terça-feira, 5 de abril de 2022

TONY EARLEY


 

A Vontade de Ler: Um Autor, Uma Obra

2. Tony Earley (1961-)

É um escritor americano que obteve reconhecimento no seu país inicialmente como contista, tendo publicado contos nalgumas das revistas literárias mais relevantes dos Estados Unidos, como a “Harper’s”, “Granta” e “The New Yorker”. Nos anos noventa, foi seleccionado pela “Granta” como um dos “Best of Young American Novelists” ao lado de autores como Sherman Alexie, Madison Smart Bell, Ethan Canin, Jeffrey Eugenides, Jonathan Frazen e Lorrie Moore (para referir alguns dos mais conhecidos no nosso país). O seu primeiro livro foi publicado em 1994 e era uma colectânea de contos (“Here We Are In Paradise”).  

Mas reconhece-se habitualmente que é o seu primeiro romance, “Jim the Boy” (2000), a sua obra mais relevante. É um “Bildungsroman” sobre um jovem com dez anos na Carolina do Norte (Estado onde o autor passou a sua infância e adolescência), vivendo com a mãe (o pai morreu ainda ele não tinha nascido) e três tios numa quinta situada perto de uma pequena cidade (concebida pelo autor). Decorrendo durante um ano, no período da Grande Depressão, não há, nesta narrativa de uma infância rural, nada de especialmente traumático ou excepcional, mas simplesmente os pequenos grandes acontecimentos que constroem uma identidade: o prazer que se tem com a primeira luva de baseball, a importância da inicial sova que se deu, a aprazível descoberta da amizade, mas também  do medo e da possibilidade do sofrimento e da morte. Retrata-se um mundo ainda fechado, ainda sem referências exteriores (a televisão ainda não existe), mas que, por isso mesmo, parece eterno e imutável: a vida urbana é ainda uma longínqua possibilidade que se antevê com o primeiro combóio que se vislumbra ao passar ou com o erguer dos primeiros postos de electricidade…

Há, segundo a crítica, uma notória intenção estilística de clareza, simplicidade e contenção, numa escrita emotiva sem ser sentimental nem nostálgica, sem grandes descrições nem caracterizações históricas e em que a contextualização epocal é principalmente dada pelo comportamento e o modo de sentir das personagens. 

O romance já foi traduzido para francês, italiano e alemão.

Abril de 2022.

 

Foto do autor de Ruthie Earley.



 


sábado, 2 de abril de 2022

ANNA BAAR

 


1.     A Vontade de Ler: um Autor, uma Obra.

     Anna Baar (1973-)


É uma escritora austríaca de origem croata, onde passou parte da sua infância. Desde 2012, publicou poesia, contos, libretos de ópera e três romances. Os seus livros têm sido nomeados para vários prémios austríacos, integrando as suas shortlists. É reconhecida pela crítica de língua alemã como uma escritora relevante no quadro actual literatura austríaca. Não tem nenhum livro traduzido.

“Nil”, o seu último romance, publicado em 2021, centra-se num(a) narrador(a) que escreve histórias em folhetim para uma revista feminina. A sua história vai-se desenvolvendo, de acordo com as reacções dos leitores, até que recebe um ultimato do seu editor para que a conclua e conceba um final, mesmo que abrupto, mas que satisfaça quem a lê. E, perante esta imposição, a narradora sente-se confusa, não só não conseguindo apanhar uma solução satisfatória, mas principalmente temendo os reflexos que essa solução poderá ter sobre a sua vida “real”, convicta que as personagens que criou lhe irão escapar e que, de alguma forma, irão transpor a fronteira entre a ficção e a realidade, confrontando-a e afectando o seu porvir.

 Segundo os críticos, “Nil” é, ao mesmo tempo, denso e bem-humorado, com personagens secundárias bem delineadas e originais, revelando-se como uma reflexão inovadora sobre o papel da escrita de ficção.  

