terça-feira, 23 de março de 2021

LING MA

 

OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES


25ª Vinheta



LING MA

 

Ling Ma (1983-) é uma escritora americana de origem chinesa, pois emigrou ainda criança para os Estados Unidos, e aí cresceu e fez toda a sua formação académica. Depois do fiasco de uma experiência profissional, decidiu aproveitar a indeminização (“severance pay”) recebida com o seu lay-off e despedimento para se dedicar a concluir os seus estudos e a escrever um romance (inicialmente, era apenas um conto) que publicou em 2018, com o título “Severance”. A obra obteve uma reconhecimento quase unanime da crítica (o “The New Yorker” considerou “Severance” um dos mais importantes romances do ano) e vários prémios, entre os quais se destaca o Kirkus Prize, concedido pela prestigiada revista literária homónima. Actualmente, Ling Ma dá aulas na Universidade de Chicago.

Segundo declarações da autora, o romance foi escrito numa fase da sua vida em que via, de forma obsessiva, os filmes de George Romero e a série de televisão “The Walking Dead”. Assumidamente influenciado por estes filmes, “Severance” pode, por isso, ser considerado como integrando esse subgénero da literatura de entretenimento que é a narrativa pós-apocalíptica com “zombies”. Sucede, no entanto, que Ling Ma pretendeu apenas “aproveitar” esta ambiência para escrever um romance com outra ambição literária e analítica.

O romance centra-se numa jovem heroína de origem chinesa, Candace Chen, a viver em Nova Iorque, que, a certo ponto, descobre que a população da cidade está a transfigurar-se e a morrer devido a um vírus, oriundo da China, que origina uma doença chamada “Shen Fever”, e que rapidamente se transforma em pandemia. Esse vírus, quando atinge as pessoas, leva-as a reproduzir mecanicamente as suas rotinas, alheadas de tudo, como se fossem “zombies”, e, posteriormente, à morte. No entanto, por motivos inexplicáveis, uma minoria é imune a esse vírus, que é o que sucede a Candance Chen. 

Durante algum tempo, a protagonista continua a deambular pela cidade, dedicando-se a fotografá-la cada vez mais vazia e a publicar as fotos num blog da sua autoria, a que chamou “NY Ghost”. Sucede, porém, que, a certa altura, percebe, no limite das suas forças, que não consegue subsistir sozinha e decide, por isso, juntar-se a uma pequeno grupo de sobreviventes e procurar com eles uma solução para esta absurda existência. Integra-se então numa comunidade, “dirigida” por um antigo técnico informático, ambicioso e sem escrúpulos, que garante conhecer um local, a que ele dá o nome de “Facility”, onde todos poderão construir “um mundo novo”. Pelo caminho, vão saqueando alimentos das casas vazias ou ainda ocupadas por “zombies” (que eles muitas vezes matam por compaixão), até que chegam ao seu destino: um centro comercial abandonado.

Convém salientar que o romance não é construído como se os acontecimentos narrados sucedessem num eventual futuro, mas como uma alteridade ao presente “real”. O quotidiano, tal como se conhece, é encarado pela protagonista com nostalgia, como um “lar” perdido, que transparece nos capítulos de “flashbacks”, mais emotivos e elaborados, que alternam com os que descrevem, num registo contido, os acontecimentos do presente alternativo. Naqueles capítulos, a protagonista rememora o seu passado na China rural, que abandonou ainda em criança, e principalmente a Nova Iorque em que viveu e onde, mesmo com os seus defeitos e limites (um quotidiano assente numa “civilização de serviços”, monótona e repetitiva), conseguia ter acesso, mais ou menos fácil, a um consumo e a um conhecimento que lhe satisfaziam a sua constante necessidade de novidade e de bem-estar (que agora parece impossível de atingir). No fundo, Candance Chen sentia-se bem em Nova Iorque e aceitava-a como era, entendendo que ela foi criada para esses modelos de consumo (e de vida) urbano, mesmo que estes ocultassem situações constrangedoras e até criminosas de exploração. Foi essa aceitação do modelo de civilização, que gerara Nova Iorque, motivada pela sua necessidade de pertença a um lugar, que a afastou do seu amante (que repudia este modelo de vida e o destino que ele preconiza), ficando só (e grávida) na cidade.

