segunda-feira, 15 de abril de 2024

UMA ESCOLA DE VIRTUDES ou “FAUT-IL BRÛLER SADE?”


 

O Ofício de Escrever - 2

Mas esta divisão, para além do confronto estético e literário, está também a ter cada vez mais reflexos na produção editorial e no comércio livreiro. Como se compreende, os autores, que dão menos importância aos resultados remuneratórios do seu trabalho, têm propiciado e estimulado (e até defendido) uma produção editorial mais artesanal, favorecida com o aparecimento de novas tecnologias; os que se preocupam com a remuneração, e perspectivam mesmo uma profissionalização, preferem um universo editorial mais fortemente empresarial que dê continuidade, e se possível com maior eficácia e impacto social, ao modelo já existente. O primeiro campo criou condições para que aparecessem estruturas editoriais mais leves, de pequena dimensão, produtoras de baixas tiragens e orientadas para um circuito comercial restrito e mais adequado aos seus potenciais destinatários. O outro, para estruturas empresariais cada vez mais sólidas e consistentes (daí o crescente fenómeno da fusão de editoras), orientadas para um universo comercial cada vez mais amplo e que ultrapasse até o espaço das livrarias convencionais.

Estas constatações permitem perceber que a literatura, fruto da evolução histórica que foi assumindo durante os últimos dois séculos, transformou-se, malgré tout, numa realidade cada vez mais complexa e que a imagem romântica do autor isolado, completamente à margem da sociedade e da realidade material, procurando, de forma soberana e livre, criar a sua obra, sem ter, como preocupação primeira, a sua receptividade social e o seu destinatário, e que ainda hoje se vê muitas vezes difundida, se tornou muito circunscrita e invulgar. Pelo contrário, o desejo de “ser escritor” transformou os autores em “artesãos da escrita”, isto é, obrigados a uma actividade polimorfa, desdobrada em múltiplas vertentes criativas, o que pressupõe a existência de uma estrutura de suporte, feita de conexões com inúmeras pessoas e entidades, que garanta ao autor concretizar a sua dimensão criadora de uma forma mais ou menos harmoniosa e coerente e que possibilite aproximar a sua obra do maior número de leitores. O desejo de “ser escritor” transformou os autores em “produtores de conteúdos” (se considerarem, como é o meu caso, esta expressão horrorosa e obscena, mas que permite perceber naquilo que se transformou este “ofício”, poderão sempre substitui-la por uma expressão francesa, que tem o mesmo sentido, de “scripteur”) que, em complemento da produção de obras concebidas e orientadas directamente para o mercado livreiro, se dedicam a inúmeras tarefas e funções redactoriais e narrativas para diversos canais de comunicação.

Convém, no entanto, entender, que esta divisão, que sempre existiu, está presentemente a agravar-se nas suas consequências editoriais e livreiras, encaminhando a produção literária para um impasse que só lhe pode gerar uma maior fragilidade. Porque, de facto, é de todo impensável, como sucede sistematicamente com a primeira opção editorial, a existência de um universo literário sem que os criadores recebam uma remuneração digna pelo seu trabalho; mas também parece acentuadamente contraproducente que a produção literária esteja inteiramente sujeita às leis do mercado, dado que esta situação, como já se referiu, asfixiará a sua dimensão de confronto com os valores estéticos e éticos dominantes, como está a suceder com a segunda.

Ora, em países, como é o caso do nosso, em que os fracos hábitos de leitura (entre outras razões) geram um débil consumo de livros, as diferenças de resultados (em dimensão das tiragens e de numero de livros vendidos) entre a produção literária dos dois campos são pouco relevantes, ficando-se com a ideia de que os seus distintos objectivos estéticos, literários e sociais se tornaram, pelos piores motivos, promíscuos, e generalizando-se a sensação de que a literatura se transformou numa manifestação artística informe, destinada a um grupo social diminuto e, por isso mesmo, cada vez mais anacrónica.

Por isso, pode afirmar-se que, para além das motivações subjectivas (ou mais pessoais…) de interacção com o mundo, parece que aquilo que hoje move os autores no seu ofício é mais o reconhecimento do seu trabalho nesse grupo social diminuto (a dita “visibilidade” que referia António Guerreiro, numa das suas recentes crónicas no jornal Público), com o consequente prestígio e as possibilidades de receber propostas e/ou abraçar projectos melhor remunerados, do que o que recebem como resultado da venda no mercado livreiro das suas obras estritamente literárias.

