quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

HÉDI KADDOUR



OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES


5ª Vinheta



HÉDI KADDOUR


Hédi Kaddour (1945-) é um escritor francês de origem tunisina que, depois de se ter dedicado a escrever poesia nas décadas de oitenta e noventa, começou, já no presente século, a ocupar-se com a escrita de romances, tendo já publicado três (“Waltenberg”, “Savoir-vivre” e “Les Préponderants”). Estes romances foram consagrados com vários prémios, devendo assinalar-se o Prémio Goncourt do primeiro romance (“Waltenberg”) e o Grande Prémio do Romance da Académia Francesa (“Les Préponderants”).

Os romances de Hédi Kaddour são transversais frescos históricos, de estrutura por vezes complexa, circulando entre várias personagens. Uma das suas características é possuírem uma trama muto elaborada e imprevisível que encaminha e alicia o leitor… Porém, o que se tem destacado mais, em termos de valoração literária, é o próprio “arrière-pays” que subjaz a essa trama, feito de anotações eruditas e detalhadamente informadas, e um estilo que agrega ironia com lirismo.

Sem sombra de dúvida, o romance de maior realce, pela sua complexidade e ambição, é “Waltenberg”, o primeiro do autor. Iniciando-se na frente da I Guerra Mundial, a obra acompanha o destino das duas personagens principais, que se confrontam em trincheiras opostas, mas comungam uma paixão por uma mesma cantora lírica americana, até ao fim da União Soviética; e que, interligando este enredo romanesco com uma história de espionagem, elabora uma ampla saga, com laivos épicos, da história europeia e do constante confronto entre o Ocidente e o Leste, utilizando um desenvolvimento diacrónico não linear e pontos de vista distintos.

O último romance de Hédi Kaddour foi traduzido e editado no nosso país, com o título “Os Preponderantes”, numa boa tradução de Artur Lopes Cardoso e publicado pela Porto Editora.

Está também traduzida toda a sua obra romanesca em inglês e em alemão, e, alguns títulos, em espanhol.        

Fevereiro de 2020

Foto do autor de Catherine Hélie



sábado, 1 de fevereiro de 2020

SONALLAH IBRAHIM


OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

4ª Vinheta


SONALLAH IBRAHIM

 
Sonallah Ibrahim (1937-) é um escritor egípcio, que integrou a denominada “geração de sessenta” (composta, entre outros, para apenas referir os mais presentes nos circuitos internacionais da edição, pelos escritores Baha Taher e Gamal Ghitany), e que é conhecido pelas suas claras posições de esquerda, anti-imperialistas e de repúdio de todos os governos que até hoje lideraram o seu país. Foi um activo militante comunista, o que levou a que o regime de Nasser, no final dos anos cinquenta, o prendesse, julgasse por traição e o condenasse a sete anos de prisão, dos quais cumpriu cinco.

 
Foi nessa altura que começou a escrever, redigindo o seu primeiro livro (ainda hoje um dos mais prestigiados do autor), cujo título em inglês é “That Smell”, e que de imediato lhe granjeou um significativo reconhecimento nacional e internacional.

 
Depois de sair da prisão, decidiu dedicar-se em exclusivo à sua futura obra, tendo publicado, até hoje, mais de uma dezena de romances e um diário de prisão. Foi-lhe concedido alguns prémios literários nacionais (que o autor sistematicamente rejeitou por considerar que são concedidos por “governos indignos”) e internacionais.

 
Toda a sua obra narrativa reflecte a suas posições políticas e a sua atitude crítica em relação à sociedade egípcia. Mas esta sua atitude alarga-se a todo o mundo árabe, pois redigiu também romances sobre a situação sociopolítica do Líbano ou sobre os conflitos no Iémen e em Omã.

 
Hoje, Sonallah Ibrahim é considerado um dos mais importantes escritores egípcios, não só pelas suas inovações formais, mas também pela introdução de novos modelos narrativos na literatura do seu país, e ainda por se ter debruçado sobre temas, como a política e a vida sexual, em moldes que até aí não tinham aparecido. Além disso, a sua obra é uma ininterrupta e exaustiva reflexão sobre as relações entre o Ocidente (incluindo a Rússia soviética, sobre quem lança um olhar crítico no seu último romance, intitulado “Ice”, na versão inglesa) e o Egipto.

