terça-feira, 22 de setembro de 2020

OKSANA ZABUZHKO

 

OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

 

21ª Vinheta



OKSANA ZABUZHKO

  

“Language — any language — that’s what I would call the capital love of my life: nothing else has the power to synthesize music and myth, two things without which the world would be a totally unlivable place.” — Oksana Zabuzhko

 

Oksana Zabuzhko, ou Oksana Zaboujko, na transliteração para francês, ou Oksana Sabuschko, para alemão (1960-), é uma escritora ucraniana que é reconhecida como uma das mais importantes intelectuais do seu país, desde que este se tornou independente da União Soviética. Poeta, ensaísta e romancista, tem-se destacado em todos estes géneros literários, obtendo vários prémios, sendo de destacar o Prémio Angelus, considerado um dos mais importantes galardões concedido a obras literárias oriundas do Centro e Leste europeu. Académica, ensinou em diversas universidades americanas e é actualmente professora na Universidade de Kiev, dando aulas sobre literatura ucraniana e filosofia.

É opinião generalizada que escreveu provavelmente algumas das obras mais relevantes da literatura ucraniana contemporânea, gerando enorme polémica entre os críticos, mas com uma enorme receptividade por parte do público leitor. As suas obras que mais se destacaram são o ensaio Notre Dame d’Ukraine: Українка в конфлікті міфологій  (em inglês: Notre Dame d'Ukraine: Ukrayinka in the Conflict of Mythologies), 2007, e dois dos três romances de sua autoria: Польові дослідження з українського сексу (em inglês: Fieldwork in Ukrainian Sex), 1996, e Музей покинутих секретів (em inglês: The Museum of Abandoned Secrets), 2009. 

Centrando-se estas obras nos temas do género e da identidade nacional, percebe-se que as obras de Oksana Zabuzhko, assim como a sua intervenção pública, não sejam consensuais. Recordo, sem muitos pormenores, que, se é indiscutível que a Ucrânia tem uma vincada identidade nacional, com fundamentos culturais seculares (é esse o tema do ensaio acima referido), a sua independência política, ao longo dos tempos, têm-se revelado muito frágil e complexa, resultante das dificuldades em afirmá-la entre os dois grandes Blocos, por integrar uma percentagem importante da sua população que é pró-russa, em termos culturais e políticos, e por existirem grandes discrepâncias económicas na população (com uma classe oligárquica cujo poder económico e político assenta em grande parte nos interesses e nos negócios que mantem com a Rússia). Além disso, tal como sucede nos restantes países do Leste da Europa com uma forte presença do cristianismo ortodoxo e com um longo passado feudal e agrário, é uma sociedade marcadamente patriarcal, com a consequente subjugação sexual e social da mulher, mas onde esta vem, gradualmente, a assumir um maior protagonismo cultural, económico e político.  

Grande parte do ascendente da obra de Oksana Zabuzhko deriva de ter introduzido, nas letras e na cultura ucranianas, a reflexão resultante dos estudos de género e a perspectiva pós-colonialista na análise da situação da mulher e da sujeição do seu país à Rússia. Essa posição, numa cultura ainda muito fechada e sob a influência da cultura russa, definiu claramente que a autora se colocava do “lado” das forças sociais e políticas que defendiam a independência nacional e uma aproximação ao Ocidente; mas, sendo este “lado” acentuadamente dominado por posições nacionalistas e xenófobas, levou a que Oksana Zabuzhko se demarcasse destas posições, procurando afirmar-se como uma voz independente.

Da obra narrativa da autora, constituída por três romances e algumas colectâneas de contos, só estão traduzidos dois romances e um livro de contos (com o título em inglês de “Your Ad Could Go Here”) para inglês, francês e alemão (neste última língua, também estão traduzidos alguns ensaios).

“The Museum of Abandoned Secrets”, o seu último romance, é uma ampla saga histórica, com ingredientes do género policial, que se desenrola ao longo da história contemporânea da Ucrânia desde o fim da II Guerra Mundial às vésperas da chamada “Revolução Laranja”. A protagonista, uma jornalista que investiga alguns factos que lhe permitam perceber melhor os antecedentes da independência política ucraniana, descobre a foto de uma militante do Exercito Insurrecional Ucraniano que foi assassinada pela polícia política de Estaline (esclareça-se que aquela entidade é uma organização militar independentista, activa nos anos quarenta e cinquenta, com um percurso muito obscuro, pois ainda hoje é acusada de crimes de genocídio por parte dos polacos e dos russos, que combateu os exércitos nazi e Vermelho e que foi dizimada pelo último). A partir deste documento, a jornalista vai desvendar uma história complexa, feita de corrupção, lutas pelo poder, paixões e assassínios, que se desenrola por várias gerações, envolvendo a vida pessoal e pública de várias mulheres, até aos inícios do presente século. Mas o romance apresenta outros protagonistas que vão transmitir uma imagem poliédrica da história recente da Ucrânia, revelando a dimensão épica da luta, quase sempre clandestina e subliminar, dos militantes independentistas ucranianos contra o domínio soviético. 

Mas não há nenhuma dúvida que a obra mais importante de Oksana Zabuzhko até hoje é “Fieldwork in Ukrainian Sex”. Basta apenas assinalar que, desde que foi publicado, se tornou o romance mais vendido na Ucrânia (estatuto que manteve durante mais de dez anos) e que ainda hoje é considerado como uma das obras mais determinantes da cultura ucraniana desde a independência política. O romance é um longo monólogo de uma poetisa e professora convidada na Univ. de Harvard (um explícito alter-ego da autora), sobre a sua condição de mulher e sobre a sua relação amorosa com um pintor ucraniano. Ao longo dele, a narradora vai dissecando o comportamento abusivo do seu amante, a violência intelectual e física que exerce sobre ela, ao mesmo tempo que analisa os motivos que a levam a sentir-se atraída por ele e a aceitar a sua dominação. De forma inevitável, é também levada a efectuar uma analogia entre o seu estatuto de mulher aviltada (uma não existência) e a própria identidade nacional, também ela condicionada a não-existir ou a subjugar-se à vontade soberana da Rússia.