Daí que se compreenda como é cada vez mais vital para os escritores, em termos remuneratórios, a venda de direitos das suas obras para outros mercados, através de contratos de tradução e/ou edição, ou a obtenção de um prémio literário de alguma relevância financeira (o que talvez explique a sua proliferação, para além, obviamente, do prestígio social que dá aos promotores a sua existência): sem conseguir atingir nenhum destes objectivos, qualquer obra, seja qual for o seu mérito literário, está confinada a um relativo insucesso financeiro para o autor, mesmo que obtenha alguma dimensão de vendas.

É, por isso, forçoso constatar que este conjunto de situações condicionantes, que os escritores foram mais ou menos forçados a procurar, para poder sobreviver e profissionalizar-se, levou inevitavelmente à escassez da matéria-prima fundamental para uma qualificada produção literária (tempo) e desmotiva, pela dificuldade de penetrar num universo muito fechado e com relações tentaculares (e ao mesmo tempo muito rarefeito), qualquer “jovem” criador a desejar nele afirmar-se. Neste estrito sentido, pode dizer-se que a acentuada bipolaridade em que se encontra actualmente a criação literária, com as suas inevitáveis consequências editoriais e comerciais, está a provocar uma gradual asfixia ao universo literário e o seu empobrecimento.

Por último, é importante também reafirmar que não se pretende com estas considerações prognosticar qualquer apocalíptico fim da literatura. A literatura faz parte do equilíbrio do mundo. Contar histórias e cantar a beleza e o encanto é parte integrante da natureza humana. As motivações da sua origem mantêm-se, obviamente, e estarão, pelo contrário, cada vez mais prementes e intensas. Nem creio que seja sequer admissível acreditar que o “império da imagem” vá silenciar o verbo (como explicou um filósofo bem conhecido, Fernando Savater: a imagem sem a palavra não passa de um “puro ornamento ou truque ilusionista”). Só que é fundamental descobrir soluções que permitam que o desejo de ter direito à palavra e à leitura se mantenha e reforce, e que caminho deve seguir a literatura, num esforço sem tréguas nem lamentações inúteis. Ou por outras palavras: como é que a literatura poderá chegar ao seu natural destinatário, o leitor, mantendo a sua dinâmica criativa e o seu papel de questionamento do mundo e permitindo, ao mesmo tempo, que os seus criadores tenham uma remuneração digna pelo seu trabalho sem que as suas obras estejam completamente sujeitas ao mercado?


Foto de Eamonn McCabe do escritório de Graham Swift.

UMA ESCOLA DE VIRTUDES ou “FAUT-IL BRÛLER SADE?”

 

III

 O Ofício de Escrever - 1

Como já referi, é absolutamente indiscutível que o criador literário, como produtor de um bem, seja remunerado pela sua produção. A questão está em saber se, na sua qualidade de produtor de um bem de valor objectivamente minoritário em termos sociais, esta remuneração lhe dá condições para garantir a sua subsistência e, por conseguinte, para que possa perspectivar a sua profissionalização.

Ora, como já se percebeu, as possibilidades de um escritor se profissionalizar são muito difíceis, fortuitas e excepcionais. E, no nosso país, com um mercado pequeno e com uma literacia diminuta e pouco enraizada, essas hipóteses são ainda mais árduas e complexas.

Perante este cenário, os escritores estão condicionados a seguir três alternativas possíveis como forma de subsistência: ou aceitam esta situação como uma inevitabilidade e procuram outra fonte alternativa de rendimento, isto é, a entenderem a sua actividade primordial como complementar e/ou marginal, assumindo-a num registo mais ou menos amadorístico (dedicando-lhe apenas os seus tempos livres, e aproveitando, paralelamente, o seu “background” cultural, resultante da sua paixão pela literatura, para outras actividades profissionais); ou procuram aproveitar as competências que desenvolveram com esta paixão e orientam-nas para outras tarefas e áreas de criação em complemento da sua produção mais estritamente literária; ou, por último, buscam, de forma mais ou menos criativa, aproximar-se do seu possível leitor, optando por “soluções” que perspectivam que sejam do seu agrado, tentando dessa forma expressar a sua visão do mundo através de “modelos” mais consentâneos com os gostos estéticos e literários dominantes.  