Abril de 2022

 

Direitos da foto da autora de “Klagenfurt”.



quinta-feira, 8 de abril de 2021

ROLAND JACCARD

 

OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

26 ª Vinheta


ROLAND JACCARD

 

A minha fixação com a relação entre sinceridade (termo claramente em desuso, mas que aqui pretendo caracterizar como o conjunto das pulsões pessoais que motivam o acto de escrever) e criação literária, e a forma como coexistem sem se destruir (é esta, na minha opinião, um dos temas nucleares e sempre presentes na literatura como em qualquer criação artística), leva-me a aproximar-me de um rosário de autores, ao mesmo tempo fascinantes e incómodos. Já escrevi sobre alguns deles e agora é a vez de Roland Jaccard.

Roland Jaccard (1941-) é um escritor suíço (nasceu em Lausanne, seu permanente refúgio) de língua francesa, indiscutivelmente prolífico e complexo. Psicanalista, crítico literário, editor, ensaísta, diarista, romancista e blogger, revela na sua obra, já com várias dezenas de títulos, ser possuidor de uma cultura vastíssima, multidireccionada, que vai, obviamente, desde a psicanalise à filosofia, à literatura, ao cinema e a todas as restantes formas de expressão artística. Activista, empenhado em diversas causas, Roland Jaccard tem demonstrado ser um espírito livre, corajoso, afrontando por sistema aquilo a que hoje se chama o “politicamente correcto” e, ao longo da sua vida, a moral dominante.

Da sua obra, creio que é importante destacar, na sua qualidade de psicanalista, a coordenação de uma “Histoire de la psychanalyse”, 1993, ou os seus ensaios sobre Melanie Klein, Freud, ou a Loucura. Ainda neste aspecto, é fundamental também realçar o seu importante ensaio “L’exil interieur: schizoïde et civilization”, 1975, onde, articulando os trabalhos de Freud e Klein com a etno-psicanálise (Georges Devereux) e o pensamento de Norbert Elias, considera que o processo civilizacional é tendencialmente esquizoide e, por isso mesmo, sem os referentes necessários para integrar e tratar a esquizofrenia individual e que o actual processo de “normalização” e padronização do homem irá desfigurar por completo a “sua” humanidade. Convém ainda salientar que, como na restante produção narrativa do autor, esta obra entrecruza as componentes ensaísticas com experiência pessoal, efectuando objectivas conexões com os modelos mais narrativos da sua produção literária.

Ainda no domínio do ensaísmo, convém destacar, na área do cinema, as obras sobre Louise Brooks, o primeiro com a colaboração da própria actriz, 1977, e “Portrait d’une flapper”, 2007, e “John Wayne n’est pas mort”, 2019. Estes livros, em particular os dois últimos, são, ao mesmo tempo, análises do comportamento destas figuras icónicas do cinema, mas também, como sucede na restante obra deste autor, uma espécie de ajuste de contas e de denúncia de uma moral dominante que considera acentuadamente hipócrita. Há, nesta perspectiva, que referir que o ensaísmo de Roland Jaccard, na linha das obras de Montaigne e de Pascal, parte sempre da experiência pessoal como sustentáculo a uma exaustiva reflexão sobre o sentido da vida, dos valores da moral individual e da sua relação com a moral dominante.

Mas, a partir de “Dictionnaire du parfait cynique”, 1982 (que, no essencial, é um conjunto de citações e de referências de diversos autores e personalidades, algumas delas forjadas, como o próprio autor confessa, em que se preconiza uma postura cínica sobre a vida e em que se estabelece as regras de uma postura objectivamente de repúdio de qualquer tipo de idealismo), passando, muito em particular, por “La tentation nihiliste”, 1989 (que posteriormente será e ditada conjuntamente com outra obra do autor, intitulada “Le Cemitiere de la morale”, 1995), a sua obra aproxima-se cada vez mais de posições pessimistas e mesmo niilistas. Recorrendo à obra e à postura existencial de autores como La Rochefoucauld, Lichtenberg, Schopenhauer, Nietzsche ou Wittgenstein, atraído pela personalidade de autores como Leopardi, Panizza, Bierce, Klima, Dazai, Zwieg, Hedayat, Zorn, Connolly, Amiel, entre outros, Roland Jaccard orienta-se para uma total descrença em relação a humanidade e a retirar qualquer significado à própria existência, considerando que o homem é apenas uma espécie de cadáver adiado; tal postura, leva-o a entender, tal como o seu amigo E. M. Cioran, de cujo pensamento o autor é um profundo admirador, que o suicídio é o caminho mais coerente e consequente; mas, e é esta é uma das suas contradicções, como ele refere ao longo das suas recentes obras (“L’Enquête de Wittgenstein”, 1998, “Cioran et compagnie”, 2004, e “Penseurs et tueurs”, 2018, por exemplo), o seu fascínio pelo suicídio é fundamentalmente pela sua ideia e possibilidade, visto que é ela que lhe dá motivação para continuar a existir e retirar algumas “seductions de la existence” (para utilizar o título de uma obra colectiva em que participou com François Bott, Daniel Grisoni e Yves Simon), como, por exemplo, o seu enorme fascínio pelas obras de certos pensadores e artistas, pelas relações de amizade e (destaco este aspecto por causa da sua importância na reflexão e na criação de Roland Jaccard) pelas relações amorosas. Mas estes fascínios, mesmo que fundamentais para manter a “joie de vivre”, não justificam a existência de qualquer ética, e, principalmente, de qualquer pretensão filosófica, que procure dar qualquer sentido à existência, na linha do que afirmou, em toda a sua obra, E. M. Cioran.

