segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

PEDRO ROSA MENDES



Pedro Rosa Mendes: “O Horror, esse lugar que ninguém queria admitir.”


Acabei agora de ler “Baia dos Tigres”.

A “arte combinatória”, que orienta as minhas leituras, fez com que lesse o conjunto da obra de Pedro Rosa Mendes ao contrário; isto é, do fim para o princípio, começando pelo seu último livro e acabando no primeiro. Mas não foi intencional, note-se; apenas sucedeu.

“Baía dos Tigres” é de facto a melhor obra de Pedro Rosa Mendes. Até aqui nada de novo, pois uma boa parte dos leitores e analistas portugueses também assim pensa; basta recordar as recensões elogiosas que teve, os prémios que obteve, e os números das vendas que conseguiu. E, porque não?, também as traduções e edições que teve no estrangeiro. É certo que alguns leitores dividem-se e também consideram o seu último livro, “Peregrinação de Enmanuel Jhesus”, de forma muito positiva, pois teve um muito bom acolhimento crítico e também foi premiado. Mas sinceramente não considero este romance tão conseguido como a sua primeira obra.

As razões desta minha preferência são fáceis de enunciar. A primeira, é porque considero este livro como um dos melhores sobre o tenebroso inferno em que se transformou a vida no interior de Angola e de Moçambique (mas principalmente da primeira), em consequência da guerra colonial e da guerra civil porque estes países passaram. E o valor deste testemunho não está apenas na narração das situações que estas guerras geraram, mas muito mais no poder expressivo com que essas situações são narradas em “Baía dos Tigres”. O trabalho sobre a língua de Pedro Rosa Mendes dá uma notável intensidade trágica a esta matéria, fazendo realçar a dimensão épica de um povo anónimo e sem voz. Realmente, desconheço na literatura portuguesa páginas que retratem de forma tão brutal e eloquente as dimensões mais inadmissíveis e intoleráveis da existência em que viveu (e ainda vive) grande parte da população angolana. Ao ponto de ser natural interrogarmo-nos sobre a dimensão que existe neste livro de reportagem e aquela que reporta já para a ficção e para o romance (“O Horror, esse lugar que ninguém queria admitir.”).

De facto, a capacidade expressiva de “Baía dos Tigres” consegue, para além de tudo, contagiar-nos com o medo e o cansaço do narrador-viajante, a sua compaixão e revolta pelas “desgraçadas” vítimas da fome e da guerra com que se cruza, a imundice e a destruição que o rodeia por todo o lado. Porque as inquestionáveis competências do autor como repórter permitem-lhe atingir diversos registos, alternando o tom, entre o humor amargurado e a mágoa, em que as situações são narradas, dando uma objectiva vivacidade que estimula o leitor a seguir aquele rosário de personagens, muitas vezes tingidas de um absurdo burlesco.

A segunda, é que, quando esta obra apareceu nos finais da década de noventa, não era muito comum, na literatura portuguesa contemporânea, pelo menos em forma de livro, a existência de obras de literatura de viagens/reportagens com esta qualidade literária. Ora, “Baía dos Tigres” permitiu chamar a atenção para esta lacuna e, a partir desta obra, começaram a aparecer muitos mais livros de viagens redigidos pelos nossos autores. Não quero dar a entender que haja uma mecânica causalidade entre o aparecimento deste livro e esta alteração do panorama literário português, mas este facto parece-me de ponderar.

