OS POEMAS
“PULMÃO”
Em 1970, pertencia a um grupo de amigos, na casa dos
dezanove/vinte anos, proveniente de várias zonas da Grande Lisboa, que passava
o tempo a deambular pelos cafés da cidade. Todos tinham em comum apenas duas
coisas: uma obsessiva necessidade de se exprimir por palavras (alguns deles já
tinham textos publicados e premiados no suplemento “Juvenil” do Diário de
Lisboa) e a consciência de que estavam num momento crucial das suas vidas: ou
conseguiam entrar no Ensino Superior (adiando a incorporação militar e
afastando assim a inevitável situação de irem “bater com os costados” numa
guerra colonial que não entendiam nem desejavam) ou “fugiam” clandestinos para
o estrangeiro, iniciando um exílio que na altura parecia definitivo.
Sentiam todos que viviam mergulhados no pântano de um
quotidiano asfixiante, cercados por perigosos olhares pidescos, a sonhar com
amores que uma moral censória e beata parecia transformar em inalcançáveis. Mas
o júbilo da juventude e, principalmente, a convicção absoluta de que a literatura,
e a criação artística em geral, lhes iria redimir o futuro, fosse ele qual
fosse, fazia-os esquecer por momentos a dramaticidade da situação.
Alguns deles eram oriundos da Outra Banda e, já não sei por
que vias, conseguiram convencer a direcção do Jornal de Almada a publicar um
suplemento literário. Recordo é que todos nos mobilizámos para atingir esse
objectivo e que, assim, conseguimos fazer sair, durante alguns tempos, quatro
folhas magrinhas, a que intitulámos (não é por acaso) “Pulmão”. Nele (tudo isto
parece espantoso visto aos dias de hoje) começámos a publicar textos, desenhos
e fotografias, por nós produzidos, mas também por outras gentes, alguns até de
gerações mais velhas (recordo, por exemplo, que o António Barahona enviou
alguns poemas e que o Mário Botas alguns desenhos, que lá foram publicados, com
enorme entusiasmo nosso).
Vem-me à memória isto tudo, porque, nessa altura, a Fiama
Hasse Pais Brandão e o Egito Gonçalves publicavam anualmente, na Editorial
Inova (numa edição muito cuidada, com desenhos do Ângelo de Lima e orientação
gráfica do Armando Alves), umas antologias de poesia, onde recolhiam o melhor da
produção poética portuguesa do ano anterior editada em livro ou em revistas e
jornais. Na “Poesia 71”, recolheram do “Pulmão” um poema meu, coisa que me deu
uma alegria indiscritível, pois era o meu primeiro texto publicado em livro.
Agora, aos meus olhos, parece-me muito fraquinho (confesso
que não me revejo nesta opção estética de uma exasperante repetição de
vocábulos), mesmo em comparação com outros poemas que na altura escrevi. Mas,
para registo, aqui fica a sua transcrição.
A PELE, ENTRE AS PALAVRAS, PAISAGEM
caminho
para todas as coisas que faço: árvores são.
lentamente,
as coisas me devoram e se sentam sobre o seu repasto.
tatuado pelas coisas, elas são animais numa
caverna.
grandes
cavaleiros lançando suas flechas sobre as coisas que vêm,
sobre
os animais, sobre as pedras onde nasceram e no único movimento
que
puderam fazer.
devagar
o animal se torce e berra, devagar ele me atinge.
penso
assim todos os órgãos que possuo; músculos,
veias,
tendões, ossos, todos eles se movimentam e se agarram
às
coisas fervorosamente.
unem-se
ao tronco das árvores e flechas nascem do meu ventre
e sou oco e ar e água me atravessa como uma caverna.
vejo-me
atado, na mesma posição em que nasci, enterrado em rito.
as
pessoas vão então nascendo, saídas dos seus túmulos, destruídas
pela
necessidade de se acenderem.
Desconheço
a autoria da foto.