Convém, no entanto, ter claro que Roland Jaccard desvaloriza o sentimento amoroso, tal como ele é consensualmente estabelecido, porque o considera contaminado por um sentimentalismo bacoco. Para o autor, o sentimento amoroso é apenas o estrito percurso de afirmação do seu desejo erótico e sexual, como é bem explícito na sua obra mais narrativa, diarística e ficcional.

Talvez assim se compreenda por que motivo Roland Jaccard se fascina pelas mulheres que, a seu modo, fundamentalmente contribuíram para a afirmação, libertação e independência da entidade sexual feminina (Louise Brooks, Lou André-Salomé) como matriz da sua própria existência. E daí que desvalorize outros papéis específicos da mulher, como a maternidade, que considera obscena (na minha opinião, de uma forma absurda).

Ora, como Roland Jaccard reafirma várias vezes na sua obra, o seu objecto de desejo é, em exclusivo, as mulheres muito jovens (veja-se um dos títulos mais emblemáticos do conjunto da sua obra, “Une Liaison dangeureuse”, 2015, onde, em conjunto com Marie Céhère, narra em detalhe a sua paixão por uma jovem de 23 anos, a subscritora do livro, com quem o autor vive uma relação amorosa quando tem 73 anos), o que quer dizer que, no caso das restantes mulheres, não se torna para ele relevante a sua identidade feminina (no quadro de uma reflexão que o aproxima, malgré lui, da obra de Otto Weininger, Geschlecht und Charakter).

Assinale-se também que, ao acentuar esta tónica de encarar a mulher como objecto de desejo, Roland Jaccard torna nítido que para si existem dois universos femininos distintos: o que integra o campo muito exclusivo das mulheres que amou em algum momento da sua vida ou que poderá vir a amar e o que, por razões etárias ou de repúdio do seu desejo, estão fora desse campo (que, obviamente, é o de quase todas as mulheres), e que se tornam, por isso, simplesmente desinteressantes ou geradoras de equívocos, ou ainda, verdadeiras inimigas, pois, pela sua falta de disponibilidade em aceitar o desejo que lhes manifestou, se revelam como seres malignos e geradores de amargos, para não dizer inadmissíveis, dissabores e frustrações (que, naturalmente, se foram reforçando com o avanço da idade do autor).

Deve ainda referir-se que o autor sempre assumiu o papel de “dragueur” (para não dizer predador) de jovens mulheres e que toda a sua obra diarística e narrativa espelha esta forma de estar. Aliás, foi este seu modo de estar que o levou a frequentar regularmente, desde jovem, a piscina Deligny, junto do Sena e do Quartier Latin, onde veio a conhecer Gabriel Matzneff, de quem se tornou amigo, e por quem Roland Jaccard sempre teve consideração como escritor, que foi, como se sabe, acusado recentemente de pedófilo, abusador de menores e de estimular, como cliente, a prostituição infantil, e, por isso, socialmente ostracizado (em particular, depois da publicação de “Consentimento” de Vanessa Springora), e que Roland Jaccard, com a coragem e a independência de espírito que o caracteriza, continuou a reconhecer como amigo e a defender como escritor.