 
No quadro de uma obra bem variada, em termos de técnicas e estilos narrativos, centrada na contemporaneidade (não se deve omitir, no entanto, a sua “intromissão” no romance histórico, com o seu recente romance “Turbans et chapeaux”, na versão francesa), pode realçar-se, a título de exemplo, o já referido “That Smell” e ainda “The Committee”.

 
“That Smell”, o primeiro romance de Sonallah Ibrahim, é, desde a sua edição em 1966, considerado um clássico e, ao mesmo tempo, uma obra que revolucionou a narrativa egípcia. O romance descreve os primeiros tempos de um homem que, depois de ter estado preso, regressa à sua cidade e à sua vida “normal” e, por conseguinte, como se vai adaptando aos novos ritmos, às pequenas sensações e emoções que a liberdade lhe dá, a gerir a sua pulsão sexual e até ao reatamento (ou não) das suas anteriores relações de amizade. Mas, como já se referiu, o que é mais relevante neste romance é a perspectiva com que o narrador encara o mundo que se lhe abre com a sua libertação e o estilo narrativo com que descreve esse “embate”. 

 
É comum considerar (todas os analistas o fazem) “The Committee” como uma obra de cariz kafkiano… De facto, este romance é uma alegoria, em que um narrador anónimo, ao ser recebido por um Comité, de quem espera indeterminadas possibilidades de futuro, percebe, pela forma ambígua, humilhante e misteriosa como é inquirido e pela missão que é coagido a efectuar, que o seu destino se encaminha para fins paradoxais e perversamente perigosos. No fundo, esta obra pretende ser uma sátira subtil ao regime autoritário egípcio dos anos setenta (o regime de Sadat) e à sua “abertura” aos interesses económicos das grandes empresas multinacionais. De facto, o narrador, por indicação do Comité, vai acabar por se ver envolvido numa teia criada por personagens sinistras e misteriosas, manipuladas pelo “Doutor”, uma entidade difusa e fugidia que está na “sombra” de inúmeros “grandes negócios” obscuros.

 
A obra de Sonallah Ibrahim tem sido amplamente traduzida para francês e inglês, assim como existem títulos seus em espanhol, italiano e alemão.

 
Foto do autor de Frederic Reglain

 
 


 
 
 

Fevereiro de 2020

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

LAXMAN GAIKWAD


OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

3ª Vinheta



LAXMAN GAIKWAD

 
Laxman Gaikwad (1956-) é um escritor indiano, de língua marata (uma língua que é falada por mais de oitenta milhões de pessoas, incluindo uma boa parte da população goesa), com mais de meia dúzia de romances publicados, e que integra o movimento da “Literatura Dalit” (para quem não está familiarizado com os termos indianos, recordo que “dalit” (ou “sudras”) designa a casta mais baixa, de acordo com o modelo social instituído pelo hinduísmo, e que é conhecida no Ocidente pelo termo pejorativo de “intocáveis”).

Este autor, para além de ser “dalit”, pertence à tribo nómada “uchalya”, que é tradicionalmente considerada como uma tribo de ladrões (pois vivia de pequenos furtos) e que os britânicos, desde o séc. XIX, condicionaram a possibilidade de trabalhar e de se deslocar livremente, forçando-a a perenizar em modelos de subsistência de raíz criminal que a ostracizaram e a levaram a um constante confronto com as autoridades.

É esta situação que Laxman Gaikwad expõe na sua primeira obra, “Uchalaya”, uma autobiografia em que revela como o seu pai, com riscos de ser banido da tribo, decidiu dar-lhe uma educação escolar, retirando-o dos esquemas de formação instituídos dentro da tribo, que apenas ensinam a roubar.

Mas o que faz deste livro uma reconhecida obra-prima é a forma sensível e emotiva como o autor articula o seu destino individual, feito de uma constante luta contra a fome, a miséria e a imundície, com o destino colectivo da sua comunidade.     

Hoje, Laxman Gaikwad é considerado um autor clássico na sua literatura, e obteve, com “Uchalaya”, os maiores galardões e prémios literários da India (incluindo o Sahitya Akademi Award), aquando da sua publicação em 1988.

“Uchalaya” é a única obra deste autor acessível numa língua ocidental, pois foi traduzida para inglês com o título “The Branded”.

Desconheço a autoria da foto do escritor.

Janeiro de 2020
 

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

WILL EAVES


OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

2ª Vinheta




WILL EAVES

 

Will Eaves (1967-) é um escritor inglês que já publicou cinco romances e dois livros de poemas neste século. Para além disso, foi um colaborador regular do "Times Literary Suplement" e é hoje professor de Escrita Criativa na Universidade de Warwick. A sua obra já foi finalista em diversos prémios britânicos.

