“A VOZ A TI DEVIDA”
No quiero que te vayas,
dolor, última forma
de amar. Me estoy sintiendo
vivir cuando me dueles
no en ti, ni aquí, más lejos:
en la tierra, en el año
de donde vienes tú,
en el amor com ella
y todo lo que fue.
O que logo nos intriga, ao contactar com a obra
poética de Pedro Salinas, é a inexistência de qualquer tradução (mesmo uma
simples antologia) em língua portuguesa. Porque, apesar de tudo, nas últimas
décadas, sempre se foi publicando alguma poesia traduzida… onde se tem
destacado o número de obras de poetas de língua espanhola: lembro o papel
editorial da Assírio & Alvim, da Relógio d’Água, da Cotovia, da Campo das
Letras e da Quasi (constato agora que a maior parte delas faliu recentemente ou
desistiu de se dedicar a esta linha editorial) e de tradutores, com trabalho
consagrado e premiado, como José Bento, Albano Martins e Joaquim Manuel
Magalhães. Recorde-se também que Pedro Salinas não só integra a chamada Geração
de 27 (onde pontuam autores como García Lorca, Rafael Alberti, Vicente
Aleixandre, Luis Cernuda, Jorge Guillén, Dámaso Alonso e Gerardo Diego),
considerada como decisiva no percurso da poesia espanhola contemporânea e já relativamente
bem conhecida e editada em Portugal, como é reconhecido como um dos maiores
poetas de língua espanhola (de todos os tempos, mas em particular do século XX)
de temática amorosa, tendo elaborado uma obra em que concilia uma enorme
exigência conceptual e estética com uma linguagem mais acessível do que
obscura.
O livro que li do autor é uma antologia da Alianza
Editorial, publicada pela primeira vez no início da década de setenta e
organizada por Julio Cortázar. O critério da selecção, para lá do gosto pessoal
do organizador, assenta, em consonância com a concepção de poesia de Pedro
Salinas, numa “visión atemporal”, “reuniendo poemas por afinidades y ritmos y
contactos, de manera que todo está barajado como hay que barajar um mazo antes
de esa gran partida en la que el poeta y su lector se juegan lo mejor que
tienen.” E, como conclusão, Julio Cortázar constata que, sem ser esse um
critério prévio, agregou essencialmente a poesia amorosa do autor (onde
sobressaem, repito, as obras já acima referidas), entendendo que é nela que se
torna mais relevante a sua dimensão lírica, alcançando a envergadura da poesia do
seu parceiro de geração Luis Cernuda, ou de Octávio Paz, ou ainda, reclama o
autor destas linhas, de Vicente Aleixandre e de Pablo Neruda.
Na caracterização da obra de Pedro Salinas,
deve-se, antes de mais, assinalar que, em termos de “ars poetica”, ela deriva
bastante das concepções que Juan Ramón Jiménez (poeta que profundamente influenciou
Pedro Salinas no início da sua obra) delineou para definir o seu próprio
universo lírico. Como é sabido, na sua fase de maturidade, Jiménez defendeu uma
poesia “pura”, despojada de circunstâncias que dessem um lastro inútil às
imagens e metáforas que deveriam arquitectar, com precisão e rigor, mas sem
referências a lugar e a tempo, a ordem interna do poema: o efeito estético
resultava assim da objectividade sem mácula com que eram construídos os
arquétipos simbólicos. Esta concepção da poesia, que impera nas colectâneas da
década de vinte de Pedro Salinas, torna-se, nas obras seguintes (e que em
substância “preenchem” a antologia que estamos a comentar), numa espécie de
húmus para uma nova visão da poesia: esta passa a ser entendida como uma
tentativa incessante de compreender a realidade, superando as suas opacidades
imediatas; para conseguir atingir este Absoluto, a realidade deverá
metamorfosear-se em símbolo no poema, e essa mutação só será possível se o
poeta não se sujeitar à emoção, esforçando-se por usar as armas da inteligência
sensível na elaboração da sua linguagem poética. Saliente-se que os detractores
da obra deste poeta, que a acusam de ser demasiado “intelectualizada” e
abstracta, cheia de exercícios lógicos e de sofisticados paradoxos, estão, no
fundo, a reagir, sem aceitar nem compreender, aos próprios parâmetros estéticos
em que foi concebida.
