sexta-feira, 18 de novembro de 2016

PAUL ÉLUARD

 
 
A IMPLACÁVEL UNIVERSALIDADE DO AMOR
 
É sabido que uma das estratégias habituais do discurso poético tem sido a tentativa de “diluição” da circunstância que está na sua origem e que essa tem procurado ser, ao longo dos tempos, um dos seus elementos distintivos em relação ao discurso narrativo. Diga-se de passagem que essa estratégia tem também “contaminado” e fundamentado a orientação teórica dos estudos literários nos últimos anos, em particular, no esforço de procurar autonomizar o(s) universo(s) literário(s) do registo biográfico dos autores.
 
Porém, há um caso na literatura francesa contemporânea em que esta estratégia do discurso poético aparece acentuada de forma obsessiva e em permanente tensão com exigências éticas e sociais que determinam um compromisso com a circunstância: é o caso da obra de Paul Éluard (1895-1952). De facto, quem ler a poesia deste autor só de modo elíptico e “transversal” se aperceberá das circunstâncias históricas, pessoais e sociais, que o autor viveu e que muitas vezes motivaram de forma directa a sua produção literária.
 
Isto pode parecer tanto mais estranho quanto é conhecido que Éluard manteve posições bem comprometidas na cultura (e na política) francesa do seu tempo e um papel activo nos tremendos acontecimentos históricos porque passou a Europa durante a existência dele: relembro que participou como enfermeiro militar na I Guerra Mundial, tendo essa experiência um papel decisivo na formação da sua sensibilidade e da sua consciência cívica, assim como, mais tarde, também foi importante a Guerra Civil de Espanha e, obviamente, a resistência ao nazismo e à ocupação da França (onde, mais uma vez, o poeta participou de forma militante). Além disso, Éluard teve um papel empenhado nas vanguardas estéticas da primeira metade do séc. XX: se deixarmos de lado – como fez o poeta – a sua produção até 1916, ainda tingida de um lirismo um pouco “fin-de-siècle”, recordo o seu envolvimento no dadaísmo, depois no surrealismo e, por fim, como assumiu, na última fase da sua vida, o estatuto de bardo do comunismo mundial.
 
A intensidade com que Éluard viveu todos estes movimentos e acontecimentos históricos já seria motivo para que se esperasse que, para além das inevitáveis mutações de orientação estética, a sua “presença” se tornasse bem legível na sua poesia. Saliente-se que, ainda por cima, além destes factos “públicos”, é também conhecido que Éluard passou por uma acidentada vida amorosa, onde grandes paixões foram estilhaçadas por rupturas e lutos sufocantes: a sua paixão por Gala (1913), o seu casamento (1917), e depois o rompimento (1930); o amor e o casamento com Nusch (1934) e a sua morte súbita (1946); por último, a redentora relação com Dominique (1947) e o casamento, um ano antes de morrer.
 
Quando afirmo isto, não escondo que alguns dos acontecimentos referidos – e, em particular, algumas mulheres da sua vida – são “enunciados” na sua poesia; mas uma leitura “branca” desses poemas permite perceber que esses dados são referenciados em “nomes”, sem que estes afectem a substância temática (?) do poema - que continua a pretender superar pela universalidade a circunstância nomeada.
 
Hoje, salienta-se que Éluard foi um grande “poeta da liberdade e do amor” e que, em particular sobre este último tema, ascende ao lugar de um dos poetas cimeiros da história da literatura francesa.
 
Porém, convém recordar que existe uma articulação orgânica entre o projecto político que Éluard preconizava e defendia e a sua concepção da relação amorosa, visto que, segundo o autor, os valores que dão densidade a esta são os que fundamentam o projecto político. E, por isso mesmo, não se pode escamotear – principalmente na avaliação da figura pública que também foi Éluard – o seu entusiástico apoio a Estaline e à sua linha política. Mas também não é lícito minimizar, por este facto, a elevada qualidade da sua poesia, como aconteceu, em parte, nas comemorações recentes do centenário do seu nascimento. De facto, mesmo em França, estas comemorações foram muito “pardacentas” e a esta situação não é, decerto, estranho as referidas opções políticas do poeta…
 
Recorde-se que a concepção amorosa de Éluard (e daí a sua conexão com a poética e com a política) é a de uma “harmonia primordial” só possível de atingir através da mulher amada - que, no fundo, serve de elo perfeito entre o amante e a natureza e a vida: nesse sentido é que se tem de compreender como a relação amorosa, por si só, se opõe e combate a “besta cega” da tirania e da opressão.
 
Por tudo isto, nunca é de mais dizer o seguinte: goste-se ou não da intervenção cívica do “intelectual” Paul Éluard, compreenda-se ou não os seus erros de análise histórica, não se deve escamotear, seja que de forma for, o facto objectivo de que Éluard é um dos grandes poetas de sempre da problemática amorosa.
 
Justificam-se estas considerações com a minha recente leitura de Últimos Poemas de Amor, numa tradução (e prefácio) de Maria Gabriela Llansol, editada pela Relógio d’Água.
 
Para quem não conhece a poesia de Éluard aconselho vivamente a sua leitura. Não só porque a edição é bilingue, como a tradução é feita por um dos mais complexos escritores portugueses contemporâneos (infelizmente, faleceu há poucos dias…). Além disso, a escritora redigiu um prefácio que dá, por um lado, uma interessante visão do poeta e, por outro, permite compreender o que aproxima Llansol de Éluard…
 
A terminar, gostaria de assinalar que considero esta tradução “irregular”… Quando utilizo este termo, estou a ponderá-lo com rigor: não que haja “erros” de tradução (nem isso seria de esperar de uma escritora de reconhecida probidade intelectual e que, ainda por cima, viveu uma larga temporada na Bélgica francófona), mas porque, a par de luminosas versões para português de alguns versos, há, aqui e além, algumas soluções que me parecem resultantes de uma típica sensibilidades de prosadora (mesmo peculiar, como era o caso de Maria Gabriela Llansol).
 