Este monólogo, acompanhando o fluir do pensamento, não só dilui as referências de tempo e espaço, como é feito na primeira, na segunda e na terceira pessoa do singular (conforme as situações narradas e o efeito que se pretende criar no leitor), transformando-se num “continuum” sinuoso e complexo, entre o registo poético e reflexivo, onde, a partir da sua experiência pessoal, se alarga ao estatuto de todas as mulheres ucranianas, demonstrando como o seu temor à repressão e aos códigos masculinos, a levou a não poder fruir do seu corpo e a ser eliminada sistematicamente da sociedade e da História. No fundo, o mesmo que sucedeu ao seu país ao longo dos tempos, motivando a que o povo ucraniano questionasse a sua identidade, ao ponto de se seduzir, como forma de reacção e afirmação, por movimentos xenófobos e nacionalistas.

Setembro de 2020

Desconheço a autoria da foto da escritora.




quarta-feira, 16 de setembro de 2020

CARMINE ABATE

 

OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

20ª Vinheta


CARMINE ABATE

 

Carmine Abate (1954-) é um escritor italiano, de origem arbëreshë, da região da Calábria, que emigrou, com a sua família, ainda muito novo, para a Alemanha, onde viveu até aos seus trinta anos. A partir da década de setenta, publicou vários livros de poesia, de ensaio, de contos e dez romances, sendo neste género que mais se tem evidenciado, obtendo vários prémios no seu país, entre os quais se destaca o Prémio Campiello de 2012, com “La collina del vento”.

Antes do mais, para perceber a obra deste autor, talvez seja útil esclarecer um pouco quem são os arbëreshë. Este povo é constituído por albaneses que emigraram para o Sul da Itália, principalmente para a Calábria e para a Sicília, a partir dos finais do séc. XV, quando a sua originária terra foi conquistada e anexada pelo Império Otomano. Profundamente arreigado às suas tradições culturais, conseguiu manter a sua língua, transformada num dialecto ítalo-albanês, vários costumes e as suas práticas religiosas (são católicos de rito bizantino). Sendo considerados como a maior minoria da Itália, os arbëreshë têm obtido algum reconhecimento por parte das autoridades italianas, pois que a sua cultura e a sua língua são ensinadas nalgumas escolas e universidades. Porém, ainda hoje é um povo com uma vivência acentuadamente rural, e, por isso mesmo, a sua língua é de uso quotidiano em muitas aldeias e povoações. Segundo os últimos dados conhecidos, esta comunidade é constituída por cerca de cem mil pessoas.   

Tendo em conta esta origem e, em particular, a sua situação de emigrante na Alemanha, compreende-se que se considere habitualmente que os temas nucleares da narrativa de Carmine Abate sejam as tradições culturais da sua comunidade, o multiculturalismo, a emigração e os problemas decorrentes da condição de migrante. Entendo, no entanto, que há que perspetivar de forma mais ampla esta narrativa e considerar que ela se centra nas situações de confronto entre universos culturais distintos e as correspondentes formas de estar e de sentir.

No conjunto da sua obra, há três romances que, sendo inteiramente autónomos, se interligam numa unidade, que o próprio autor intitulou “Le stagioni di Hora”, e que são “Il ballo tondo” (1991), “La moto di Scanderberg” (1999) e “Il mosaico del tempo grande” (2006). Situados em Hora, um lugar mítico e ao mesmo tempo bem concreto, os dois primeiros romances são sagas familiares, onde o passado lendário dos arbëreshë e o espectro sombrio da emigração se cruzam, num registo ao mesmo tempo lírico, mágico e realista; o último tem um enfoque mais aberto a toda a comunidade, pois a narrativa procura cimentar, como num mosaico, vários “momentos” épicos da história do povo albanês e da “fuga” daqueles que em Itália vão dar origem aos arbëreshë.

Da restante obra narrativa de Carmine Abate, merece particular destaque os romances “Tra due mari” (2002), “La festa del ritorno” (2004), “La collina del vento” (2012), “La felicità dell’attesa” (2015) e “Le rughe del sorriso” (2018).

Mesmo continuando a “revisitar” a temática da cultura tradicional da sua comunidade (e o lugar de Hora, onde volta a situar alguns destes romances), Carmine Abate centra-se mais, nestas obras, no fenómeno migratório das gentes oriundas da “sua” Calábria e a sua integração nos países de acolhimento, sejam eles a Alemanha, a França ou a “América”. Saliente-se que estes romances procuram evidenciar, mais do que a problemática da integração, o contraditório rosário de sofrimento e mágoa do emigrante resultante da culpabilização de ter abandonado a sua terra, o seu património familiar e colectivo (decisivo para estruturar a sua identidade como migrante) e os objectos do seu afecto (filhos, pais, amigos e amores), e de como essa mágoa tem um efeito desagregador que lhe dificulta a sua inserção na sociedade em que optou (?) viver.

Assim, Carmine Abate, fruto da sua experiência de emigrante, compreendeu que existem dois “universos”, com peso equivalente, que se digladiam em quem emigra. Esses “universos”, ao mesmo tempo reais e fantasiados, são tingidos, por um lado, pelo sonho e pela ambição de se afirmar num “novo” mundo, e, por outro, gizados com a memória opressiva daquilo que ficou. Por isso mesmo, os seus romances, através dos seus narradores e personagens principais, procuram destacar, em diversos contextos e situações, a epicidade de quem parte, mas também de quem resiste a esse sonho e permanece, lutando pela preservação do seu património, no lugar em que nasceu. Esse lugar é sempre a Calábria, com os seus vestígios históricos, as suas montanhas e colinas, os seus mares, a sua paisagem agreste, as suas gentes - camponeses rudes e isolados -, as suas tradições e culturas, que se “colam”, como uma segunda pele, em todas as figuras que povoam a obra de Carmine Abate, sejam elas emigrantes ou não.

É este o caso de “Tra due mari”, cuja trama assenta no percurso de dois homens (um fotógrafo alemão que, após a II Guerra Mundial, resolve procurar na Calábria a luz que necessita para o seu trabalho, e um natural da região, obcecado com as “suas” tradições patrimoniais, em particular com a reconstrução de uma pousada, onde teria pernoitado Alexandre Dumas), nas cumplicidades e nas tensões que entre ambos se vão criando ao longo do tempo, e nos reflexos desta relação nas gerações futuras (pois os filhos destes homens casaram-se e deram origem a Florian, o jovem narrador que redige a sua história).

