terça-feira, 18 de junho de 2024

CADERNO DE CAPA NEGRA


 

SOBRE O TEMA DA MAÇA

 

Percorro. Agora penso que me percorro, me assinalo como viagem

carregado pelo possível das outras todas. Não sou um autoclismo puxado – garanto.

Lugares são a minha diferença. No momento, uma cama me distingue,

um olhar poisado sobre uma cadeira, e um quarto com um corpo

que amarguradamente come tempo e maças.

 

Cresço, como pensei primeiro percorro. Mas engano-me. Pois é um tempo,

um tempo marítimo e urbano que enche o copo, tempo de larva de maça.


J.M.C, dezembro de 1972

 

Reprodução da pintura “Jovem Com Uma Maça” de Rafael.  

domingo, 16 de junho de 2024

CADERNO DE CAPA NEGRA

 


SOBRE O RIO DO ESQUECIMENTO

(De 25 de Julho a 18 de Novembro de 1938)

 

Um rio, de afluentes e foz, de bronze líquido atravessando o tempo,

de limite nas margens como qualquer rio. Na memória,

um rio e um tempo com uma passagem

paisagem.

Um rio, exagero no tempo salino, demasiado na memória

para que não nos pareça tampa de túmulo,

rio imóvel (- mas só em mim e onde assinalo

o prenúncio deste sangue fluvial, porque mordem os cães

na memória colectiva com os dentes iluminados na névoa

ou naquilo que nem chegou a se):

 

- Sinaliza aqui o poema a margem como passagem para a imobilidade.

Morrem setenta mil homens e o tempo, sinal de um limite esperando

o corno do touro. O poema só pode dizer que são demasiados homens

e tempo para sedimentos de um rio,

e que ninguém peneira, ninguém lavra esses campos

corporais;

nem aristóteles pode vir clamar tragédias. Porque

 

não há barca de caronte nesta imobilidade. Só os olhos como berlindes

saltando podem assinalar a presença do estertor e do veio sanguíneo

de uma morte líquida, solta por uma margem.

 

 A palavra não o suporta, mas nomeia o nascer do mito, como o nascer da águia, etc..

Alguém piará, mas a palavra não pode sustentar setenta mil homens

gritando, com o seu olho claramente vítreo, com a sua consciência da morte e do

      [ebro.   

J. M. C., janeiro de 73

 

Foto de Robert Capa de um soldado da Quinta del Biberón.


terça-feira, 11 de junho de 2024

ANTÓNIO LOBO ANTUNES

 


UMA REVISITAÇÃO A ANTÓNIO LOBO ANTUNES

Sempre associei a prosa de António Lobo Antunes, desde os seus primeiros livros, a uma enxurrada. Sei que a imagem não é atraente, mas tenho que confessar que foi sempre essa a que tive. Uma torrente que leva tudo à frente: destroços, cadáveres, formas indefinidas, quase imperceptíveis, objectos heteróclitos, amores e ódios, todos arrancados à sua vida comum, mas que só reconhecemos o seu sentido e relevância porque foram assim levados no turbilhão daquelas águas.

Pessoalmente, nunca achei que os seus livros/romances se destacassem pela significação das suas tramas ou porque integrem personagens inesquecíveis (talvez aqui esteja a ser um pouco injusto, principalmente quando me lembro de “O Manual dos Inquisidores”). Mas, segundo creio, nada disso é muito relevante para o autor.

O que distingue António Lobo Antunes é a riqueza (e complexidade) do seu estilo. É aí que reside a sua invulgar “marca-d’água”. É esta enfática dimensão estilística da sua prosa, que foi crescendo de obra para obra, que dá, pelo menos entre as que eu conheço, a “Que Farei Quando Tudo Arde?” uma importância muito particular no conjunto da sua extensa produção narrativa.

Neste estilo, antes do mais, destaca-se o sentido de observação, fruto de uma sensibilidade “treinada” (hoje, definitivamente, não tenho mão para as imagens) a retirar significado de todas as coisas, objectos ou gestos, em particular os mais ínfimos; depois, o tratamento da língua, reutilizando formas verbais com fortes potencialidades polissémicas, forçando-as até ao absurdo, o que lhe permite construir imagens de uma beleza, por vezes, fulgurante; por último, um excepcional sentido do ritmo frásico, principalmente da sua dramaticidade e/ou emotividade, aproveitando todas as figuras de estilo, em particular as anáforas e aliterações, para criar intensidades várias, de forma a arrastar o leitor numa prosódia encantatória. 

Ao concluir a leitura de “Que Farei Quando Tudo Arde?”, na pausa em que nos afundamos, fica-se de garganta apertada, ao percebermos que os destroços, que aquela enxurrada leva, são os de um país (ou de um povo) a que pertencemos. Ou ainda, procurando perscrutar mais fundo naquelas águas turvas, que são destroços da condição humana, que parece irremediavelmente perdida e sem solução. Até que, por fim, temos a iluminação definitiva: naquela enxurrada, vamos também nós, leitores de António Lobo Antunes durante décadas e décadas.