Começa, no entanto, a perceber que esse sentimento de nostalgia fragiliza-a, assim como aos outros sobreviventes da pandemia, quebrando-lhes a imunidade, pois parece que o vírus se aproveita dos lugares e das coisas que estão contaminados pela memória dos seus antigos donos. Por isso, a protagonista, entendendo-o como um perigo, procura conter esse sentimento, fugindo daquilo que em seu redor o motiva, obstinada em continuar a sobreviver e a poder seguir o seu caminho.

Mesmo possuindo uma carga simbólica indiscutível, Ling Ma confessa ter escrito “Severance”, afastando-se de qualquer sentido marcadamente alegórico ou crítico em relação à actual sociedade, procurando apenas constatar um terrível e sinistro mal-estar e a alienação de objectivos e sentidos de vida, que, no essencial, transparecem nos dias de hoje.

“Severance” foi traduzido e editado em França, com o título “Les enfiévrés”, já depois da presente pandemia e foi, por isso mesmo, considerado um romance prenunciador da actual situação.

 

Foto da autora de Anjali Pinto.

Março de 2021



domingo, 7 de fevereiro de 2021

ACHY OBEJAS

 

OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES


24 º Vinheta


ACHY OBEJAS

 

Achy Obejas (1956-) é uma escritora americana de origem cubana. Segundo declarações da própria autora, com apenas seis anos emigrou com a família para os Estados Unidos, sendo recolhida pela Marinha americana num pequeno barco, com mais quarenta pessoas, que estava à deriva no Atlântico.

Depois da sua formação académica, começou a escrever para diversas revistas e jornais americanos, até que se fixou como colunista no “The Chicago Tribune”, onde obteve vários prémios nacionais como jornalista. De seguida, empenhou-se na divulgação da narrativa antilhana nos Estados Unidos, tanto a que foi originariamente escrita em inglês como a que foi em espanhol, traduzindo obras de Junot Dias, Wendy Guerra e Rita Indiana, entre outros. Paralelamente, com o mesmo objectivo, efectuou um relevante trabalho como editora e tem dado aulas em diversas universidades americanas de escrita criativa e tradução. Presentemente, em complemento das suas actividades académicas, tem trabalhado como argumentista e guionista para a Netflix.

Para contextualizar a obra desta autora, há que entender que, para além deste percurso de vida, Achy Obejas sempre assumiu o seu estatuto de lésbica, já que o encarou com inteira naturalidade. A autora, como referiu em entrevistas, sentiu-se sempre muito mais cubana e antilhana nos Estados Unidos do que em Cuba (que voltou a visitar já com quarenta anos e onde regressa com regularidade), nem que fosse pelo simples facto de ser assim permanentemente classificada. E o seu estatuto de lésbica e a necessidade de se sentir inteiramente livre em termos comportamentais, e consequentemente o seu percurso pessoal no país onde veio parar ainda criança, permitiu-lhe também perceber que a sua vida teria sofrido sérios revezes se tivesse ficado em Cuba ou a ela regressasse definitivamente (recordo que a homossexualidade em Cuba foi criminalizada até aos finais da década de setenta e que ainda hoje existe na ilha um clima social manifestamente homofóbico), mesmo tendo em conta os condicionalismos afectivos e sociais que, mesmo assim, o seu estatuto sexual teve e ainda tem nos Estados Unidos. Mas, paralelamente, foi tomando consciência que era muito forte o seu vínculo cultural a sua terra natal e que ele, no fundo, se revelava determinante na sua vida e nas suas opções estéticas e éticas.

Como é previsível, a obra literária de Achy Obejas, iniciada nos finais dos anos noventa, já com três romances, duas colectâneas de contos e uma de poemas, espelha de forma nítida estas diversas condições da sua existência. É de assinalar que os seus dois primeiros romances, “Memory Mambo”, 1996, e “Days of Awe”, 2001, foram galardoados com o Lambda Literary Awards, o prémio literário americano que, desde os finais dos anos oitenta, destaca obras com uma ambiência ou problemática LGBT explicita.

