quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

PEDRO SALINAS

 
 
“A VOZ A TI DEVIDA”
 
            No quiero que te vayas,
            dolor, última forma
            de amar. Me estoy sintiendo
            vivir cuando me dueles
            no en ti, ni aquí, más lejos:
            en la tierra, en el año
            de donde vienes tú,
            en el amor com ella
            y todo lo que fue.
 
O que logo nos intriga, ao contactar com a obra poética de Pedro Salinas, é a inexistência de qualquer tradução (mesmo uma simples antologia) em língua portuguesa. Porque, apesar de tudo, nas últimas décadas, sempre se foi publicando alguma poesia traduzida… onde se tem destacado o número de obras de poetas de língua espanhola: lembro o papel editorial da Assírio & Alvim, da Relógio d’Água, da Cotovia, da Campo das Letras e da Quasi (constato agora que a maior parte delas faliu recentemente ou desistiu de se dedicar a esta linha editorial) e de tradutores, com trabalho consagrado e premiado, como José Bento, Albano Martins e Joaquim Manuel Magalhães. Recorde-se também que Pedro Salinas não só integra a chamada Geração de 27 (onde pontuam autores como García Lorca, Rafael Alberti, Vicente Aleixandre, Luis Cernuda, Jorge Guillén, Dámaso Alonso e Gerardo Diego), considerada como decisiva no percurso da poesia espanhola contemporânea e já relativamente bem conhecida e editada em Portugal, como é reconhecido como um dos maiores poetas de língua espanhola (de todos os tempos, mas em particular do século XX) de temática amorosa, tendo elaborado uma obra em que concilia uma enorme exigência conceptual e estética com uma linguagem mais acessível do que obscura.
 
 Pedro Salinas (1891-1951) dedicou toda a sua vida ao ensino universitário. Mal se formou, foi para leitor na Sorbonne, onde se doutorou. De seguida, deu entrada como professor nas universidades espanholas, tendo passado pelas de Sevilha, Múrcia e Madrid. Quando despoletou a Guerra Civil, estava a organizar e a dirigir a Universidade Internacional de Santander, e percebeu de imediato que não tinha condições para continuar em Espanha o seu trabalho pedagógico; por isso, aceitou o convite para ensinar no Wellesley College, nos Estados Unidos. Viveu o resto dos seus dias no exílio, ensinando, de forma alternada, na Universidade de Johns Hopkins e na de Puerto Rico. Morreu em Boston e foi enterrado em San Juan de Puerto Rico, junto ao mar que, na última etapa da sua existência, se tornou para ele uma referência simbólica à serena eternidade da vida.
 
 É comum imaginar-se que os poetas de temática amorosa tiveram uma atribulada vida afectiva, repleta de paixões arrebatadoras e de enorme dramaticidade… Não parece ser o caso de Pedro Salinas. Sabe-se apenas que as obras do autor, que são consensualmente consideradas como as mais perfeitas e acabadas (La Voz A Ti Debida, Razón De Amor e Largo Lamento), publicadas na década de trinta, foram motivadas por uma intensa (mas discreta) paixão amorosa por uma estudante norte-americana (e mais tarde professora de língua e literatura espanholas), Katherine R. Whitmore, bem documentada por um epistolário agora publicado.
 
O livro que li do autor é uma antologia da Alianza Editorial, publicada pela primeira vez no início da década de setenta e organizada por Julio Cortázar. O critério da selecção, para lá do gosto pessoal do organizador, assenta, em consonância com a concepção de poesia de Pedro Salinas, numa “visión atemporal”, “reuniendo poemas por afinidades y ritmos y contactos, de manera que todo está barajado como hay que barajar um mazo antes de esa gran partida en la que el poeta y su lector se juegan lo mejor que tienen.” E, como conclusão, Julio Cortázar constata que, sem ser esse um critério prévio, agregou essencialmente a poesia amorosa do autor (onde sobressaem, repito, as obras já acima referidas), entendendo que é nela que se torna mais relevante a sua dimensão lírica, alcançando a envergadura da poesia do seu parceiro de geração Luis Cernuda, ou de Octávio Paz, ou ainda, reclama o autor destas linhas, de Vicente Aleixandre e de Pablo Neruda.      
 