Por tudo isto, percebe-se que perpassa, subliminarmente por toda a sua obra, uma acentuada misoginia. E que esta, resultante no essencial da sua posição niilista, se torna bastante incómoda para certos leitores, como é o meu caso, que, mesmo considerando interessante e relevante a sua reflexão, sente-se, obviamente, incapaz de a acompanhar até as suas consequências e conclusões.

Por último, salientar que Roland Jaccard, na maior parte das suas obras diarísticas e narrativas (a trilogia de “L’Âme est un vaste pays”, 1983, “Des femmes dispairaissent”, 1985” e “L’Ombre d’une frange”, 1987, e ainda as narrativas de “Sugar babies”, 1986, onde procura recriar o universo intimista de certa literatura japonesa, ou “Station terminale”, 2017, na minha opinião, o seu mais bem construído e interessante romance, constituído pelo diário de um suicida, que se chama Roland e nasceu em Lausanne, e que é descoberto nos seus despojos por um irmão, um burguês bem estabelecido na mesma cidade suíça, que decide comentá-lo e se interroga sobre se deve ou não publicá-lo), revela ser um admirável estilista, principalmente pela cáustica presença do humor e da sátira, pela sua capacidade em exprimir a dimensão sensorial e emotiva da existência, e pela forma desabrida e fulgurante com que analisa a hipocrisia das regras sociais dominantes, dos costumes e do modo de estar de certa burguesia franco-suíça.     

Hoje, provavelmente, Roland Jaccard é um homem só, minado pelos seus fantasmas e pelas suas contradicções, olhando de uma forma cada vez mais condoída para uma época que passou e para os amigos que foi perdendo. Mas ainda com duas âncoras que garantem a sua sobrevivência: a sua escrita, que, furiosamente, continua (veja-se o seu “Le Blog de Roland Jaccard”, https://leblogderolandjaccard.com/), e uma obra aberta ao juízo do tempo.

Os únicos livros de Roland Jaccard que se encontram editados em Portugal são o seu ensaio “Freud”, tradução de Vitor Ribeiro Ferreira, e publicado pelas Publicações Dom Quixote (1987), e o “Manifesto para uma morte doce”, tradução de Wanda Ramos, e publicado pela Bertrand (1995), que o autor escreveu em conjunto com Michel Thévoz, e foi originalmente editado em 1992.

 

Desconheço a autoria da foto do escritor.

 

Abril de 2021.






terça-feira, 23 de março de 2021

LING MA

 

OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES


25ª Vinheta



LING MA

 

Ling Ma (1983-) é uma escritora americana de origem chinesa, pois emigrou ainda criança para os Estados Unidos, e aí cresceu e fez toda a sua formação académica. Depois do fiasco de uma experiência profissional, decidiu aproveitar a indeminização (“severance pay”) recebida com o seu lay-off e despedimento para se dedicar a concluir os seus estudos e a escrever um romance (inicialmente, era apenas um conto) que publicou em 2018, com o título “Severance”. A obra obteve uma reconhecimento quase unanime da crítica (o “The New Yorker” considerou “Severance” um dos mais importantes romances do ano) e vários prémios, entre os quais se destaca o Kirkus Prize, concedido pela prestigiada revista literária homónima. Actualmente, Ling Ma dá aulas na Universidade de Chicago.

Segundo declarações da autora, o romance foi escrito numa fase da sua vida em que via, de forma obsessiva, os filmes de George Romero e a série de televisão “The Walking Dead”. Assumidamente influenciado por estes filmes, “Severance” pode, por isso, ser considerado como integrando esse subgénero da literatura de entretenimento que é a narrativa pós-apocalíptica com “zombies”. Sucede, no entanto, que Ling Ma pretendeu apenas “aproveitar” esta ambiência para escrever um romance com outra ambição literária e analítica.

O romance centra-se numa jovem heroína de origem chinesa, Candace Chen, a viver em Nova Iorque, que, a certo ponto, descobre que a população da cidade está a transfigurar-se e a morrer devido a um vírus, oriundo da China, que origina uma doença chamada “Shen Fever”, e que rapidamente se transforma em pandemia. Esse vírus, quando atinge as pessoas, leva-as a reproduzir mecanicamente as suas rotinas, alheadas de tudo, como se fossem “zombies”, e, posteriormente, à morte. No entanto, por motivos inexplicáveis, uma minoria é imune a esse vírus, que é o que sucede a Candance Chen. 