A sua obra narrativa, muito experimental, evidencia um estilo que utiliza uma ironia delicada e subtil e uma acentuada tonalidade melancólica. Além disso, é também de salientar o carácter peculiar e a justa adequação dos seus diálogos. As personagens têm, na maior parte das vezes, comportamentos imprevisíveis, integradas em situações aparentemente bizarras. Porém, Will Eaves procura, até nestes contextos invulgares, exprimir compreensão e empatia pelas suas personagens, mesmo pelas suas imperfeições.

Os seus romances abordam temas bem distintos, como a descoberta da sexualidade gay num “romance de formação” (“The Oversight”) ou o jogo de frustrantes peripécias e rivalidades no seio de uma companhia de teatro (“Nothing To Be Afraid Of”) ou ainda os conflitos surdos que existem dentro dos códigos de afecto de uma família, cujos membros, depois se dispersarem pelos seus destinos, regressam a casa para se confrontar e procurar entender o que correu mal (“This Is Paradise”). Mas a análise conjunta da sua obra permite que os críticos entendam que, no meio destes mundos díspares, haja sempre uma subterrânea coerência e uma visão em complexidade crescente.

Natural, por isso, que seja de destacar os seus dois últimos romances, dadas as suas características bem distintas.

O primeiro, “The Absent Therapist”, 2014, é um breve conjunto de mini-narrativas, reflexões, observações, pequenos comentários, redigidas em registos muito diferentes, que o autor intitula intrigantemente como “romance”, e que revelam a constante bizarria das existências, ou melhor, como as pessoas “são o que realmente parecem” e como a maioria delas têm uma singela opacidade que não permite nem justifica uma “leitura” segmentada.

O segundo, o último do autor, que saiu no ano passado, “Murmur”, centra-se numa personagem, Alec Pryor, que é inequivocamente um “duplo” do cientista Alan Turing (recordo que este matemático britânico, na década de cinquenta, optou por “aceitar” um tratamento hormonal de castração química como alternativa à prisão, a que fora condenado num processo-crime por atos homossexuais, o que terá motivado um possível suicídio, segundo a tese de David Leavitt, por exemplo). O romance busca compreender as mutações por que a mente de Pryor/Turing passa, após aceitar o tratamento que o leva à castração, e de como os sonhos (registados pelo próprio a conselho do analista junguiano que o acompanha neste processo) contribuem para a sua "programação" e como são “sinais” da sua gradual transformação psicológica para uma outra identidade, onde o desejo foi (ou será) “silenciado”.

“Murmur” foi traduzido para italiano.

Janeiro de 2020.
Desconheço a autoria da foto do escritor.


 


sábado, 18 de janeiro de 2020

LUC BABA

 
OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES
1ª vinheta
 

LUC BABA
 
Luc Baba (1970-) é um profícuo escritor belga que, já no presente século, publicou dezasseis romances, três biografias, destinadas a jovens leitores, e três livros de poesia. Para além disso, é actor, cantor e animador de ateliers de escrita criativa. Várias obras suas foram premiadas no seu país.
As suas narrativas, com uma forte componente lírica, são amplamente fantasistas, onde se articula constantemente realidade e maravilhoso. As personagens principais são quase sempre crianças e jovens, ou adultos rememorando com encantamento (e, por vezes, terror) a sua própria infância. Talvez, por isso, os seus livros se caracterizem também por não ter um leitor previamente definido, podendo ser lidos tanto por adultos como por jovens leitores.
No conjunto da sua obra, destacam-se os romances “La Cage aux cris” (2001), “Les écrivains n’existent pas” (2005), e, em particular, “Elephant Island”, onde narra a história de uma criança de sete anos que, em 1917, é abandonada pela mãe, enlouquecida de dor e sem recursos, num orfanato, depois da morte do seu pai na frente de batalha; e que, esmagada pelo encarceramento e pelas sevícias dos adultos, sonha com um barco que a leve, pelo mar fora, a um mundo longínquo da insuportável realidade que a rodeia, tanto dentro como fora do orfanato. De seguida, o romance desenrola-se em torno da sua vida de adulto (até aos anos oitenta), revelando como a sua não-infância determinou todas as suas opções futuras até descobrir na escrita um “mar” onde consegue fazer fluir a sua necessidade de acção e de criatividade.
Janeiro de 2020

A foto do autor é de Didier Moulin.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