É evidente que este meu comentário resulta da facilidade de confrontar o texto original com o traduzido e poder com uma simples leitura questionar as opções de tradução (é essa, não há dúvida, uma das virtudes da edição bilingue). Repito, no entanto, para que não haja equívocos: estas minhas reticências são apenas resultantes de divergências de gosto…E quanto a gosto cada um tem o seu…
 
Publicado na web em 2008.
 
 
Autor: Paul Éluard
Título: Últimos Poemas de Amor
Tradução (e prefácio): Maria Gabriela Llansol
Editor: Relógio d’Água
Ano: 2003
293 págs.,  € 15,00
 



segunda-feira, 14 de novembro de 2016

DANIEL MELLA

 
 
 

DESEJO DE LER (2): DANIEL MELLA
 
Horacio Quiroga, Felisberto Hernández, Juan Carlos Onetti, Mario Benedetti. Armonia Somers, Eduardo Galeano, Cristina Peri Rossi, Carmen Posadas, Mario Delgado Aparaín e Jorge Majfud. Esta lista de dez nomes de autores do séc. XX, pelo menos para os amigos mais metidos nestas andanças da leitura, deverá bastar para referenciar uma das literaturas mais ricas e diversificadas da América Hispânica: a do Uruguai (não sei porquê, mas embirro com o adjectivo “uruguaia”).
Recordando a obra destes autores, e os seus títulos principais, alguns deles com uma relevância mítica, torna-se intrigante ler, em depoimentos redigidos pela mão de vários comentadores das literaturas em língua espanhola, que um jovem autor, com apenas três novelas, publicadas de jacto, umas a seguir às outras, tenha provocado uma verdadeira inflexão (?) na narrativa do Uruguai. É o caso de Daniel Mella (n. 1976) que, com apenas vinte e um anos publicou Pogo, seguindo-se Derretimiento e, em 2000, Noviembre.
Nesses comentários, realça-se sistematicamente a violência dos ambientes e das situações descritas e a elevada qualidade estilística das obras.
O intrigante é que o autor, depois de ter publicado estas obras, só voltou a publicar um breve livro de contos, intitulado Lavra (e que a crítica, mais uma vez, não poupou em encómios), em 2013. Além de dar aulas de inglês num liceu de um subúrbio distante de Montevideu, pouco mais se sabe dele pelas notas biográficas.  
Numa entrevista recente, por ocasião de uma reedição de um dos seus romances da década de noventa, o jornalista perguntou-lhe como está a reagir ao facto de se encontrar há tanto tempo sem publicar. E a resposta de Daniel Mella foi, pelo menos, interessante: disse que descobriu que se pode viver em plenitude sem publicar; mais: que se vive bem sem a pressão constante de escrever para publicar; que continua a escrever imenso, mas que, aquilo que escreve, não é para ser publicado; que escrever e escrever para ser publicado são duas actividades completamente distintas (já Delphine de Vigan, numa entrevista deste ano a um jornal português, dizia o mesmo), e que, como já foi referido, consegue viver bem sem a pressão desta última.
Esta posição é compreensível e aceitável. Sucede é que esta resposta oculta uma outra pergunta e a correspondente resposta: por que motivo foi tão premente publicar numa altura (a década de noventa, no caso de Daniel Mella) e depois deixou de o ser?    






 


FRANCIS GEFFARD




DAS DIFICULDADES DE EDITAR TRADUÇÕES

O editor Francis Geffard, diretor da importante coleção “Terres d’Amérique” da ed. Albin Michel, numa recente entrevista ao jornal Le Monde, refere que, decorrentes dos custos de tradução, oito em dez livros de origem estrangeira, publicados em França, não são rentáveis. E que, mesmo com boas críticas e boa imprensa, poucas são as obras deste tipo que atingem a venda de 1500 exemplares.

Confesso que estes dados, assim expostos, me deixaram perplexo.

Eu sei (mal de mim se não soubesse…) que os custos de tradução são importantes condicionantes da edição. Sempre assim foi.

Também é sabido que as dificuldades colocadas à circulação das obras pelos custos da tradução são um dos motivos que levaram à criação de programas públicos de apoio à tradução na maior parte dos Estados do chamado “1º mundo” (e não só), com excepção dos países de língua inglesa (à parte a Irlanda que também tem estes programas públicos).

Mas, por tudo isto, intriga-me esta informação dada na entrevista por Francis Geffard, pois é apresentada como se fosse uma situação recente. Ora, mesmo tendo em consideração a actual crise no consumo, sempre entendi que as dificuldades de comercialização das obras traduzidas (em relação às outras…) não se tinham substancialmente agravado. Ou terão?  

Sem ter uma informação de todo rigorosa, creio que as dificuldades em editar traduções no nosso país devem ser similares à França ou até mais graves.

Eu sei que os problemas da edição e da comercialização de livros em Portugal são muito diversos e que os riscos deste negócio são tantos que fazem com que todos os agentes (autores, editores e livreiros) vivam inquietos e com enormes angústias.

Sei também que não é muito relevante debater este assunto neste local. São outras as formas onde isso é mais útil.

Porém, sucede que nunca vi este problema referenciado (e muito menos analisado…) na comunicação social generalista ou “da especialidade”.

E isso é que é preocupante. Pois, se a tendência for para o agravamento das condições de comercialização de obras traduzidas, decorrente do seu baixo consumo, não será pertinente considerar que esta situação irá ter, a curto ou médio prazo, inevitáveis efeitos na diversidade das obras publicadas deste tipo com os consequentes (maus) resultados para a cultura portuguesa?

E não será também de considerar que esta situação, se for tão generalizada e universal como parece, estará a condenar os povos, incluindo o nosso, a um isolamento (só contrariado, de um modo insatisfatório, pelos media e pelo audiovisual, dando-lhes um estatuto cada vez mais preponderante) que só prenuncia um futuro bem sinistro?

Ou será que apenas acordei demasiado pessimista?
 