Durante algum tempo, a protagonista continua a deambular pela cidade, dedicando-se a fotografá-la cada vez mais vazia e a publicar as fotos num blog da sua autoria, a que chamou “NY Ghost”. Sucede, porém, que, a certa altura, percebe, no limite das suas forças, que não consegue subsistir sozinha e decide, por isso, juntar-se a uma pequeno grupo de sobreviventes e procurar com eles uma solução para esta absurda existência. Integra-se então numa comunidade, “dirigida” por um antigo técnico informático, ambicioso e sem escrúpulos, que garante conhecer um local, a que ele dá o nome de “Facility”, onde todos poderão construir “um mundo novo”. Pelo caminho, vão saqueando alimentos das casas vazias ou ainda ocupadas por “zombies” (que eles muitas vezes matam por compaixão), até que chegam ao seu destino: um centro comercial abandonado.

Convém salientar que o romance não é construído como se os acontecimentos narrados sucedessem num eventual futuro, mas como uma alteridade ao presente “real”. O quotidiano, tal como se conhece, é encarado pela protagonista com nostalgia, como um “lar” perdido, que transparece nos capítulos de “flashbacks”, mais emotivos e elaborados, que alternam com os que descrevem, num registo contido, os acontecimentos do presente alternativo. Naqueles capítulos, a protagonista rememora o seu passado na China rural, que abandonou ainda em criança, e principalmente a Nova Iorque em que viveu e onde, mesmo com os seus defeitos e limites (um quotidiano assente numa “civilização de serviços”, monótona e repetitiva), conseguia ter acesso, mais ou menos fácil, a um consumo e a um conhecimento que lhe satisfaziam a sua constante necessidade de novidade e de bem-estar (que agora parece impossível de atingir). No fundo, Candance Chen sentia-se bem em Nova Iorque e aceitava-a como era, entendendo que ela foi criada para esses modelos de consumo (e de vida) urbano, mesmo que estes ocultassem situações constrangedoras e até criminosas de exploração. Foi essa aceitação do modelo de civilização, que gerara Nova Iorque, motivada pela sua necessidade de pertença a um lugar, que a afastou do seu amante (que repudia este modelo de vida e o destino que ele preconiza), ficando só (e grávida) na cidade.

Começa, no entanto, a perceber que esse sentimento de nostalgia fragiliza-a, assim como aos outros sobreviventes da pandemia, quebrando-lhes a imunidade, pois parece que o vírus se aproveita dos lugares e das coisas que estão contaminados pela memória dos seus antigos donos. Por isso, a protagonista, entendendo-o como um perigo, procura conter esse sentimento, fugindo daquilo que em seu redor o motiva, obstinada em continuar a sobreviver e a poder seguir o seu caminho.

Mesmo possuindo uma carga simbólica indiscutível, Ling Ma confessa ter escrito “Severance”, afastando-se de qualquer sentido marcadamente alegórico ou crítico em relação à actual sociedade, procurando apenas constatar um terrível e sinistro mal-estar e a alienação de objectivos e sentidos de vida, que, no essencial, transparecem nos dias de hoje.

“Severance” foi traduzido e editado em França, com o título “Les enfiévrés”, já depois da presente pandemia e foi, por isso mesmo, considerado um romance prenunciador da actual situação.

 

Foto da autora de Anjali Pinto.

Março de 2021



domingo, 7 de fevereiro de 2021

ACHY OBEJAS

 

OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES


24 º Vinheta


ACHY OBEJAS

 

Achy Obejas (1956-) é uma escritora americana de origem cubana. Segundo declarações da própria autora, com apenas seis anos emigrou com a família para os Estados Unidos, sendo recolhida pela Marinha americana num pequeno barco, com mais quarenta pessoas, que estava à deriva no Atlântico.

