STIG DAGERMAN
Stig Dagerman (1923-1954) é
indiscutivelmente um dos mais prestigiados escritores suecos do séc. XX. Mas a
sua breve existência e o seu curto período de efectiva produtividade literária
não levavam a crer, quando morreu, que a sua obra viesse a ter a actual
projecção. É certo que Stig Dagerman, desde a edição do primeiro livro, obteve
logo a aprovação dos críticos (e dos seus pares) e ainda do público leitor.
Mas, mesmo assim, nada faria prever a consagração que esta obra obteve após a
morte do autor e principalmente o seu reconhecimento internacional.
Creio que a obra e a personalidade de
Stig Dagerman permite evidenciar um lugar-comum que muitas vezes é esquecido: a
de que, para lá da técnica e da competência estética e literária adquirida, o
que efectivamente distingue os criadores literários é a sua sensibilidade e a
forma como apreendem o mundo.
Na generalidade dos casos, os estudiosos
da obra de Stig Dagerman costumam assinalar dois factos decisivos para a
formação da sua personalidade. O primeiro, foi ter sido abandonado pela mãe
(que era solteira) pouco depois de ter nascido, deixando-o aos cuidados dos avôs
paternos na sua fazenda rural (o pai tinha migrado para Estocolmo), vindo
apenas a reencontrá-la depois de adulto. Segundo se crê, esta situação foi
determinante para lhe provocar uma instabilidade emocional que o iria
acompanhar ao longo da sua curta vida e que seria um dos factores que mais
pesariam para o seu caracter depressivo e para a sua propensão para o suicídio.
O segundo, foi ter sido introduzido pelo pai (com quem veio viver aos onze
anos) no meio sindical, onde tomou contacto com os princípios libertários e
anarquistas. Recorde-se que estamos a referir-nos à década de trinta do século
passado, quando pela Europa estão em ascensão os movimentos fascista e nazi e,
por outro lado, ocorre a Guerra Civil de Espanha. Foi neste meio sindical que
Stig Dagerman conseguiu revelar as suas capacidades de escrita, ao trabalhar na
imprensa operária e obtendo um rápido prestígio e reconhecimento, e que vem a
conhecer a sua primeira mulher, filha de anarco-sindicalistas alemães. Esta
família, que tinha fugido da Alemanha de Hitler e que, depois de ter participado
activamente na Guerra Civil de Espanha, se refugiou, após a derrota das forças
republicanas, na Suécia, vai-lhe propiciar tomar conhecimento dos grandes
debates ideológicos e políticos que então atravessam a Europa, levando Stig
Dagerman a acolher em definitivo o ideal libertário.
De facto, foi este contexto que o
estimulou a escrever o seu primeiro romance “Ormen” (“A
Serpente”; na medida em que todas as obras narrativas deste autor estão
traduzidas e editadas no nosso país, apresentaremos apenas os títulos na língua
original e na sua tradução portuguesa), 1945, que publica quando ainda tem apenas
vinte e dois anos, e que obtém um imediato reconhecimento crítico. A partir
daqui, tudo ocorre a uma velocidade vertiginosa na vida de Stig Dagerman: no
ano seguinte, publica um segundo romance e convence o seu jornal a permitir-lhe
efectuar uma reportagem na Alemanha, para perceber em que estado ficou este
país e a sua população após a derrota nazi, e que publica no ano seguinte. É nessa
altura que se introduz no meio teatral, o que o leva a escrever várias peças de
teatro, e vem a conhecer a segunda mulher, uma jovem actriz já com algum
sucesso, com quem de imediato se casa. Publica logo de seguida, um livro de
contos e um novo romance, mas começa a sentir dificuldades financeiras, resultantes
da necessidade de sustentar os filhos do primeiro casamento e uma filha que
nasce deste segundo relacionamento. É esta situação, associada a uma propensão
clara para a depressão e um enorme cepticismo em relação ao seu lugar no mundo
e ao futuro, e ainda a uma obsessiva crise de inspiração, que o leva a suicidar-se.