 
 
 
 
 


segunda-feira, 31 de outubro de 2016

STEPHEN McCAULEY

 
 
                                         

DESEJO DE LER (1): STEPHEN McCAULEY
 A melhor caracterização que li da obra deste autor americano é a de que parece ser “filha de um de “caso” amoroso entre Edith Wharton e Woody Allen”. Noutros comentários, li também referências à proximidade com a obra da escritora inglesa Barbara Pym. De facto, os romances de Stephen McCauley são uma espécie de “comédia de costumes” (e junto aqui mais uma referência: a obra de Marivaux) passada numa urbana e sofisticada “upper middle class” americana dos dias de hoje, constituída principalmente por professores universitários, galeristas, artistas e escritores. E onde se encena a “floresta de logros e encontros amorosos”, gays e héteros, em que este grupo se envolve, desencantando-se e envelhecendo, com a naturalidade, muito humor e a aparente ligeireza de quem vive por dentro este universo e, ao mesmo tempo, vai obtendo dele um sábio distanciamento.
Foi esta “naturalidade” que impressionou o leitor (há já quarenta anos) do primeiro romance de Stephen McCauley (um professor universitário desde sempre assumidamente gay), intitulado The Object of My Affection. Depois, seguiram-se mais cinco (de facto, este autor não é muito prolífero), onde se destaca The Easy Way Out, The Man of the House, Alternatives To Sex e Insignifiant Others. Percebeu-se, conforme os seus romances foram aparecendo, que o projecto literário deste autor era bem simples e comum (e, por isso, talvez mais fascinante): mostrar como a liberalização dos costumes e a saída da homossexualidade do seu “gueto”, mesmo libertando muita gente de inúmeras situações trágicas e absurdas, não chegaram para alterar a “malaise” ontológica do homem nem contribuíram para superar a sua incapacidade de ser plenamente feliz.
Curiosamente, ou talvez não, a obra deste autor tem tanto ou mais sucesso em França do que nos Estados Unidos. 

(Foto do Autor de Susan Wilson

 

 
 
 


segunda-feira, 22 de junho de 2015

ASCÊNCIO DE FREITAS


 
 
 
 
Por circunstâncias que não são para aqui chamadas, raramente tenho escrito sobre obras e autores portugueses.
 
Mas, como não há regra sem excepção, hoje escrevo sobre Ascêncio de Freitas.
 
Existem algumas biografias dele na web. Mas gostava de referir alguns, poucos, dados.
 
Nasceu há perto de noventa anos. Na Gafanha da Nazaré. Com pouco mais de vinte anos, em 1948, partiu para Moçambique e durante mais de trinta anos lá viveu. Fez de tudo (literalmente de tudo) nesta sua terra de vida. Colaborou nalguns jornais e em 1959 publica o seu primeiro livro de contos: Cães da Mesma Ninhada. Depois esteve cerca de vinte anos sem publicar. Quando regressou a Portugal, em 1978, publicou o seu segundo livro (Ontem Era a Madrugada) e, de seguida, várias colectâneas de contos e romances, alguns deles premiados (é o caso de O Canto da Sangardata, com o Prémio PEN Clube Português).
 
Como é natural, grande parte da sua narrativa tem, como ambiência, Moçambique. No essencial, Ascêncio de Freitas é um narrador português que escreve sobre a realidade moçambicana.
 
Confesso que não li a maior parte dos seus livros. Mas a ideia que tenho, acreditando em quem leu, é que a sua obra é empenhada, estilisticamente cuidada, com personagens bem construídas e que procuram personificar várias dimensões da existência. A comprová-lo, estão não só os Prémios que recebeu, mas algumas recensões (recordo um prefácio de Eugénio Lisboa, por exemplo), com elogiosas referências ao seu estilo e à complexa arquitectura das suas obras.
 
Acabei de ler o seu romance A Paz Enfurecida. A primeira nota que gostava de apresentar é que é um livro arriscado. Arriscado, porque coloca como narrador um moçambicano que utiliza o “seu” português, assente numa transcrição da sua própria oralidade. Para um leitor de Portugal torna-se uma leitura árdua, mesmo difícil, pelo menos até adquirir-se alguma habituação. Mas percebe-se que existe, em Ascêncio de Freitas, uma intenção respeitável: o romance é escrito para o leitor médio moçambicano, talvez mesmo para o “povo”, e, por isso, escreve na sua língua, utilizando não só a sua morfologia e sintaxe peculiares, mas também os seus termos e o seu “calão”. É evidente que esta ambição é um pouco irrealista, pelo menos a médio prazo; por isso, pressente-se que há uma disposição em deixar um testemunho que não se confina aos nossos dias.
 
A trama decorre ao longo de trinta anos da história recente de Moçambique. A personagem principal é um português que assume lutar ao lado da Frelimo contra o colonialismo. É então que conhece o seu melhor amigo, um comandante guerrilheiro, que aparece como uma homem íntegro e obcecadamente empenhado nos objectivos da independência. Quando esta é conquistada, os dois, de forma fraterna mas distinta, iniciam o seu processo de desencanto. De facto, aos poucos e poucos, vão percebendo que o novo governo, muitas vezes fruto da sua inexperiência e da sua impreparação técnica (mas também de maus conselhos), cai no inferno da autocracia, brutalizando a população e os seus necessários aliados, com uma repressão em geral arbitrária, e provocando o afastamento gradual do povo que diz servir. E – o que é mais grave – propiciando o aparecimento da Renamo (em parte, também instigado pelos vizinhos rodesianos e sul-africanos) e da guerra civil. Com ela, agrava-se a situação de miséria e de fome que, como um mancha de óleo alastrando na estrada, se espalha por todo o Moçambique, mas, muito em particular, nos campos e na floresta, onde o Estado não consegue chegar. A população camponesa, principal bastião da Frelimo, que por ela sacrificou vidas e bens, foi, assim, entregue à sua sorte: fome e mais fome, associada a brutalidade de quem, nas cidades, procura só saciar a sua avidez de poder e dinheiro.
 