Depois da sua formação académica, começou a escrever para diversas revistas e jornais americanos, até que se fixou como colunista no “The Chicago Tribune”, onde obteve vários prémios nacionais como jornalista. De seguida, empenhou-se na divulgação da narrativa antilhana nos Estados Unidos, tanto a que foi originariamente escrita em inglês como a que foi em espanhol, traduzindo obras de Junot Dias, Wendy Guerra e Rita Indiana, entre outros. Paralelamente, com o mesmo objectivo, efectuou um relevante trabalho como editora e tem dado aulas em diversas universidades americanas de escrita criativa e tradução. Presentemente, em complemento das suas actividades académicas, tem trabalhado como argumentista e guionista para a Netflix.

Para contextualizar a obra desta autora, há que entender que, para além deste percurso de vida, Achy Obejas sempre assumiu o seu estatuto de lésbica, já que o encarou com inteira naturalidade. A autora, como referiu em entrevistas, sentiu-se sempre muito mais cubana e antilhana nos Estados Unidos do que em Cuba (que voltou a visitar já com quarenta anos e onde regressa com regularidade), nem que fosse pelo simples facto de ser assim permanentemente classificada. E o seu estatuto de lésbica e a necessidade de se sentir inteiramente livre em termos comportamentais, e consequentemente o seu percurso pessoal no país onde veio parar ainda criança, permitiu-lhe também perceber que a sua vida teria sofrido sérios revezes se tivesse ficado em Cuba ou a ela regressasse definitivamente (recordo que a homossexualidade em Cuba foi criminalizada até aos finais da década de setenta e que ainda hoje existe na ilha um clima social manifestamente homofóbico), mesmo tendo em conta os condicionalismos afectivos e sociais que, mesmo assim, o seu estatuto sexual teve e ainda tem nos Estados Unidos. Mas, paralelamente, foi tomando consciência que era muito forte o seu vínculo cultural a sua terra natal e que ele, no fundo, se revelava determinante na sua vida e nas suas opções estéticas e éticas.

Como é previsível, a obra literária de Achy Obejas, iniciada nos finais dos anos noventa, já com três romances, duas colectâneas de contos e uma de poemas, espelha de forma nítida estas diversas condições da sua existência. É de assinalar que os seus dois primeiros romances, “Memory Mambo”, 1996, e “Days of Awe”, 2001, foram galardoados com o Lambda Literary Awards, o prémio literário americano que, desde os finais dos anos oitenta, destaca obras com uma ambiência ou problemática LGBT explicita.

A sua obra mais significativa, na minha opinião, continua a ser “Memory Mambo”, o seu primeiro romance, principalmente tendo em conta o seu carácter inovador no quadro da literatura norte-americana e porque, de certo modo, define um conjunto de problemáticas que a posterior narrativa da autora irá desenvolver e aprofundar. O romance tem, como personagem principal, uma jovem cubano-americana, Juani Casas, lésbica, a trabalhar numa lavandaria pertencente à família, em Chicago, e narra as relações conflituosas, mas muito intensas em termos afectivos, com a sua família (ampla, pois integra membros que estão nos Estados Unidos e outros que permaneceram em Cuba) e os particulares escolhos da sua vida amorosa e social, resultantes em grande parte do facto de a sua amante não desejar assumir publicamente a sua orientação sexual. Por outro lado, é inquestionável que o romance procura retratar a vivência das famílias cubanas em diáspora, realçando como, a maior parte das vezes, são minadas por contradicções, ódios e omissões, em particular com as componentes familiares que permaneceram em Cuba e que, de forma mais ou menos consentânea com a realidade política e económica da ilha, procuram sobreviver.

Esta personagem, com o seu estatuto próximo do “alter-ego”, irá permitir à autora colocar por via narrativa uma problemática (ética, social e política), por vezes contraditória, que considera determinante, pois a situação criada pelas categorias sociais de raça/etnia, classe, nacionalidade, género, orientação sexual e modo de estar, é geradora de um forte mal-estar existencial e de uma ambiência opressiva que só uma análise interseccional permite perceber e que “Memory Mambo” procura evidenciar de forma romanesca.