OS MEUS ROMANCES DE 2019



Os Meus Romances de 2019

 
1º “White Teeth” de Zadie Smith (Penguin, 2000). Já aqui escrevi sobre este romance e por que razão o considero fundamental para compreender a actual realidade urbana. De facto, não conheço nenhum romance que analise de uma forma tão abrangente as presentes relações multiculturais e multi-étnicas das nossas cidades. Além disso, não sei o que mais destacar em “White Teeth”: se a dimensão polifónica e a conjugação estrutural de todos os fios narrativos, se a ironia com que encara e descreve essas relações, se o sentido de observação e de captação dos pormenores que dão vivência a toda a trama, ou ainda a forma como consegue compreender essas relações sem nenhum juízo ético. De qualquer modo, um primeiro grande romance de uma escritora, cuja obra posterior só veio confirmar as suas enormes qualidades. Saliento, por fim, que há uma tradução portuguesa desta obra, que foi descatalogada. Mas era de toda a justiça literária que se procurasse efetuar uma nova tradução e edição.

2º “Ferito a morte” de Raffaele La Capria (Mondadori, 2016). Também já aqui escrevi sobre este romance, publicado pela primeira vez em 1961. Como já aparece em muitos outros romances da literatura italiana, esta obra é um belíssimo texto sobre o desabrochar emocional da adolescência, a descoberta das cumplicidades da amizade e das primeiras paixões, ao mesmo tempo que é um verdadeiro hino de louvor à cidade de Nápoles. O adjetivo que mais nos aparece à mente para o classificar é o de “solar”: pelos poentes marítimos, as pescas subaquáticas sob o brilho dourado do mar, o entardecer sobre os corpos adormecidos à sombra dos cais palacianos.

3º “L’Énigme du retour” de Dany Laferrière (Le Livre de Poche, 2009). Este romance é uma profunda e emotiva reflexão sobre o exílio e a emigração. Articulando poesia, autobiografia e ensaio, este autor haitiano debruça-se sobre as feridas abertas no exilado/emigrante, confrontado com mundos radicalmente distintos que o levam a estar em permanente transito entre realidades (concretas e imaginárias) e que gera um mal-estar irremediável. Sobre este romance, contextualizando-o na vida política do Haiti e na literatura deste país, já publiquei um texto (está em https://transpubl2.blogspot.com/2019/05/dany-laferriere.html) e, para não me repetir, aconselho a sua leitura para quem pretenda saber mais alguma coisa sobre este autor e esta obra.

4º “Los Dias Terrenales” de José Revueltas (ALLCA XX/Scipione Cultural, 1997). Talvez se justifique falar um pouco mais desta obra, pois o seu autor é pouco conhecido no nosso país e seguramente quase desconhecido das gerações de leitores mais jovens. José Revueltas (1914-1976) foi um escritor mexicano e um militante comunista muito activo no seu país. Com quinze anos, ingressou no Partido Comunista do México e poucos meses depois foi logo preso, iniciando então uma sucessão de prisões políticas que culminou com a prisão em 1968, quando foi considerado um dos líderes ideológicos do movimento estudantil que motivou o “Masacre de Tlatelolco”, em que várias centenas de estudantes e outros civis foram assassinados pelo exército e outras “forças de segurança” mexicanas. Mas essa coerência das suas posições ideológicas, não lhe retirou, pelo contrário, a sua independência crítica e, a prova disso, é que, pelo menos por duas vezes, foi expulso do PCM. Um dos fortes motivos dessas expulsões foi a sua produção literária, essencialmente constituída por narrativas, dramaturgia, guionismo e ensaios, iniciada nos princípios dos anos quarenta. “Los Dias Terrenales”, publicado em 1949, foi uma das obras que motivou mais reacções violentas por parte dos comunistas e da esquerda mexicana em geral, ao ponto de levarem o autor a retirar a obra do mercado e a desistir de publicar qualquer texto narrativo durante sete anos. De facto, este romance, passado no seio da militância comunista, não é um romance militante: é uma obra muito sombria e trágica, mas, por isso mesmo, de uma clarividência luminosa sobre a condição humana e os seus limites. No fundo, é um romance sobre a imperfeição dos homens e a convicção de que a luta sobre os ideais essenciais do comunismo, tais como a igualdade, a justiça social, o fim da exploração do homem pelo homem e, porque não?, a liberdade, mesmo que tenha sempre resultados medíocres e funestos, faz parte integral da condição humana, e que, por isso mesmo, é uma luta sisífica. Em termos estilísticos, para além de muitas passagens admiráveis, gostaria de salientar a forma como é descrita, logo nas primeiras páginas do romance, uma pesca clandestina fluvial, levada a cabo por uma coluna comunista para matar a fome à população camponesa. E também é de realçar a imagem, através de várias personagens, que é dada da mulher mexicana, em particular da mulher militante, nos anos vinte do século passado, feita de miséria, fome e humilhação.  