Creio que estes elementos bastariam para transformar “Baía dos Tigres” num marco importante na recente literatura do nosso país. A única objecção que lhe coloco, e que é comum às restantes obras de Pedro Rosa Mendes, é que não é ininteligível a estrutura que encaminha a narrativa, dando nexo às diferentes situações descritas. Essa “falha”, na minha opinião, também é notória em “Peregrinação de Enmanuel Jhesus”; só que, neste caso, que é um romance, tem um peso muito maior do que numa obra de literatura de viagens. Aliás, diga-se de passagem, esta aparente inexistência de uma arquitectura é bem comum a muitos livros de viagens, dando a ideia de que os autores consideram que o “roteiro”, que motivou a obra, lhes basta; sucede, no entanto, que, em “Baía dos Tigres”, o autor optou, na minha opinião de forma correcta, por não seguir narrativamente a sequência dos locais da viagem; mas, por outro lado, também não é claro o que em alternativa fundamentou a presente ordenação das narrativas.  

Por último, gostava de assinalar mais duas reflexões que a leitura desta obra me suscitaram.

Não interessa as circunstâncias, mas tomei conhecimento de “Baía dos Tigres” ainda em forma de projecto. E já na altura considerei, nessa condição, como muito, mas mesmo muito, interessante. Saliente-se que o livro, como resultado desse projecto, falhou. Mas ainda bem, porque a obra publicada revela-se muito melhor do que a que poderia gerar a enunciação do projecto. O que permite chegar a uma curiosa conclusão: é que um bom projecto tem quase sempre em germe um bom livro, mesmo que resulte em moldes muito diferentes daquilo que foi previsto.

A última obra publicada de Pedro Rosa Mendes, o já referido “Peregrinação de Enmanuel Jhesus”, foi em 2010. A partir daí, o autor não publicou mais nenhum livro. É evidente que desconheço as razões pessoais que originam esta situação. De facto, não tenho a honra nem o gosto de me considerar amigo de Pedro Rosa Mendes, pois, ao longo dos anos, só nos cumprimentámos, e trocamos algumas palavras, uma meia dúzia de vezes. Mas recordo uma entrevista que o autor deu, quando recebeu, com este seu último livro, o Premio PEN de Narrativa, em que afirmava esperar que, tal como a crítica tinha gostado do romance, o público também gostasse e que isso se reflectisse em livros vendidos. Não sei quais foram as vendas de “Peregrinação de Enmanuel Jhesus”; mas talvez seja significativo (pelo menos, no nosso país, onde as tiragens baixas, permitem realizar mais do que uma edição) que a obra tenha tido uma única edição.

Por outro lado, recordo que Pedro Rosa Mendes, para além de escritor, foi um brilhante jornalista e que efectuou algumas reportagens particularmente importantes na nossa comunicação social. A clareza com que expunha a matéria jornalística e a coragem com que afrontava as situações e os poderes estabelecidos, tornaram-no num dos nossos jornalistas mais respeitados. Nos últimos anos, no seguimento de outros trabalhos jornalísticos, Pedro Rosa Mendes informou e deu notícia, de forma quase obsessiva, sobre a situação angolana (o que não admira, depois de ter “vivido” e escrito um livro como “Baía dos Tigres”), denunciando a incompetência e a corrupção dos poderes políticos e económicos daquele país. No momento em que os poderes políticos e económicos tratavam com complacência, para não falar de cumplicidade, a situação angolana, argumentando com absurdas razões tácticas, Pedro Rosa Mendes era das poucas vozes públicas em Portugal que afrontava essa situação e a denunciava, expondo-se a processos judiciais (que sempre ganhou) e a ameaças de toda a ordem. O resultado, recordo, foi o que se sabe: nos inícios de 2012, cancelaram o programa na Antena 1, onde mantinha uma crónica, segundo notícias públicas, por criticar frontalmente a realização de um programa da RTP 1 a partir de Angola, e depois de, já em 2011, a agência Lusa ter encerrado o seu lugar de correspondente em Paris (de acordo com informações da altura, porque era muito dispendioso). Em resumo, conseguiu-se silenciar Pedro Rosa Mendes, deixando-o sem trabalho e sem acesso ao seu público.