Mas talvez seja mais evidente a temática do confronto de culturas e a relevância dos já referidos “universos” nos romances “La collina del vento” e “La felicità dell'attesa”, que, de certo modo, formam um díptico. No primeiro, narra-se a história de uma família, os Arcuri, ao longo do séc. XX, e da sua defesa obstinada de uma colina, que considera como o seu lugar matricial, contra as ambições mafiosas da especulação imobiliária; o segundo, narra a vida na “América” de várias gerações de emigrantes de uma mesma família, também ao longo do séc. XX, e sua constante luta por vencer e por obter “um lugar ao sol” (uma das figuras determinantes de “La felicità dell'attesa” é Andy “The Greek” Varipapa, um calabrês que se tornou mundialmente conhecido como campeão de bowling), por serem felizes e apaixonar-se (também aparece no romance Norman Jean...), mas cujo peso do passado os leva a sentirem-se constantemente divididos, regressando e de novo  “fugindo”, para escapar à miséria e ao trabalho escravo nas minas calabresas.

A Calábria é também o lugar central de “Le rughe del sorriso”, mas agora como terra de “abrigo” dos refugiados africanos (é esta a constante ironia da História: uma terra de emigrantes que se transforma no “porto” de chegada de imigrantes…). Neste romance, a personagem principal é agora uma jovem somali que, depois de atravessar o Mediterrâneo e entrar num centro de acolhimento, desaparece com a sua família, “esfumando-se” na Europa. Só que a passagem da sua beleza e do seu sorriso deixou uma semente no seu professor de italiano que, apaixonado, vai tentar desvendar o passado daquela jovem até a sua chegada e descobrir os mistérios e tragédias que escondem aquele esfíngico sorriso. O seu objectivo é perceber qual foi o seu possível destino, se foi voluntário ou forçado, e o que ela procura na Europa, que a obriga constantemente a partir, para tentar seguir-lhe o rasto. Mas o romance, paralelamente, deseja também entender como é que a Calábria, terra de emigrantes, desertificada e com uma população envelhecida, reage a esta nova população e se lhe manifesta a mesma hospitalidade que as suas gentes procuraram no estrangeiro quando emigravam.

Pela minha parte, gostaria de destacar o romance “La festa del ritorno”, por me parecer ser o que, com a sua trama aparentemente simples, melhor sintetiza a problemática do autor. Mais uma vez neste romance, o narrador é um adolescente que vive na sua Calábria natal a amargura de se sentir abandonado pelo pai emigrante. Sucede, no entanto, que este pai, culpabilizado pelo abandono da sua terra e da sua família, vive em tormento a sua condição. Até que, em consequência de uma tragédia familiar, em que o adolescente se vê obrigado a assumir o papel do pai em defesa da família, levando-o a uma situação que lhe poderia trazer consequências dramáticas e irremediáveis, o emigrante resolve prometer ao filho que não voltará a emigrar (uma situação recorrente em alguns romances de Carmine Abate), ficando na sua terra para proteger os seus e a sua comunidade.

Convém, por último, referir que, se os romances de Carmine Abate têm uma estrutura quase sempre um pouco convencional (há sempre um narrador, habitualmente um jovem, que introduz as situações que se vão desenrolando ao longo do romance e que funciona como uma espécie de alter-ego, sempre distinto, do próprio escritor), a sua trama é, por vezes, bastante complexa, muito romanesca e nitidamente resultante da recriação da própria experiência do autor. Além disso, e é este o aspecto mais assinalável da sua obra, apresenta sempre um estilo bem musical, com uma utilização constante de termos dialectais, que lhe dão um colorido sensorial, emotivo e lírico, e que o recurso constante à cultura popular, arbëreshë ou apenas calabresa, consegue transmitir uma tonalidade mágica a muitas das situações narradas.

Existem vários romances de Carmine Abate traduzidos e editados em inglês, francês e alemão (em particular, da trilogia de “Le stagioni di Hora”, pois foram as obras que, provavelmente, maior sucesso internacional tiveram).

No nosso país, o Círculo de Leitores editou dois romances (“O Baile Circular” e “Entre Dois Mares”), sempre com traduções cuidadas de Eduardo Saló.

Setembro de 2020

Desconheço a autoria da foto do escritor.




segunda-feira, 7 de setembro de 2020

STIG DAGERMAN

 

OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

19ª Vinheta



STIG DAGERMAN

 

Stig Dagerman (1923-1954) é indiscutivelmente um dos mais prestigiados escritores suecos do séc. XX. Mas a sua breve existência e o seu curto período de efectiva produtividade literária não levavam a crer, quando morreu, que a sua obra viesse a ter a actual projecção. É certo que Stig Dagerman, desde a edição do primeiro livro, obteve logo a aprovação dos críticos (e dos seus pares) e ainda do público leitor. Mas, mesmo assim, nada faria prever a consagração que esta obra obteve após a morte do autor e principalmente o seu reconhecimento internacional.

Creio que a obra e a personalidade de Stig Dagerman permite evidenciar um lugar-comum que muitas vezes é esquecido: a de que, para lá da técnica e da competência estética e literária adquirida, o que efectivamente distingue os criadores literários é a sua sensibilidade e a forma como apreendem o mundo.

Na generalidade dos casos, os estudiosos da obra de Stig Dagerman costumam assinalar dois factos decisivos para a formação da sua personalidade. O primeiro, foi ter sido abandonado pela mãe (que era solteira) pouco depois de ter nascido, deixando-o aos cuidados dos avôs paternos na sua fazenda rural (o pai tinha migrado para Estocolmo), vindo apenas a reencontrá-la depois de adulto. Segundo se crê, esta situação foi determinante para lhe provocar uma instabilidade emocional que o iria acompanhar ao longo da sua curta vida e que seria um dos factores que mais pesariam para o seu caracter depressivo e para a sua propensão para o suicídio. O segundo, foi ter sido introduzido pelo pai (com quem veio viver aos onze anos) no meio sindical, onde tomou contacto com os princípios libertários e anarquistas. Recorde-se que estamos a referir-nos à década de trinta do século passado, quando pela Europa estão em ascensão os movimentos fascista e nazi e, por outro lado, ocorre a Guerra Civil de Espanha. Foi neste meio sindical que Stig Dagerman conseguiu revelar as suas capacidades de escrita, ao trabalhar na imprensa operária e obtendo um rápido prestígio e reconhecimento, e que vem a conhecer a sua primeira mulher, filha de anarco-sindicalistas alemães. Esta família, que tinha fugido da Alemanha de Hitler e que, depois de ter participado activamente na Guerra Civil de Espanha, se refugiou, após a derrota das forças republicanas, na Suécia, vai-lhe propiciar tomar conhecimento dos grandes debates ideológicos e políticos que então atravessam a Europa, levando Stig Dagerman a acolher em definitivo o ideal libertário.     