5º “La Bâtarde” de Violette Leduc (Gallimard, 1964). Creio que esta autora francesa, com excepção de alguns grupos (os movimentos de mulheres e as intelectuais feministas), é mais citada do que lida actualmente. Mas é pena, por várias razões. A mais óbvia, é que quando se fala tanto em auto-ficção, não se assinale que os romances de Violette Leduc são objectivamente auto-ficção “avant la lettre”. Em seguida, porque esta é autora tem, na maior parte das suas descrições, um estilo particularmente criativo e inovador (um pormenor técnico: por vezes, é mesmo genial a forma como utiliza os verbos na construção das suas imagens). Os seus romances, e este em especial, são corajosos esforços de autocompreensão, de despojamento “sem filtros” de si, mesmo que, por vezes, tombe em algum sentimentalismo e autocomiseração. Violette Leduc é, para lá de uma notável escritora, uma verdadeira “personagem”, dadas as peculiaridades da sua personalidade, e este facto é evidentemente um dos atractivos das suas obras. Mas, para além disto, “La Bâtarde” é um interessantíssimo fresco sobre a vida intelectual parisiense entre as duas guerras mundiais e expõe um “retrato”, muito interessante e ambíguo, do genial e malogrado Maurice Sachs, uma das grandes paixões da autora. Por último, duas notas sobre esta obra e edição. A primeira, é que é raro encontrar um título de um romance que consiga conter toda a ambiência da obra e, por isso mesmo, seja fundamental para perceber o “olhar” que Violette Leduc lança sobre si própria. A segunda, é para assinalar o magnífico prefácio que Simone de Beauvoir lhe redigiu, pois é exemplar na forma como articula uma postura notoriamente afectuosa para com a autora e o modo lúcido e inteligente com que analisa esta obra.

 



segunda-feira, 30 de setembro de 2019

EM JEITO DE BALANÇO

 



EM JEITO DE BALANÇO

 

Desde sempre, o que mais me motivou para a literatura, foi a descoberta de autores e obras que, perante os meus olhos, abriam novos universos que comigo e com a minha experiência entravam em diálogo.

Como é natural, sentia necessidade de partilhar estas descobertas. Quando era novo, tive a sorte de ter um pequeno grupo de amigos, tão fascinados pela literatura como eu, com quem as partilhava (e, claro, também as desilusões que alguns autores e obras em nós criavam). Hoje, estou certo que uma das motivações, mas não só, que levaram as gerações antes da minha a manter tertúlias durante anos e anos tinham que ver com esta necessidade de partilhar estas descobertas.

Um amigo meu, que, na minha opinião e na de inúmeras pessoas que com ele conviveram, foi um dos intelectuais que mais contribuiu para a mudança de mentalidade(s) no nosso país (o que fazer com o apreço e a estima que tenho por ti, Eduardo?), costumava dizer (e creio que escreveu) que a literatura, mesmo que não tivesse outra utilidade, era um excelente tema de conversa e que, apenas por isso, já justificava plenamente a sua existência.

Talvez haja, na opinião deste meu amigo, uma excessiva diminuta expetativa das potencialidades e do papel que a literatura deve ter na nossa vida e na nossa sociedade… Mas tenho a certeza que todos nós já saboreámos situações que confirmam a pertinência da sua afirmação.

Mais tarde, e durante um longo período da minha vida, tive a sorte de me pagarem para continuar a partilhar, agora publicamente, essas descobertas literárias. Depois, por vicissitudes diversas e pena minha, tive de abandonar esta atividade. E, durante uma década, só em privado (para saturação de familiares e alguns amigos) conseguia satisfazer esta minha necessidade. E, assim, talvez tenha perdido a mão…e o lugar.

Mas, diga-se de passagem, se foi principalmente o prazer da descoberta de universos literários e este gosto de os partilhar que me motivaram para a literatura, essa paixão não poucas vezes gerou, em meu redor, dissabores e incompreensões. O que sempre me pareceu estranho.