Hoje, depois do “Luanda Leaks”, em que se tornou admissível, de bom-tom, e até louvável, acusar Isabel dos Santos e a sua família (que, durante quarenta anos, assinale-se, “imperou” em Angola) de corrupção, de enriquecimento obscuro e de dar cobertura a outros “clãs” que obscenamente enriqueceram com a exploração das riquezas do seu povo, deixando-o na mais brutal miséria, é de toda a justiça recordar o trabalho e a figura de Pedro Rosa Mendes.

Quanto ao autor, nada sei dele. Segundo parece, desistiu do jornalismo, da literatura e possivelmente do país. Ou estarei enganado? Se for o caso, e perante os trabalhos que realizou, como é o caso de “Baía dos Tigres”, tem que se reconhecer que é profundamente lamentável e uma grande perda.     

Fevereiro de 2020.

Desconheço a autoria do foto do escritor.



sábado, 15 de fevereiro de 2020

JONA OBERSKI


OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES


8ª Vinheta




JONA OBERSKI


Jona Oberski (1938-) é um escritor holandês, filho de uma família judia alemã que fugiu para a Holanda, poucos anos antes da II Guerra Mundial se iniciar. Nos anos setenta do século passado, começou a publicar prosa narrativa e tem até hoje três livros editados. É formado em física nuclear.

Mas, sem sombra de dúvida, o que distingue Jona Oberski é o seu primeiro livro, de cariz autobiográfico, “Kinderjaren” (na versão inglesa, “Childhood”), entre livro de memórias e romance, publicado pela primeira vez em 1978. Para além da sua qualidade literária,  o que é mais relevante nesta obra é a sua dimensão de testemunho sobre o universo concentracionário dos campos nazis, feito a partir do olhar de uma criança.

De facto, Jona Oberski, com a idade de dois anos, foi deportado, com a sua família, para o campo de Westerbork, e depois, para o de Bergen-Belsen. Aqui esteve detido durante três anos, onde viu morrer o seu pai de fome e a sua mãe enlouquecer de dor.

A sorte de Jona Oberski é que, passado esse tempo, foi deportado, com a mãe e uma tia, para Auschwitz e que o comboio, que o transportava, foi bombardeado por um avião russo, descarrilando e permitindo a sua fuga para uma pequena aldeia ainda na Alemanha, onde conseguiu sobreviver até ao final da guerra.

Os méritos particulares de “Kinderjaren” derivam não só de ser o “olhar” de uma criança para a situação de guerra e para a existência no campo de concentração, mas também porque a própria narrativa procura acompanhar a inteligibilidade que ela tem deste universo, entre a perplexidade e o medo, tornando-se fragmentada, ilusória, sujeita à mediação e à segurança que lhe são transmitidas pelos adultos. Por outro lado, o autor procura sempre expressar, com nitidez, a interpretação que uma criança de tenra idade (o protagonista tem sete anos quando o livro termina) faz das situações trágicas e inimagináveis que está a viver, e essa atitude narrativa transmite a esta obra uma dimensão de verosimilhança que, em termos literários, é a sua principal componente expressiva.  

“Kinderjaren” foi traduzido para inglês, francês, espanhol, alemão e italiano.


Fevereiro de 2020




quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

PETER NÁDAS


OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

7ª Vinheta



PETER NÁDAS

Peter Nádas (1942-) é um escritor húngaro, de origem judia, considerado actualmente como um dos mais importantes autores europeus, que se tem dedicado à produção narrativa, ensaística e dramatúrgica, além de ser um grande apaixonado pela fotografia. Foi galardoado com vários prémios húngaros e europeus (recordo, entre muitos, o Österreichischer Staatspreis für Europäische Literatur/Austrian State Prize for European Literature, o Prix du Meilleur Livre Étranger e o Franz Kafka Prize) e foi nomeado por diversas vezes para o Prémio Nobel de Literatura.