Em resumo: a ambição, inteiramente legítima, dos escritores se profissionalizarem voltou a colocar em primeiro plano, como problemática incontornável, a matriz dual da criação literária (e artística) que inicialmente se referiu: a tensão existente entre o acto artístico, entendido, na concepção de Georges Bataille, como soberano e livre, e a sua função comunicacional.

Saliente-se que estas alternativas na forma de estar no “negócio dos livros”, como diria Roberto Bolaño, têm sido, na generalidade, opções distintas conforme a actividade literária dos autores: pela primeira alternativa, orientam-se principalmente os que se dedicam à poesia, ao ensaísmo, ou à produção de obras que procuram a fusão de géneros e que têm uma dimensão mais experimental, já que, por opção voluntária, ou “empurrados” pelas circunstâncias, tiveram de se adaptar e aceitar esta situação; pelas restantes alternativas, optam principalmente os narradores.

Tendo em consideração esta distinção, percebe-se assim certas características da presente actividade literária.

Por um lado, compreende-se melhor por que existe a ideia generalizada (eu diria mesmo o lugar-comum) de que certa produção literária, em particular a poesia, tem um estatuto mais “nobre”, visto que é encarada consensualmente como não estando dependente da busca de resultados materiais e que, por isso mesmo, está mais próxima da matriz da criação artística. Por outro, permite perceber o “enfeudamento”, há várias décadas, dos cultores destas expressões literárias às actividades académicas. De facto, a maior parte dos produtores destes textos literários são hoje professores nos diversos graus de ensino, e, só excepcionalmente, têm outras profissões, como, por exemplo, a diplomacia ou as actividades liberais (medicina, advocacia, etc.), que lhes dão maiores possibilidades de gestão do tempo, ou se dedicam a tarefas editoriais e livreiras, como se a sua paixão pela literatura os obrigasse a viver em órbita dos livros. Esta relação profissional com o ensino das humanidades e da literatura trouxe evidentes benefícios para a produção literária, em particular para a poética, principalmente devido ao conhecimento mais profundo, exaustivo e sistemático, dos “materiais” literários e integrantes da língua (fonológicos, semânticos, etc.), produzindo indiscutíveis resultados em complexidade e densidade; no entanto, há também quem considere que esta relação talvez tenha contribuído para que a poesia se tenha afastado da sua tradição oral, perdendo dessa forma a sua dimensão mais popular.

Quanto aos narradores que optaram por canalizar a sua competência para outras actividades criativas como forma de subsistência, é importante assinalar que esta opção existe desde que apareceu a imprensa escrita e se consolidou, mais tarde, o mercado livreiro: boa parte dos narradores, nos últimos dois séculos e meio, foram também jornalistas, cronistas ou tradutores e complementaram desta forma os rendimentos que obtinham com a produção e venda das suas obras literárias orientadas para o mercado livreiro. Hoje, com o desenvolvimento de inúmeras manifestações artísticas e lúdicas, onde a competência narrativa dos escritores pode ser útil, há muito mais possibilidades de obter rendimentos mais proveitosos a escrever (basta recordar o guionismo para o cinema, para séries e programas de televisão, para a publicidade, os vídeo-clips ou os jogos electrónicos) sem ser com a sua produção estritamente literária. Como é evidente, também esta conexão com outras actividades narrativas foi trazendo, em maior ou menor grau conforme os autores, fortes “marcas” para a narrativa de cariz literário, alterando-a (como já foi exaustivamente analisado) em termos estéticos e provocando mutações indeléveis nos seus actuais modelos.

Por fim, quanto aos narradores que decidiram (ou tiveram a possibilidade…) de manter as suas competências no campo estrito da literatura, recordo que foi a sua ambição de profissionalização que os motivou a criar modelos narrativos que enfatizaram a componente comunicacional da criação literária, de forma a atingirem um maior número de leitores e a garantirem assim um rendimento financeiro mais expressivo.