Na caracterização da obra de Pedro Salinas, deve-se, antes de mais, assinalar que, em termos de “ars poetica”, ela deriva bastante das concepções que Juan Ramón Jiménez (poeta que profundamente influenciou Pedro Salinas no início da sua obra) delineou para definir o seu próprio universo lírico. Como é sabido, na sua fase de maturidade, Jiménez defendeu uma poesia “pura”, despojada de circunstâncias que dessem um lastro inútil às imagens e metáforas que deveriam arquitectar, com precisão e rigor, mas sem referências a lugar e a tempo, a ordem interna do poema: o efeito estético resultava assim da objectividade sem mácula com que eram construídos os arquétipos simbólicos. Esta concepção da poesia, que impera nas colectâneas da década de vinte de Pedro Salinas, torna-se, nas obras seguintes (e que em substância “preenchem” a antologia que estamos a comentar), numa espécie de húmus para uma nova visão da poesia: esta passa a ser entendida como uma tentativa incessante de compreender a realidade, superando as suas opacidades imediatas; para conseguir atingir este Absoluto, a realidade deverá metamorfosear-se em símbolo no poema, e essa mutação só será possível se o poeta não se sujeitar à emoção, esforçando-se por usar as armas da inteligência sensível na elaboração da sua linguagem poética. Saliente-se que os detractores da obra deste poeta, que a acusam de ser demasiado “intelectualizada” e abstracta, cheia de exercícios lógicos e de sofisticados paradoxos, estão, no fundo, a reagir, sem aceitar nem compreender, aos próprios parâmetros estéticos em que foi concebida.
 
Não há dúvida, porém, que o aspecto mais relevante da obra de Pedro Salinas emana da sua concepção da relação amorosa. O poeta, em particular nas três colectâneas já acima referidas, reformula numa variante peculiar a concepção que encara o Amor como uma obsessiva busca para a fusão entre amante e amado, já com uma longa tradição no Ocidente (remonta, pelo menos, à Grécia Arcaica, com o mito do ovo cósmico/casal primordial, e prolonga-se até à “simbiose emotiva e espiritual” do romantismo e à “dissolução vitalista” de D. H. Lawrence). Na sua poesia, Pedro Salinas destaca principalmente a transfiguração do amante pelo objecto amado; quer isto dizer, que o amante perde por completo a sua autonomia ôntica, transformando-se numa espécie de “duplo” (de casulo) do amado: é este que “produz sentido” no amante, dando-lhe significado existencial e, desse modo, a todo o universo. Note-se que é essa a interpretação que se deverá deduzir de um dos títulos de uma das colectâneas mais importantes de Pedro Salinas, La Voz A Ti Debida (retirado, por sua vez, de um verso de Garcilaso de la Vega): o poeta não passa de um “médium” do amado(a) que, através dele, “fala e diz”. Por outro lado, também se pode perspectivar neste mesmo título uma radicalização da imagem romântica da “musa”: o poeta/amante é uma mera caixa de ressonância que vibra pelo efeito que sobre si produz a simples existência do amado(a).
 
E saliento o facto de a “simples existência” do amado(a), na lírica de Pedro Salinas, transformar o amante na sua vítima emotiva: como alude a epígrafe/subtítulo de La Voz A Ti Debida, subscrita por Shelley (“Thou Worder, and thou Beauty, and thou Terror”), tudo no amado – incluindo a sua ausência, física ou afectiva – gera um complexo emocional que transforma o amante num ser vibrátil, perdido entre o desespero e um dilacerante júbilo, entre a melancolia e uma irradiante e solar euforia. O Amor torna-se assim no Absoluto que o amante vê reflectido em tudo o que o rodeia e tudo transfigura: por isso, não existe maior prova do carácter totalizador do Amor do que sentir a sua presença avassaladora, mesmo (para não dizer principalmente) na ausência do amado...
 
Pedro Salinas, de modo coerente com a sua concepção de uma poesia “pura” (que almeja esse núcleo da realidade que está sempre para além do horizonte da palavra), restringe diversas vezes a nomeação do amante e do amado a um “eu” e a um “tu”, globalizantes e, de certo modo, abstractos. Esta utilização dos pronomes para indicar os agentes amorosos visa, de forma bem nítida, realçar a dialéctica dialogante do Amor. Porém, ao contrário do que consideram os detractores desta poesia, não há nenhuma intenção de gerar uma polissemia difusa que possa levar a uma contaminação dos conceitos de amante e de amado por outros conceitos filosóficos ou literários laterais (a Verdade, a Poesia, etc.): a leitura atenta dos poemas permite perceber que os pronomes são contextualizados de forma a estabelecer (tantos são os sinais de erotização corpórea) um perfeito equilíbrio entre símbolo e carnalidade no seu substrato.
 
