quinta-feira, 12 de novembro de 2020

FRITZ HABECK

 

OS ESCRITORES IMPOSSÍVEIS


II



FRITZ HABECK

 

Fritz Habeck (1916-1997) é um escritor austríaco que se dedicou a escrever romances, contos, biografias, peças de teatro, guiões e livros para a infância e juventude. Foi, no entanto, no género romanesco que mais se realçou, obtendo vários prémios literários, em que se destacam o Adalbert Stifter-Preis e o Manès Sperber-Preis.

Começou a publicar no início dos anos quarenta, com uma biografia romanceada de François Villon (“Der Scholar vom linken Galgen”). Mas, entretanto, foi incorporado no exército austríaco, participando activamente na II Guerra Mundial, intervindo na invasão da Polónia, onde foi promovido a tenente, no cerco de Estalinegrado, e acabando por ser preso pelo exército americano na Batalha da Normandia, já com o cargo de tenente-coronel. Como referiu em diversas entrevistas, “foi soldado, mas nunca foi nazi” e, de facto, já na biografia acima referida, estão implícitas várias críticas à dimensão totalitária do regime hitleriano.

Depois da sua libertação, regressou à Áustria e voltou a dedicar-se à literatura. No início da década de cinquenta, publicou um dos seus romances mais relevantes (“Das Boot kommt  nach Mitternacht”, 1953), claramente resultante da sua experiência de guerra. Profundamente impressionado com o estilo de Ernest Hemingway (com quem amplamente se correspondeu), Habeck decidiu posteriormente dedicar-se ao género policial (assinando-os com o pseudónimo de Glenn Gordon) e à análise do período de reconstrução da Áustria do pós-guerra, publicando em 1958, entre muitos outros, o romance que é considerado a sua obra-prima: “Der Ritt auf dem Tiger”. Nestes romances, o autor destaca em particular a forma como sociedade austríaca procurou “silenciar” o seu passado de cumplicidade com o regime nazi e a sua participação activa no Holocausto como via de obter uma nova “normalidade”.

Robert Menasse considerou-o um dos mais importantes autores austríacos do período imediatamente posterior à II Guerra Mundial em “Die sozialpartnerschaftliche Ästhetik”.

Algumas das suas obras foram traduzidas para inglês, francês e italiano nas décadas de cinquenta e sessenta. Hoje encontram-se esgotadas.

 

Novembro de 2020

Desconheço a autoria da foto do escritor.


quarta-feira, 4 de novembro de 2020

ROGER VAILLAND

 


ROGER VAILLAND ou O FIM DO ILUMINISMO

I

Mesmo que não me recorde dele muitas vezes, tenho que reconhecer que Roger Vailland foi um dos meus “maîtres à penser”. De facto, para mim, como para toda uma geração, este comunista e libertino, apaixonado pela escrita e, em particular, pelo romance, hoje já muito esquecido e até estigmatizado, impregnou o nosso (sub)consciente com alguns conceitos e valores que, quer se goste ou não, determinaram comportamentos e modos de estar.

Um desses conceitos – talvez o mais importante – foi o de soberania. E de como a soberania era fundamental para a existência de uma efectiva liberdade ao nível individual e colectivo.

E note-se: quando aqui se fala em soberania não se está a colocá-la num registo “stricto sensu” político. Mas como um valor determinante ao nível do comportamento e, por conseguinte, afectando também o campo pessoal e privado.

Hoje, sabemos todos, este conceito pode parecer perigoso e limitado. Mas como fugir a ele?

 

II

Se, há uns vinte anos atrás, me dissessem que o papel da sedução apareceria manchado ou empalidecido, acharia que toda a gente teria enlouquecido.

É certo que, quando se fala em sedução, se está a referir a um poder de atracção, isto é, de sujeição voluntária do outro a esse poder.

A sedução cega. Subjuga a vontade do Outro; elimina o sentido crítico, coloca um Outro na órbita condicionada de um Sujeito.

De facto, goste-se ou não, está a estabelecer-se uma hierarquia quando se seduz o Outro. Mas será isso inevitavelmente mau?

 

III

Uma das “descobertas” que a obra de Roger Vailland iluminava é a de que existem relações de poder em qualquer esfera do registo social. E era tão brutal essa revelação que eliminava qualquer ideia romântica ou adolescente de haver a possibilidade de se estabelecer qualquer tipo de relacionamento, mesmo o mais íntimo, sem uma hierarquia.

É certo que provava que essa relação de poder não era estática, mas dinâmica, e que, a qualquer momento, se poderia inverter os papéis da relação. E que, por isso, existia uma contínua dialéctica. Mas isso, mais uma vez provava, que ela nunca seria uma equação.

Porém, não há dúvida que esta realidade há-de ser sempre questionada. Todas as gerações, umas a seguir às outras, continuarão a tentar forçá-la, a tentar esmigalhar essa realidade-pedra.

Será isto inevitável? Não sei. Mas estou em crer que sim. Veja-se o próprio Roger Vailland e “Le Grand Jeu” e a aproximação aos surrealistas. Todos crescemos a ter uma concepção ideal das relações amorosas e de uma sociedade igualitária, sem escravos nem amos, comunista. Todos temos qualquer coisa de Keats.

Ora, Roger Vailland durante algum tempo, consciente do determinismo destas relações de poder, ainda acreditou que esse comunismo desejado (a transformação dessa tal realidade-pedra em areia) fosse mais possível de atingir, se, por bons motivos (isto é, por motivos progressistas e igualitários), através de um forte e autoritário poder, invertesse a relação secularmente estabelecida. Daí que tenha defendido e apoiado Estaline.

Mas rapidamente compreendeu que o poder degrada e perverte. Sempre. O que o levou a questionar todo o seu quadro pessoal. A razão, como instrumento soberano, tinha-o traído. E, por isso, abandonou o PC francês.

E isolou-se. Abandonou os jornais e a militância de toda uma vida. Debaixo da protecção da sua mulher amada (Elisabeth Vailland), vai continuar apenas com a sua paixão de sempre: escrever, escrever, pensar e construir histórias.

Os seus últimos romances (“La Loi”, “La Fête” e “La Truite”), os mais interessantes na minha opinião, colocam a questão da soberania num registo individual. Mas, como se percebe em “Le Regard froid”, Roger Vailland tinha consciência de que estava amputado de uma dimensão essencial: era impossível entender a questão da soberania como uma estrita questão privada.

Restava-lhe apenas viver, pois gostava demasiado da vida para lhe pôr fim.

Até que o câncro o levou. 

Novembro de 2020.