De facto, foi este contexto que o estimulou a escrever o seu primeiro romance “Ormen” (“A Serpente”; na medida em que todas as obras narrativas deste autor estão traduzidas e editadas no nosso país, apresentaremos apenas os títulos na língua original e na sua tradução portuguesa), 1945, que publica quando ainda tem apenas vinte e dois anos, e que obtém um imediato reconhecimento crítico. A partir daqui, tudo ocorre a uma velocidade vertiginosa na vida de Stig Dagerman: no ano seguinte, publica um segundo romance e convence o seu jornal a permitir-lhe efectuar uma reportagem na Alemanha, para perceber em que estado ficou este país e a sua população após a derrota nazi, e que publica no ano seguinte. É nessa altura que se introduz no meio teatral, o que o leva a escrever várias peças de teatro, e vem a conhecer a segunda mulher, uma jovem actriz já com algum sucesso, com quem de imediato se casa. Publica logo de seguida, um livro de contos e um novo romance, mas começa a sentir dificuldades financeiras, resultantes da necessidade de sustentar os filhos do primeiro casamento e uma filha que nasce deste segundo relacionamento. É esta situação, associada a uma propensão clara para a depressão e um enorme cepticismo em relação ao seu lugar no mundo e ao futuro, e ainda a uma obsessiva crise de inspiração, que o leva a suicidar-se. Pelo caminho, em apenas cinco anos, ficaram quatro romances, um livro de contos, uma grande reportagem, várias peças de teatro, inúmeros poemas satíricos que publicou diariamente no jornal onde trabalhou e alguns textos dispersos que deram origem a uma colectânea póstuma (“Tusen år hos Gud”), de onde se extraiu algumas das páginas mais conhecidas do autor e foram intituladas no nosso país por “A Nossa Necessidade de Consolo É Impossível de Satisfazer”.

Por comodidade, é costume associar a obra de Stig Dagerman à filosofia existencialista de que, de facto, é coeva. Mas creio que será mais adequado enquadrá-la no clima social e político da época, em particular na situação de guerra, que, de diversas formas, contribuiu decisivamente para a sua “tonalidade” global.

Creio que o principal motivo da perenidade da obra de Stig Dagerman deriva do sentimento, verdadeiramente estrutural, de que existe uma profunda vulnerabilidade na vida. E que, só por existir, a própria vida provoca uma situação de “perca” porque gera uma expectativa que ficará sempre “insatisfeita”. Creio ainda que é este sentimento que dá sentido e sustentabilidade às posições ideológicas e políticas do autor, levando-o a entender o homem como um Sísifo em busca de concretizar um sonho de alterar profundamente a sua vida que, de um modo inevitável, nunca será atingido.

Há quem considere que existe neste “olhar” sobre o mundo uma “sensibilidade” genuinamente adolescente. Mas, mesmo que se entenda desta forma este “olhar”, não há dúvida que foi o germe de uma exigência moral e de um furor criativo que está na base de uma obra que, mesmo na sua diminuta dimensão, é bem distinta de livro para livro, tanto em termos estilísticos e de arquitectura, como nos focos da realidade em que se centrou e que se revela de uma invulgar lucidez e de uma fulgurante beleza.

Não admira por isso que os leitores e os analistas da obra de Stig Dagerman tenham flutuado na avaliação de qual dos seus livros é a sua efectiva obra-prima.

Assim, desde o já referido “Ormen” (“A Serpente”), um conjunto de narrativas aparentemente distintas que se conjugam num romance centrado no tema do medo (ou do medo do medo) e do espaço concentracionário, até Bröllopsbesvär” (”As Sete Pragas do Casamento”), 1949, que é, mais do que uma trágica e mordaz sátira às contradições, absurdos e equivocos que nascem no seio do ”casamento”, um libelo acusatório sobre as dificuldades de comunicação entre os homens, passando por ”De dömdas ö” (”A Ilha dos Condenados”), 1946, uma alegoria sobre o horror da incomunicabilidade e da morte, em torno de sete náufragos que aguardam o fim inevitável numa ilha deserta, e por ”Bränt Barn” (”O Vestido Vermelho”, na versão portuguesa, mas cuja tradução literal para inglês é ”A Burnt Child”), 1948, já todos foram considerados como “a” obra-prima de Stig Dagerman ao longo das épocas e de diversos leitores. Além disso, há também a considerar a reportagem “Tysk höst” (“Outono Alemão”), 1947, entendida como modelar, pela intensidade e pelo sentido de observação, do que deve ser um trabalho jornalístico, e que é hoje uma peça fundamental para compreender o povo alemão, o seu envolvimento com o nazismo, e a abissal e inumana miséria que sobre ele caiu com o fim da II Guerra Mundial, do regime que a motivou e o brutal comportamento revanchista das forças aliadas vitoriosas.

Pela nossa parte, gostaria de chamar a atenção para “O Vestido Vermelho”. Este romance, de tonalidades fortemente edipianas, centra-se na relação conflituosa de Bengt, um jovem de vinte anos, com o seu pai, despoletada pela brutal descoberta, com a morte da mãe (a obra inicia-se coma descrição, com uma rude objectividade e uma intensa carga simbólica, da sua vigília e enterro) de que a vida não passa de uma anónima solidão, rodeada pela abissal indiferença dos outros. É essa “verdade” que o narrador vai dissecar e transfigurar em páginas redigidas na primeira pessoa do singular, e que se contrapõem às que, redigidas na terceira pessoa do singular, se descreve, de uma forma concisa e sincopada, as situações familiares que envolvem o jovem Bengt, não só com o pai, mas também com a amante deste e com a sua noiva. De facto, Bengt é uma personagem dilacerada por sentimentos contraditórios: entre a compaixão e a repugnância para com o pai, que encara como um alcoólico e um cobarde, principalmente por ter ocultado a relação com a sua amante enquanto a mãe ainda era viva e por ter rodeado esta de desprezo e indiferença; pelo ódio e o desejo para com a amante do pai, que procura humilhar e seduzir; pela ternura e o repúdio para com a noiva, que, na maior parte das vezes, considera um ser servil e abúlico; e, por fim, para consigo próprio, porque pressente que a paixão que sente pela mãe se irá esfumar com o tempo e que ele próprio se irá acomodar à mesma indiferença que os outros sentiram por ela em vida.