Integrando uma das mais robustas literaturas europeias contemporâneas (recordo, para situar, os nomes de Tibor Déry, Sándor Márai, Péter Esterházy, György Konrád, Imre Kertész ou de László Krasznahorkai, para apenas referir os mais conhecidos no exterior da Hungria), Peter Nádas tem uma vasta obra, difícil de caracterizar, pois passou por diversas fases e centros de interesse. No entanto, pode afirmar-se que ela se caracteriza por uma reflexão muito peculiar sobre o fluir do tempo e da História e na sua acção sobre os destinos individuais e nas opções mais intimas e pessoais e ainda por uma constante desconfiança em relação ao papel dos podres públicos sobre a vida das pessoas - sendo esta posição de Peter Nádas resultante de ter vivido boa parte da sua existência sob o regime comunista húngaro. Por último, convém salientar que toda a sua obra reflete um registo de exigência moral para com a vida (a sua e a dos outros) de que resulta a necessidade de uma posição clara e inequívoca em termos políticos.

Há, no conjunto da sua obra narrativa, principalmente composta por novelas, curtos romances e textos de carácter mais autobiográfico, quatro romances que se destacam nitidamente (os títulos aqui apresentados são da sua versão inglesa): “The End of a Family Story” (edição original de 1977), “A Lovely Tale of Photography” (1999) e os monumentais “A Book of Memories” (1986) e “Parallel Stories” (2005), este último uma trilogia a que o autor dedicou cerca de dezoito anos.

“A Book of Memories”, como o título pretende assinalar, é um romance sobre o peso da memória no quotidiano e o seu estatuto no devir do eu como entidade unívoca. Sempre escrito na primeira pessoa, “A Book of Memories” é um conjunto de três narrativas encadeadas: a primeira, de uma personagem anónima, narra a infância e a adolescência de um jovem sob o regime estalinista húngaro e da sua incapacidade em atingir a plenitude intelectual e afectiva nesse contexto; depois, ainda na mesma narrativa, salta-se para a Berlim dos anos oitenta, onde o mesmo jovem, agora adulto, entre relações amorosas tempestuosas e intensas, procura escrever uma biografia de um escritor alemão, dos finais do séc. XIX e inícios do séc. XX, chamado Thomas; a segunda narrativa tem esta personagem como protagonista e narra a sua vivência quotidiana, feita de boémia e experimentação sensorial, característica dos meios modernistas, na passagem do século na Europa Central; a terceira narrativa tem como protagonista um amigo/amante do primeiro narrador, que herdou o manuscrito da biografia, e que regressa à tentativa de compreender, numa diferente perspectiva, a experiência de viver sob o regime comunista. Convém, por último, salientar que os críticos, resultante da sua complexidade filosófica, da densidade da análise psicológica e pelo seu sentido de observação, consideram esta obra muito devedora da narrativa proustiana e que, pela ambição de transmitir uma visão global do homem e da sociedade, está na linha das obras de Robert Musil e de Hermann Broch. É justificável assinalar ainda que Susan Sontag considerou “A Book of Memories” como “o mais importante romance escrito no nosso tempo (está a referir-se aos anos oitenta) e um dos maiores do séc. XX”.

 “Parallel Stories” é uma obra gigantesca que retrata o percurso de centenas de personagens durante o séc. XX na Europa Central, a partir de três protagonistas, amigos na década de sessenta, mas cujo passado, e mesmo o seu futuro, pouca relação têm entre si (o romance, em termos de arco temporal, vai desde os anos vinte aos anos oitenta), mas cuja existência reflete bem as mutações de mentalidade e de comportamento social e político que se processaram no séc. XX, tanto na Alemanha como na Hungria (mas o livro estabelece conexões com outras regiões da Europa Central e Oriental). Segundo o próprio autor afirmou, sentia necessidade de escrever este romance porque “A Book of Memories” tinha sido escrito sob o regime comunista, e com este, elaborado em maior liberdade, poderia clarificar as suas posições e explicitar certas situações que tinha omitido (como a perseguição dos judeus, os campos de concentração, e a própria II Grande Guerra) ou atenuado o seu relevo no anterior livro.

