Pedro Rosa Mendes: “O Horror, esse
lugar que ninguém queria admitir.”
Acabei agora de ler “Baia dos
Tigres”.
A “arte combinatória”, que orienta as
minhas leituras, fez com que lesse o conjunto da obra de Pedro Rosa Mendes ao
contrário; isto é, do fim para o princípio, começando pelo seu último livro e
acabando no primeiro. Mas não foi intencional, note-se; apenas sucedeu.
“Baía dos Tigres” é de facto a melhor
obra de Pedro Rosa Mendes. Até aqui nada de novo, pois uma boa parte dos
leitores e analistas portugueses também assim pensa; basta recordar as
recensões elogiosas que teve, os prémios que obteve, e os números das vendas
que conseguiu. E, porque não?, também as traduções e edições que teve no
estrangeiro. É certo que alguns leitores dividem-se e também consideram o seu
último livro, “Peregrinação de Enmanuel Jhesus”, de forma muito positiva, pois teve
um muito bom acolhimento crítico e também foi premiado. Mas sinceramente não
considero este romance tão conseguido como a sua primeira obra.
As razões desta minha preferência são
fáceis de enunciar. A primeira, é porque considero este livro como um dos
melhores sobre o tenebroso inferno em que se transformou a vida no interior de
Angola e de Moçambique (mas principalmente da primeira), em consequência da
guerra colonial e da guerra civil porque estes países passaram. E o valor deste
testemunho não está apenas na narração das situações que estas guerras geraram,
mas muito mais no poder expressivo com que essas situações são narradas em
“Baía dos Tigres”. O trabalho sobre a língua de Pedro Rosa Mendes dá uma notável
intensidade trágica a esta matéria, fazendo realçar a dimensão épica de um povo
anónimo e sem voz. Realmente, desconheço na literatura portuguesa páginas que
retratem de forma tão brutal e eloquente as dimensões mais inadmissíveis e
intoleráveis da existência em que viveu (e ainda vive) grande parte da
população angolana. Ao ponto de ser natural interrogarmo-nos sobre a dimensão
que existe neste livro de reportagem e aquela que reporta já para a ficção e para
o romance (“O Horror, esse lugar que ninguém queria admitir.”).
De facto, a capacidade expressiva de
“Baía dos Tigres” consegue, para além de tudo, contagiar-nos com o medo e o
cansaço do narrador-viajante, a sua compaixão e revolta pelas “desgraçadas”
vítimas da fome e da guerra com que se cruza, a imundice e a destruição que o
rodeia por todo o lado. Porque as inquestionáveis competências do autor como
repórter permitem-lhe atingir diversos registos, alternando o tom, entre o
humor amargurado e a mágoa, em que as situações são narradas, dando uma
objectiva vivacidade que estimula o leitor a seguir aquele rosário de
personagens, muitas vezes tingidas de um absurdo burlesco.
A segunda, é que, quando esta obra
apareceu nos finais da década de noventa, não era muito comum, na literatura
portuguesa contemporânea, pelo menos em forma de livro, a existência de obras
de literatura de viagens/reportagens com esta qualidade literária. Ora, “Baía
dos Tigres” permitiu chamar a atenção para esta lacuna e, a partir desta obra,
começaram a aparecer muitos mais livros de viagens redigidos pelos nossos
autores. Não quero dar a entender que haja uma mecânica causalidade entre o
aparecimento deste livro e esta alteração do panorama literário português, mas este
facto parece-me de ponderar.
Creio que estes elementos bastariam
para transformar “Baía dos Tigres” num marco importante na recente literatura
do nosso país. A única objecção que lhe coloco, e que é comum às restantes
obras de Pedro Rosa Mendes, é que não é ininteligível a estrutura que encaminha
a narrativa, dando nexo às diferentes situações descritas. Essa “falha”, na
minha opinião, também é notória em “Peregrinação de Enmanuel Jhesus”; só que,
neste caso, que é um romance, tem um peso muito maior do que numa obra de
literatura de viagens. Aliás, diga-se de passagem, esta aparente inexistência
de uma arquitectura é bem comum a muitos livros de viagens, dando a ideia de
que os autores consideram que o “roteiro”, que motivou a obra, lhes basta;
sucede, no entanto, que, em “Baía dos Tigres”, o autor optou, na minha opinião
de forma correcta, por não seguir narrativamente a sequência dos locais da
viagem; mas, por outro lado, também não é claro o que em alternativa fundamentou
a presente ordenação das narrativas.
