada. E o seu estatuto de lésbica e a necessidade de se sentir inteiramente livre em termos comportamentais, e consequentemente o seu percurso pessoal no país onde veio parar ainda criança, permitiu-lhe também perceber que a sua vida teria sofrido sérios revezes se tivesse ficado em Cuba ou a ela regressasse definitivamente (recordo que a homossexualidade em Cuba foi criminalizada até aos finais da década de setenta e que ainda hoje existe na ilha um clima social manifestamente homofóbico), mesmo tendo em conta os condicionalismos afectivos e sociais que, mesmo assim, o seu estatuto sexual teve e ainda tem nos Estados Unidos. Mas, paralelamente, foi tomando consciência que era muito forte o seu vínculo cultural a sua terra natal e que ele, no fundo, se revelava determinante na sua vida e nas suas opções estéticas e éticas.

Como é previsível, a obra literária de Achy Obejas, iniciada nos finais dos anos noventa, já com três romances, duas colectâneas de contos e uma de poemas, espelha de forma nítida estas diversas condições da sua existência. É de assinalar que os seus dois primeiros romances, “Memory Mambo”, 1996, e “Days of Awe”, 2001, foram galardoados com o Lambda Literary Awards, o prémio literário americano que, desde os finais dos anos oitenta, destaca obras com uma ambiência ou problemática LGBT explicita.

A sua obra mais significativa, na minha opinião, continua a ser “Memory Mambo”, o seu primeiro romance, principalmente tendo em conta o seu carácter inovador no quadro da literatura norte-americana e porque, de certo modo, define um conjunto de problemáticas que a posterior narrativa da autora irá desenvolver e aprofundar. O romance tem, como personagem principal, uma jovem cubano-americana, Juani Casas, lésbica, a trabalhar numa lavandaria pertencente à família, em Chicago, e narra as relações conflituosas, mas muito intensas em termos afectivos, com a sua família (ampla, pois integra membros que estão nos Estados Unidos e outros que permaneceram em Cuba) e os particulares escolhos da sua vida amorosa e social, resultantes em grande parte do facto de a sua amante não desejar assumir publicamente a sua orientação sexual. Por outro lado, é inquestionável que o romance procura retratar a vivência das famílias cubanas em diáspora, realçando como, a maior parte das vezes, são minadas por contradicções, ódios e omissões, em particular com as componentes familiares que permaneceram em Cuba e que, de forma mais ou menos consentânea com a realidade política e económica da ilha, procuram sobreviver.

Esta personagem, com o seu estatuto próximo do “alter-ego”, irá permitir à autora colocar por via narrativa uma problemática (ética, social e política), por vezes contraditória, que considera determinante, pois a situação criada pelas categorias sociais de raça/etnia, classe, nacionalidade, género, orientação sexual e modo de estar, é geradora de um forte mal-estar existencial e de uma ambiência opressiva que só uma análise interseccional permite perceber e que “Memory Mambo” procura evidenciar de forma romanesca.

Assim, aparecem, através das situações que a protagonista vai vivendo e dos confrontos que tem com a família e as amantes, os problemas da identidade pessoal (colocando a questão do papel da(s) memória(s), principalmente o confronto entre aquela que aceita como “verdadeira” e a que, transformada em mitologia familiar, é reproduzida em distintas narrativas assumidas por diversos familiares sobre os mesmos acontecimentos, levando a protagonista a questionar-se sobre se a sua identidade não resulta de uma narrativa imposta e criada pela sua família e pela sociedade), da nacionalidade (levando-a a denunciar o conceito de “americanização”, mas, ao mesmo tempo, a permitir-lhe perceber o que deve, em termos culturais e sociais, a cada uma das “pátrias”, criando-lhe a sensação incómoda de se encontrar numa situação de despertença e desterritorialização), dos direitos humanos (tendo em conta as diferenças radicais de perspectiva e de postura política sobre este assunto entre o seu país de adopção e a terra de onde é originária), do género e da orientação sexual (visto que tem consciência, dado o passado e os valores da sua formação cultural e religiosa, que os modelos da sua família subalternizam e repudiam a sua condição, mas, por outro lado, tem também consciência que esta sua necessidade de afirmação plena em termos emocionais e intelectuais irá fazer sofrer amargamente a sua família e até destroça-la), etc. Para além disso, “Memory Mambo” destaca bem o papel do sexo nas relações das pessoas, evidenciando como ele pode ser um instrumento de poder, e até gerar situações de opressão e humilhação, refletindo sobre a motivação das suas manifestações mais violentas e abusivas, inclusive num contexto homossexual.  

Deve-se também chamar a atenção que a obra de Achy Obejas, e em concreto este romance, reflecte bem a relevância do conceito de literatura transnacional (conceito que a autora tem explorado e defendido em termos teóricos) para compreender certas valências da história literária contemporânea.

Foto da autora de Kaloian

 

Fevereiro de 2021

 



Sem comentários:

Enviar um comentário