Assim, aparecem, através das situações que a protagonista vai vivendo e dos confrontos que tem com a família e as amantes, os problemas da identidade pessoal (colocando a questão do papel da(s) memória(s), principalmente o confronto entre aquela que aceita como “verdadeira” e a que, transformada em mitologia familiar, é reproduzida em distintas narrativas assumidas por diversos familiares sobre os mesmos acontecimentos, levando a protagonista a questionar-se sobre se a sua identidade não resulta de uma narrativa imposta e criada pela sua família e pela sociedade), da nacionalidade (levando-a a denunciar o conceito de “americanização”, mas, ao mesmo tempo, a permitir-lhe perceber o que deve, em termos culturais e sociais, a cada uma das “pátrias”, criando-lhe a sensação incómoda de se encontrar numa situação de despertença e desterritorialização), dos direitos humanos (tendo em conta as diferenças radicais de perspectiva e de postura política sobre este assunto entre o seu país de adopção e a terra de onde é originária), do género e da orientação sexual (visto que tem consciência, dado o passado e os valores da sua formação cultural e religiosa, que os modelos da sua família subalternizam e repudiam a sua condição, mas, por outro lado, tem também consciência que esta sua necessidade de afirmação plena em termos emocionais e intelectuais irá fazer sofrer amargamente a sua família e até destroça-la), etc. Para além disso, “Memory Mambo” destaca bem o papel do sexo nas relações das pessoas, evidenciando como ele pode ser um instrumento de poder, e até gerar situações de opressão e humilhação, refletindo sobre a motivação das suas manifestações mais violentas e abusivas, inclusive num contexto homossexual.  

Deve-se também chamar a atenção que a obra de Achy Obejas, e em concreto este romance, reflecte bem a relevância do conceito de literatura transnacional (conceito que a autora tem explorado e defendido em termos teóricos) para compreender certas valências da história literária contemporânea.

Foto da autora de Kaloian

 

Fevereiro de 2021

 



quinta-feira, 12 de novembro de 2020

FRITZ HABECK

 

OS ESCRITORES IMPOSSÍVEIS


II



FRITZ HABECK

 

Fritz Habeck (1916-1997) é um escritor austríaco que se dedicou a escrever romances, contos, biografias, peças de teatro, guiões e livros para a infância e juventude. Foi, no entanto, no género romanesco que mais se realçou, obtendo vários prémios literários, em que se destacam o Adalbert Stifter-Preis e o Manès Sperber-Preis.

Começou a publicar no início dos anos quarenta, com uma biografia romanceada de François Villon (“Der Scholar vom linken Galgen”). Mas, entretanto, foi incorporado no exército austríaco, participando activamente na II Guerra Mundial, intervindo na invasão da Polónia, onde foi promovido a tenente, no cerco de Estalinegrado, e acabando por ser preso pelo exército americano na Batalha da Normandia, já com o cargo de tenente-coronel. Como referiu em diversas entrevistas, “foi soldado, mas nunca foi nazi” e, de facto, já na biografia acima referida, estão implícitas várias críticas à dimensão totalitária do regime hitleriano.

Depois da sua libertação, regressou à Áustria e voltou a dedicar-se à literatura. No início da década de cinquenta, publicou um dos seus romances mais relevantes (“Das Boot kommt  nach Mitternacht”, 1953), claramente resultante da sua experiência de guerra. Profundamente impressionado com o estilo de Ernest Hemingway (com quem amplamente se correspondeu), Habeck decidiu posteriormente dedicar-se ao género policial (assinando-os com o pseudónimo de Glenn Gordon) e à análise do período de reconstrução da Áustria do pós-guerra, publicando em 1958, entre muitos outros, o romance que é considerado a sua obra-prima: “Der Ritt auf dem Tiger”. Nestes romances, o autor destaca em particular a forma como sociedade austríaca procurou “silenciar” o seu passado de cumplicidade com o regime nazi e a sua participação activa no Holocausto como via de obter uma nova “normalidade”.

Robert Menasse considerou-o um dos mais importantes autores austríacos do período imediatamente posterior à II Guerra Mundial em “Die sozialpartnerschaftliche Ästhetik”.

Algumas das suas obras foram traduzidas para inglês, francês e italiano nas décadas de cinquenta e sessenta. Hoje encontram-se esgotadas.