Creio que, um pouco como sucedeu com Julio Cortázar e que com a maioria dos seus leitores, fui impelido a privilegiar a componente do lirismo amoroso da obra de Pedro Salinas. Provavelmente, porque é, com a passagem do tempo, aquela que se revela mais fascinante e mais original. Porém, é correcto assinalar que o presente texto não pretende ser mais do que uma introdução muito genérica à obra do autor e que, por isso mesmo, poderá dar uma visão muito estática dela, sem reflectir a diversidade filosófica (e até psicológica) com que, de poema para poema, num quadro formal muito constante, se vai analisando a problemática amorosa. Além disso, é injusto não anotar aqui, pelo menos, duas outras temáticas, entre várias, com significativa expressão na obra do poeta e que, em particular, se destacaram na sua fase final: a consciência da infinitude da dimensão temporal (bem representada pela já referida simbólica do mar) e das brutais adversidades que o Homem sujeita o seu próprio Destino. Creio que não vale a pena recordar que Pedro Salinas, mesmo no exílio, viveu de um modo doloroso a Guerra Civil que dilacerou o seu país e assistiu à tremenda carnificina da última Guerra Mundial, e que isso, naturalmente, teve de deixar decisivas “marcas” na sua obra.
 
 
Publicado na web em 2010.
 
Título: Poesía
Autor: Pedro Salinas
Selecção e nota preliminar: Júlio Cortázar
Editor: Alianza Editorial
Ano: 1999
190 págs., € 4,50
 
 
 
 



domingo, 11 de dezembro de 2016

HALIM BARAKAT

 
 
DESEJO DE LER(4): HALIM BARAKAT
Quem já contactou com a academia norte-americana sabe que está repleta de intelectuais de todos os cantos do mundo que ela seduziu para o seu sistema. É o que sucede, por exemplo, no domínio das humanidades e das ciências sociais: não deve haver país nenhum do mundo que não tenha um intelectual a ensinar ou a investigar nas universidades americanas. No caso português, são bem conhecidos os casos de escritores e outros intelectuais que, ao longo do séc. XX, foram acolhidos, por temporadas variáveis, pela academia norte-americana e ali desenvolveram competências, saberes e criatividade.
Os motivos, que levam a que tal suceda, são inúmeros e é inútil aqui referenciar.
Mas há um caso que sempre me intrigou e que é o dos intelectuais árabes. Porque é importante lembrar: o confronto de civilizações e a diabolização dos Estados Unidos ou do Mundo Árabe não são de hoje e estes intelectuais sempre viveram planando por cima de um universo de incompreensão e hostilidade que seguramente lhes provocou (e provoca) um tremendo mal-estar.
É o caso do contista, romancista e ensaísta Halim Barakat (cuidado: não confundir com Salim Barakat, um escritor sírio mais novo, actualmente também exilado na Suécia, e que é considerado como um dos mais importantes narradores em língua árabe em plena actividade), que nasceu na Síria, numa família cristã ortodoxa, mas cresceu no Líbano e formou-se na Universidade Americana de Beirute.
Talvez a sua origem e formação expliquem a sua “transferência” para as universidades americanas, onde ensinou toda a vida, em particular na Universidade de Georgetown.
Mesmo radicado nos Estados Unidos, Halim Barakat sempre escreveu em árabe. Hoje já tem oitenta anos, e o seu primeiro livro, uma colectânea de contos, foi publicada em meados da década de cinquenta, tinha ele vinte. Depois foi publicando vários romances e livros de contos, em redor do conflito Israelo-árabe e sobre a particular complexidade da sociedade libanesa. Os mais importantes, provavelmente, são Six Days (1961) (um romance profético…), Days of Dust (1967), cuja tradução inglesa veio acompanhada de um prefácio do seu amigo Edward Said, e The Crane (1988).
Creio que são homens, como Halim Barakat, que, pelo seu estatuto de árabes não-islâmicos e pelo seu trabalho, poderão “minar” as colossais muralhas que os dois lados civilizacionais se obstinam em cimentar.
Talvez, por isso, não seja de estranhar que a obra mais conhecida deste autor nos Estados Unidos seja um ensaio com um título programático: The Arab World: Society, Culture and State.    

 



 






segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

MARGUERITE DURAS

 
 

A DENSIDADE DA ESPUMA DOS DIAS

 
Comecei a ler Outside com uma atitude preconceituada, confesso-o. Temo sempre os livros de autores, em termos sociais, excessivamente amados, que são feitos de textos de circunstância, de “repescagens”. Parece-me que isso deriva sempre de um “culto” que é ignominioso para o leitor…e para o autor. Receava, portanto, que este livro fosse, na verdade, qualquer coisa de sórdido e pouco recomendável.