A sua obra mais significativa, na minha opinião, continua a ser “Memory Mambo”, o seu primeiro romance, principalmente tendo em conta o seu carácter inovador no quadro da literatura norte-americana e porque, de certo modo, define um conjunto de problemáticas que a posterior narrativa da autora irá desenvolver e aprofundar. O romance tem, como personagem principal, uma jovem cubano-americana, Juani Casas, lésbica, a trabalhar numa lavandaria pertencente à família, em Chicago, e narra as relações conflituosas, mas muito intensas em termos afectivos, com a sua família (ampla, pois integra membros que estão nos Estados Unidos e outros que permaneceram em Cuba) e os particulares escolhos da sua vida amorosa e social, resultantes em grande parte do facto de a sua amante não desejar assumir publicamente a sua orientação sexual. Por outro lado, é inquestionável que o romance procura retratar a vivência das famílias cubanas em diáspora, realçando como, a maior parte das vezes, são minadas por contradicções, ódios e omissões, em particular com as componentes familiares que permaneceram em Cuba e que, de forma mais ou menos consentânea com a realidade política e económica da ilha, procuram sobreviver.

Esta personagem, com o seu estatuto próximo do “alter-ego”, irá permitir à autora colocar por via narrativa uma problemática (ética, social e política), por vezes contraditória, que considera determinante, pois a situação criada pelas categorias sociais de raça/etnia, classe, nacionalidade, género, orientação sexual e modo de estar, é geradora de um forte mal-estar existencial e de uma ambiência opressiva que só uma análise interseccional permite perceber e que “Memory Mambo” procura evidenciar de forma romanesca.

Assim, aparecem, através das situações que a protagonista vai vivendo e dos confrontos que tem com a família e as amantes, os problemas da identidade pessoal (colocando a questão do papel da(s) memória(s), principalmente o confronto entre aquela que aceita como “verdadeira” e a que, transformada em mitologia familiar, é reproduzida em distintas narrativas assumidas por diversos familiares sobre os mesmos acontecimentos, levando a protagonista a questionar-se sobre se a sua identidade não resulta de uma narrativa imposta e criada pela sua família e pela sociedade), da nacionalidade (levando-a a denunciar o conceito de “americanização”, mas, ao mesmo tempo, a permitir-lhe perceber o que deve, em termos culturais e sociais, a cada uma das “pátrias”, criando-lhe a sensação incómoda de se encontrar numa situação de despertença e desterritorialização), dos direitos humanos (tendo em conta as diferenças radicais de perspectiva e de postura política sobre este assunto entre o seu país de adopção e a terra de onde é originária), do género e da orientação sexual (visto que tem consciência, dado o passado e os valores da sua formação cultural e religiosa, que os modelos da sua família subalternizam e repudiam a sua condição, mas, por outro lado, tem também consciência que esta sua necessidade de afirmação plena em termos emocionais e intelectuais irá fazer sofrer amargamente a sua família e até destroça-la), etc. Para além disso, “Memory Mambo” destaca bem o papel do sexo nas relações das pessoas, evidenciando como ele pode ser um instrumento de poder, e até gerar situações de opressão e humilhação, refletindo sobre a motivação das suas manifestações mais violentas e abusivas, inclusive num contexto homossexual.  

Deve-se também chamar a atenção que a obra de Achy Obejas, e em concreto este romance, reflecte bem a relevância do conceito de literatura transnacional (conceito que a autora tem explorado e defendido em termos teóricos) para compreender certas valências da história literária contemporânea.

Foto da autora de Kaloian

 

Fevereiro de 2021

 



quinta-feira, 12 de novembro de 2020

FRITZ HABECK

 

OS ESCRITORES IMPOSSÍVEIS


II



FRITZ HABECK

 

Fritz Habeck (1916-1997) é um escritor austríaco que se dedicou a escrever romances, contos, biografias, peças de teatro, guiões e livros para a infância e juventude. Foi, no entanto, no género romanesco que mais se realçou, obtendo vários prémios literários, em que se destacam o Adalbert Stifter-Preis e o Manès Sperber-Preis.

Começou a publicar no início dos anos quarenta, com uma biografia romanceada de François Villon (“Der Scholar vom linken Galgen”). Mas, entretanto, foi incorporado no exército austríaco, participando activamente na II Guerra Mundial, intervindo na invasão da Polónia, onde foi promovido a tenente, no cerco de Estalinegrado, e acabando por ser preso pelo exército americano na Batalha da Normandia, já com o cargo de tenente-coronel. Como referiu em diversas entrevistas, “foi soldado, mas nunca foi nazi” e, de facto, já na biografia acima referida, estão implícitas várias críticas à dimensão totalitária do regime hitleriano.