Neste sentido, talvez seja de assinalar que Peter Nádas dá muita importância à observação e ao pormenor, principalmente sensorial, que se tornam mais determinantes na obra do que a própria sucessão interminável (e que parece poder continuar indefinidamente) de situações que constituem a trama de elevada complexidade de “Parallel Stories”. Daí o enfâse na componente física, corpórea, das personagens (o autor costuma assinalar nas suas entrevistas que considera o corpo o centro de tudo), e o sentido que tem a descrição das emoções eróticas, que o autor analisa com uma minúcia quase clínica, para compreender as motivações e opções sociais das suas personagens.

As suas obras têm sido amplamente traduzidas em inglês, francês e alemão e também em espanhol e italiano.


Fevereiro de 2020

Foto do autor de Gábor Valuska





sábado, 8 de fevereiro de 2020

ANN-MARIE MACDONALD

OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

6ª Vinheta



ANN-MARIE MACDONALD


Ann-Marie MacDonald (1958-) é uma escritora canadiana que se tem destacado pelo seu trabalho dramatúrgico (obteve vários prémios com esta sua actividade criativa, incluindo o Governor’s General Award com a sua peça “Goodnight Desdemona”), como guionista e actriz, mas também por ter escrito três romances muito bem recebidos pela crítica e pelos leitores (“Fall on Your Knees”, 1996, “The Way the Crow Flies”, 2003, e “Adult Onset”, 2014).


Os romances desta autora centram-se no núcleo familiar e nos conflitos, ocultações, ambiguidades e traumas que se tecem no seu seio. E, assim, Ann-Marie MacDonald tanto se tem debruçado sobre as repercussões dos comportamentos nefastos dos seus membros nas relações intergeracionais, e cujos efeitos podem durar décadas e décadas (“Fall On Your Knees”), ou sobre as conexões difíceis, culpabilizadas e dolorosas que a família mantem com a sua envolvência (“The Way the Crow Flies”) ou ainda sobre o mal-estar gerado entre a maternidade e os projetos pessoais (“Adult Onset”). Mas sempre com estruturas narrativas muito complexas e trabalhadas, com inúmeras recorrências temporais, tramas elaboradas e sinuosas, um grande sentido de observação, diálogos bem contextualizados e peculiares (não fosse esta escritora uma notável dramaturga…), num estilo que concilia dramaticidade, lirismo e um suave fio de humor. Além disso, como as personagens principais são retratadas de uma forma global, incluindo as suas imperfeições e fragilidades, a autora consegue gerar no leitor uma sensação de mal-estar, pois este sente-se constantemente a balançar entre o repúdio e a empatia. Por último, duas notas mais para caracterizar a sua obra: há sempre, nos seus romances, alusões autobiográficas (como se partissem delas as construções romanescas) e uma ambiência que remete, como uma reminiscência, para a obra de Margaret Atwood (em particular, para o magnífico romance “Cat’s Eye”) e para as trilogias de Robertson Davies.


A obra que mais merece ser destacada (até porque hoje já é considerada um clássico da literatura contemporânea canadiana) é “Fall On Your Knees”, o seu primeiro romance, publicado em 1996. Esta obra é um romance histórico (como, de certo modo, também o é o romance seguinte, “The Way the Crow Flies”), que decorre desde o início do séc. XX, em Cape Breton Island (e a paisagem desta ilha, descrita entre o sombrio e o mágico, é determinante para a caracterização das personagens e do enredo romanesco), e os anos vinte e trinta do mesmo século, em Nova York, e que narra o percurso de James Piper, um homem perturbado pelas suas obsessões, e da família que constitui, composta pela sua mulher (que, quando vai viver com ele, é ainda uma criança) e pelas suas três filhas.