No fundo, Bengt percebe que essa “verdade”, que descobriu com o seu luto e o seu exercício de lucidez, irá gradualmente consumir-se como a vela da candeia em que se queimou no dia do enterro (“o filho queimado”). E, por isso, esta vela torna-se o símbolo mais perene e constante de todo o romance, pois, por um lado, representa a vida da mãe, mas por outro, os sentimentos que a personagem principal por ela nutre e, por fim, a sua própria vida.

Por último, deve assinalar-se que a obra narrativa de Stig Dagerman está toda traduzida e editada no nosso país e que, além disso, é servida por muito boas traduções e ainda que, em quase todas as edições, existem introduções e notas introdutórias que as procuram contextualizar. Assim, e começando pela mais antiga, pois a primeira edição é já dos finais dos anos cinquenta, efectuada pela Estúdios Cor (e reeditada mais tarde pela Antígona), está “O Vestido Vermelho”, numa tradução de Irene Lisboa, que também redigiu um prefácio; depois, na década de oitenta, é publicado pela Fenda uma pequena brochura, o já referido “A Nossa Necessidade de Consolo É Impossível de Satisfazer” (“Värt behov av tröst”), numa versão de Paula Castro e José Daniel Ribeiro, que, tendo em conta o número de reedições (a última pela editora VS), deve ter sido a obra de Stig Dagerman que mais o deu a conhecer no nosso país. Já na década de noventa, começa o memorável trabalho editorial da Antígona que, para além da já referida reedição de “O Vestido Vermelho”, publica “A Ilha dos Condenados”, numa tradução, a partir do francês, de Miguel Serras Pereira, “Outono Alemão”, numa tradução, a partir do francês, de Júlio Henriques, a colectânea de contos “Jogos da Noite” (“Nattens lekar”), numa tradução, a partir do francês, de Miguel Serras Pereira, e, por último, “A Serpente”, numa tradução, a partir do sueco, de Ana Diniz e com um posfácio, muito importante para compreender a obra de Stig Dagerman, de C. G. Bjurström. À margem deste trabalho da Antígona, há também que referir “As Sete Pragas Do Casamento”, numa tradução, a partir do francês, de Miguel Serras Pereira, editado pela Relógio d’Água.

Assinale-se também que, para além desta obra narrativa, foi traduzida a peça dramática A Sombra de Mart” (“Skuggan av Mart”), por Luis Assis e Melanie Mederlind, publicado pela Cotovia e “A Política do Impossível. Ensaios e Artigos Selecionados” (“Essäer Och”), numa tradução de Flávio Quintale e adaptação de Carina Correia, publicado pela editora VS.

 

Setembro de 2020

 

Desconheço a autoria da foto do escritor.



terça-feira, 28 de julho de 2020

KATEB YACINE

OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES


18ª Vinheta


KATEB YACINE

 

À Teresa Meneses

Kateb Yacine (1929-1989) é um escritor argelino que integra a geração que começou a publicar na década de cinquenta e que é coeva (e, de certo modo, vítima) da guerra de independência da Argélia (esta geração, toda ela francófona, tem, como principais autores, as figuras de Mohammed Dib, Mouloud Feraoun, Mouloud Mammeri, Malek Haddad e Assia Djebar). Romancista, poeta e dramaturgo, é considerado por unanimidade um dos “fundadores” da literatura argelina, em particular devido ao papel determinante que teve para esta literatura o romance “Nedjma”, publicado pela primeira vez em 1956.

Pertencendo a uma tribo berbere, o autor, ainda no liceu, participa nas primeiras manifestações anti-colonialistas de Sétif (cidade onde estudava) de 1945 que deram origem a um brutal repressão que massacrou milhares de argelinos, na sua maioria camponeses. Expulso do liceu, preso durante alguns meses, Kateb Yacine assumiu, em resultado destes acontecimentos, a causa nacionalista e anti-colonial. Depois da prisão, publica o seu primeiro livro de poemas e começa a trabalhar num romance (depois de se ter apaixonado por uma prima, já casada, que o irá inspirar para a personagem central da obra que está a conceber), faz as primeiras viagens a Paris, onde dá algumas conferências sobre temas nacionalistas e se inscreve no Partido Comunista Argelino, e, no regresso, começa a trabalhar como repórter num jornal argelino.

Após a morte do pai, resolve regressar a Paris, onde reside durante a década de cinquenta, vivendo com grandes dificuldades e de trabalhos ocasionais. Mas é nesta época que conclui e publica o seu primeiro romance (o já referido “Nedjma”) e se aproxima daquela que será a sua maior paixão artística (para além da poesia e da narrativa) e a que se dedicará grande parte da sua vida: o teatro.

Logo após a independência, Kateb Yacine decide regressar a Argélia. Mas, desiludido com a evolução política do seu país, abandona-o, estabelecendo-se em diversos países europeus até 1970, ano em que regressa em definitivo e toma duas decisões importantes para o seu futuro artístico: abandonar o francês como veículo de criação literária e dedicar-se em exclusivo ao teatro e a encenar, com um grupo teatral, o Théâtre de la Mer, que o acompanha, as peças que redige em árabe argelino, acessível às populações, e que monta, por vezes com poucos adereços cénicos, em fábricas e nas aldeias. Paralelamente, as suas posições políticas e culturais, expressas em entrevistas, artigos e ensaios, cada vez mais afrontam os poderes estabelecidos: defende um estado laico, combate a total islamização da vida social, tanto ao nível da língua (ele rejeita o árabe vulgar como língua oficial e preconiza o reconhecimento dos árabes dialectais e da língua berbere) como dos costumes, apoia a igualdade de género e a libertação da mulher do seu estatuto de subserviência, repudia o excesso de burocratização do Estado em favor de uma maior autonomia das diversas comunidades, etc, etc. E, por isso, ao mesmo tempo que é mitificado como criador literário, começa a ser repudiado por uma significativa parte da classe dominante que considera Kateb Yacine uma figura incómoda e excessivamente contestaria (ao ponto de, aquando da sua morte por doença, demasiado precoce, no estrangeiro, existirem figuras influentes argelinas que recusam publicamente a ideia de que ele seja sepultado no seu país…). E compreende-se assim melhor porque, em vida, Kateb Yacine tenha recebido maiores reconhecimentos por parte do país colonizador do que da sua terra natal…

Para trás, ficaram, antes da sua dedicação em exclusivo ao teatro, uma colectânea de poemas e dois romances (“Nedjma” e “Le Polygone étoilé”), pois desde que Kateb Yacine decidiu apenas escrever em árabe argelino, desistiu deste género literário.