Foto do autor de Marc Garanger.









quinta-feira, 22 de outubro de 2020

VÉRONIQUE TADJO

 

OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

23ª Vinheta


VÉRONIQUE TADJO

 

Véronique Tadjo (1955-) é uma importante escritora da Costa do Marfim, que, desde os finais da década de oitenta, escreveu e publicou vários livros de poesia, romances e obras para a infância e juventude. Formada na Sorbonne, com uma tese sobre cultura americana, viveu em diversos países europeus e africanos. Já venceu, entre outros, o Grand Prix littéraire d’Afrique noire, com o romance “Reine Pokou”, em 2005. No domínio dos livros para a infância e juventude, área a que Véronique Tadjo tem dedicado intensamente a sua capacidade criativa como escritora e ilustradora, as suas obras têm obtido um significativo sucesso, pois foram traduzidas para diversas línguas e estão editadas em vários países europeus e africanos.

Para além de três livros de poesia e dos já referidos livros para a infância e juventude, Véronique Tadjo publicou seis romances, todos centrados em temáticas muito distintas e recorrendo, quase sempre, à mitologia e à tradição cultural africana. A recriação destas fontes, através de uma linguagem com fortes conotações líricas, é principalmente notório nos seus primeiros romances, em particular, no conjunto de narrativas fragmentárias de “À vol d’oiseau”, 1992, do “apocalíptico” “Le Royaume aveugle”, 1991, e em “Reine Pokou, concerto pour un sacrífice”, 2005, onde recorre a uma lenda para perceber não só a origem do seu país, mas também a violência que o domina na actualidade. Depois, mudando de registo, os seus romances seguintes orientam-se para as relações familiares, em “Loin de mon père”, 2010, e para a incomunicabilidade amorosa, em “Champ de bataille et d’amour”, 2006. Por fim, há ainda os seus romances que se debruçam sobre algumas das tragédias que recentemente assolaram o continente africano, como o genocídio dos tutsi no Ruanda, em “L’Ombre d’Imana”, 2001, ou a epidemia do Ébola, em “En compagnie des hommes”, 2017.

Por fim, deve assinalar-se que uma das características da obra da autora é que as suas narrativas decorrem sempre à partir de um “olhar” interior que vai reflectindo sobre as situações descritas, procurando retirar delas uma certa forma de sabedoria que consiga conciliar a vida mesmo com os factos mais terríveis. Quer isto dizer, que os seus romances diluem os contextos situacionais a breves anotações, sem muitos pormenores, centrando-se, no essencial, nos “efeitos” que produziram nos narradores ou personagens principais. Daí que a sua obra tenho um forte registo poético e monológico, em que os mitos e as lendas tradicionais africanas aparecem como “background” dos narradores e personagens.

Não há dúvida, porém, que, no conjunto da obra de Véronique Tadjo, se destaca o romance “L’Ombre d’Imana”. Com o objectivo de melhor compreender o genocídio no Ruanda, a autora aceitou participar numa residência literária neste país, e, em parte para redimir pela criação e pela afirmação da vida a presença avassaladora da morte, decidiu escrever este romance. Nele, tenta entender como é que a “sombra de Deus” (os Ruandeses acreditam que a “sombra de Deus", a que chamam Imana, “cobre” o seu país) desapareceu durante (e após) o genocídio, deixando os homens à mercê dos seus impulsos mais brutais e criminosos, o que provocou não só um rastro de morte como deixou marcas indeléveis na memória dos sobreviventes e até na própria realidade concreta que os rodeia (recordo que uma das “chagas” vivas destes acontecimentos foram os “filhos de guerra”, isto é crianças geradas com as violações que ocorreram durante o genocídio). Recorrendo a três personagens femininas, à sua própria experiência e ao confronto com a experiência dos outros, no seu estilo já característico, em que concilia géneros com os modelos narrativos assentes na fragmentação e na elipse, Véronique Tadjo vai dar voz neste romance às vítimas e aos carrascos, recolhendo depoimentos e testemunhos presenciais, procurando entender como conseguiram superar aquele colossal trauma, em particular quando aqueles papéis muitas vezes se inverteram. De facto, a autora parte do pressuposto que aqueles acontecimentos imanam da própria condição humana, capaz, conforme as circunstâncias, tanto do Bem como do Mal. Por isso, não procura efectivamente exorcizar o impossível, mas, em particular, compreender como a sobrevivência e a necessidade de reconstruir a vida se foi sobrepondo à referida presença da morte num penoso caminho em que a memória procura libertar-se, possibilitando a continuidade da vida e apaziguando o ódio, dos sinais que, em seu redor, registam uma violência abjecta.

Os romances de Véronique Tadjo estão traduzidos para inglês, alguns para espanhol e italiano, e foram editados em vários países europeus e africanos, o mesmo sucedendo, ainda com maior destaque, com as suas obras para a infância e juventude.

Apenas tenho conhecimento da edição de um título de uma obra sua para a infância e juventude no nosso país. No entanto, recolhi a informação de que “L’Ombre d’Imana” foi traduzida para português por Francisco Guesdes, e editada em Angola, com o título “A Sombra de Imana”. Não conheço esta edição.

Outubro de 2020.

Direitos da foto da autora pertencentes à RAMA




segunda-feira, 12 de outubro de 2020

KAREN AABYE

 

OS ESCRITORES IMPOSSÍVEIS


I


KAREN AABYE

 

Karen Aabye (1904-1982) foi uma escritora dinamarquesa que começou a publicar nos finais dos anos trinta, e que, na década seguinte, se tornou particularmente popular no seu país com uma ampla saga histórica (uma trilogia), intitulada “Det skete ved Kisum Bakke”, situada no séc. XIX, e onde retrata a gradual afirmação da mulher na sociedade patriarcal dinamarquesa. Além disso, publicou também um outro conjunto narrativo, composto por cinco romances, de novo situado no séc. XIX, iniciado por “Martine”, 1950, e concluído com “Den røde dal”, 1954, contextualizado na emigração da população rural da Jutlândia para a América, neste caso concreto para o Canadá.

Segundo os seus leitores, as suas obras contem sempre personagens femininas bem delineadas, sensitivas, mas, ao mesmo tempo, fortemente determinadas na busca da sua afirmação social e da sua felicidade. Os quadros sociais em que se processam os seus romances são bastante amplos, indo desde a população camponesa à aristocracia dinamarquesa.

Estas protagonistas, marcadamente positivas, contribuíram para que a mulher dinamarquesa entende-se que era possível ter um estatuto social mais autónomo e independente e, de certo modo, funcionaram como exemplo na prossecução deste objectivo.