O retrato que A Paz Enfurecida transmite do poder resultante da independência é devastador: a clique, que domina em Maputo, é constituída por incompetentes, corruptos e assassinos que vai deixar Moçambique numa situação ainda mais desgraçada do que o colonialismo. Mesmo a liberdade, tão sonhada, parece morrer às mãos de algozes que violentam a população por tudo e por nada, que perseguem quem se manifesta contra os poderes instituídos, prendendo-a e encarcerando-a em “campos de reeducação”.
 
E não se julgue que o romance transmite da Renamo uma imagem melhor. Pelo contrário, sofre dos mesmos vícios e males e, por isso, aparece como o outro lado do torno que esmaga o povo, deixando-o como uma massa informe e ensanguentada.
 
 Pressente-se, por isso, em A Paz Enfurecida, uma espécie de ajuste de contas. Não tanto com a Frelimo, nem com Moçambique, mas com os próprios ideais do autor, pois que percebe, no final da vida, que desbaratou a maior parte dela na convicção de princípios que só geraram miséria e fome e que os valores da liberdade, que sempre o orientaram, foram rapidamente esquecidos pelos seus parceiros de luta, mal tomaram conta do poder. No fundo, o romance revela a imensa amargura de quem acreditou que estava no lado certo da vida até que os factos e os homens comprovarem o enorme logro em que caiu.
 
Sei que pratico crime de lesa-majestade crítica ao identificar personagem e autor. A Paz Enfurecida não é autobiografia nem auto-ficção. Mas é inevitável pressentir, nos percursos finais da personagem principal e do seu amigo, uma correlação simbólica com o destino de Ascêncio de Freitas (mesmo sabendo, segundo dados que recolhi, mas não confirmados, que regressou a Portugal, a pedido de Samora Machel, para trabalhar na contra-informação, em nome do Estado moçambicano, e antes de alguns acontecimentos narrados no romance).
 
A Paz Enfurecida é, na minha opinião, um romance irregular. Uso este adjetivo com rigor: com aspetos conseguidos e outros menos. Os mais conseguidos relacionam-se com a forma como caracteriza a realidade da guerrilha e o papel da guerra na formação caracterial dos seus intervenientes e como retrata, em pinceladas amplas, o ambiente social pré e pós-independência. Porém, o romance necessita(va) de um significativo trabalho de edição (que retirasse vários trechos repetitivos) e de soluções narrativas que substituíssem diversos diálogos sentenciosos, com largas tiradas ideológicas e filosóficas, e seguramente com dúbia plausibilidade.
 
Conheci, há mais de dez anos, Ascêncio de Freitas e conversei com ele duas ou três vezes. Fiquei com a ideia de que era um homem mergulhado em constringentes dificuldades materiais, mas que procurava usar as forças que lhe restavam para levar com dignidade férrea as últimas etapas da sua vida. Assinalo apenas o facto, sem o considerar relevante para o presente comentário.
 
Confesso, no entanto, que, quando comecei a ler A Paz Enfurecida, julguei que Ascêncio de Freitas já tivesse morrido. Descobri então que vive em Setúbal, afastado dos meios literários. Intrigou-me, por isso, a estranha poeira de silêncio que cobriu o autor e a sua obra. São poucas (e desactualizadas) as referências que se descobrem na web à sua vida. E, em relação a sua obra, há já muito tempo que não aparece (pelo menos, que eu tenha conhecimento) alguma recensão na comunicação social. Porque será? Será que se considera que não merece atenção dos críticos e especialistas? Ou será que a sua obra é vítima do destino singular de Ascêncio de Freitas e que os motivos que originam este sepulcro de silêncio têm uma raíz política e não literária? Como devem calcular, creio que, tendo em conta o ambiente que nos rodeia, existem razões para estas dúvidas.
 
Por tudo isto, uma última nota que me parece ser de toda a justiça.
 
A única edição existente de A Paz Enfurecida foi realizada pela Editorial Caminho. São conhecidas as acusações que se fazem a esta editora de que a sua linha editorial está demasiado próxima (para não dizer dependente) dos princípios ideológicos do Partido Comunista Português. É inquestionável que muitos exemplos podem ser dados a confirmar esta proximidade. Mas sempre entendi que o seu principal responsável, o editor Zeferino Coelho, era um homem de grande solidez intelectual e que, ao contrário do que se dizia à boca pequena pelos corredores da capital, sempre procurou não sacrificar os valores culturais e literários, que uma editora empenhada deve ter, aos dogmatismos ideológicos dos seus compagnons de route. E a edição deste romance é uma prova mais evidente deste facto, pois desconheço outra, de âmbito literário, que seja tão frontal na acusação aos governos da Frelimo, logo após a independência de Moçambique (num período em que procuravam aplicar cegamente a cartilha marxista-leninista), das terríveis calamidades humanitárias que originaram.
 




segunda-feira, 11 de maio de 2015

RUBÉN CABA E CABEZA DE VACA




 
 




Estou convencido que este texto vai parecer um verdadeiro rosário de confissões de ignorância… Antes do mais, começo por esclarecer que pouco conheço da obra do escritor espanhol Rubén Caba. Sei apenas que nasceu na década de trinta e que publicou poesia, romances, literatura de viagens e ensaios históricos, tendo obtido alguns prémios locais e regionais. Sei também que é filho de outro escritor, Pedro Caba Landa, um intelectual muito respeitado em toda a Espanha, em especial na Andaluzia e na Estremadura, pela sua produção poética, narrativa, mas principalmente ensaística, que sofreu sérias perseguições políticas por parte do regime franquista, em consequência de um ensaio, publicado no início dos anos trinta, intitulado Andalucia, su Comunismo y su Canto Jondo.

Mas devo a Rubén Caba o facto de me ter chamado a atenção, através do seu ensaio histórico La Odisea de Cabeza de Vaca (escrito em colaboração com Eloísa Gomez-Lucena), para a extraordinária figura do séc. XVI espanhol que é Alvar Nuñez Cabeza de Vaca.