Indiscutivelmente, “Nedjma” é o mais marcante contributo literário de Kateb Yacine no domínio do romance. À primeira leitura, a trama é muito simples: quatro jovens argelinos, apaixonados e seduzidos por uma mulher, Nedjma, filha de uma argelina e de um francês, percebem que a sua paixão é impossível, pois ela é casada, e, por isso mesmo, “silenciada” e inacessível, confinando os seus sentimentos à contemplação do “esplendor” dessa figura feminina. Em complemento, constata-se, pelo deambular destas personagens, e pelas distintas situações em que são confrontados, como se sentem profundamente desenraizados, perdidos entre uma existência urbana sem futuro, sufocada pela violência colonial e pela exploração económica, e o modo de vida das suas famílias e tribos, ancorada numa tradição cultural e religiosa centenária, que já não consegue corresponder aos seus anseios e necessidades.

A relevância desta obra deriva, por isso, não só do sentido simbólico de todas as personagens e situações representadas, mas também do caracter inovador e experimental da sua estrutura formal (a narrativa é sempre fragmentária, diluindo-se os nexos temporais e espaciais), pela forma peculiar como trata a língua francesa, adaptando-a a realidade sociocultural argelina e subvertendo o seu estatuto de língua de país colonizador e, por último, pela dimensão lírica, resultante de uma visão apaixonada e empenhada em entender a humanidade e o seu necessário futuro, que contamina todo o discurso.

“Nedjma” foi traduzido para português, na década de oitenta, por Teresa Meneses (recentemente falecida) e António Gonçalves, e publicado pela ed. Tricontinetal (editora que desconheço e de que nada sei sobre a sua origem e destino). Não consegui ler esta tradução. Mas posso, no entanto, assegurar que os tradutores (que considero ainda meus amigos, mesmo que não nos tenhamos encontrado desde há muitos e longos anos) são pessoas de elevada competência e idoneidade.

 

Desconheço a autoria da foto do escritor.

 

Julho de 2020



sábado, 18 de julho de 2020

ANGEL WAGENSTEIN

OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

 

17ª Vinheta



ANGEL WAGENSTEIN

 

Angel Wagentein (1922-) é um escritor búlgaro, nascido numa família judia sefardita. Por razões políticas, a sua família exilou-se em Paris; mas o autor, ainda adolescente, regressou à Bulgária, onde se envolveu na resistência anti-nazi, tendo sido preso por várias vezes e, por fim, condenado à morte em 1944. Por sorte (?), a sua prisão foi bombardeada, num dos primeiros raids aéreos sobre Sofia, e a sua execução adiada, até que a cidade foi liberta pelo Exército Vermelho.

Foi então para Moscovo, onde se formou em cinema, em particular em guionismo, trabalho que exerceu quase toda a sua vida, escrevendo dezenas de guiões, primeiro na Rússia, depois no seu país natal e também na ex-RDA. Nos finais dos anos cinquenta, um filme de Konrad Wolf, com guião seu, obteve o Prémio Especial do Júri do Festival de Cannes.

Só nos anos noventa, já com mais de setenta anos, após a quebra significativa da produção cinematográfica na Bulgária, é que Angel Wagenstein decidiu dedicar-se à escrita de romances, tendo redigido um tríptico: Петокнижие Исааково” (“Isaac’s Tora”, na versão inglesa, “Le Pentateuque ou les cinq livres d’Isaac”, na versão francesa), 1998, “Далеч от Толедо” (“Abraham le Poivrot, na versão francesa; ”Lejos de Toledo”, na versão espanhola), 2002, e „Сбогом, Шанхай” (“Farewell, Shangai”, na versão inglesa; “Adieu Shangai”, na versão francesa), 2004. Com esta obra obteve vários prémios literários e distinções, tanto no seu país, como na Europa, e, em particular, em França, onde a sua obra é muito apreciada e respeitada. Hoje, o seu trabalho como escritor assumiu um tal realce que eclipsou em parte a sua actividade no domínio cinematográfico.

Todos estes três romances, utilizando técnicas narrativas distintas e com uma total autonomia entre si, procuram atingir o mesmo objetivo: narrar a história do povo judeu, em particular o sefardita, ao longo do séc. XX, efetuando, no entanto, incursões a períodos anteriores, como se estes fossem lastros históricos e culturais que permitissem compreender o seu comportamento no presente. O resultado é uma trilogia que, segundo a maioria dos críticos, apresenta uma das visões mais originais e peculiares sobre a história desse povo.

Há uma intenção clara, no conjunto desta narrativa, de assinalar as facetas verdadeiramente absurdas dessa história e como elas se tornam irrelevantes, e até hilariantes, perante o destino inexorável da morte. Semelhante postura, não só interroga frontalmente uma cultura ancestral e os dogmas teológicos de uma religião, como o inevitável humor, decorrente do olhar do autor perante as situações narradas, mais do que satirizar, procura compreender a frágil, mas resiliente, forma de estar de um povo perante o Mal.