A situação de jornalista e de correspondente de jornais dinamarqueses de Karen Aabye deu-lhe o gosto pelas viagens, publicando alguns livros onde descreve esta sua experiência. Escreveu também algumas biografias.

Continua a ser uma autora bastante popular e reconhecida no seu país.  

De acordo com a informação recolhida, dois dos seus romances foram traduzidos e editados em francês nas décadas de quarenta e cinquenta. Hoje estão fora do mercado.

Outubro de 2020

 

Desconheço a autoria da foto da escritora.


terça-feira, 6 de outubro de 2020

DAVID WAGNER

 

OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

22ª Vinheta




DAVID WAGNER

 

David Wagner (1971-) é um escritor alemão que já publicou, desde o início deste século, três romances, uma colectânea de contos, um livro de poesia e diversas obras de um género indefinido, a que aqui chamaremos de narrativas. É neste género, bem característico e generalizado na literatura alemã contemporânea, que o autor se tem distinguido, unanimemente elogiado pela crítica e obtendo vários galardões, onde se destaca o Prémio Literário da Feira do Livro de Leipzig, com a sua obra “Leben”.

Estas obras de “narrativa” caracterizam-se por serem trabalhos reflexivos sobre situações concretas vividas pelo narrador, num registo muito próximo da autoficção. O que distingue estes livros de David Wagner, no conjunto da produção narrativa similar alemã, é a originalidade e profundidade dessa reflexão, associada a uma inegável capacidade de descrição e observação, numa prosa de indiscutível qualidade estética em termos estilísticos. Saliente-se ainda que, na nossa opinião, estas características são generalizáveis às obras subtítuladas como “romances”, pois, no essencial, não se distinguem das restantes obras “narrativas” do autor.

O foco em que se centra estas obras é muito variado: desde as mutações que a cidade de Berlim sofreu ao longo dos tempos e que o narrador vai descobrindo com as suas deambulações (“In Berlin”, “Welche Farbe hat Berlin?”, “Mauer Park” e “Drüben und drüben”, este em co-autoria com Jochen Schmidt, onde se confronta as infâncias dos autores ocorridas em Berlim Ocidental e Oriental); ou as suas leituras, que o narrador considera que efectuam um todo com o lugar em que as fez (“Sich verlieben hilft”); ou a análise minuciosa e interpretativa da vida própria dos quartos de hotel (“Ein Zimmer im Hotel”); ou a estadia num país “estranho”, a Roménia, para escrever um romance, que não consegue produzir, mas que leva o narrador a reflectir sobre esse absorvente quotidiano do lugar onde se encontra (“Romania”); ou ainda a relação que o narrador estabelece com o pai, gradualmente demente e incapacitado, e que o leva a cuidar com o afecto de se tornar “substituto” da memória dele, dando-lhe a felicidade e a alegria que já se lhe tornavam impossíveis sem esse apoio (“Der vergessliche Rise”).

Da mesma forma, como já referi, os romances e o livro de contos, no essencial, assumem o mesmo registo das narrativas. Assim, em “Meine nachtblaue Hose”, a sua primeira obra, a personagem principal rememora, em tom melancólico e desencantado, a sua vida, feita de pequenos nadas, vazios e alguns amores, referenciando-os a objectos do quotidiano, como umas calças “azul meia-noite”; ou “Spricht das Kind”, onde se reflecte sobre a infância, os seus constantes rituais, que aparecem em todas as gerações, e, por conseguinte, como o seu entendimento está interligado com o estatuto de pai; ou “Vier Äpfel”, em que a personagem principal, a partir de um acto banal num supermercado, sente necessidade, de súbito, de reflectir sobre a passagem do tempo, as formas de consumir e os amores passados; ou ainda, por último, a colectânea “Was alles fehlt”, provavelmente o seu livro menos conseguido, onde as breves situações encenadas aparecem como fruto de reminiscências do passado das personagens, num registo lacónico e elíptico muito próximo de Raymond Carver.

 Mas não há dúvida que é “Leben”, a narrativa que obteve o Prémio Literário da Feira do Livro de Leipzig, a sua obra mais relevante. A obra desencadeia-se quando o narrador recebe o telefonema do hospital a avisá-lo que em breve será internado para efetuar uma operação de transplante de fígado, momento que há algum tempo aguardava. É este acontecimento que o leva a reflectir sobre o significado da vida, o sentido da morte do Outro para que ele possa ter uma extensão da sua, o papel da doença, os motivos que o levam a enfrentar uma “segunda vida”, o papel do corpo, físico e orgânico, na existência, etc. No seu leito do hospital, enquanto espera pela sua operação, o narrador vai observando em redor o comportamento dos outros pacientes, ouvindo as suas histórias e confissões, tentando perceber o que os motiva a estar ali numa expectativa de uma sobrevivência que lhes permita perceber o que viveram, ao mesmo tempo que vai rememorando o seu passado e os seus afectos.

Há obras de David Wagner traduzidas para francês e espanhol. “Leben” está traduzido e editado, com o título “En vie”, em França, e “Welche Farbe hat Berlin?”, com o título De qué color es Berlín”, e “Spricht das Kind”, com o título Cosas de Niños”, em Espanha.

 

Outubro de 2020

Foto do autor de Horst Galuschka.



 


terça-feira, 22 de setembro de 2020

OKSANA ZABUZHKO

 

OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

 

21ª Vinheta



OKSANA ZABUZHKO

  

“Language — any language — that’s what I would call the capital love of my life: nothing else has the power to synthesize music and myth, two things without which the world would be a totally unlivable place.” — Oksana Zabuzhko

 

Oksana Zabuzhko, ou Oksana Zaboujko, na transliteração para francês, ou Oksana Sabuschko, para alemão (1960-), é uma escritora ucraniana que é reconhecida como uma das mais importantes intelectuais do seu país, desde que este se tornou independente da União Soviética. Poeta, ensaísta e romancista, tem-se destacado em todos estes géneros literários, obtendo vários prémios, sendo de destacar o Prémio Angelus, considerado um dos mais importantes galardões concedido a obras literárias oriundas do Centro e Leste europeu. Académica, ensinou em diversas universidades americanas e é actualmente professora na Universidade de Kiev, dando aulas sobre literatura ucraniana e filosofia.

É opinião generalizada que escreveu provavelmente algumas das obras mais relevantes da literatura ucraniana contemporânea, gerando enorme polémica entre os críticos, mas com uma enorme receptividade por parte do público leitor. As suas obras que mais se destacaram são o ensaio Notre Dame d’Ukraine: Українка в конфлікті міфологій  (em inglês: Notre Dame d'Ukraine: Ukrayinka in the Conflict of Mythologies), 2007, e dois dos três romances de sua autoria: Польові дослідження з українського сексу (em inglês: Fieldwork in Ukrainian Sex), 1996, e Музей покинутих секретів (em inglês: The Museum of Abandoned Secrets), 2009. 