Interrogo-me por que motivos não tomei conhecimento desta personagem até aos dias de hoje. Não só pela minha formação de base (sou licenciado em História), como por me ter passado despercebida a edição portuguesa da sua obra Naufrágios, publicada, em 1992, pela Teorema, numa segura tradução de José Colaço Barreiros (e que só agora li).

De facto, hoje sei que existe inúmera historiografia em espanhol e em inglês sobre Cabeza de Vaca, assim como bastante informação na web. Em português, desconheço a existência de qualquer estudo ou trabalho. Mas, mais uma vez, isso será, provavelmente, culpa minha…

Para que o leitor possa compreender algumas das razões do meu fascínio por esta figura e na eventualidade que haja alguém, como eu, que nunca tenha ouvido falar dela, vou expor algumas das principais peripécias da sua vida.

Cabeza de Vaca nasce nos finais do séc. XV, numa família da pequena nobreza, e, ainda bastante novo (talvez por se encontrar órfão), alista-se no exército espanhol, participando em diversas campanhas militares e pelejando em várias batalhas (por exemplo, na batalha de Ravena, integrando as forças da Liga Santa, organizada pelo papa Júlio II, que enfrentam os exércitos franceses de Luís XII, até os expulsarem dos territórios italianos).

Mas o que se destaca nesta vida atribulada é a sua participação na expedição marítima de Pánfilo de Narváez à Florida. Este, nomeado por Carlos I como “Adelantado” e Governador das terras a descobrir, vai encabeçar uma expedição, em 1527, em que Cabeza de Vaca participa como tesoureiro e “alguacil mayor”. Ora, esta expedição salda-se por um mortífero fiasco.

Constituída por cinco barcos e seiscentos homens, logo no fim da travessia atlântica, mais de cento e cinquenta deles abandonam a expedição e ficam em São Domingos. Depois, nas costas de Cuba, a frota sofre inúmeras tempestades e furacões, destroçando os navios e matando mais umas largas dezenas de homens. Mesmo assim, o comandante da expedição decide continuar e, cerca de um ano depois da sua partida, chega às costas da Flórida (na zona de Tampa Bay). Aí, a saga de desgraças continua.

Perante a hostilidade dos indígenas, o mau tempo e uma costa de difícil acesso (cheia de pântanos, rios e enseadas onde era difícil aportar), Pánfilo de Narváez, contra a opinião de Cabeza de Vaca e de outros oficiais, toma várias decisões erradas e, entre elas, a de dividir as forças expedicionárias, enviando homens para terra para operações de reconhecimento e em busca de eventuais aliados e deixando outros à guarda dos navios. Começa então o seu absurdo martírio. A pouco e pouco, por doença, fome e ataques dos índios, os que foram para terra vão morrendo. Os que ficaram nos barcos, ou são destroçados contra a costa pelos temporais ou tragados em mar alto pela intempérie (foi o que sucedeu a Pánfilo de Narváez). Os que sobraram em terra, procuram improvisar a construção de outras embarcações e inventar armas. Mortos e comidos os cavalos que levavam, alimentam-se de raízes e frutos, quando os encontram, ou até de lagartos e cobras. Por fim, começam até a comer os cadáveres dos companheiros.

Entretanto, procurando regiões onde os indígenas fossem mais conciliadores ou potenciais aliados, vão subindo pela costa da Flórida até à foz do Mississipi. Rapidamente são feitos escravos dos índios (os Apalaches e outras tribos). Os poucos que restam são separados e levados por diversas tribos. Cabeza de Vaca, ao princípio, é maltratado, passa fome, várias vezes fica à beira da morte, vive nu, até que, por fim, habitua-se a viver como os indígenas. Depois de muitas peripécias, fixa-se com uma tribo na ilha de Galveston, na costa do Texas. Durante seis anos, vive como escravo. Na melhor fase desta estadia, torna-se mercador dos próprios índios, comerciando com outras tribos, ao serviço daquela que o cativa e mantem. Faz então várias incursões no interior da América do Norte. Procura não perder o contato com alguns dos sobreviventes da expedição. Através dos indígenas, de quem vai aprendendo as línguas, fica a saber que poucos homens resistiram.

Um deles, a certo passo, consegue curar um índio ferido com uma flecha e que estava a beira da morte. Tal feito transforma a sua situação da noite para o dia. Os indígenas decidem trazer-lhes outros doentes e, através de orações e do que conhecem da anatomia humana (nenhum deles tinha qualquer estudo de medicina), vão curando moribundos, passando a ser encarados como curandeiros e xamãs. Começam a ser bem tratados, até adulados, e conseguem juntar-se na ilha de Galveston. Com Cabeza de Vaca, restam ao todo quatro sobreviventes. Um deles é o negro Estebanico, de Azamor, que é considerado como o primeiro negro que pisou o território do futuro Estados Unidos.

Juntos, conseguem convencer os índios a deixarem-nos sair (sempre com muitos entraves, pois as diversas tribos resistiam a que eles as abandonassem) e iniciam uma longa viagem em busca de comunidades espanholas que os recolhessem. Receando, no entanto, algumas tribos mais aguerridas da costa, decidem começar a subir o Rio Bravo, procurando fugir delas. Fazem assim uma longa incursão no sul do actual Estados Unidos, através, segundo se crê, o território do Texas (onde veem pela primeira vez bisontes), do Novo México e do Arizona, contactando com diversas tribos e sendo verdadeiramente idolatrados. Agora são diversas comunidades índias que os seguem, por vezes em conflito. Resolvem então começar a descer, a caminho do actual México, até que chegam ao rio Sinaloa, entrando em contato com exploradores espanhóis que os trazem para o “asentamiento” de Culiacán, já na costa do Pacífico. Atrás deles, segue uma autêntica chusma de indígenas que os venera.