 
Abri-o, por isso, a receio, tacteando-o, antes de o começar. Mas a premência da leitura empurrou-me. E o resultado foi de um relativo espanto.

 
É evidente que se reconhece nestes textos o “tom” de Marguerite Duras. Textos, de facto, ocasionais (ela própria o diz no prefácio), resultado de propostas de trabalho, ou da necessidade de compensar o esforço “interior” de oito horas diárias de escrita, ou, ainda, de dar ressonância e eco a qualquer assunto de quotidiano, opressivo em excesso.

 
Textos muito diversos, que vão desde o comentário ao “fait-divers”, à entrevista a Georges Bataille ou a um director literário, à análise de um facto cultural, considerado pela autora como relevante, ou até à descoberta íntima de certas ofuscantes actrizes. Comum, têm o de serem textos à margem de uma obra que noutro lugar se fazia, textos feitos na premência de intervir na cultura e na sociedade francesa.

 
No entanto, estes textos revelam, como em “flash”, certas constâncias e preocupações de base na obra de Marguerite Duras. Todos respiram uma espécie de “acto de amor” que, à partida, é difícil de classificar, mas que lhes permite uma “proximidade” ao facto, uma “intensidade” no acontecer, liberta de mediações, que nos faz lembrar os preceitos que Leiris precisou no início de L’Âge de l’Homme em relação à literatura e à própria vida. É como se a autora recusasse ler os “destinos” e as figuras que retrata com outros instrumentos que não fossem os abertos por eles próprios.

 
Não se quer dizer com isto que estes textos de Marguerite Duras derivem de qualquer tipo de “neutralismo”, de um "grau zero de escrita" ou de um “vazio teórico”. É notório, em todos eles, que a autora não acredita nisso. Existe, de facto, uma metodologia de análise, uma posição teórica que nos faz lembrar a história de mosca num dos contos de Cortázar: revela-se, primeiro, “por dentro” o acontecimento, para entendê-lo tal como é, descobrindo-se assim como o meio (o sistema) está totalmente às avessas em relação a ele. Como, em resumo, não é a mosca que voa de pernas para o ar, mas sim o mundo que está, todo ele, de pernas para o ar em relação à mosca.

 
Este método faz-nos, parece, “ver” aquilo que todos nós já víamos; e, portanto, seria fácil classificar estes textos como resultantes de uma “retórica” do conhecido. Simplesmente, a grande diferença está no desvio de posicionamento em relação ao acontecimento. O que caracteriza, no essencial, o “tom” de Marguerite Duras é essa mudança de lugar, situando-se noutro, próprio, inqualificável. E o seu estilo não é mais do que a energia emanante, estruturada, desse lugar.

 
Deseja-se, antes do mais, com um vivo clamor, assinalar que o destino de uma vida, mais anónima e “animal” que aparentemente seja, tem a sua soberania, de tal ordem imponente, que qualquer juízo, vindo dos códigos sociais, só a reduz. O que sobressai, é que todo o destino tem um estilo, uma forma de o corpo se movimentar e de se entregar aos percursos que lhe criaram, digno do mais profundo amor, digno dessa silenciosa veneração - que é o único modo possível de encarar a esplendorosa criação divina:seja uma mulher analfabeta que revela todo o medo que a cidade lhe produz, com os seus sobranceiros códigos, mas que se encanta com a beleza gráfica da palavra “Lilaz”; ou a velha marginal, de setenta e um anos, que continua, até ao fim, a roubar e a ser presa, por não ter outra alternativa e por amar tanto viver que nem sequer imagina um fim deliberado; ou o assassino que, cumprindo a lógica de um destino e de um desejo, caminha para a mais brutal destruição, apagando o rasto de uma vida que assim o quis; ou a paixão de um homem por uma criança de doze anos que a incompreensão social obriga, por dignidade e terror, ao suicídio; ou a obstinação de uma mulher que, para satisfazer a noite dilacerante de desejo do seu amante, mata, renunciando-se até à mudez; etc., etc..

 
É o movimento subterrâneo, que está para lá da afirmação social de um rosto, aquilo que verdadeiramente o desenha, que interessa a Marguerite Duras. Escrever, como aparece na badana do livro, que estes textos têm origem numa sensibilidade de mulher, parece bastante irrelevante e supérfluo. O que importa salientar, é a tremenda força amorosa que é necessária para esta posição num sistema cultural que nos pretende transmitir uma Razão com ambição totalizante, e que, no fundo, apenas nos cria “culpabilizações”, “terrores”, por aquilo que fica de fora, pelo resíduo constante com que a Natureza se afirma.