Centrando-se estas obras nos temas do género e da identidade nacional, percebe-se que as obras de Oksana Zabuzhko, assim como a sua intervenção pública, não sejam consensuais. Recordo, sem muitos pormenores, que, se é indiscutível que a Ucrânia tem uma vincada identidade nacional, com fundamentos culturais seculares (é esse o tema do ensaio acima referido), a sua independência política, ao longo dos tempos, têm-se revelado muito frágil e complexa, resultante das dificuldades em afirmá-la entre os dois grandes Blocos, por integrar uma percentagem importante da sua população que é pró-russa, em termos culturais e políticos, e por existirem grandes discrepâncias económicas na população (com uma classe oligárquica cujo poder económico e político assenta em grande parte nos interesses e nos negócios que mantem com a Rússia). Além disso, tal como sucede nos restantes países do Leste da Europa com uma forte presença do cristianismo ortodoxo e com um longo passado feudal e agrário, é uma sociedade marcadamente patriarcal, com a consequente subjugação sexual e social da mulher, mas onde esta vem, gradualmente, a assumir um maior protagonismo cultural, económico e político.  

Grande parte do ascendente da obra de Oksana Zabuzhko deriva de ter introduzido, nas letras e na cultura ucranianas, a reflexão resultante dos estudos de género e a perspectiva pós-colonialista na análise da situação da mulher e da sujeição do seu país à Rússia. Essa posição, numa cultura ainda muito fechada e sob a influência da cultura russa, definiu claramente que a autora se colocava do “lado” das forças sociais e políticas que defendiam a independência nacional e uma aproximação ao Ocidente; mas, sendo este “lado” acentuadamente dominado por posições nacionalistas e xenófobas, levou a que Oksana Zabuzhko se demarcasse destas posições, procurando afirmar-se como uma voz independente.

Da obra narrativa da autora, constituída por três romances e algumas colectâneas de contos, só estão traduzidos dois romances e um livro de contos (com o título em inglês de “Your Ad Could Go Here”) para inglês, francês e alemão (neste última língua, também estão traduzidos alguns ensaios).

“The Museum of Abandoned Secrets”, o seu último romance, é uma ampla saga histórica, com ingredientes do género policial, que se desenrola ao longo da história contemporânea da Ucrânia desde o fim da II Guerra Mundial às vésperas da chamada “Revolução Laranja”. A protagonista, uma jornalista que investiga alguns factos que lhe permitam perceber melhor os antecedentes da independência política ucraniana, descobre a foto de uma militante do Exercito Insurrecional Ucraniano que foi assassinada pela polícia política de Estaline (esclareça-se que aquela entidade é uma organização militar independentista, activa nos anos quarenta e cinquenta, com um percurso muito obscuro, pois ainda hoje é acusada de crimes de genocídio por parte dos polacos e dos russos, que combateu os exércitos nazi e Vermelho e que foi dizimada pelo último). A partir deste documento, a jornalista vai desvendar uma história complexa, feita de corrupção, lutas pelo poder, paixões e assassínios, que se desenrola por várias gerações, envolvendo a vida pessoal e pública de várias mulheres, até aos inícios do presente século. Mas o romance apresenta outros protagonistas que vão transmitir uma imagem poliédrica da história recente da Ucrânia, revelando a dimensão épica da luta, quase sempre clandestina e subliminar, dos militantes independentistas ucranianos contra o domínio soviético. 

Mas não há nenhuma dúvida que a obra mais importante de Oksana Zabuzhko até hoje é “Fieldwork in Ukrainian Sex”. Basta apenas assinalar que, desde que foi publicado, se tornou o romance mais vendido na Ucrânia (estatuto que manteve durante mais de dez anos) e que ainda hoje é considerado como uma das obras mais determinantes da cultura ucraniana desde a independência política. O romance é um longo monólogo de uma poetisa e professora convidada na Univ. de Harvard (um explícito alter-ego da autora), sobre a sua condição de mulher e sobre a sua relação amorosa com um pintor ucraniano. Ao longo dele, a narradora vai dissecando o comportamento abusivo do seu amante, a violência intelectual e física que exerce sobre ela, ao mesmo tempo que analisa os motivos que a levam a sentir-se atraída por ele e a aceitar a sua dominação. De forma inevitável, é também levada a efectuar uma analogia entre o seu estatuto de mulher aviltada (uma não existência) e a própria identidade nacional, também ela condicionada a não-existir ou a subjugar-se à vontade soberana da Rússia.

Este monólogo, acompanhando o fluir do pensamento, não só dilui as referências de tempo e espaço, como é feito na primeira, na segunda e na terceira pessoa do singular (conforme as situações narradas e o efeito que se pretende criar no leitor), transformando-se num “continuum” sinuoso e complexo, entre o registo poético e reflexivo, onde, a partir da sua experiência pessoal, se alarga ao estatuto de todas as mulheres ucranianas, demonstrando como o seu temor à repressão e aos códigos masculinos, a levou a não poder fruir do seu corpo e a ser eliminada sistematicamente da sociedade e da História. No fundo, o mesmo que sucedeu ao seu país ao longo dos tempos, motivando a que o povo ucraniano questionasse a sua identidade, ao ponto de se seduzir, como forma de reacção e afirmação, por movimentos xenófobos e nacionalistas.

Setembro de 2020

Desconheço a autoria da foto da escritora.




quarta-feira, 16 de setembro de 2020

CARMINE ABATE

 

OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

20ª Vinheta


CARMINE ABATE

 

Carmine Abate (1954-) é um escritor italiano, de origem arbëreshë, da região da Calábria, que emigrou, com a sua família, ainda muito novo, para a Alemanha, onde viveu até aos seus trinta anos. A partir da década de setenta, publicou vários livros de poesia, de ensaio, de contos e dez romances, sendo neste género que mais se tem evidenciado, obtendo vários prémios no seu país, entre os quais se destaca o Prémio Campiello de 2012, com “La collina del vento”.