São levados para a cidade do México e aí são recebidos com admiração e afecto pelo Governador e por Hernan Cortés. Entretanto, Cabeza de Vaca decide regressar a Espanha (os outros ficaram), onde chega, depois de mais algumas peripécias, em 1537. Tinham passado dez anos de imenso sofrimento e extrema provações desde que partira.

Toda esta odisseia, o próprio Cabeza de Vaca relata na sua obra Naufrágios, que escreveu e publicou no final da vida. Esta obra, para além de indiscutíveis qualidades literárias e narrativas, já que consegue exprimir de uma forma vibrante o calvário que foi esta expedição e as dolorosas dificuldades por que passou enquanto escravo dos indígenas, é um importantíssimo documento histórico. Basta dizer que é a primeira narrativa a descrever o território do actual Estados Unidos e as suas populações índias (Cabeza de Vaca fascinou-se com os costumes destas tribos e resolveu, por isso, anotá-los de uma forma detalhada ao longo da obra). Hoje, há ainda sérias dificuldades em perceber os locais onde realmente Cabeza de Vaca esteve (é esse um dos principais objetivos do livro de Rubén Caba, que resolveu “perseguir” e confirmar os locais onde ele andou), mas, de qualquer forma, é indiscutível que percorreu, com os seus companheiros, boa parte do Sul e do Sudoeste do actual Estados Unidos.

Mas se esta expedição e o seu testemunho já seriam mais do que suficientes para perceber a relevância desta figura histórica, o seu papel na construção do Império espanhol não ficou por aqui.

À chegada a Espanha, Cabeza de Vaca é recebido por Carlos V, e, em 1540, é nomeado, pelo rei, Capitão-geral, Governador e “Adelantado” do Rio de Prata, em substituição de Pedro de Mendonza, que, entretanto, morrera. Cabeza de Vaca, tremendamente ambicioso, parece que se esqueceu de tudo o que passara, pois continua obcecado, como uma boa parte dos seus conterrâneos, em enriquecer no El Dorado que era para eles o Novo Mundo.

Inicia, então, a sua segunda expedição ao Continente Americano, agora na América do Sul. Parte de Cádis, em 1540, chegando em poucos meses à ilha de Santa Catarina, no actual Brasil.

É já aqui que tomou conhecimento da fundação de Assunção, junto do rio Paraguai. Decide então dividir as suas forças: com duas centenas e meia de homens prosseguirá por terra até aquela povoação, enquanto a sua frota irá até o Rio de Prata e a Buenos Aires e, a partir daí, subirá o rio até se juntar a eles em Assunção.

Através de florestas inóspitas, Cabeza de Vaca chega ao rio Iguaçu e, de seguida, aos rios Uba e Paquiri. Exploradas estas regiões, volta de novo ao rio Iguaçu e aí divide os seus homens: ele segue pelo rio, enquanto o outro grupo irá por terra até ao rio Paraná. Foi assim que descobre as gigantescas cataratas de Iguaçu, e, passando inúmeras vicissitudes, dada a correnteza do rio, lá chegam ao Paraná e se juntam aos que foram por terra. Decide então que os muitos doentes, que já existiam, fossem pelo rio Paraguai até Assunção, com jangadas que manda construir, enquanto seguirá por terra, através do rio Monday.

É assim que, em 1542, chega a Assunção, assumindo as funções de Governador, recebidas de Domingos de Irala, que tinha governado em regime de substituição, após a morte de Pedro de Mendonza.

Sem sombra de dúvidas, Cabeza de Vaca não foi tão bom Governador como explorador. Em particular, porque nunca conseguiu demover as resistências dos “senhores” espanhóis da região, já cativados pelo governo de Domingos de Irala. De facto, face aos índios mais hostis, o novo governador vacila entre as tentativas de apaziguamento e uma repressão feroz, não agradando, nem com uma atitude nem com outra, aos colonos instalados.

Além disso, a enorme ambição de Cabeza de Vaca leva-o a continuar as suas expedições. O seu objetivo agora era chegar ao Perú por terra, inebriado com relatos de riquezas nessas regiões. Inicialmente, envia o anterior governador numa expedição que chega à Ilha de los Orejones (incluída na zona do Pantanal): aí ouvem falar de peças trabalhadas em ouro e prata e é essa informação que Domingos de Irala trouxe a Cabeza de Vaca.

Não admira, por isso, que Cabeza de Vaca tenha organizado uma nova expedição, agora chefiada por ele, para a região, procurando uma famigerada passagem até ao Perú.

Chegados, de novo, à já referida ilha, parte significativa dos expedicionários querem ali ficar (a ilha era tão sedutora que Cabeza de Vaca chamou-a Ilha do Paraíso) e fundar uma povoação. Mas o Governador recusa-se, já que o seu objectivo ainda não estava alcançado. Procura continuar a subir os diversos afluentes, tentando encontrar o tal caminho, sem o conseguir. Deve salientar-se que os lugares-tenentes de Cabeza de Vaca eram os seus principais rivais no domínio daquelas regiões (Domingos de Irala, Gonzalo de Mendonza, etc.) e, por isso, estes vão, naturalmente, conspirando contra ele.

Não admira, por isso, que, depois de largos meses mergulhados no Chaco Boreal (o Gran Chaco da guerra entre a Bolívia e o Paraguai no séc. XX), enfrentando a selva e índios hostis, com falta de géneros e de bens de subsistência, os exploradores se revoltem contra a persistência de Cabeza de Vaca em continuar a expedição. Aliás, o próprio sente-se doente, febril e enfraquecido. Por isso, acata a decisão da maioria de regressar a Assunção.

Termina aqui a vida de explorador de Cabeza de Vaca, iniciando-se uma outra fase dramática da sua existência. Doente, sem capacidade de se defender, é alvo de uma “junta” dos habitantes de Assunção que resolvem depô-lo e prendê-lo. Tiram-no, de sua casa, algemado e é encarcerado. Os fundamentos da prisão alternam entre abuso de poder e tibieza com os índios. E nomeiam, em substituição, Domingos de Irala como Governador.