 
Talvez, por isso, estes textos sejam, neste momento, contra a História, contra a ordem com que ela procura acompanhar o tempo. E, como tal, tão surdamente subversivos. Mas também tão generosos e fraternos para quem se sente, como Marguerite Duras, cada vez mais num desespero solidário com o destino dos outros (que, no fundo, é sempre o seu…).

 
 
 
Publicado na revista Plural em 1983.

 

Título: Outside
Autor: Marguerite Duras
Tradução: Maria Filomena Duarte
Editor: Difel
Ano: 1983
280 págs., 12,72 €
 
 




quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

CARLOS MOORE

 
DESEJO DE LER(3): CARLOS MOORE
 
No caso deste autor, a aproximação não foi tanto pela sua obra, mas pela sua biografia, porque há vidas que se tornam sintomáticas dos tempos (e é necessário entender o lado trágico e banal desta afirmação), de tal forma a História pesa sobre o destino pessoal.
Carlos Moore nasceu em Cuba e ainda adolescente, apanhado pela guerra civil que levou os castristas ao poder, fugiu com a família para os Estados Unidos. Aqui, o facto de ser negro levou-o a aproximar-se da comunidade afro-americana, da escritora Maya Angelou e do Harlem Writers Guild. Estes contactos permitiram-lhe descobrir a acção e o pensamento dos intelectuais americanos contra a segregação racial e a necessidade de estruturar uma “visão” que dignificasse a condição de negro. Convencido que a revolução castrista defenderia esses valores, decidiu regressar a Cuba.
Mas enganou-se. O problema da raça e da segregação racial não integrava os quadros do pensamento marxista e o novo poder não o reconhecia como uma temática com relevância social. E pagou o seu erro com a prisão e o exílio: em 1963 foi obrigado a abandonar definitivamente a ilha.
Mas esta situação traçou-lhe o destino. No exílio, passou a dedicar-se ao estudo dos fenómenos raciais nas sociedades contemporâneas (doutorou-se em França, na Universidade Paris VII, e tem dado aulas, em redor desta temática, em diversas universidades dos dois lados do Atlântico) e, de forma militante, à causa do pensamento sobre a condição negra (pan-africanismo, negritude, etc.), divulgando o papel dos activistas e dos intelectuais mais relevantes que combatem a descriminação racial.
Publicou, por isso, importantes ensaios que visam compreender a formação dos fenómenos racistas mas actuais sociedades ocidentais e sobre o papel “oculto” da população de origem africana no mundo contemporâneo.
E foram esses estudos que o encaminharam para uma nova causa militante, acompanhada, como sempre, de mais investigação etnográfica e social: a situação das populações aborígenes que, ainda presentemente, continuam a ser perseguidas e marginalizadas, em particular no Sudoeste Asiático e na Austrália. 
Mas as obras que lhe deram mais notoriedade pública não foram, naturalmente, os estudos, mas a sua autobiografia e a biografia de Fela Kuti, um músico rock nigeriano. A sua autobiografia, intitulada “Pichón: Race and Revolution in Castro’s Cuba”, descreve e analisa os seus confrontos com o poder castrista; a biografia, intitulada “Fela, Fela: This Bitch of a Life”, retrata a figura muito peculiar (e malograda) de Fela Kuti, um músico nigeriano, criador do afrobeat, e um radical opositor da corrupta clique governamental nigeriana doa anos setenta e oitenta que o vai procurar destruir, a ele e ao movimento que, entretanto, criou, através de uma brutal violência policial e militar.
O exílio de Carlos Moore, por razões de militância e ensino, tem-se revelado de um constante nomadismo: já viveu em França, no Senegal, na Nigéria, no Egito, nos Estados Unidos, nas Antilhas, etc. Até que descobriu o Brasil: hoje vive em Salvador e não pensa abandonar a cidade e o país.
Em Portugal, como se sabe, a problemática tratada pela obra de Carlos Moore é irrelevante (desculpem a ironia); talvez, por isso, o autor seja cá, de todo, desconhecido.
 

 

 



sexta-feira, 18 de novembro de 2016

PAUL ÉLUARD

 
 
A IMPLACÁVEL UNIVERSALIDADE DO AMOR
 
É sabido que uma das estratégias habituais do discurso poético tem sido a tentativa de “diluição” da circunstância que está na sua origem e que essa tem procurado ser, ao longo dos tempos, um dos seus elementos distintivos em relação ao discurso narrativo. Diga-se de passagem que essa estratégia tem também “contaminado” e fundamentado a orientação teórica dos estudos literários nos últimos anos, em particular, no esforço de procurar autonomizar o(s) universo(s) literário(s) do registo biográfico dos autores.
 