Antes do mais, para perceber a obra deste autor, talvez seja útil esclarecer um pouco quem são os arbëreshë. Este povo é constituído por albaneses que emigraram para o Sul da Itália, principalmente para a Calábria e para a Sicília, a partir dos finais do séc. XV, quando a sua originária terra foi conquistada e anexada pelo Império Otomano. Profundamente arreigado às suas tradições culturais, conseguiu manter a sua língua, transformada num dialecto ítalo-albanês, vários costumes e as suas práticas religiosas (são católicos de rito bizantino). Sendo considerados como a maior minoria da Itália, os arbëreshë têm obtido algum reconhecimento por parte das autoridades italianas, pois que a sua cultura e a sua língua são ensinadas nalgumas escolas e universidades. Porém, ainda hoje é um povo com uma vivência acentuadamente rural, e, por isso mesmo, a sua língua é de uso quotidiano em muitas aldeias e povoações. Segundo os últimos dados conhecidos, esta comunidade é constituída por cerca de cem mil pessoas.   

Tendo em conta esta origem e, em particular, a sua situação de emigrante na Alemanha, compreende-se que se considere habitualmente que os temas nucleares da narrativa de Carmine Abate sejam as tradições culturais da sua comunidade, o multiculturalismo, a emigração e os problemas decorrentes da condição de migrante. Entendo, no entanto, que há que perspetivar de forma mais ampla esta narrativa e considerar que ela se centra nas situações de confronto entre universos culturais distintos e as correspondentes formas de estar e de sentir.

No conjunto da sua obra, há três romances que, sendo inteiramente autónomos, se interligam numa unidade, que o próprio autor intitulou “Le stagioni di Hora”, e que são “Il ballo tondo” (1991), “La moto di Scanderberg” (1999) e “Il mosaico del tempo grande” (2006). Situados em Hora, um lugar mítico e ao mesmo tempo bem concreto, os dois primeiros romances são sagas familiares, onde o passado lendário dos arbëreshë e o espectro sombrio da emigração se cruzam, num registo ao mesmo tempo lírico, mágico e realista; o último tem um enfoque mais aberto a toda a comunidade, pois a narrativa procura cimentar, como num mosaico, vários “momentos” épicos da história do povo albanês e da “fuga” daqueles que em Itália vão dar origem aos arbëreshë.

Da restante obra narrativa de Carmine Abate, merece particular destaque os romances “Tra due mari” (2002), “La festa del ritorno” (2004), “La collina del vento” (2012), “La felicità dell’attesa” (2015) e “Le rughe del sorriso” (2018).

Mesmo continuando a “revisitar” a temática da cultura tradicional da sua comunidade (e o lugar de Hora, onde volta a situar alguns destes romances), Carmine Abate centra-se mais, nestas obras, no fenómeno migratório das gentes oriundas da “sua” Calábria e a sua integração nos países de acolhimento, sejam eles a Alemanha, a França ou a “América”. Saliente-se que estes romances procuram evidenciar, mais do que a problemática da integração, o contraditório rosário de sofrimento e mágoa do emigrante resultante da culpabilização de ter abandonado a sua terra, o seu património familiar e colectivo (decisivo para estruturar a sua identidade como migrante) e os objectos do seu afecto (filhos, pais, amigos e amores), e de como essa mágoa tem um efeito desagregador que lhe dificulta a sua inserção na sociedade em que optou (?) viver.

Assim, Carmine Abate, fruto da sua experiência de emigrante, compreendeu que existem dois “universos”, com peso equivalente, que se digladiam em quem emigra. Esses “universos”, ao mesmo tempo reais e fantasiados, são tingidos, por um lado, pelo sonho e pela ambição de se afirmar num “novo” mundo, e, por outro, gizados com a memória opressiva daquilo que ficou. Por isso mesmo, os seus romances, através dos seus narradores e personagens principais, procuram destacar, em diversos contextos e situações, a epicidade de quem parte, mas também de quem resiste a esse sonho e permanece, lutando pela preservação do seu património, no lugar em que nasceu. Esse lugar é sempre a Calábria, com os seus vestígios históricos, as suas montanhas e colinas, os seus mares, a sua paisagem agreste, as suas gentes - camponeses rudes e isolados -, as suas tradições e culturas, que se “colam”, como uma segunda pele, em todas as figuras que povoam a obra de Carmine Abate, sejam elas emigrantes ou não.

É este o caso de “Tra due mari”, cuja trama assenta no percurso de dois homens (um fotógrafo alemão que, após a II Guerra Mundial, resolve procurar na Calábria a luz que necessita para o seu trabalho, e um natural da região, obcecado com as “suas” tradições patrimoniais, em particular com a reconstrução de uma pousada, onde teria pernoitado Alexandre Dumas), nas cumplicidades e nas tensões que entre ambos se vão criando ao longo do tempo, e nos reflexos desta relação nas gerações futuras (pois os filhos destes homens casaram-se e deram origem a Florian, o jovem narrador que redige a sua história).

Mas talvez seja mais evidente a temática do confronto de culturas e a relevância dos já referidos “universos” nos romances “La collina del vento” e “La felicità dell'attesa”, que, de certo modo, formam um díptico. No primeiro, narra-se a história de uma família, os Arcuri, ao longo do séc. XX, e da sua defesa obstinada de uma colina, que considera como o seu lugar matricial, contra as ambições mafiosas da especulação imobiliária; o segundo, narra a vida na “América” de várias gerações de emigrantes de uma mesma família, também ao longo do séc. XX, e sua constante luta por vencer e por obter “um lugar ao sol” (uma das figuras determinantes de “La felicità dell'attesa” é Andy “The Greek” Varipapa, um calabrês que se tornou mundialmente conhecido como campeão de bowling), por serem felizes e apaixonar-se (também aparece no romance Norman Jean...), mas cujo peso do passado os leva a sentirem-se constantemente divididos, regressando e de novo  “fugindo”, para escapar à miséria e ao trabalho escravo nas minas calabresas.

A Calábria é também o lugar central de “Le rughe del sorriso”, mas agora como terra de “abrigo” dos refugiados africanos (é esta a constante ironia da História: uma terra de emigrantes que se transforma no “porto” de chegada de imigrantes…). Neste romance, a personagem principal é agora uma jovem somali que, depois de atravessar o Mediterrâneo e entrar num centro de acolhimento, desaparece com a sua família, “esfumando-se” na Europa. Só que a passagem da sua beleza e do seu sorriso deixou uma semente no seu professor de italiano que, apaixonado, vai tentar desvendar o passado daquela jovem até a sua chegada e descobrir os mistérios e tragédias que escondem aquele esfíngico sorriso. O seu objectivo é perceber qual foi o seu possível destino, se foi voluntário ou forçado, e o que ela procura na Europa, que a obriga constantemente a partir, para tentar seguir-lhe o rasto. Mas o romance, paralelamente, deseja também entender como é que a Calábria, terra de emigrantes, desertificada e com uma população envelhecida, reage a esta nova população e se lhe manifesta a mesma hospitalidade que as suas gentes procuraram no estrangeiro quando emigravam.