Depois da sua libertação, regressou à Áustria e voltou a dedicar-se à literatura. No início da década de cinquenta, publicou um dos seus romances mais relevantes (“Das Boot kommt  nach Mitternacht”, 1953), claramente resultante da sua experiência de guerra. Profundamente impressionado com o estilo de Ernest Hemingway (com quem amplamente se correspondeu), Habeck decidiu posteriormente dedicar-se ao género policial (assinando-os com o pseudónimo de Glenn Gordon) e à análise do período de reconstrução da Áustria do pós-guerra, publicando em 1958, entre muitos outros, o romance que é considerado a sua obra-prima: “Der Ritt auf dem Tiger”. Nestes romances, o autor destaca em particular a forma como sociedade austríaca procurou “silenciar” o seu passado de cumplicidade com o regime nazi e a sua participação activa no Holocausto como via de obter uma nova “normalidade”.

Robert Menasse considerou-o um dos mais importantes autores austríacos do período imediatamente posterior à II Guerra Mundial em “Die sozialpartnerschaftliche Ästhetik”.

Algumas das suas obras foram traduzidas para inglês, francês e italiano nas décadas de cinquenta e sessenta. Hoje encontram-se esgotadas.

 

Novembro de 2020

Desconheço a autoria da foto do escritor.


quarta-feira, 4 de novembro de 2020

ROGER VAILLAND

 


ROGER VAILLAND ou O FIM DO ILUMINISMO

I

Mesmo que não me recorde dele muitas vezes, tenho que reconhecer que Roger Vailland foi um dos meus “maîtres à penser”. De facto, para mim, como para toda uma geração, este comunista e libertino, apaixonado pela escrita e, em particular, pelo romance, hoje já muito esquecido e até estigmatizado, impregnou o nosso (sub)consciente com alguns conceitos e valores que, quer se goste ou não, determinaram comportamentos e modos de estar.

Um desses conceitos – talvez o mais importante – foi o de soberania. E de como a soberania era fundamental para a existência de uma efectiva liberdade ao nível individual e colectivo.

E note-se: quando aqui se fala em soberania não se está a colocá-la num registo “stricto sensu” político. Mas como um valor determinante ao nível do comportamento e, por conseguinte, afectando também o campo pessoal e privado.

Hoje, sabemos todos, este conceito pode parecer perigoso e limitado. Mas como fugir a ele?

 

II

Se, há uns vinte anos atrás, me dissessem que o papel da sedução apareceria manchado ou empalidecido, acharia que toda a gente teria enlouquecido.

É certo que, quando se fala em sedução, se está a referir a um poder de atracção, isto é, de sujeição voluntária do outro a esse poder.

A sedução cega. Subjuga a vontade do Outro; elimina o sentido crítico, coloca um Outro na órbita condicionada de um Sujeito.

De facto, goste-se ou não, está a estabelecer-se uma hierarquia quando se seduz o Outro. Mas será isso inevitavelmente mau?

 

III

Uma das “descobertas” que a obra de Roger Vailland iluminava é a de que existem relações de poder em qualquer esfera do registo social. E era tão brutal essa revelação que eliminava qualquer ideia romântica ou adolescente de haver a possibilidade de se estabelecer qualquer tipo de relacionamento, mesmo o mais íntimo, sem uma hierarquia.

É certo que provava que essa relação de poder não era estática, mas dinâmica, e que, a qualquer momento, se poderia inverter os papéis da relação. E que, por isso, existia uma contínua dialéctica. Mas isso, mais uma vez provava, que ela nunca seria uma equação.

Porém, não há dúvida que esta realidade há-de ser sempre questionada. Todas as gerações, umas a seguir às outras, continuarão a tentar forçá-la, a tentar esmigalhar essa realidade-pedra.

Será isto inevitável? Não sei. Mas estou em crer que sim. Veja-se o próprio Roger Vailland e “Le Grand Jeu” e a aproximação aos surrealistas. Todos crescemos a ter uma concepção ideal das relações amorosas e de uma sociedade igualitária, sem escravos nem amos, comunista. Todos temos qualquer coisa de Keats.

Ora, Roger Vailland durante algum tempo, consciente do determinismo destas relações de poder, ainda acreditou que esse comunismo desejado (a transformação dessa tal realidade-pedra em areia) fosse mais possível de atingir, se, por bons motivos (isto é, por motivos progressistas e igualitários), através de um forte e autoritário poder, invertesse a relação secularmente estabelecida. Daí que tenha defendido e apoiado Estaline.