 

Novembro de 2020

Desconheço a autoria da foto do escritor.


quarta-feira, 4 de novembro de 2020

ROGER VAILLAND

 


ROGER VAILLAND ou O FIM DO ILUMINISMO

I

Mesmo que não me recorde dele muitas vezes, tenho que reconhecer que Roger Vailland foi um dos meus “maîtres à penser”. De facto, para mim, como para toda uma geração, este comunista e libertino, apaixonado pela escrita e, em particular, pelo romance, hoje já muito esquecido e até estigmatizado, impregnou o nosso (sub)consciente com alguns conceitos e valores que, quer se goste ou não, determinaram comportamentos e modos de estar.

Um desses conceitos – talvez o mais importante – foi o de soberania. E de como a soberania era fundamental para a existência de uma efectiva liberdade ao nível individual e colectivo.

E note-se: quando aqui se fala em soberania não se está a colocá-la num registo “stricto sensu” político. Mas como um valor determinante ao nível do comportamento e, por conseguinte, afectando também o campo pessoal e privado.

Hoje, sabemos todos, este conceito pode parecer perigoso e limitado. Mas como fugir a ele?

 

II

Se, há uns vinte anos atrás, me dissessem que o papel da sedução apareceria manchado ou empalidecido, acharia que toda a gente teria enlouquecido.

É certo que, quando se fala em sedução, se está a referir a um poder de atracção, isto é, de sujeição voluntária do outro a esse poder.

A sedução cega. Subjuga a vontade do Outro; elimina o sentido crítico, coloca um Outro na órbita condicionada de um Sujeito.

De facto, goste-se ou não, está a estabelecer-se uma hierarquia quando se seduz o Outro. Mas será isso inevitavelmente mau?

 

III

Uma das “descobertas” que a obra de Roger Vailland iluminava é a de que existem relações de poder em qualquer esfera do registo social. E era tão brutal essa revelação que eliminava qualquer ideia romântica ou adolescente de haver a possibilidade de se estabelecer qualquer tipo de relacionamento, mesmo o mais íntimo, sem uma hierarquia.

É certo que provava que essa relação de poder não era estática, mas dinâmica, e que, a qualquer momento, se poderia inverter os papéis da relação. E que, por isso, existia uma contínua dialéctica. Mas isso, mais uma vez provava, que ela nunca seria uma equação.

Porém, não há dúvida que esta realidade há-de ser sempre questionada. Todas as gerações, umas a seguir às outras, continuarão a tentar forçá-la, a tentar esmigalhar essa realidade-pedra.

Será isto inevitável? Não sei. Mas estou em crer que sim. Veja-se o próprio Roger Vailland e “Le Grand Jeu” e a aproximação aos surrealistas. Todos crescemos a ter uma concepção ideal das relações amorosas e de uma sociedade igualitária, sem escravos nem amos, comunista. Todos temos qualquer coisa de Keats.

Ora, Roger Vailland durante algum tempo, consciente do determinismo destas relações de poder, ainda acreditou que esse comunismo desejado (a transformação dessa tal realidade-pedra em areia) fosse mais possível de atingir, se, por bons motivos (isto é, por motivos progressistas e igualitários), através de um forte e autoritário poder, invertesse a relação secularmente estabelecida. Daí que tenha defendido e apoiado Estaline.

Mas rapidamente compreendeu que o poder degrada e perverte. Sempre. O que o levou a questionar todo o seu quadro pessoal. A razão, como instrumento soberano, tinha-o traído. E, por isso, abandonou o PC francês.

E isolou-se. Abandonou os jornais e a militância de toda uma vida. Debaixo da protecção da sua mulher amada (Elisabeth Vailland), vai continuar apenas com a sua paixão de sempre: escrever, escrever, pensar e construir histórias.

Os seus últimos romances (“La Loi”, “La Fête” e “La Truite”), os mais interessantes na minha opinião, colocam a questão da soberania num registo individual. Mas, como se percebe em “Le Regard froid”, Roger Vailland tinha consciência de que estava amputado de uma dimensão essencial: era impossível entender a questão da soberania como uma estrita questão privada.

Restava-lhe apenas viver, pois gostava demasiado da vida para lhe pôr fim.

Até que o câncro o levou. 

Novembro de 2020.

Foto do autor de Marc Garanger.