Pela minha parte, gostaria de destacar o romance “La festa del ritorno”, por me parecer ser o que, com a sua trama aparentemente simples, melhor sintetiza a problemática do autor. Mais uma vez neste romance, o narrador é um adolescente que vive na sua Calábria natal a amargura de se sentir abandonado pelo pai emigrante. Sucede, no entanto, que este pai, culpabilizado pelo abandono da sua terra e da sua família, vive em tormento a sua condição. Até que, em consequência de uma tragédia familiar, em que o adolescente se vê obrigado a assumir o papel do pai em defesa da família, levando-o a uma situação que lhe poderia trazer consequências dramáticas e irremediáveis, o emigrante resolve prometer ao filho que não voltará a emigrar (uma situação recorrente em alguns romances de Carmine Abate), ficando na sua terra para proteger os seus e a sua comunidade.

Convém, por último, referir que, se os romances de Carmine Abate têm uma estrutura quase sempre um pouco convencional (há sempre um narrador, habitualmente um jovem, que introduz as situações que se vão desenrolando ao longo do romance e que funciona como uma espécie de alter-ego, sempre distinto, do próprio escritor), a sua trama é, por vezes, bastante complexa, muito romanesca e nitidamente resultante da recriação da própria experiência do autor. Além disso, e é este o aspecto mais assinalável da sua obra, apresenta sempre um estilo bem musical, com uma utilização constante de termos dialectais, que lhe dão um colorido sensorial, emotivo e lírico, e que o recurso constante à cultura popular, arbëreshë ou apenas calabresa, consegue transmitir uma tonalidade mágica a muitas das situações narradas.

Existem vários romances de Carmine Abate traduzidos e editados em inglês, francês e alemão (em particular, da trilogia de “Le stagioni di Hora”, pois foram as obras que, provavelmente, maior sucesso internacional tiveram).

No nosso país, o Círculo de Leitores editou dois romances (“O Baile Circular” e “Entre Dois Mares”), sempre com traduções cuidadas de Eduardo Saló.

Setembro de 2020

Desconheço a autoria da foto do escritor.




segunda-feira, 7 de setembro de 2020

STIG DAGERMAN

 

OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

19ª Vinheta



STIG DAGERMAN

 

Stig Dagerman (1923-1954) é indiscutivelmente um dos mais prestigiados escritores suecos do séc. XX. Mas a sua breve existência e o seu curto período de efectiva produtividade literária não levavam a crer, quando morreu, que a sua obra viesse a ter a actual projecção. É certo que Stig Dagerman, desde a edição do primeiro livro, obteve logo a aprovação dos críticos (e dos seus pares) e ainda do público leitor. Mas, mesmo assim, nada faria prever a consagração que esta obra obteve após a morte do autor e principalmente o seu reconhecimento internacional.

Creio que a obra e a personalidade de Stig Dagerman permite evidenciar um lugar-comum que muitas vezes é esquecido: a de que, para lá da técnica e da competência estética e literária adquirida, o que efectivamente distingue os criadores literários é a sua sensibilidade e a forma como apreendem o mundo.

Na generalidade dos casos, os estudiosos da obra de Stig Dagerman costumam assinalar dois factos decisivos para a formação da sua personalidade. O primeiro, foi ter sido abandonado pela mãe (que era solteira) pouco depois de ter nascido, deixando-o aos cuidados dos avôs paternos na sua fazenda rural (o pai tinha migrado para Estocolmo), vindo apenas a reencontrá-la depois de adulto. Segundo se crê, esta situação foi determinante para lhe provocar uma instabilidade emocional que o iria acompanhar ao longo da sua curta vida e que seria um dos factores que mais pesariam para o seu caracter depressivo e para a sua propensão para o suicídio. O segundo, foi ter sido introduzido pelo pai (com quem veio viver aos onze anos) no meio sindical, onde tomou contacto com os princípios libertários e anarquistas. Recorde-se que estamos a referir-nos à década de trinta do século passado, quando pela Europa estão em ascensão os movimentos fascista e nazi e, por outro lado, ocorre a Guerra Civil de Espanha. Foi neste meio sindical que Stig Dagerman conseguiu revelar as suas capacidades de escrita, ao trabalhar na imprensa operária e obtendo um rápido prestígio e reconhecimento, e que vem a conhecer a sua primeira mulher, filha de anarco-sindicalistas alemães. Esta família, que tinha fugido da Alemanha de Hitler e que, depois de ter participado activamente na Guerra Civil de Espanha, se refugiou, após a derrota das forças republicanas, na Suécia, vai-lhe propiciar tomar conhecimento dos grandes debates ideológicos e políticos que então atravessam a Europa, levando Stig Dagerman a acolher em definitivo o ideal libertário.     

De facto, foi este contexto que o estimulou a escrever o seu primeiro romance “Ormen” (“A Serpente”; na medida em que todas as obras narrativas deste autor estão traduzidas e editadas no nosso país, apresentaremos apenas os títulos na língua original e na sua tradução portuguesa), 1945, que publica quando ainda tem apenas vinte e dois anos, e que obtém um imediato reconhecimento crítico. A partir daqui, tudo ocorre a uma velocidade vertiginosa na vida de Stig Dagerman: no ano seguinte, publica um segundo romance e convence o seu jornal a permitir-lhe efectuar uma reportagem na Alemanha, para perceber em que estado ficou este país e a sua população após a derrota nazi, e que publica no ano seguinte. É nessa altura que se introduz no meio teatral, o que o leva a escrever várias peças de teatro, e vem a conhecer a segunda mulher, uma jovem actriz já com algum sucesso, com quem de imediato se casa. Publica logo de seguida, um livro de contos e um novo romance, mas começa a sentir dificuldades financeiras, resultantes da necessidade de sustentar os filhos do primeiro casamento e uma filha que nasce deste segundo relacionamento. É esta situação, associada a uma propensão clara para a depressão e um enorme cepticismo em relação ao seu lugar no mundo e ao futuro, e ainda a uma obsessiva crise de inspiração, que o leva a suicidar-se. Pelo caminho, em apenas cinco anos, ficaram quatro romances, um livro de contos, uma grande reportagem, várias peças de teatro, inúmeros poemas satíricos que publicou diariamente no jornal onde trabalhou e alguns textos dispersos que deram origem a uma colectânea póstuma (“Tusen år hos Gud”), de onde se extraiu algumas das páginas mais conhecidas do autor e foram intituladas no nosso país por “A Nossa Necessidade de Consolo É Impossível de Satisfazer”.