“Farewell, Shangai”, o último romance de Angel Wagenstein, centra a sua narrativa numa situação histórica concreta e pouco conhecida: nos anos trinta, a cidade de Xangai abriu-se à imigração judia, e durante toda a II Guerra Mundial, foi-se constituindo um gueto (calcula-se com cerca de trinta mil pessoas), com judeus oriundos principalmente da Alemanha e da Áustria, que fugiram da Europa, com o fito de, nesta longínqua cidade, puderem, com mais serenidade, reconstruir as suas vidas. Angel Wagenstein, utilizando e interligando os modelos da literatura de género, coloca em cena uma miríade de personagens que entrecruzam situações de paixão, traição e luta pelo poder nesta cidade, já de si romanesca pela vivência de comunidades confluentes de várias potências, e que era, por isso mesmo, perigosa, cosmopolita e rica. A ironia, que subjaz a todo o romance, é que se sabe como tudo terminou: a esperança e o sonho foram de novo esmagados pela perseguição, destruição e morte. Saliente-se, por último, que segundo as palavras do próprio autor, esta sua obra é “a mais cinematográfica”, provavelmente por ser a mais próxima dos modelos clássicos da narrativa.

O segundo título, ”Lejos de Toledo” (utilizo o título espanhol, visto que é a versão mais próxima do original), é o que mais diretamente se refere à história pessoal do autor e dos seus antepassados. O narrador é um velho especialista na história de Bizâncio, que regressa à sua terra natal búlgara, numa fase posterior ao fim do regime comunista e que aí encontra não só um antigo amor de adolescência, mas também o arquivo de um velho fotógrafo, onde está registado a história do seu povo nas últimas décadas. Com esta base, o historiador vai recriando, a partir dos seus antepassados, o percurso dos sefarditas, desde que foram expulsos de Espanha, passando pela Revolução Francesa, até se fixarem no Leste da Europa, e os diversos pogrons e perseguições que sofreram, as suas desesperadas tentativas de conseguirem ter um quotidiano normal e aceite pelos “vizinhos” e a sua decadência como comunidade autónoma. O registo narrativo assenta, mais uma vez, no humor, que procura realçar o absurdo das situações descritas e também a ambivalência das personagens entre os valores da religião que herdaram e a sua integração social, mas, neste caso, tingido de uma tonalidade acentuadamente nostálgica.   

Mas, sem sombra de dúvidas, a obra-prima de Angel Wagenstein é o seu primeiro romance, “Isaac’s Tora”, cujo longo subtítulo, “Concerning the Life of Isaac Jacob Blumenfeld Through Two World Wars, Three Concentration Camps and Five Motherlands”, permite já dar uma ideia da sua trama. O livro relata o destino do seu narrador, Isaac Blumenfeld, um simples alfaiate judeu da Galícia, que tem como único desejo de vida o de continuar a seguir os passos dos seus antepassados, sofrendo, mais do que crendo, o seu destino de judeu. Porém, é sobre ele que cai, como uma praga, sem abandonar a sua aldeia, todo o percurso mirabolante que o subtítulo descreve. Nesta situação está a extrema ironia da obra e o absurdo que a estrutura. Horrível absurdo esse que, em grande parte, foi comum a toda a comunidade judaica da Europa Oriental (a mesma que já tinha sido retratada por Sholom Alecheim, Shmuel Yosef Agnon e Isaac Bashevis Singer, escritores a quem Angel Wagenstein muito deve): a de ser consumida nos crematórios nazis e desvanecer-se no fumo que sai das suas chaminés.

A grande peculiaridade deste romance, é que resolve encarar a tragédia deste percurso com as armas do humor tradicional judeu, coligindo inúmeras histórias pícaras que os judeus contam sobre si, ao mesmo tempo que procura perceber como a sabedoria hassídica ajudou esta comunidade a enfrentar os atrozes desígnios de Deus… ou a Sua distracção. Essa ironia realça-se principalmente nos diálogos ininterruptos que o narrador tem com o seu maior amigo, Shmuel Bendavid, um Rabino que é ao mesmo presidente do Clube dos Ateus (?), e que foi empurrado para estas funções pela sua própria comunidade para que, com os seus conhecimentos e sensatez, a oriente e conduza nas “areias movediças” dos tempos sinistros que estão a atravessar.

Por último, deve salientar-se que a ironia que tinge toda esta obra não é um mero exercício estilístico, mas que reflecte a própria forma de estar com que o povo judeu procurou sobreviver, e que a sua utilização narrativa é um manifesto sinal de compreensão e afecto para com uma comunidade que se desvaneceu no tempo, mas que era composta por homens concretos e reais que o romance procura descrever a existência de uma forma detalhada e objectiva. Não há, e esse é um dos grandes méritos desta obra de Angel Wagenstein, nenhum estereótipo nem nenhum escamoteamento da brutalidade do destino que caiu sobre esta comunidade. E é por isso mesmo que a ironia se revela um eficaz instrumento de denúncia de todo e qualquer pensamento (e da correspondente acção política) que necessita de criar bodes expiatórios, sem rosto e informes, para atingir os seus desumanos desígnios.

Os três romances de Angel Wagenstein estão todos traduzidos para francês, espanhol e italiano. Para inglês e alemão estão apenas dois. 

Desconheço a autoria da foto do escritor.

Julho de 2020


sexta-feira, 19 de junho de 2020

ARTO PAASILINNA


OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

16ª Vinheta


ARTO PAASILINNA


Arto Paasilinna (1942-2018) é seguramente o escritor finlandês mais conhecido em todo o mundo, tendo a sua obra atingido esse pico de popularidade (e de vendas) nas duas últimas décadas do séc. XX. De facto, mesmo sendo um “campeão” de vendas no seu país, foi no exterior da Finlândia que ela granjeou a sua projecção, principalmente em França, onde é muito apreciada e respeitada.

Nascido na Lapónia, de uma família pobre e muito numerosa, Arto Paasilinna foi obrigado na sua infância, em consequência das guerras soviético-finlandesas, a sucessivas deslocações pelo norte da Finlândia. Tendo o pai morrido ainda o escritor era uma criança, o escritor teve uma formação quase apenas autodidacta e, por lhe terem reconhecido capacidades redactoriais, ainda muito novo começou a trabalhar nos jornais, onde se manteve durante uma década. Depois de publicar o seu primeiro romance em 1973, decidiu dedicar-se em exclusivo à actividade de romancista. Com o seu terceiro romance publicado, em 1975, cujo título, em inglês, é “The Year of the Hare” e, em francês, “La Lièvre de Vatanen”, obtém um enorme sucesso, tanto no seu país como no estrangeiro (ainda hoje é o livro mais famoso do autor), o que lhe garante definitivamente a sua vida como escritor. A partir dessa altura, e até 2009, ano em que teve um acidente vascular cerebral, publicou todos os anos um novo romance. O conjunto da sua obra ascende, por isso, a mais de uma trintena de romances, e ainda a várias colectâneas de contos e obras de temática diversa.