Recordo que há muitos, muitos anos, tentei explicar esta minha motivação a uma amiga da altura (e que é hoje uma historiadora respeitada e, ao mesmo tempo, uma comentadora da vida social e política portuguesa que, em defesa de uma conceção absurda e infundamentada do Ocidente, tem assumido posições conservadoras, racistas e xenófobas), se insurgiu violentamente contra mim (com a frontalidade que sempre fez seu apanágio), considerando que esta minha paixão me iria transformar num inútil erudito. Mas também houve e há outras pessoas que, veladamente, foram insinuando que este meu prazer de partilhar descobertas se trata de um puro ato de exibicionismo de leituras e conhecimentos.

Nada desses comentários me podia afetar e, por isso, continuei, desde que dispusesse tempo para isso, a ler, a descobrir autores e obras e a tentar partilhá-los. Foi esse desejo que me levou a criar blogs, para onde canalizo o resultado deste desejo de partilha, e me levou a aproximar-me do facebook e a criar um perfil nesta rede social. Mas não tenho ilusões: nem uma coisa nem outra me satisfazem completamente; mas têm pelo menos a vantagem de ajudar-me a não saturar os mais próximos, pois os meus leitores virtuais têm sempre a possibilidade de passarem à frente (como já acontecia, como é evidente, quando escrevia em jornais e revistas). Além disso, sei muito bem que nem toda a gente que anda na web e nas redes sociais se interessa por literatura (mas também na vida real) e que, mesmo entre estes que se interessam, poucos há que estejam com disposição de conhecer autores e obras que não sejam originários da Europa e dos Estados Unidos (e, vá lá, um pouco da América Latina). Mas fica-me a satisfação (sempre ilusória) de dar gosto ao dedo…

Aproveito esta circunstância para contar uma história e dar uma informação que pouca gente sabe. Há cerca de quarenta anos que comecei a construir uma base de dados com informação sobre autores. Quando a iniciei, havia uma razão prática: eu necessitava de elementos de informação para o trabalho de recensão de livros que então fazia e, como era fundamentalmente sobre autores contemporâneos, tinha, para obter certos dados fatuais, que procurar entre milhares de jornais, revistas e catálogos (que ia acumulando em casa), a maior parte estrangeiros, para os conseguir descobrir. De facto, esta base de dados facilitava-me a vida e poupava-me imenso trabalho e tempo.

E assim a criei e a fui aumentando, cada dia com mais um novo autor… Até que apareceu a web e essa informação tornou-se mais acessível. E a minha base de dados relativamente inútil. Mas tinha-me ficado o “bichinho” (costumo dizer que a sua construção é o meu tricot ou crochet…) e, por isso, mesmo depois da web, continuei a “alimentá-la”, conforme a disponibilidade e os canais de informação, até hoje. Presentemente, em números redondos, essa base de dados tem cerca de cinquenta mil entradas de autores de todo o mundo, principalmente do séc. XIX, XX e XXI. Enfim, tornou-se uma espécie de Wikipédia pessoal.

Agora estou muito contente por nunca ter desistido de construir essa base de dados. Poderá ser inútil para os outros; mas, para mim, é cada vez mais uma fonte inesgotável de informação e de inspiração, pois dá-me pistas sobre autores e literaturas que, na massa informe de dados que é hoje a web, seria muito difícil destacar.

É evidente impossível ler tantos autores (… e obras). Mas é sempre possível descobrir mais alguma informação sobre eles, para sinalizar alguns, saber mais sobre o seu universo literário, ler-lhes uma ou mais obras, e, principalmente, convidar (ou alertar) os meus possíveis leitores para a sua existência. E, por isso, fico satisfeito quando consigo suscitar a curiosidade, nem que seja de um único leitor, para as referências que aqui faço sobre um autor ou uma obra.

Tudo isto é um pouco inútil? Talvez. Para que serve essa partilha e descoberta? Não sei. Mas talvez dê origem a uma boa conversa, como diria o meu querido amigo Eduardo.

E aqui fica uma última história para que possam compreender melhor este meu desejo de continuar. Há já uns tempos, uma ilustre escritora portuguesa, numa cerimónia pública de consagração da sua carreira, anunciou que iria “abandonar a literatura” (isto é, a produção literária). Porém, acrescentou, logo de seguida, que, se ela sentia necessidade de “abandonar a literatura”, tinha a certeza que a “literatura nunca a abandonaria”, enquanto tivesse saúde para a acolher.

Ora, é precisamente isto que eu sinto com esta minha paixão pela literatura e por esta necessidade de partilha.