Mas rapidamente compreendeu que o poder degrada e perverte. Sempre. O que o levou a questionar todo o seu quadro pessoal. A razão, como instrumento soberano, tinha-o traído. E, por isso, abandonou o PC francês.

E isolou-se. Abandonou os jornais e a militância de toda uma vida. Debaixo da protecção da sua mulher amada (Elisabeth Vailland), vai continuar apenas com a sua paixão de sempre: escrever, escrever, pensar e construir histórias.

Os seus últimos romances (“La Loi”, “La Fête” e “La Truite”), os mais interessantes na minha opinião, colocam a questão da soberania num registo individual. Mas, como se percebe em “Le Regard froid”, Roger Vailland tinha consciência de que estava amputado de uma dimensão essencial: era impossível entender a questão da soberania como uma estrita questão privada.

Restava-lhe apenas viver, pois gostava demasiado da vida para lhe pôr fim.

Até que o câncro o levou. 

Novembro de 2020.

Foto do autor de Marc Garanger.









quinta-feira, 22 de outubro de 2020

VÉRONIQUE TADJO

 

OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

23ª Vinheta


VÉRONIQUE TADJO

 

Véronique Tadjo (1955-) é uma importante escritora da Costa do Marfim, que, desde os finais da década de oitenta, escreveu e publicou vários livros de poesia, romances e obras para a infância e juventude. Formada na Sorbonne, com uma tese sobre cultura americana, viveu em diversos países europeus e africanos. Já venceu, entre outros, o Grand Prix littéraire d’Afrique noire, com o romance “Reine Pokou”, em 2005. No domínio dos livros para a infância e juventude, área a que Véronique Tadjo tem dedicado intensamente a sua capacidade criativa como escritora e ilustradora, as suas obras têm obtido um significativo sucesso, pois foram traduzidas para diversas línguas e estão editadas em vários países europeus e africanos.

Para além de três livros de poesia e dos já referidos livros para a infância e juventude, Véronique Tadjo publicou seis romances, todos centrados em temáticas muito distintas e recorrendo, quase sempre, à mitologia e à tradição cultural africana. A recriação destas fontes, através de uma linguagem com fortes conotações líricas, é principalmente notório nos seus primeiros romances, em particular, no conjunto de narrativas fragmentárias de “À vol d’oiseau”, 1992, do “apocalíptico” “Le Royaume aveugle”, 1991, e em “Reine Pokou, concerto pour un sacrífice”, 2005, onde recorre a uma lenda para perceber não só a origem do seu país, mas também a violência que o domina na actualidade. Depois, mudando de registo, os seus romances seguintes orientam-se para as relações familiares, em “Loin de mon père”, 2010, e para a incomunicabilidade amorosa, em “Champ de bataille et d’amour”, 2006. Por fim, há ainda os seus romances que se debruçam sobre algumas das tragédias que recentemente assolaram o continente africano, como o genocídio dos tutsi no Ruanda, em “L’Ombre d’Imana”, 2001, ou a epidemia do Ébola, em “En compagnie des hommes”, 2017.

Por fim, deve assinalar-se que uma das características da obra da autora é que as suas narrativas decorrem sempre à partir de um “olhar” interior que vai reflectindo sobre as situações descritas, procurando retirar delas uma certa forma de sabedoria que consiga conciliar a vida mesmo com os factos mais terríveis. Quer isto dizer, que os seus romances diluem os contextos situacionais a breves anotações, sem muitos pormenores, centrando-se, no essencial, nos “efeitos” que produziram nos narradores ou personagens principais. Daí que a sua obra tenho um forte registo poético e monológico, em que os mitos e as lendas tradicionais africanas aparecem como “background” dos narradores e personagens.