Fica então preso durante onze meses, até que, em 1545, o embarcam para Espanha. Aqui, o Conselho das Índias confirma a condenação e desterra-o em Oran. Mais tarde, já em 1552, recorre da sentença e é parcialmente reconhecida a sua inocência, uma vez que lhe retiram a pena de desterro, continuando, no entanto, proibido de regressar às Américas.

A partir daqui, pouco se sabe dele. Especula-se sobre o destino dos seus últimos dias (terá ido para monge?) e nem a data ao certo se sabe da sua morte (1557?, 1560?).

Foi durante este período que escreveu a obra acima referida e uma outra, intitulada Comentários, onde descreve o que lhe sucedeu na sua segunda aventura americana. Mais uma vez, com inúmeras anotações e observações sobre os costumes indígenas.

Parece-me que é compreensível, por esta compacta biografia, porque é que considero Alvar Nuñez Cabeza de Vaca uma figura ímpar da História de Espanha. De facto, de um modo exemplar, ele representa todas as vertentes que assumiram a terrível aventura que foi a Conquista da América no séc. XVI, corporizando o “Siglo de Oro” espanhol em termos culturais e civilizacionais.

Ainda hoje se especula muito sobre a veracidade dos factos narrados, comparando-se, por isso, as suas obras com a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto. Como já referi, foi essa a motivação da obra de Rubén Caba: comprovar “in loco” a narrativa de Cabeza de Vaca. Porém, cada vez mais os historiadores reconhecem que, com um grau variável de ficção, Naufrágios e Comentários descrevem “grosso modo” as peripécias por que a sua vida passou. Por isso, é hoje inquestionável que, aliado ao valor documental destas obras, há que destacar a sua enorme relevância literária e o papel que desempenham na história da narrativa espanhola.

Creio que se percebe que o motivo do meu fascínio por Cabeza de Vaca se relaciona com a sua vivência tão extrema, em particular se confrontada com a minha acomodada existência (que não difere muito da de todos os meus amigos e conhecidos…). Até que ponto posso “conhecer” esta personagem, para além de toda a informação que ele próprio (e os investigadores posteriores) nos deixou? Porque aquilo que possa imaginar da sua vida não só me é fisicamente inaceitável como, em consequência disso, fica bem aquém do que de facto sucedeu. Realmente, parece que o meu próprio corpo não consegue admitir a experiência porque passou Cabeza de Vaca, que rejeita compreendê-la. Há como que uma rejeição física, orgânica, em admitir tamanhas provações e que isso origina uma efectiva incapacidade para as compreender.

Sendo assim, o que intriga nesta(s) sua(s) odisseia(s) é a força anímica que o levou a superar circunstâncias que o (nosso) corpo já não consegue admitir (nem assimilar).  E esta rejeição física transfigura a força anímica de Cabeza de Vaca, fazendo com que ela me pareça quase mítica.

 Por isso, pergunto: que “homens” são estes que conseguiram sobreviver a tão severas condições?

Colocada nestes termos, fica-se inclinado a pensar que a questão é gerada, antes do mais, pela distância temporal que nos separa e pelas circunstâncias ambientais da sua vivência (que estão de todo perdidas).

Mas percebe-se, de imediato, que esta é uma falsa conclusão. Basta recordar situações de tão extrema radicalidade vivenciadas mais perto de nós. Repare-se, por exemplo, no caso de Auschwitz. As descrições do sofrimento das vítimas deste campo são uma afronta tão brutal ao nosso corpo que nos leva a interrogar que homens são aqueles que conseguiram suportar sevícias tão “inimagináveis”. Não é esse, pelo menos em parte, o sentido da pergunta que Primo Levi, também ele sobrevivente de Auschwitz, coloca no seu romance inaugural Se questo è um uomo (na tradução portuguesa de Simonetta Cabrita Neto, intitulado Se Isto É Um Homem, publicado pela Teorema)?

Ou recorde-se a impressionante obra do escritor russo, de família espanhola, Ruben Gonzalez Gallego que descreve, em White on Black: A Boy’s story (versão inglesa do original russo que ganhou o Russian Booker Prize de 2003 e cuja tradução portuguesa só existe no Brasil na edição da Ediouro), a sua experiência abominavelmente asfixiante, como doente com paralisa cerebral, nos orfanatos e asilos soviéticos, em que eram encarceradas as crianças com deficiência física e mental à espera da morte num regime de abandono e maus tratos.  

A esta distância, confortáveis burgueses que todos somos um pouco (uns mais, outros menos, é certo), a vida de Cabeza de Vaca parece a de um ser humano distinto de nós. E isso faz-nos colocar uma questão perigosa: será que pertence àquela mesma humanidade que, com esforço, procuramos reconhecer como nossa? Não será isto uma pretensão demencial?

Os nossos princípios cristãos (lá estão eles!) levam-nos a responder de forma afirmativa. Mas, ao mesmo tempo, perguntamo-nos: não será uma arrogância estúpida e cega considerar-se que pertencemos à mesma Humanidade?

Sim, somos todos homens. É sabido e aceite a enorme maleabilidade da natureza humana e a sua excessiva (?) capacidade de adaptação à adversidade das situações. Mas sabe-se também que essa adaptabilidade transforma o homem, muitas vezes, em “sub-homens”. Ou em seres míticos. Como classificar aqueles duendes perdidos no pó do deserto, rodeados da família, vivendo a experiência, bem comum a tantas regiões da África subsaariana, de que estão gradualmente, sem apelo nem agravo, a morrer de fome? Ainda serão homens?  Ou deuses?

Não, não temos dúvida nenhuma: o nosso corpo não consegue aceitar tais vivências.

E isso, nos dias de hoje, coloca-nos também outra questão: como compreender as vivências daqueles que procuram, de um modo tão desesperado, atravessar, em riscos dramáticos de vida, o Mediterrâneo, em busca da Europa, não como o El Dorado de Cabeza de Vaca, mas como terra de sobrevivência?