Pelo caminho, em apenas cinco anos, ficaram quatro romances, um livro de contos, uma grande reportagem,
várias peças de teatro, inúmeros poemas satíricos que publicou diariamente no
jornal onde trabalhou e alguns textos dispersos que deram origem a uma
colectânea póstuma (“Tusen år hos Gud”), de onde se extraiu algumas das páginas mais conhecidas do
autor e foram intituladas no nosso país por “A Nossa Necessidade de Consolo É
Impossível de Satisfazer”.
Por comodidade, é costume associar a
obra de Stig Dagerman à filosofia existencialista de que, de facto, é coeva.
Mas creio que será mais adequado enquadrá-la no clima social e político da
época, em particular na situação de guerra, que, de diversas formas, contribuiu
decisivamente para a sua “tonalidade” global.
Creio que o principal motivo da
perenidade da obra de Stig Dagerman deriva do sentimento, verdadeiramente
estrutural, de que existe uma profunda vulnerabilidade na vida. E que, só por
existir, a própria vida provoca uma situação de “perca” porque gera uma
expectativa que ficará sempre “insatisfeita”. Creio ainda que é este sentimento
que dá sentido e sustentabilidade às posições ideológicas e políticas do autor,
levando-o a entender o homem como um Sísifo em busca de concretizar um sonho de
alterar profundamente a sua vida que, de um modo inevitável, nunca será atingido.
Há quem considere que existe neste
“olhar” sobre o mundo uma “sensibilidade” genuinamente adolescente. Mas, mesmo
que se entenda desta forma este “olhar”, não há dúvida que foi o germe de uma
exigência moral e de um furor criativo que está na base de uma obra que, mesmo
na sua diminuta dimensão, é bem distinta de livro para livro, tanto em termos
estilísticos e de arquitectura, como nos focos da realidade em que se centrou e
que se revela de uma invulgar lucidez e de uma fulgurante beleza.
Não admira por isso que os leitores e
os analistas da obra de Stig Dagerman tenham flutuado na avaliação de qual dos
seus livros é a sua efectiva obra-prima.
Assim, desde o já referido “Ormen”
(“A Serpente”), um conjunto de narrativas aparentemente distintas que se
conjugam num romance centrado no tema do medo (ou do medo do medo) e do espaço
concentracionário, até “Bröllopsbesvär” (”As Sete Pragas do Casamento”), 1949, que é, mais do
que uma trágica e mordaz sátira às contradições, absurdos e equivocos que nascem
no seio do ”casamento”, um libelo acusatório sobre as dificuldades de
comunicação entre os homens, passando por ”De dömdas ö” (”A Ilha dos
Condenados”), 1946, uma alegoria sobre o horror da incomunicabilidade e da
morte, em torno de sete
náufragos que aguardam o fim inevitável numa ilha deserta, e por ”Bränt Barn” (”O Vestido Vermelho”, na
versão portuguesa, mas cuja tradução literal para inglês é ”A Burnt Child”), 1948, já todos foram considerados como “a” obra-prima de
Stig Dagerman ao longo das épocas e de diversos leitores. Além disso, há também
a considerar a reportagem “Tysk höst”
(“Outono Alemão”), 1947, entendida como modelar, pela intensidade e pelo sentido
de observação, do que deve ser um trabalho jornalístico, e que é hoje uma peça
fundamental para compreender o povo alemão, o seu envolvimento com o nazismo, e
a abissal e inumana miséria que sobre ele caiu com o fim da II Guerra Mundial,
do regime que a motivou e o brutal comportamento revanchista das forças aliadas
vitoriosas.