Por comodidade, é costume associar a obra de Stig Dagerman à filosofia existencialista de que, de facto, é coeva. Mas creio que será mais adequado enquadrá-la no clima social e político da época, em particular na situação de guerra, que, de diversas formas, contribuiu decisivamente para a sua “tonalidade” global.

Creio que o principal motivo da perenidade da obra de Stig Dagerman deriva do sentimento, verdadeiramente estrutural, de que existe uma profunda vulnerabilidade na vida. E que, só por existir, a própria vida provoca uma situação de “perca” porque gera uma expectativa que ficará sempre “insatisfeita”. Creio ainda que é este sentimento que dá sentido e sustentabilidade às posições ideológicas e políticas do autor, levando-o a entender o homem como um Sísifo em busca de concretizar um sonho de alterar profundamente a sua vida que, de um modo inevitável, nunca será atingido.

Há quem considere que existe neste “olhar” sobre o mundo uma “sensibilidade” genuinamente adolescente. Mas, mesmo que se entenda desta forma este “olhar”, não há dúvida que foi o germe de uma exigência moral e de um furor criativo que está na base de uma obra que, mesmo na sua diminuta dimensão, é bem distinta de livro para livro, tanto em termos estilísticos e de arquitectura, como nos focos da realidade em que se centrou e que se revela de uma invulgar lucidez e de uma fulgurante beleza.

Não admira por isso que os leitores e os analistas da obra de Stig Dagerman tenham flutuado na avaliação de qual dos seus livros é a sua efectiva obra-prima.

Assim, desde o já referido “Ormen” (“A Serpente”), um conjunto de narrativas aparentemente distintas que se conjugam num romance centrado no tema do medo (ou do medo do medo) e do espaço concentracionário, até Bröllopsbesvär” (”As Sete Pragas do Casamento”), 1949, que é, mais do que uma trágica e mordaz sátira às contradições, absurdos e equivocos que nascem no seio do ”casamento”, um libelo acusatório sobre as dificuldades de comunicação entre os homens, passando por ”De dömdas ö” (”A Ilha dos Condenados”), 1946, uma alegoria sobre o horror da incomunicabilidade e da morte, em torno de sete náufragos que aguardam o fim inevitável numa ilha deserta, e por ”Bränt Barn” (”O Vestido Vermelho”, na versão portuguesa, mas cuja tradução literal para inglês é ”A Burnt Child”), 1948, já todos foram considerados como “a” obra-prima de Stig Dagerman ao longo das épocas e de diversos leitores. Além disso, há também a considerar a reportagem “Tysk höst” (“Outono Alemão”), 1947, entendida como modelar, pela intensidade e pelo sentido de observação, do que deve ser um trabalho jornalístico, e que é hoje uma peça fundamental para compreender o povo alemão, o seu envolvimento com o nazismo, e a abissal e inumana miséria que sobre ele caiu com o fim da II Guerra Mundial, do regime que a motivou e o brutal comportamento revanchista das forças aliadas vitoriosas.

Pela nossa parte, gostaria de chamar a atenção para “O Vestido Vermelho”. Este romance, de tonalidades fortemente edipianas, centra-se na relação conflituosa de Bengt, um jovem de vinte anos, com o seu pai, despoletada pela brutal descoberta, com a morte da mãe (a obra inicia-se coma descrição, com uma rude objectividade e uma intensa carga simbólica, da sua vigília e enterro) de que a vida não passa de uma anónima solidão, rodeada pela abissal indiferença dos outros. É essa “verdade” que o narrador vai dissecar e transfigurar em páginas redigidas na primeira pessoa do singular, e que se contrapõem às que, redigidas na terceira pessoa do singular, se descreve, de uma forma concisa e sincopada, as situações familiares que envolvem o jovem Bengt, não só com o pai, mas também com a amante deste e com a sua noiva. De facto, Bengt é uma personagem dilacerada por sentimentos contraditórios: entre a compaixão e a repugnância para com o pai, que encara como um alcoólico e um cobarde, principalmente por ter ocultado a relação com a sua amante enquanto a mãe ainda era viva e por ter rodeado esta de desprezo e indiferença; pelo ódio e o desejo para com a amante do pai, que procura humilhar e seduzir; pela ternura e o repúdio para com a noiva, que, na maior parte das vezes, considera um ser servil e abúlico; e, por fim, para consigo próprio, porque pressente que a paixão que sente pela mãe se irá esfumar com o tempo e que ele próprio se irá acomodar à mesma indiferença que os outros sentiram por ela em vida.

No fundo, Bengt percebe que essa “verdade”, que descobriu com o seu luto e o seu exercício de lucidez, irá gradualmente consumir-se como a vela da candeia em que se queimou no dia do enterro (“o filho queimado”). E, por isso, esta vela torna-se o símbolo mais perene e constante de todo o romance, pois, por um lado, representa a vida da mãe, mas por outro, os sentimentos que a personagem principal por ela nutre e, por fim, a sua própria vida.

Por último, deve assinalar-se que a obra narrativa de Stig Dagerman está toda traduzida e editada no nosso país e que, além disso, é servida por muito boas traduções e ainda que, em quase todas as edições, existem introduções e notas introdutórias que as procuram contextualizar. Assim, e começando pela mais antiga, pois a primeira edição é já dos finais dos anos cinquenta, efectuada pela Estúdios Cor (e reeditada mais tarde pela Antígona), está “O Vestido Vermelho”, numa tradução de Irene Lisboa, que também redigiu um prefácio; depois, na década de oitenta, é publicado pela Fenda uma pequena brochura, o já referido “A Nossa Necessidade de Consolo É Impossível de Satisfazer” (“Värt behov av tröst”), numa versão de Paula Castro e José Daniel Ribeiro, que, tendo em conta o número de reedições (a última pela editora VS), deve ter sido a obra de Stig Dagerman que mais o deu a conhecer no nosso país. Já na década de noventa, começa o memorável trabalho editorial da Antígona que, para além da já referida reedição de “O Vestido Vermelho”, publica “A Ilha dos Condenados”, numa tradução, a partir do francês, de Miguel Serras Pereira, “Outono Alemão”, numa tradução, a partir do francês, de Júlio Henriques, a colectânea de contos “Jogos da Noite” (“Nattens lekar”), numa tradução, a partir do francês, de Miguel Serras Pereira, e, por último, “A Serpente”, numa tradução, a partir do sueco, de Ana Diniz e com um posfácio, muito importante para compreender a obra de Stig Dagerman, de C. G. Bjurström. À margem deste trabalho da Antígona, há também que referir “As Sete Pragas Do Casamento”, numa tradução, a partir do francês, de Miguel Serras Pereira, editado pela Relógio d’Água.