Porque não basta toda a informação que em nosso redor circula para compreender estas situações. A sua racionalização leva-nos a admitir que são originadas por um Mal absoluto (passe a redundância), telúrico, que ultrapassa os valores com que calibramos as nossas vidas. Mas isto bastará para as compreendermos na realidade, quando, até organicamente, se torna abominável enfrentá-las?

É evidente que não estou a fazer nenhum apelo absurdo para que se regresse ao campo de Auschwitz dos tempos do III Reich ou que nos transformemos na sombra existencial daqueles que hoje atravessam o Mediterrâneo em dramáticas condições como garante absoluto para compreendermos as suas vivências. Mas também devemos ter a humildade necessária para percebermos que nunca as podemos compreender de uma forma integral. E reconhecer que esta distinção está, lamentavelmente, na origem muitas vezes da segregação e da xenofobia.

Não, em definitivo, não. Não chega toda a massa de informação em que vivemos mergulhados para nos reconhecermos com pertencentes à mesma humanidade.

 

 

 

 

 



quinta-feira, 9 de abril de 2015

BÉATRIX BECK

 
 
 
 
 

Béatrix Beck nasceu na Suíça, em 1914, filha de um poeta belga (Christian Beck) que morreu tinha ela dois anos. A mãe, sozinha, educou-a com enormes dificuldades, trabalhando durante o dia como bibliotecária e à noite como atriz. Com pouco mais de vinte anos, Béatrix Beck casou-se com um judeu apátrida, e no mesmo ano, nasceu a sua única filha e a sua mãe suicida-se. Em 1940, o seu marido morre na II Grande Guerra e ela encontra-se, tal como a mãe, muita nova, viúva e com uma filha pequena na mais estrita pobreza. Para a criar, procura desesperadamente qualquer forma de subsistência, aceitando todo o tipo de trabalhos. Nas horas vagas, escreve e conclui o original do seu primeiro romance, Barny, que consegue dar a ler a Albert Camus. O escritor, entusiasmado com o livro, apresenta-o na Gallimard, que o publica. Não obteve um grande sucesso, mas permitiu-lhe alcançar uma situação profissional mais confortável: André Gide, que tinha conhecido o pai de Béatrix Beck, contrata-a como secretária.

 
Ao seu terceiro romance, no entanto, tudo muda: Léon Morin, prêtre ganha o Goncourt em 1952. Com este prémio, Béatrix Beck resolve os seus problemas financeiros (compra um andar num imóvel onde vive também Sartre, mas que ficará destruído quase por completo, quando a OAS resolve colocar uma bomba na residência deste em 1962), participa na vida literária parisiense e continua a publicar com regularidade, terminando um ciclo de obras de cariz autobiográfico com Le Muet. Aproximou-se, então, do “nouveau roman” e Nathalie Sarraute elogiou-lhe os seus dotes estilísticos, a sua “música”. Mas, em 1966, a sua vida sofre uma nova inflexão: insatisfeita com os mesquinhos jogos palacianos do universo intelectual da “Cidade-Luz”, decide partir para os Estados Unidos e para o Canadá, onde, durante mais de dez anos, dá aulas de literatura em universidades (em Berkeley, Califórnia, na Virgínia, no Québec e em Ontário). É também a altura em que, depois do insucesso de Cou coupé court toujours, a Gallimard se recusa a publicar a sua produção literária, ficando, por isso, sem editor.

 
Profundamente deprimida, resolve regressar a França em 1977 e tentar arranjar um novo editor para as suas narrativas. Com algum esforço, Béatrix Beck consegue publicar Noli e La Décharge numa pequena editora, tendo obtido de novo o reconhecimento crítico. Passa então a publicar na Grasset (que será a sua editora até ao final da vida), onde, com uma regularidade quase anual, vai editando a sua obra (em particular, colectâneas de novelas e contos, pois “especializou-se” em narrativas curtas nesta fase da sua vida literária).

 
Em 2000, já com 87 anos, após a morte da filha, desistiu de publicar. Mas não de escrever. Quando morreu, em 2008, tinha o quarto da casa de repouso, onde passou os últimos anos, repleto de papéis, de todo o tipo, “escrevinhados” com jogos de palavras, invenções vocabulares, pequenas histórias, fábulas, etc.

 
Hoje, está bastante esquecida. Em França, país de que obteve a nacionalidade, depois de quase vinte anos de esforços burocráticos e judiciais, poucos já se lembram dela no ano do centenário do seu nascimento. 

 
Poucos leitores lhe restam. E, por isso, parece que a sua vida se consumiu em palavras, deixando um rasto muito ténue. No fundo, sucedeu-lhe o mesmo que a milhares e milhares de autores que povoam a história da literatura.

 
Alguns detractores da literatura, costumam usar estes autores e estes destinos como exemplos, fazendo um olhar condoído, como se fossem uns pobres “doentes” que optaram por desistir de viver, pois, por incapacidade de agir, se confinaram a transpor em palavras aquilo que não viveram. E que, por fim, parece que essa opção se consumiu em cinza.

 
Sempre achei que esse “olhar” revelava uma tremenda insensibilidade e um abissal erro e que era, isso sim, míope e infantil. Béatrix Beck é um caso exemplar de destino que se focalizou sempre em escrever e em ser escritora. Pelos altos e baixos da sua existência, só procurou escrever e encontrar leitores. No final da vida, pareceu-lhe irrelevante a segunda parte desta premissa. Mas a necessidade de escrever tinha-lhe ficado. No fundo, para além dos acidentes que condicionaram os seus dias, viveu a fazer o que sempre quis.

 
Lá onde ela se encontra, será que ainda achará importante ter leitores? Provavelmente sim. É importante sempre ter leitores. Mas nós, os leitores que a esquecemos e a abandonámos, não devemos lamentar o seu destino: só a arrogância, repito, nos cega ao ponto de não percebermos que viveu com a sua “música”, compondo palavras e frases, e que foi ela que sempre embalou os seus dias, encantando-a com a íntima plenitude da criação.   

 
Não terá sido isso o mais importante?