No essencial, pode afirmar-se que o romance divide-se em duas partes: uma primeira, em que a entidade determinante é a figura paterna, o referido James Piper, e a sua acção nefasta sobre a mulher e as filhas, até que, depois da sua participação voluntária na I Guerra Mundial e do encadeamento de sucessivas mortes familiares (o falecimento, por parto, da sua primogénita, e da consequente morte, por acidente, de um dos gémeos filhos desta, e, por fim, da sua própria mulher), aquele se transforma numa sombra de si próprio, num espectro, ruído de culpas; uma segunda, em que a acção determinante se estabelece entre as irmãs que sobreviveram, em parte na sua ânsia de redimir e dominar a figura traumática do pai e de um passado que as persegue como uma verdadeira assombração. Pelo meio, num enredo repleto de segredos, mentiras, equívocos e peripécias imprevistas, vão aparecendo situações de relações incestuosas, interraciais, homossexuais, e de prostituição, até que toda a teia destas existências traumatizadas se vai definindo e clarificando, com o papel apaziguador do tempo, terminando o romance, como nas tragédias shakespearianas, com a serenidade possível para as gerações futuras.


A sua obra narrativa está traduzida para francês, espanhol, alemão e italiano.


Fevereiro de 2020


Foto da autora de Arlen Redkop


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

HÉDI KADDOUR



OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES


5ª Vinheta



HÉDI KADDOUR


Hédi Kaddour (1945-) é um escritor francês de origem tunisina que, depois de se ter dedicado a escrever poesia nas décadas de oitenta e noventa, começou, já no presente século, a ocupar-se com a escrita de romances, tendo já publicado três (“Waltenberg”, “Savoir-vivre” e “Les Préponderants”). Estes romances foram consagrados com vários prémios, devendo assinalar-se o Prémio Goncourt do primeiro romance (“Waltenberg”) e o Grande Prémio do Romance da Académia Francesa (“Les Préponderants”).

Os romances de Hédi Kaddour são transversais frescos históricos, de estrutura por vezes complexa, circulando entre várias personagens. Uma das suas características é possuírem uma trama muto elaborada e imprevisível que encaminha e alicia o leitor… Porém, o que se tem destacado mais, em termos de valoração literária, é o próprio “arrière-pays” que subjaz a essa trama, feito de anotações eruditas e detalhadamente informadas, e um estilo que agrega ironia com lirismo.

Sem sombra de dúvida, o romance de maior realce, pela sua complexidade e ambição, é “Waltenberg”, o primeiro do autor. Iniciando-se na frente da I Guerra Mundial, a obra acompanha o destino das duas personagens principais, que se confrontam em trincheiras opostas, mas comungam uma paixão por uma mesma cantora lírica americana, até ao fim da União Soviética; e que, interligando este enredo romanesco com uma história de espionagem, elabora uma ampla saga, com laivos épicos, da história europeia e do constante confronto entre o Ocidente e o Leste, utilizando um desenvolvimento diacrónico não linear e pontos de vista distintos.

O último romance de Hédi Kaddour foi traduzido e editado no nosso país, com o título “Os Preponderantes”, numa boa tradução de Artur Lopes Cardoso e publicado pela Porto Editora.

Está também traduzida toda a sua obra romanesca em inglês e em alemão, e, alguns títulos, em espanhol.        

Fevereiro de 2020

Foto do autor de Catherine Hélie



sábado, 1 de fevereiro de 2020

SONALLAH IBRAHIM


OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

4ª Vinheta


SONALLAH IBRAHIM

 
Sonallah Ibrahim (1937-) é um escritor egípcio, que integrou a denominada “geração de sessenta” (composta, entre outros, para apenas referir os mais presentes nos circuitos internacionais da edição, pelos escritores Baha Taher e Gamal Ghitany), e que é conhecido pelas suas claras posições de esquerda, anti-imperialistas e de repúdio de todos os governos que até hoje lideraram o seu país. Foi um activo militante comunista, o que levou a que o regime de Nasser, no final dos anos cinquenta, o prendesse, julgasse por traição e o condenasse a sete anos de prisão, dos quais cumpriu cinco.