Porém, há um caso na literatura francesa contemporânea em que esta estratégia do discurso poético aparece acentuada de forma obsessiva e em permanente tensão com exigências éticas e sociais que determinam um compromisso com a circunstância: é o caso da obra de Paul Éluard (1895-1952). De facto, quem ler a poesia deste autor só de modo elíptico e “transversal” se aperceberá das circunstâncias históricas, pessoais e sociais, que o autor viveu e que muitas vezes motivaram de forma directa a sua produção literária.
 
Isto pode parecer tanto mais estranho quanto é conhecido que Éluard manteve posições bem comprometidas na cultura (e na política) francesa do seu tempo e um papel activo nos tremendos acontecimentos históricos porque passou a Europa durante a existência dele: relembro que participou como enfermeiro militar na I Guerra Mundial, tendo essa experiência um papel decisivo na formação da sua sensibilidade e da sua consciência cívica, assim como, mais tarde, também foi importante a Guerra Civil de Espanha e, obviamente, a resistência ao nazismo e à ocupação da França (onde, mais uma vez, o poeta participou de forma militante). Além disso, Éluard teve um papel empenhado nas vanguardas estéticas da primeira metade do séc. XX: se deixarmos de lado – como fez o poeta – a sua produção até 1916, ainda tingida de um lirismo um pouco “fin-de-siècle”, recordo o seu envolvimento no dadaísmo, depois no surrealismo e, por fim, como assumiu, na última fase da sua vida, o estatuto de bardo do comunismo mundial.
 
A intensidade com que Éluard viveu todos estes movimentos e acontecimentos históricos já seria motivo para que se esperasse que, para além das inevitáveis mutações de orientação estética, a sua “presença” se tornasse bem legível na sua poesia. Saliente-se que, ainda por cima, além destes factos “públicos”, é também conhecido que Éluard passou por uma acidentada vida amorosa, onde grandes paixões foram estilhaçadas por rupturas e lutos sufocantes: a sua paixão por Gala (1913), o seu casamento (1917), e depois o rompimento (1930); o amor e o casamento com Nusch (1934) e a sua morte súbita (1946); por último, a redentora relação com Dominique (1947) e o casamento, um ano antes de morrer.
 
Quando afirmo isto, não escondo que alguns dos acontecimentos referidos – e, em particular, algumas mulheres da sua vida – são “enunciados” na sua poesia; mas uma leitura “branca” desses poemas permite perceber que esses dados são referenciados em “nomes”, sem que estes afectem a substância temática (?) do poema - que continua a pretender superar pela universalidade a circunstância nomeada.
 
Hoje, salienta-se que Éluard foi um grande “poeta da liberdade e do amor” e que, em particular sobre este último tema, ascende ao lugar de um dos poetas cimeiros da história da literatura francesa.
 
Porém, convém recordar que existe uma articulação orgânica entre o projecto político que Éluard preconizava e defendia e a sua concepção da relação amorosa, visto que, segundo o autor, os valores que dão densidade a esta são os que fundamentam o projecto político. E, por isso mesmo, não se pode escamotear – principalmente na avaliação da figura pública que também foi Éluard – o seu entusiástico apoio a Estaline e à sua linha política. Mas também não é lícito minimizar, por este facto, a elevada qualidade da sua poesia, como aconteceu, em parte, nas comemorações recentes do centenário do seu nascimento. De facto, mesmo em França, estas comemorações foram muito “pardacentas” e a esta situação não é, decerto, estranho as referidas opções políticas do poeta…
 
Recorde-se que a concepção amorosa de Éluard (e daí a sua conexão com a poética e com a política) é a de uma “harmonia primordial” só possível de atingir através da mulher amada - que, no fundo, serve de elo perfeito entre o amante e a natureza e a vida: nesse sentido é que se tem de compreender como a relação amorosa, por si só, se opõe e combate a “besta cega” da tirania e da opressão.
 
Por tudo isto, nunca é de mais dizer o seguinte: goste-se ou não da intervenção cívica do “intelectual” Paul Éluard, compreenda-se ou não os seus erros de análise histórica, não se deve escamotear, seja que de forma for, o facto objectivo de que Éluard é um dos grandes poetas de sempre da problemática amorosa.
 