Não há dúvida, porém, que, no conjunto da obra de Véronique Tadjo, se destaca o romance “L’Ombre d’Imana”. Com o objectivo de melhor compreender o genocídio no Ruanda, a autora aceitou participar numa residência literária neste país, e, em parte para redimir pela criação e pela afirmação da vida a presença avassaladora da morte, decidiu escrever este romance. Nele, tenta entender como é que a “sombra de Deus” (os Ruandeses acreditam que a “sombra de Deus", a que chamam Imana, “cobre” o seu país) desapareceu durante (e após) o genocídio, deixando os homens à mercê dos seus impulsos mais brutais e criminosos, o que provocou não só um rastro de morte como deixou marcas indeléveis na memória dos sobreviventes e até na própria realidade concreta que os rodeia (recordo que uma das “chagas” vivas destes acontecimentos foram os “filhos de guerra”, isto é crianças geradas com as violações que ocorreram durante o genocídio). Recorrendo a três personagens femininas, à sua própria experiência e ao confronto com a experiência dos outros, no seu estilo já característico, em que concilia géneros com os modelos narrativos assentes na fragmentação e na elipse, Véronique Tadjo vai dar voz neste romance às vítimas e aos carrascos, recolhendo depoimentos e testemunhos presenciais, procurando entender como conseguiram superar aquele colossal trauma, em particular quando aqueles papéis muitas vezes se inverteram. De facto, a autora parte do pressuposto que aqueles acontecimentos imanam da própria condição humana, capaz, conforme as circunstâncias, tanto do Bem como do Mal. Por isso, não procura efectivamente exorcizar o impossível, mas, em particular, compreender como a sobrevivência e a necessidade de reconstruir a vida se foi sobrepondo à referida presença da morte num penoso caminho em que a memória procura libertar-se, possibilitando a continuidade da vida e apaziguando o ódio, dos sinais que, em seu redor, registam uma violência abjecta.

Os romances de Véronique Tadjo estão traduzidos para inglês, alguns para espanhol e italiano, e foram editados em vários países europeus e africanos, o mesmo sucedendo, ainda com maior destaque, com as suas obras para a infância e juventude.

Apenas tenho conhecimento da edição de um título de uma obra sua para a infância e juventude no nosso país. No entanto, recolhi a informação de que “L’Ombre d’Imana” foi traduzida para português por Francisco Guesdes, e editada em Angola, com o título “A Sombra de Imana”. Não conheço esta edição.

Outubro de 2020.

Direitos da foto da autora pertencentes à RAMA




segunda-feira, 12 de outubro de 2020

KAREN AABYE

 

OS ESCRITORES IMPOSSÍVEIS


I


KAREN AABYE

 

Karen Aabye (1904-1982) foi uma escritora dinamarquesa que começou a publicar nos finais dos anos trinta, e que, na década seguinte, se tornou particularmente popular no seu país com uma ampla saga histórica (uma trilogia), intitulada “Det skete ved Kisum Bakke”, situada no séc. XIX, e onde retrata a gradual afirmação da mulher na sociedade patriarcal dinamarquesa. Além disso, publicou também um outro conjunto narrativo, composto por cinco romances, de novo situado no séc. XIX, iniciado por “Martine”, 1950, e concluído com “Den røde dal”, 1954, contextualizado na emigração da população rural da Jutlândia para a América, neste caso concreto para o Canadá.

Segundo os seus leitores, as suas obras contem sempre personagens femininas bem delineadas, sensitivas, mas, ao mesmo tempo, fortemente determinadas na busca da sua afirmação social e da sua felicidade. Os quadros sociais em que se processam os seus romances são bastante amplos, indo desde a população camponesa à aristocracia dinamarquesa.

Estas protagonistas, marcadamente positivas, contribuíram para que a mulher dinamarquesa entende-se que era possível ter um estatuto social mais autónomo e independente e, de certo modo, funcionaram como exemplo na prossecução deste objectivo.

A situação de jornalista e de correspondente de jornais dinamarqueses de Karen Aabye deu-lhe o gosto pelas viagens, publicando alguns livros onde descreve esta sua experiência. Escreveu também algumas biografias.

Continua a ser uma autora bastante popular e reconhecida no seu país.  

De acordo com a informação recolhida, dois dos seus romances foram traduzidos e editados em francês nas décadas de quarenta e cinquenta. Hoje estão fora do mercado.

Outubro de 2020

 

Desconheço a autoria da foto da escritora.


terça-feira, 6 de outubro de 2020

DAVID WAGNER

 

OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

22ª Vinheta




DAVID WAGNER

 

David Wagner (1971-) é um escritor alemão que já publicou, desde o início deste século, três romances, uma colectânea de contos, um livro de poesia e diversas obras de um género indefinido, a que aqui chamaremos de narrativas. É neste género, bem característico e generalizado na literatura alemã contemporânea, que o autor se tem distinguido, unanimemente elogiado pela crítica e obtendo vários galardões, onde se destaca o Prémio Literário da Feira do Livro de Leipzig, com a sua obra “Leben”.