Assinale-se também que, para além desta obra narrativa, foi traduzida a peça dramática A Sombra de Mart” (“Skuggan av Mart”), por Luis Assis e Melanie Mederlind, publicado pela Cotovia e “A Política do Impossível. Ensaios e Artigos Selecionados” (“Essäer Och”), numa tradução de Flávio Quintale e adaptação de Carina Correia, publicado pela editora VS.

 

Setembro de 2020

 

Desconheço a autoria da foto do escritor.



terça-feira, 28 de julho de 2020

KATEB YACINE

OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES


18ª Vinheta


KATEB YACINE

 

À Teresa Meneses

Kateb Yacine (1929-1989) é um escritor argelino que integra a geração que começou a publicar na década de cinquenta e que é coeva (e, de certo modo, vítima) da guerra de independência da Argélia (esta geração, toda ela francófona, tem, como principais autores, as figuras de Mohammed Dib, Mouloud Feraoun, Mouloud Mammeri, Malek Haddad e Assia Djebar). Romancista, poeta e dramaturgo, é considerado por unanimidade um dos “fundadores” da literatura argelina, em particular devido ao papel determinante que teve para esta literatura o romance “Nedjma”, publicado pela primeira vez em 1956.

Pertencendo a uma tribo berbere, o autor, ainda no liceu, participa nas primeiras manifestações anti-colonialistas de Sétif (cidade onde estudava) de 1945 que deram origem a um brutal repressão que massacrou milhares de argelinos, na sua maioria camponeses. Expulso do liceu, preso durante alguns meses, Kateb Yacine assumiu, em resultado destes acontecimentos, a causa nacionalista e anti-colonial. Depois da prisão, publica o seu primeiro livro de poemas e começa a trabalhar num romance (depois de se ter apaixonado por uma prima, já casada, que o irá inspirar para a personagem central da obra que está a conceber), faz as primeiras viagens a Paris, onde dá algumas conferências sobre temas nacionalistas e se inscreve no Partido Comunista Argelino, e, no regresso, começa a trabalhar como repórter num jornal argelino.

Após a morte do pai, resolve regressar a Paris, onde reside durante a década de cinquenta, vivendo com grandes dificuldades e de trabalhos ocasionais. Mas é nesta época que conclui e publica o seu primeiro romance (o já referido “Nedjma”) e se aproxima daquela que será a sua maior paixão artística (para além da poesia e da narrativa) e a que se dedicará grande parte da sua vida: o teatro.

Logo após a independência, Kateb Yacine decide regressar a Argélia. Mas, desiludido com a evolução política do seu país, abandona-o, estabelecendo-se em diversos países europeus até 1970, ano em que regressa em definitivo e toma duas decisões importantes para o seu futuro artístico: abandonar o francês como veículo de criação literária e dedicar-se em exclusivo ao teatro e a encenar, com um grupo teatral, o Théâtre de la Mer, que o acompanha, as peças que redige em árabe argelino, acessível às populações, e que monta, por vezes com poucos adereços cénicos, em fábricas e nas aldeias. Paralelamente, as suas posições políticas e culturais, expressas em entrevistas, artigos e ensaios, cada vez mais afrontam os poderes estabelecidos: defende um estado laico, combate a total islamização da vida social, tanto ao nível da língua (ele rejeita o árabe vulgar como língua oficial e preconiza o reconhecimento dos árabes dialectais e da língua berbere) como dos costumes, apoia a igualdade de género e a libertação da mulher do seu estatuto de subserviência, repudia o excesso de burocratização do Estado em favor de uma maior autonomia das diversas comunidades, etc, etc. E, por isso, ao mesmo tempo que é mitificado como criador literário, começa a ser repudiado por uma significativa parte da classe dominante que considera Kateb Yacine uma figura incómoda e excessivamente contestaria (ao ponto de, aquando da sua morte por doença, demasiado precoce, no estrangeiro, existirem figuras influentes argelinas que recusam publicamente a ideia de que ele seja sepultado no seu país…). E compreende-se assim melhor porque, em vida, Kateb Yacine tenha recebido maiores reconhecimentos por parte do país colonizador do que da sua terra natal…

Para trás, ficaram, antes da sua dedicação em exclusivo ao teatro, uma colectânea de poemas e dois romances (“Nedjma” e “Le Polygone étoilé”), pois desde que Kateb Yacine decidiu apenas escrever em árabe argelino, desistiu deste género literário.

Indiscutivelmente, “Nedjma” é o mais marcante contributo literário de Kateb Yacine no domínio do romance. À primeira leitura, a trama é muito simples: quatro jovens argelinos, apaixonados e seduzidos por uma mulher, Nedjma, filha de uma argelina e de um francês, percebem que a sua paixão é impossível, pois ela é casada, e, por isso mesmo, “silenciada” e inacessível, confinando os seus sentimentos à contemplação do “esplendor” dessa figura feminina. Em complemento, constata-se, pelo deambular destas personagens, e pelas distintas situações em que são confrontados, como se sentem profundamente desenraizados, perdidos entre uma existência urbana sem futuro, sufocada pela violência colonial e pela exploração económica, e o modo de vida das suas famílias e tribos, ancorada numa tradição cultural e religiosa centenária, que já não consegue corresponder aos seus anseios e necessidades.

A relevância desta obra deriva, por isso, não só do sentido simbólico de todas as personagens e situações representadas, mas também do caracter inovador e experimental da sua estrutura formal (a narrativa é sempre fragmentária, diluindo-se os nexos temporais e espaciais), pela forma peculiar como trata a língua francesa, adaptando-a a realidade sociocultural argelina e subvertendo o seu estatuto de língua de país colonizador e, por último, pela dimensão lírica, resultante de uma visão apaixonada e empenhada em entender a humanidade e o seu necessário futuro, que contamina todo o discurso.

“Nedjma” foi traduzido para português, na década de oitenta, por Teresa Meneses (recentemente falecida) e António Gonçalves, e publicado pela ed. Tricontinetal (editora que desconheço e de que nada sei sobre a sua origem e destino). Não consegui ler esta tradução. Mas posso, no entanto, assegurar que os tradutores (que considero ainda meus amigos, mesmo que não nos tenhamos encontrado desde há muitos e longos anos) são pessoas de elevada competência e idoneidade.

 

Desconheço a autoria da foto do escritor.

 

Julho de 2020