Justificam-se estas considerações com a minha recente leitura de Últimos Poemas de Amor, numa tradução (e prefácio) de Maria Gabriela Llansol, editada pela Relógio d’Água.
 
Para quem não conhece a poesia de Éluard aconselho vivamente a sua leitura. Não só porque a edição é bilingue, como a tradução é feita por um dos mais complexos escritores portugueses contemporâneos (infelizmente, faleceu há poucos dias…). Além disso, a escritora redigiu um prefácio que dá, por um lado, uma interessante visão do poeta e, por outro, permite compreender o que aproxima Llansol de Éluard…
 
A terminar, gostaria de assinalar que considero esta tradução “irregular”… Quando utilizo este termo, estou a ponderá-lo com rigor: não que haja “erros” de tradução (nem isso seria de esperar de uma escritora de reconhecida probidade intelectual e que, ainda por cima, viveu uma larga temporada na Bélgica francófona), mas porque, a par de luminosas versões para português de alguns versos, há, aqui e além, algumas soluções que me parecem resultantes de uma típica sensibilidades de prosadora (mesmo peculiar, como era o caso de Maria Gabriela Llansol).
 
É evidente que este meu comentário resulta da facilidade de confrontar o texto original com o traduzido e poder com uma simples leitura questionar as opções de tradução (é essa, não há dúvida, uma das virtudes da edição bilingue). Repito, no entanto, para que não haja equívocos: estas minhas reticências são apenas resultantes de divergências de gosto…E quanto a gosto cada um tem o seu…
 
Publicado na web em 2008.
 
 
Autor: Paul Éluard
Título: Últimos Poemas de Amor
Tradução (e prefácio): Maria Gabriela Llansol
Editor: Relógio d’Água
Ano: 2003
293 págs.,  € 15,00
 



segunda-feira, 14 de novembro de 2016

DANIEL MELLA

 
 
 

DESEJO DE LER (2): DANIEL MELLA
 
Horacio Quiroga, Felisberto Hernández, Juan Carlos Onetti, Mario Benedetti. Armonia Somers, Eduardo Galeano, Cristina Peri Rossi, Carmen Posadas, Mario Delgado Aparaín e Jorge Majfud. Esta lista de dez nomes de autores do séc. XX, pelo menos para os amigos mais metidos nestas andanças da leitura, deverá bastar para referenciar uma das literaturas mais ricas e diversificadas da América Hispânica: a do Uruguai (não sei porquê, mas embirro com o adjectivo “uruguaia”).
Recordando a obra destes autores, e os seus títulos principais, alguns deles com uma relevância mítica, torna-se intrigante ler, em depoimentos redigidos pela mão de vários comentadores das literaturas em língua espanhola, que um jovem autor, com apenas três novelas, publicadas de jacto, umas a seguir às outras, tenha provocado uma verdadeira inflexão (?) na narrativa do Uruguai. É o caso de Daniel Mella (n. 1976) que, com apenas vinte e um anos publicou Pogo, seguindo-se Derretimiento e, em 2000, Noviembre.
Nesses comentários, realça-se sistematicamente a violência dos ambientes e das situações descritas e a elevada qualidade estilística das obras.
O intrigante é que o autor, depois de ter publicado estas obras, só voltou a publicar um breve livro de contos, intitulado Lavra (e que a crítica, mais uma vez, não poupou em encómios), em 2013. Além de dar aulas de inglês num liceu de um subúrbio distante de Montevideu, pouco mais se sabe dele pelas notas biográficas.  
Numa entrevista recente, por ocasião de uma reedição de um dos seus romances da década de noventa, o jornalista perguntou-lhe como está a reagir ao facto de se encontrar há tanto tempo sem publicar. E a resposta de Daniel Mella foi, pelo menos, interessante: disse que descobriu que se pode viver em plenitude sem publicar; mais: que se vive bem sem a pressão constante de escrever para publicar; que continua a escrever imenso, mas que, aquilo que escreve, não é para ser publicado; que escrever e escrever para ser publicado são duas actividades completamente distintas (já Delphine de Vigan, numa entrevista deste ano a um jornal português, dizia o mesmo), e que, como já foi referido, consegue viver bem sem a pressão desta última.
Esta posição é compreensível e aceitável. Sucede é que esta resposta oculta uma outra pergunta e a correspondente resposta: por que motivo foi tão premente publicar numa altura (a década de noventa, no caso de Daniel Mella) e depois deixou de o ser?    