Estas obras de “narrativa” caracterizam-se por serem trabalhos reflexivos sobre situações concretas vividas pelo narrador, num registo muito próximo da autoficção. O que distingue estes livros de David Wagner, no conjunto da produção narrativa similar alemã, é a originalidade e profundidade dessa reflexão, associada a uma inegável capacidade de descrição e observação, numa prosa de indiscutível qualidade estética em termos estilísticos. Saliente-se ainda que, na nossa opinião, estas características são generalizáveis às obras subtítuladas como “romances”, pois, no essencial, não se distinguem das restantes obras “narrativas” do autor.

O foco em que se centra estas obras é muito variado: desde as mutações que a cidade de Berlim sofreu ao longo dos tempos e que o narrador vai descobrindo com as suas deambulações (“In Berlin”, “Welche Farbe hat Berlin?”, “Mauer Park” e “Drüben und drüben”, este em co-autoria com Jochen Schmidt, onde se confronta as infâncias dos autores ocorridas em Berlim Ocidental e Oriental); ou as suas leituras, que o narrador considera que efectuam um todo com o lugar em que as fez (“Sich verlieben hilft”); ou a análise minuciosa e interpretativa da vida própria dos quartos de hotel (“Ein Zimmer im Hotel”); ou a estadia num país “estranho”, a Roménia, para escrever um romance, que não consegue produzir, mas que leva o narrador a reflectir sobre esse absorvente quotidiano do lugar onde se encontra (“Romania”); ou ainda a relação que o narrador estabelece com o pai, gradualmente demente e incapacitado, e que o leva a cuidar com o afecto de se tornar “substituto” da memória dele, dando-lhe a felicidade e a alegria que já se lhe tornavam impossíveis sem esse apoio (“Der vergessliche Rise”).

Da mesma forma, como já referi, os romances e o livro de contos, no essencial, assumem o mesmo registo das narrativas. Assim, em “Meine nachtblaue Hose”, a sua primeira obra, a personagem principal rememora, em tom melancólico e desencantado, a sua vida, feita de pequenos nadas, vazios e alguns amores, referenciando-os a objectos do quotidiano, como umas calças “azul meia-noite”; ou “Spricht das Kind”, onde se reflecte sobre a infância, os seus constantes rituais, que aparecem em todas as gerações, e, por conseguinte, como o seu entendimento está interligado com o estatuto de pai; ou “Vier Äpfel”, em que a personagem principal, a partir de um acto banal num supermercado, sente necessidade, de súbito, de reflectir sobre a passagem do tempo, as formas de consumir e os amores passados; ou ainda, por último, a colectânea “Was alles fehlt”, provavelmente o seu livro menos conseguido, onde as breves situações encenadas aparecem como fruto de reminiscências do passado das personagens, num registo lacónico e elíptico muito próximo de Raymond Carver.

 Mas não há dúvida que é “Leben”, a narrativa que obteve o Prémio Literário da Feira do Livro de Leipzig, a sua obra mais relevante. A obra desencadeia-se quando o narrador recebe o telefonema do hospital a avisá-lo que em breve será internado para efetuar uma operação de transplante de fígado, momento que há algum tempo aguardava. É este acontecimento que o leva a reflectir sobre o significado da vida, o sentido da morte do Outro para que ele possa ter uma extensão da sua, o papel da doença, os motivos que o levam a enfrentar uma “segunda vida”, o papel do corpo, físico e orgânico, na existência, etc. No seu leito do hospital, enquanto espera pela sua operação, o narrador vai observando em redor o comportamento dos outros pacientes, ouvindo as suas histórias e confissões, tentando perceber o que os motiva a estar ali numa expectativa de uma sobrevivência que lhes permita perceber o que viveram, ao mesmo tempo que vai rememorando o seu passado e os seus afectos.

Há obras de David Wagner traduzidas para francês e espanhol. “Leben” está traduzido e editado, com o título “En vie”, em França, e “Welche Farbe hat Berlin?”, com o título De qué color es Berlín”, e “Spricht das Kind”, com o título Cosas de Niños”, em Espanha.

 

Outubro de 2020

Foto do autor de Horst Galuschka.