 
Foi nessa altura que começou a escrever, redigindo o seu primeiro livro (ainda hoje um dos mais prestigiados do autor), cujo título em inglês é “That Smell”, e que de imediato lhe granjeou um significativo reconhecimento nacional e internacional.

 
Depois de sair da prisão, decidiu dedicar-se em exclusivo à sua futura obra, tendo publicado, até hoje, mais de uma dezena de romances e um diário de prisão. Foi-lhe concedido alguns prémios literários nacionais (que o autor sistematicamente rejeitou por considerar que são concedidos por “governos indignos”) e internacionais.

 
Toda a sua obra narrativa reflecte a suas posições políticas e a sua atitude crítica em relação à sociedade egípcia. Mas esta sua atitude alarga-se a todo o mundo árabe, pois redigiu também romances sobre a situação sociopolítica do Líbano ou sobre os conflitos no Iémen e em Omã.

 
Hoje, Sonallah Ibrahim é considerado um dos mais importantes escritores egípcios, não só pelas suas inovações formais, mas também pela introdução de novos modelos narrativos na literatura do seu país, e ainda por se ter debruçado sobre temas, como a política e a vida sexual, em moldes que até aí não tinham aparecido. Além disso, a sua obra é uma ininterrupta e exaustiva reflexão sobre as relações entre o Ocidente (incluindo a Rússia soviética, sobre quem lança um olhar crítico no seu último romance, intitulado “Ice”, na versão inglesa) e o Egipto.

 
No quadro de uma obra bem variada, em termos de técnicas e estilos narrativos, centrada na contemporaneidade (não se deve omitir, no entanto, a sua “intromissão” no romance histórico, com o seu recente romance “Turbans et chapeaux”, na versão francesa), pode realçar-se, a título de exemplo, o já referido “That Smell” e ainda “The Committee”.

 
“That Smell”, o primeiro romance de Sonallah Ibrahim, é, desde a sua edição em 1966, considerado um clássico e, ao mesmo tempo, uma obra que revolucionou a narrativa egípcia. O romance descreve os primeiros tempos de um homem que, depois de ter estado preso, regressa à sua cidade e à sua vida “normal” e, por conseguinte, como se vai adaptando aos novos ritmos, às pequenas sensações e emoções que a liberdade lhe dá, a gerir a sua pulsão sexual e até ao reatamento (ou não) das suas anteriores relações de amizade. Mas, como já se referiu, o que é mais relevante neste romance é a perspectiva com que o narrador encara o mundo que se lhe abre com a sua libertação e o estilo narrativo com que descreve esse “embate”. 

 
É comum considerar (todas os analistas o fazem) “The Committee” como uma obra de cariz kafkiano… De facto, este romance é uma alegoria, em que um narrador anónimo, ao ser recebido por um Comité, de quem espera indeterminadas possibilidades de futuro, percebe, pela forma ambígua, humilhante e misteriosa como é inquirido e pela missão que é coagido a efectuar, que o seu destino se encaminha para fins paradoxais e perversamente perigosos. No fundo, esta obra pretende ser uma sátira subtil ao regime autoritário egípcio dos anos setenta (o regime de Sadat) e à sua “abertura” aos interesses económicos das grandes empresas multinacionais. De facto, o narrador, por indicação do Comité, vai acabar por se ver envolvido numa teia criada por personagens sinistras e misteriosas, manipuladas pelo “Doutor”, uma entidade difusa e fugidia que está na “sombra” de inúmeros “grandes negócios” obscuros.

 
A obra de Sonallah Ibrahim tem sido amplamente traduzida para francês e inglês, assim como existem títulos seus em espanhol, italiano e alemão.

 
Foto do autor de Frederic Reglain

 
 


 
 
 

Fevereiro de 2020