 


FRANCIS GEFFARD




DAS DIFICULDADES DE EDITAR TRADUÇÕES

O editor Francis Geffard, diretor da importante coleção “Terres d’Amérique” da ed. Albin Michel, numa recente entrevista ao jornal Le Monde, refere que, decorrentes dos custos de tradução, oito em dez livros de origem estrangeira, publicados em França, não são rentáveis. E que, mesmo com boas críticas e boa imprensa, poucas são as obras deste tipo que atingem a venda de 1500 exemplares.

Confesso que estes dados, assim expostos, me deixaram perplexo.

Eu sei (mal de mim se não soubesse…) que os custos de tradução são importantes condicionantes da edição. Sempre assim foi.

Também é sabido que as dificuldades colocadas à circulação das obras pelos custos da tradução são um dos motivos que levaram à criação de programas públicos de apoio à tradução na maior parte dos Estados do chamado “1º mundo” (e não só), com excepção dos países de língua inglesa (à parte a Irlanda que também tem estes programas públicos).

Mas, por tudo isto, intriga-me esta informação dada na entrevista por Francis Geffard, pois é apresentada como se fosse uma situação recente. Ora, mesmo tendo em consideração a actual crise no consumo, sempre entendi que as dificuldades de comercialização das obras traduzidas (em relação às outras…) não se tinham substancialmente agravado. Ou terão?  

Sem ter uma informação de todo rigorosa, creio que as dificuldades em editar traduções no nosso país devem ser similares à França ou até mais graves.

Eu sei que os problemas da edição e da comercialização de livros em Portugal são muito diversos e que os riscos deste negócio são tantos que fazem com que todos os agentes (autores, editores e livreiros) vivam inquietos e com enormes angústias.

Sei também que não é muito relevante debater este assunto neste local. São outras as formas onde isso é mais útil.

Porém, sucede que nunca vi este problema referenciado (e muito menos analisado…) na comunicação social generalista ou “da especialidade”.

E isso é que é preocupante. Pois, se a tendência for para o agravamento das condições de comercialização de obras traduzidas, decorrente do seu baixo consumo, não será pertinente considerar que esta situação irá ter, a curto ou médio prazo, inevitáveis efeitos na diversidade das obras publicadas deste tipo com os consequentes (maus) resultados para a cultura portuguesa?

E não será também de considerar que esta situação, se for tão generalizada e universal como parece, estará a condenar os povos, incluindo o nosso, a um isolamento (só contrariado, de um modo insatisfatório, pelos media e pelo audiovisual, dando-lhes um estatuto cada vez mais preponderante) que só prenuncia um futuro bem sinistro?

Ou será que apenas acordei demasiado pessimista?
 
 
 
 
 
 


segunda-feira, 31 de outubro de 2016

STEPHEN McCAULEY

 
 
                                         

DESEJO DE LER (1): STEPHEN McCAULEY
 A melhor caracterização que li da obra deste autor americano é a de que parece ser “filha de um de “caso” amoroso entre Edith Wharton e Woody Allen”. Noutros comentários, li também referências à proximidade com a obra da escritora inglesa Barbara Pym. De facto, os romances de Stephen McCauley são uma espécie de “comédia de costumes” (e junto aqui mais uma referência: a obra de Marivaux) passada numa urbana e sofisticada “upper middle class” americana dos dias de hoje, constituída principalmente por professores universitários, galeristas, artistas e escritores. E onde se encena a “floresta de logros e encontros amorosos”, gays e héteros, em que este grupo se envolve, desencantando-se e envelhecendo, com a naturalidade, muito humor e a aparente ligeireza de quem vive por dentro este universo e, ao mesmo tempo, vai obtendo dele um sábio distanciamento.
Foi esta “naturalidade” que impressionou o leitor (há já quarenta anos) do primeiro romance de Stephen McCauley (um professor universitário desde sempre assumidamente gay), intitulado The Object of My Affection. Depois, seguiram-se mais cinco (de facto, este autor não é muito prolífero), onde se destaca The Easy Way Out, The Man of the House, Alternatives To Sex e Insignifiant Others. Percebeu-se, conforme os seus romances foram aparecendo, que o projecto literário deste autor era bem simples e comum (e, por isso, talvez mais fascinante): mostrar como a liberalização dos costumes e a saída da homossexualidade do seu “gueto”, mesmo libertando muita gente de inúmeras situações trágicas e absurdas, não chegaram para alterar a “malaise” ontológica do homem nem contribuíram para superar a sua incapacidade de ser plenamente feliz.
Curiosamente, ou talvez não, a obra deste autor tem tanto ou mais sucesso em França do que nos Estados Unidos. 

(Foto do Autor de Susan Wilson