Dizem-me que as suas últimas obras têm cada vez menos leitores, que já ninguém as lê. Não me admira, não me admira, porque a sua leitura há-de ser sempre incómoda. Mas isso não lhes retira importância no quadro da literatura portuguesa (e não só).

A terminar, um pormenor. Intencionalmente, “Que Farei Quando Tudo Arde?” não tem referência de género, tanto podendo ser encarada como um romance ou um poema, na linha desta tendência da literatura contemporânea para a diluição dos géneros. Mas para mim, como leitor, é claramente um romance: tem várias personagens, a maioria delas também narradoras, diversas situações em diferentes contextos temporais e espaciais, inúmeros capítulos (mesmo que não enumerados, dando a entender que a sequência da sua leitura é arbitrária), tudo amalgamado por um estilo que, como já referi, tudo leva na frente. Dir-me-ão que todos esses ingredientes também podem estar na poesia; mas sucede que nesta não são estruturantes, enquanto neste romance o são. Por vezes, desconfio destas indefinições, pois parecem-me sempre resultantes da menorização do romance como género. Será?

 

Foto do escritor retirada de “New In Almada”, sem indicação de autoria, mas que, segundo creio, é de Pedro Loureiro.


domingo, 9 de junho de 2024

OS POEMAS

 


OS POEMAS

“PULMÃO”

Em 1970, pertencia a um grupo de amigos, na casa dos dezanove/vinte anos, proveniente de várias zonas da Grande Lisboa, que passava o tempo a deambular pelos cafés da cidade. Todos tinham em comum apenas duas coisas: uma obsessiva necessidade de se exprimir por palavras (alguns deles já tinham textos publicados e premiados no suplemento “Juvenil” do Diário de Lisboa) e a consciência de que estavam num momento crucial das suas vidas: ou conseguiam entrar no Ensino Superior (adiando a incorporação militar e afastando assim a inevitável situação de irem “bater com os costados” numa guerra colonial que não entendiam nem desejavam) ou “fugiam” clandestinos para o estrangeiro, iniciando um exílio que na altura parecia definitivo.

Sentiam todos que viviam mergulhados no pântano de um quotidiano asfixiante, cercados por perigosos olhares pidescos, a sonhar com amores que uma moral censória e beata parecia transformar em inalcançáveis. Mas o júbilo da juventude e, principalmente, a convicção absoluta de que a literatura, e a criação artística em geral, lhes iria redimir o futuro, fosse ele qual fosse, fazia-os esquecer por momentos a dramaticidade da situação.

Alguns deles eram oriundos da Outra Banda e, já não sei por que vias, conseguiram convencer a direcção do Jornal de Almada a publicar um suplemento literário. Recordo é que todos nos mobilizámos para atingir esse objectivo e que, assim, conseguimos fazer sair, durante alguns tempos, quatro folhas magrinhas, a que intitulámos (não é por acaso) “Pulmão”. Nele (tudo isto parece espantoso visto aos dias de hoje) começámos a publicar textos, desenhos e fotografias, por nós produzidos, mas também por outras gentes, alguns até de gerações mais velhas (recordo, por exemplo, que o António Barahona enviou alguns poemas e que o Mário Botas alguns desenhos, que lá foram publicados, com enorme entusiasmo nosso).

Vem-me à memória isto tudo, porque, nessa altura, a Fiama Hasse Pais Brandão e o Egito Gonçalves publicavam anualmente, na Editorial Inova (numa edição muito cuidada, com desenhos do Ângelo de Lima e orientação gráfica do Armando Alves), umas antologias de poesia, onde recolhiam o melhor da produção poética portuguesa do ano anterior editada em livro ou em revistas e jornais. Na “Poesia 71”, recolheram do “Pulmão” um poema meu, coisa que me deu uma alegria indiscritível, pois era o meu primeiro texto publicado em livro.

Agora, aos meus olhos, parece-me muito fraquinho (confesso que não me revejo nesta opção estética de uma exasperante repetição de vocábulos), mesmo em comparação com outros poemas que na altura escrevi. Mas, para registo, aqui fica a sua transcrição.

 

A PELE, ENTRE AS PALAVRAS, PAISAGEM

caminho para todas as coisas que faço: árvores são.

lentamente, as coisas me devoram e se sentam sobre o seu repasto.

 tatuado pelas coisas, elas são animais numa caverna.

grandes cavaleiros lançando suas flechas sobre as coisas que vêm,

sobre os animais, sobre as pedras onde nasceram e no único movimento

que puderam fazer.

devagar o animal se torce e berra, devagar ele me atinge.

 

penso assim todos os órgãos que possuo; músculos,

veias, tendões, ossos, todos eles se movimentam e se agarram

às coisas fervorosamente.

unem-se ao tronco das árvores e flechas nascem do meu ventre

 e sou oco e ar e água me atravessa como uma caverna.

vejo-me atado, na mesma posição em que nasci, enterrado em rito.

as pessoas vão então nascendo, saídas dos seus túmulos, destruídas

pela necessidade de se acenderem.

 

Desconheço a autoria da foto.