Porém, se a sua obra foi um inquestionável sucesso de público e de leitores, já não se pode afirmar que a crítica tenha sido tão unanime e consensual na defesa das suas qualidades literárias.

Creio, antes do mais, porque Arto Paasilinna é encarado como um humorista e que a sua obra, por vezes, carrega em excesso na componente caricatural das suas personagens. Este elemento estratégico da narrativa é tão acentuado, em detrimento de todos os outros, que provoca no leitor a ideia de que Arto Paasilinna é apenas um autor cómico. Em segundo lugar, porque a maior parte das suas obras realça, no essencial, um único tema: as incapacidades de um homem de classe média, urbano, em (sobre)viver. Inadaptadas, insatisfeitas com as imposições da sociedade de consumo, as personagens de Arto Paasilinna estão em constante “fuga”: ou se suicidam, ou deambulam perdidas e sem sentido, ou, por fim, escapam-se para o meio rural, em particular para a floresta finlandesa. Por isso, grande parte das tramas destes romances caracterizam-se por este “on the road”, tornando-se a viagem, e as peripécias consequentes, um elemento determinante. Em contraste, o mundo rural é apresentado como rude, por vezes com tónicas absurdas e quase irrealistas, mas onde as relações, mesmo sendo por vezes desconfiadas e hostis, se tornam gradualmente de uma grnuína franqueza e mais adequadas às necessidades existenciais de comunicação. Em terceiro lugar, porque as suas personagens aparecem com características muito semelhantes de livro para livro: os homens são sempre rudes e inadaptados e as mulheres seres egoístas, manipuladores, mas também muito inconsequentes.

Porém, deve ser realçada, como componente positiva, a diversificada crítica social, tocando um amplo conjunto de problemas comuns às actuais sociedades urbanas. Por outro lado, é também de destacar a relevância dada à floresta finlandesa como elemento interagente com as personagens, particularmente bem descrita e viva. Aliás, há uma componente muito relevante de fábula nos romances de Arto Paasilinna, onde, muitas vezes, os animais falam e se relacionam com os humanos. Em terceiro lugar, mesmo sendo o humor a tonalidade narrativa mais relevante na sua obra, há, inúmeras vezes, um “olhar” enternecido e condoído sobre as inadaptações das personagens. Por último, e provavelmente a mais relevante, há indiscutivelmente uma enorme capacidade criativa em Arto Paasilinna na elaboração de tramas e na arquitectura das situações narradas, atingindo uma dimensão surrealizante e absurda. É esta capacidade, associada a uma inquestionável fluidez narrativa, que tornam as suas obras acentuadamente agradáveis de leitura e justificam o seu sucesso.

No conjunto da sua obra, parece-me ser de destacar os seguintes romances: “Paratiisisaaren vangit” (na versão francesa, “Prisioners de l’île paradisiaque”), 1974, o já referido “Jäniksen vuosi” (na versão inglesa, “The Year of the Hare” e, em francês, “La Lièvre de Vatanen”), 1975, “Ulvova mylläri” (na versão inglesa, “ The Howling Miller”, na versão francesa, “Le Meunier hurlant”), 1981, Hirtettyjen kettujen metsä” (na versão francesa, “La Fôret des renards pendus”), 1983, “Hurmaava joukkoitsemurha” (na versão francesa, “Petits suicides entre amis”), 1990, e, por último, para evidenciar alguma obra da fase final da produção narrativa de Arto Paasilinna, “Kymmenen riivinrautaa” (na versão francesa, “Les Dix Femmes de l'industriel Rauno Rämekorpi”), 2001.

Das obras referidas, provavelmente a mais equilibrada e significativa seja “Ulvova mylläri” (na versão inglesa, “ The Howling Miller”, na versão francesa, “Le Meunier hurlant”). O romance, ocorrendo nos anos imediatos ao fim da II Guerra Mundial, quando a personagem principal, Gunnar Huttunen, depois de abandonar o exército, após a guerra da Lapónia, aparece numa aldeia rural no norte da Finlândia, com o fito de reconstruir um velho moinho. Hábil e metódico, conseguiu restaura-lo e inicialmente esse sucesso, associado à sua postura afável e ao facto de ser um animado contador de histórias, fez com que fosse bem acolhido pelos aldeões e até conseguisse seduzir a conselheira rural da terra… Só que Gunnar, entre outras pequenas bizarrias comportamentais, tinha um defeito perturbador: à mais pequena contrariedade, necessita de ir uivar como um lobo para o meio da floresta, acossando os cães e incomodando toda a aldeia. É esse defeito que leva os vizinhos a expropriar-lhe o seu moinho e a propor (e conseguir) que seja internado num hospício psiquiátrico, o que o obriga a esconder-se na floresta e a iniciar uma verdadeira “guerra” com os aldeões que, em crescendo, vai assumir contornos verdadeiramente grotescos e absurdos.

Esta parábola permite a Arto Paasilinna não só efectuar um verdadeiro libelo contra os comportamentos sociais intolerantes com a diferença, salientar como é ténue a pelicula que separa a loucura da normalidade e satirizar as posturas comunitárias que rapidamente se transformam, desde que vagamente afrontadas nas suas normas, em interesseiras, mesquinhas e corruptas.

A obra de Arto Paasilinna foi amplamente traduzida e editada em francês, alemão, italiano e espanhol.

No nosso país, editados pela Relógio d’Água, foram publicados os seguintes romances: “A Lebre de Vatanen” (“Jäniksen vuosi”), traduzido por Carlos Correia Monteiro de Oliveira e revisto por Frederico Sequeira; “Um Aprazível Suicídio Em Grupo” (“Hurmaava joukkoitsemurha”), traduzido por Merja de Mattos-Parreira e Ana Isabel Soares e revisto por Frederico Sequeira; e “As Dez Mulheres do Industrial Rauno Rämekorpi” (“Kymmenen riivinrautaa”), traduzido por Carlos Correia Monteiro de Oliveira e revisto por Júlia Ferreira e Inês Achega Leitão.   

Junho de 2020

Foto do autor de Martii Kainulainen