Pela nossa parte, gostaria de chamar a atenção para “O Vestido
Vermelho”. Este romance, de tonalidades fortemente edipianas, centra-se na
relação conflituosa de Bengt, um jovem de vinte anos, com o seu pai, despoletada
pela brutal descoberta, com a morte da mãe (a obra inicia-se coma descrição, com
uma rude objectividade e uma intensa carga simbólica, da sua vigília e enterro)
de que a vida não passa de uma anónima solidão, rodeada pela abissal
indiferença dos outros. É essa “verdade” que o narrador vai dissecar e
transfigurar em páginas redigidas na primeira pessoa do singular, e que se
contrapõem às que, redigidas na terceira pessoa do singular, se descreve, de
uma forma concisa e sincopada, as situações familiares que envolvem o jovem
Bengt, não só com o pai, mas também com a amante deste e com a sua noiva. De
facto, Bengt é uma personagem dilacerada por sentimentos contraditórios: entre
a compaixão e a repugnância para com o pai, que encara como um alcoólico e um
cobarde, principalmente por ter ocultado a relação com a sua amante enquanto a
mãe ainda era viva e por ter rodeado esta de desprezo e indiferença; pelo ódio
e o desejo para com a amante do pai, que procura humilhar e seduzir; pela
ternura e o repúdio para com a noiva, que, na maior parte das vezes, considera
um ser servil e abúlico; e, por fim, para consigo próprio, porque pressente que
a paixão que sente pela mãe se irá esfumar com o tempo e que ele próprio se irá
acomodar à mesma indiferença que os outros sentiram por ela em vida.
No fundo, Bengt percebe que essa “verdade”, que descobriu com o seu
luto e o seu exercício de lucidez, irá gradualmente consumir-se como a vela da
candeia em que se queimou no dia do enterro (“o filho queimado”). E, por isso,
esta vela torna-se o símbolo mais perene e constante de todo o romance, pois,
por um lado, representa a vida da mãe, mas por outro, os sentimentos que a
personagem principal por ela nutre e, por fim, a sua própria vida.
Por último, deve assinalar-se que a obra narrativa de Stig Dagerman
está toda traduzida e editada no nosso país e que, além disso, é servida por muito
boas traduções e ainda que, em quase todas as edições, existem introduções e
notas introdutórias que as procuram contextualizar. Assim, e começando pela
mais antiga, pois a primeira edição é já dos finais dos anos cinquenta,
efectuada pela Estúdios Cor (e reeditada mais tarde pela Antígona), está “O Vestido
Vermelho”, numa tradução de Irene Lisboa, que também redigiu um prefácio;
depois, na década de oitenta, é publicado pela Fenda uma pequena brochura, o já
referido “A Nossa Necessidade de Consolo É Impossível de Satisfazer” (“Värt
behov av tröst”), numa versão de Paula Castro e José Daniel Ribeiro, que, tendo
em conta o número de reedições (a última pela editora VS), deve ter sido a obra
de Stig Dagerman que mais o deu a conhecer no nosso país. Já na década de
noventa, começa o memorável trabalho editorial da Antígona que, para além da já
referida reedição de “O Vestido Vermelho”, publica “A Ilha dos Condenados”,
numa tradução, a partir do francês, de Miguel Serras Pereira, “Outono Alemão”,
numa tradução, a partir do francês, de Júlio Henriques, a colectânea de contos “Jogos
da Noite” (“Nattens lekar”), numa tradução, a partir do francês, de Miguel
Serras Pereira, e, por último, “A Serpente”, numa tradução, a partir do sueco,
de Ana Diniz e com um posfácio, muito importante para compreender a obra de
Stig Dagerman, de C. G. Bjurström. À margem deste trabalho da Antígona, há
também que referir “As Sete Pragas Do Casamento”, numa tradução, a partir do
francês, de Miguel Serras Pereira, editado pela Relógio d’Água.
Assinale-se também que, para além desta obra narrativa, foi traduzida a
peça dramática “A Sombra
de Mart” (“Skuggan av Mart”), por Luis Assis e Melanie Mederlind, publicado
pela Cotovia e “A Política do Impossível. Ensaios e Artigos Selecionados” (“Essäer
Och”), numa tradução de Flávio Quintale e adaptação de Carina Correia,
publicado pela editora VS.
Setembro de 2020
Desconheço a autoria da foto do
escritor.