Por último, gostava de assinalar mais
duas reflexões que a leitura desta obra me suscitaram.
Não interessa as circunstâncias, mas
tomei conhecimento de “Baía dos Tigres” ainda em forma de projecto. E já na
altura considerei, nessa condição, como muito, mas mesmo muito, interessante.
Saliente-se que o livro, como resultado desse projecto, falhou. Mas ainda bem,
porque a obra publicada revela-se muito melhor do que a que poderia gerar a
enunciação do projecto. O que permite chegar a uma curiosa conclusão: é que um
bom projecto tem quase sempre em germe um bom livro, mesmo que resulte em
moldes muito diferentes daquilo que foi previsto.
A última obra publicada de Pedro Rosa
Mendes, o já referido “Peregrinação de Enmanuel Jhesus”, foi em 2010. A partir
daí, o autor não publicou mais nenhum livro. É evidente que desconheço as
razões pessoais que originam esta situação. De facto, não tenho a honra nem o
gosto de me considerar amigo de Pedro Rosa Mendes, pois, ao longo dos anos, só
nos cumprimentámos, e trocamos algumas palavras, uma meia dúzia de vezes. Mas
recordo uma entrevista que o autor deu, quando recebeu, com este seu último
livro, o Premio PEN de Narrativa, em que afirmava esperar que, tal como a
crítica tinha gostado do romance, o público também gostasse e que isso se
reflectisse em livros vendidos. Não sei quais foram as vendas de “Peregrinação
de Enmanuel Jhesus”; mas talvez seja significativo (pelo menos, no nosso país,
onde as tiragens baixas, permitem realizar mais do que uma edição) que a obra
tenha tido uma única edição.
Por outro lado, recordo que Pedro
Rosa Mendes, para além de escritor, foi um brilhante jornalista e que efectuou
algumas reportagens particularmente importantes na nossa comunicação social. A
clareza com que expunha a matéria jornalística e a coragem com que afrontava as
situações e os poderes estabelecidos, tornaram-no num dos nossos jornalistas
mais respeitados. Nos últimos anos, no seguimento de outros trabalhos
jornalísticos, Pedro Rosa Mendes informou e deu notícia, de forma quase
obsessiva, sobre a situação angolana (o que não admira, depois de ter “vivido”
e escrito um livro como “Baía dos Tigres”), denunciando a incompetência e a
corrupção dos poderes políticos e económicos daquele país. No momento em que os
poderes políticos e económicos tratavam com complacência, para não falar de
cumplicidade, a situação angolana, argumentando com absurdas razões tácticas,
Pedro Rosa Mendes era das poucas vozes públicas em Portugal que afrontava essa
situação e a denunciava, expondo-se a processos judiciais (que sempre ganhou) e
a ameaças de toda a ordem. O resultado, recordo, foi o que se sabe: nos inícios
de 2012, cancelaram o programa na Antena 1, onde mantinha uma crónica, segundo
notícias públicas, por criticar frontalmente a realização de um programa da RTP
1 a partir de Angola, e depois de, já em 2011, a agência Lusa ter encerrado o
seu lugar de correspondente em Paris (de acordo com informações da altura,
porque era muito dispendioso). Em resumo, conseguiu-se silenciar Pedro Rosa
Mendes, deixando-o sem trabalho e sem acesso ao seu público.
Hoje, depois do “Luanda Leaks”, em que
se tornou admissível, de bom-tom, e até louvável, acusar Isabel dos Santos e a sua
família (que, durante quarenta anos, assinale-se, “imperou” em Angola) de
corrupção, de enriquecimento obscuro e de dar cobertura a outros “clãs” que
obscenamente enriqueceram com a exploração das riquezas do seu povo, deixando-o
na mais brutal miséria, é de toda a justiça recordar o trabalho e a figura de
Pedro Rosa Mendes.
Quanto ao autor, nada sei dele.
Segundo parece, desistiu do jornalismo, da literatura e possivelmente do país.
Ou estarei enganado? Se for o caso, e perante os trabalhos que realizou, como é
o caso de “Baía dos Tigres”, tem que se reconhecer que é profundamente
lamentável e uma grande perda.
Fevereiro de 2020.
Desconheço a autoria do foto do
escritor.













