A Vontade de
Ler: Um Autor, Uma Obra
9. Homeira
Qaderi (1980-)
É uma
escritora afegã que já publicou três romances e uma colectânea de contos. Em
complemento, decorrente do seu papel de activista dos direitos humanos e,
principalmente, em prol da melhoria da situação das mulheres no seu país, e de
especialista em literatura persa e afegã, tem publicado outras obras, de
carácter mais indefinido, entre o biográfico e o ensaístico.
Aliás, como seria
inevitável, a situação social e política, que o seu país tem vivido nas últimas
décadas, teve e tem um papel determinante nas opções literárias da escritora.
Nascida sob o domínio soviético, impossibilitada de estudar durante o regime
talibã, Homeira Qaderi viu-se obrigada a exilar-se com a família, ainda em
criança, no Irão, onde se formou em literatura persa e afegã, tendo-se
doutorado na Universidade Jawaharlal Nehru, na India. Ainda no exílio, começou
a intervir em diversas conferências e organismos internacionais com o fito de
denunciar a situação social das mulheres islâmicas, e em particular no
Afeganistão, procurando sensibilizar a opinião pública internacional para a sua
degradante condição. Em 2011, já depois da queda do regime talibã, regressou ao
seu país e começou a dar aulas na Universidade de Cabul, continuando a manter
uma forte intervenção pública em defesa das mulheres. Em 2021, aquando da “reconquista”
de Cabul pelos talibãs, viu-se de novo obrigada a exilar-se, agora para os
Estados Unidos.
A ficção de
Homeira Qaderi, escrita em persa afegão (ou dari, como quiserem), é quase inacessível
e pouca informação, lamentavelmente, existe sobre ela: reconhece-se, no
entanto, que o seu romance “Noqra, a Girl from Kabul River” (numa tradução
literal do título para inglês), 2009, é, com as narrativas de Maryam Mahboob e
de Spôjmai Zariâb, uma das mais importantes obras de narrativa literária
contemporânea escrita por uma mulher afegã.
Por isso, o
nosso interesse vê-se assim quase confinado a uma obra de não-ficção,
intitulada na edição inglesa por “Dancing in the Mosque”, 2019. O livro,
conforme indica o subtítulo, apresenta-se como uma “carta ao filho” (“An Afghan
Mother’s Letter to her Son”) e nele a autora narra a sua experiência pessoal, desde
a infância sob o poder soviético, os seus esforços (e riscos) para ensinar
outras meninas afegãs na fase do jugo talibã, o casamento com dezassete anos no
Irão com um marido islâmico e formatado por uma cultura patriarcal e misógina,
a dolorosa epopeia que foi o nascimento do seu filho num hospital público em
Cabul, a obstinada decisão em estudar literatura e dedicar-se à criação
literária, a irrevogável e dramática opção de se divorciar, quando o seu
marido, após doze anos de casamento, a informou de que se queria casar com uma
segunda mulher, sabendo que essa resolução lhe iria fazer perder qualquer
direito, de acordo com a “sharia” e o direito civil do seu país, de cuidar do
filho e até de o contactar.
Mas esta
obra não se limita a ser um libelo acusatório contra a humilhante situação das
mulheres islâmicas no Afeganistão. Dado o seu carácter não-linear, fragmentário
e o seu estilo com matizes que vão desde o lírico (principalmente nas
descrições das suas relações com a sua avó, na infância, ou com as suas amigas
na mesquita) até um realismo cru, mas expressivo, no retrato que efectua do
quotidiano asfixiante e perigoso de Cabul, “Dancing in the Mosque” tem um
interesse literário que supera bastante o simples registo de um testemunho.
A autoria da
foto da escritora é de Tim Schoon.
Abril de
2022.
