Não há dúvida, porém, que o aspecto mais relevante
da obra de Pedro Salinas emana da sua concepção da relação amorosa. O poeta, em
particular nas três colectâneas já acima referidas, reformula numa variante
peculiar a concepção que encara o Amor como uma obsessiva busca para a fusão
entre amante e amado, já com uma longa tradição no Ocidente (remonta, pelo
menos, à Grécia Arcaica, com o mito do ovo cósmico/casal primordial, e
prolonga-se até à “simbiose emotiva e espiritual” do romantismo e à “dissolução
vitalista” de D. H. Lawrence). Na sua poesia, Pedro Salinas destaca
principalmente a transfiguração do amante pelo objecto amado; quer isto dizer,
que o amante perde por completo a sua autonomia ôntica, transformando-se numa
espécie de “duplo” (de casulo) do amado: é este que “produz sentido” no amante,
dando-lhe significado existencial e, desse modo, a todo o universo. Note-se que
é essa a interpretação que se deverá deduzir de um dos títulos de uma das
colectâneas mais importantes de Pedro Salinas, La Voz A Ti Debida
(retirado, por sua vez, de um verso de Garcilaso de la Vega): o poeta não passa
de um “médium” do amado(a) que, através dele, “fala e diz”. Por outro lado, também
se pode perspectivar neste mesmo título uma radicalização da imagem romântica
da “musa”: o poeta/amante é uma mera caixa de ressonância que vibra pelo efeito
que sobre si produz a simples existência do amado(a).
E saliento o facto de a “simples existência” do
amado(a), na lírica de Pedro Salinas, transformar o amante na sua vítima
emotiva: como alude a epígrafe/subtítulo de La Voz A Ti Debida,
subscrita por Shelley (“Thou Worder, and thou Beauty, and thou Terror”), tudo
no amado – incluindo a sua ausência, física ou afectiva – gera um complexo
emocional que transforma o amante num ser vibrátil, perdido entre o desespero e
um dilacerante júbilo, entre a melancolia e uma irradiante e solar euforia. O
Amor torna-se assim no Absoluto que o amante vê reflectido em tudo o que o
rodeia e tudo transfigura: por isso, não existe maior prova do carácter
totalizador do Amor do que sentir a sua presença avassaladora, mesmo (para não dizer
principalmente) na ausência do amado...
Pedro Salinas, de modo coerente com a sua
concepção de uma poesia “pura” (que almeja esse núcleo da realidade que está
sempre para além do horizonte da palavra), restringe diversas vezes a nomeação
do amante e do amado a um “eu” e a um “tu”, globalizantes e, de certo modo, abstractos.
Esta utilização dos pronomes para indicar os agentes amorosos visa, de forma
bem nítida, realçar a dialéctica dialogante do Amor. Porém, ao contrário do que
consideram os detractores desta poesia, não há nenhuma intenção de gerar uma
polissemia difusa que possa levar a uma contaminação dos conceitos de amante e de
amado por outros conceitos filosóficos ou literários laterais (a Verdade, a
Poesia, etc.): a leitura atenta dos poemas permite perceber que os pronomes são
contextualizados de forma a estabelecer (tantos são os sinais de erotização
corpórea) um perfeito equilíbrio entre símbolo e carnalidade no seu substrato.
Creio que, um pouco como sucedeu com Julio Cortázar
e que com a maioria dos seus leitores, fui impelido a privilegiar a componente
do lirismo amoroso da obra de Pedro Salinas. Provavelmente, porque é, com a
passagem do tempo, aquela que se revela mais fascinante e mais original. Porém,
é correcto assinalar que o presente texto não pretende ser mais do que uma
introdução muito genérica à obra do autor e que, por isso mesmo, poderá dar uma
visão muito estática dela, sem reflectir a diversidade filosófica (e até
psicológica) com que, de poema para poema, num quadro formal muito constante,
se vai analisando a problemática amorosa. Além disso, é injusto não anotar
aqui, pelo menos, duas outras temáticas, entre várias, com significativa
expressão na obra do poeta e que, em particular, se destacaram na sua fase
final: a consciência da infinitude da dimensão temporal (bem representada pela já
referida simbólica do mar) e das brutais adversidades que o Homem sujeita o seu
próprio Destino. Creio que não vale a pena recordar que Pedro Salinas, mesmo no
exílio, viveu de um modo doloroso a Guerra Civil que dilacerou o seu país e
assistiu à tremenda carnificina da última Guerra Mundial, e que isso,
naturalmente, teve de deixar decisivas “marcas” na sua obra.
Publicado na web em 2010.
Título: Poesía
Autor: Pedro
Salinas
Selecção e nota preliminar: Júlio Cortázar
Editor: Alianza
Editorial
Ano: 1999
190 págs., € 4,50

