É, por isso, sem sombra de dúvida, que alguns deles cultivaram e desenvolveram os inúmeros subgéneros narrativos que complexificaram de uma forma exponencial o universo literário. Hoje, torna-se difícil (e inútil) não reconhecer a dimensão criativa dos cultores destes subgéneros narrativos. Os seus autores mais notáveis conseguiram manifestar a sua visão do mundo através de modelos e formulas já estabelecidos (e que eles muitas vezes recriaram), e, para isso, basta recordar as obras de Chandler, Le Carré, Le Guin ou Ende, para apenas referir alguns dos mais importantes, que conseguiram desbravar caminhos na compreensão da turbulência do comportamento humano e na forma como se integra e relaciona com a História, dando novas dimensões ao universo literário.

Em síntese, a ambição dos autores em se profissionalizarem levou a que a matriz dual da criação literária e artística funcionasse como dois pólos magnéticos que estruturaram e dividiram o universo literário em dois campos distintos que, com a sua força de atracção, obrigaram os escritores e a criação literária a uma deriva dialéctica: por um lado, o preenchido pelos escritores centrados principalmente na criação inovadora de formas e modelos literários; por outro, o ocupado pelos autores que canalizam a sua capacidade criativa para soluções literárias mais comunicacionais, procurando inovar sem esquecer o seu destinatário - o leitor (entendendo-se este, como disse Pierre Guyotat, como Figura e não tanto como entidade concreta e circunstanciada).

Estes dois campos têm, obviamente, orientações estéticas e literárias não só distintas, mas, muitas vezes, antagónicas (e conflituosas), levando, genericamente, a que os cultores que integram um dos campos minimizem (e até desprezem) a capacidade criativa dos do outro campo.

Mas também é evidente que existe entre estes dois campos, como não poderia deixar de ser, níveis acentuados de porosidade e de comunicabilidade. Mais: é minha inteira convicção (quer isto dizer, que é a minha visão programática em relação à literatura) que a actual dinâmica do universo literário resulta das tentativas dos mais relevantes dos seus criadores em mesclar e fundir os contributos inovadores dos autores do primeiro campo literário com as necessidades, sempre determinantes, de comunicar e cativar novos públicos dos do segundo. 

Direitos de imagem do manuscrito de Stendhal pertencentes à Bibliothèque municipale de Grenoble

terça-feira, 9 de abril de 2024

UMA ESCOLA DE VIRTUDES ou “FAUT-IL BRÛLER SADE?”

 


A Literatura Como Mercadoria

 

Quando se fala da obra literária como um “bem”, entra-se evidentemente no universo da economia. Ou, por outras palavras, quando se fala da necessidade da multiplicação dos leitores, está-se a falar de mercado, de investimento e do seu retorno, da obra como um valor acrescentado, com possibilidade ou não de obter mais-valias desse investimento, e também da remuneração do seu criador.

Ora, dado o modelo como funciona o canal da edição e da comercialização, em que o criador literário recebe uma percentagem desse mesmo retorno, a questão da remuneração do autor torna-se uma matéria inquestionavelmente relevante e que pode pesar e condicionar na liberdade e na soberania do acto individual de criação.

Porque se se entende o acto literário, como qualquer outro acto artístico, como transgressivo, não consensual, e, por conseguinte, minoritário, esta concepção do acto literário torna-o contraditório com o objectivo da multiplicação dos seus receptores. E se esta dependência da obra em relação ao mercado pode ser um estímulo para o criador, também pode ser (e não são poucas as vezes em que isto sucede) um condicionalismo suficiente para amordaçar o carácter transgressivo da sua obra e levá-lo a procurar consensos que desfiguram o seu acto criador.  

É sabido que as motivações principais de um escritor, ao elaborar a sua obra, não são a remuneração que pode auferir com ela. (Aliás, compreender o quadro de motivações, que impulsiona alguém a dedicar-se à criação literária, poderá ser, se se fugir aos slogans e aos estereótipos, extremamente importante para entender qual o sentido e o significado da literatura). Mas é indiscutível que o criador literário deve receber a sua remuneração na sua qualidade de produtor de um bem. Já, contudo, poderá ser discutível, por tudo o que já referi, que a sua remuneração seja apenas, sublinho o apenas, resultante da multiplicação dos leitores, tal como presentemente sucede.

Da mesma forma, é compreensível que a necessidade de escrever e o princípio de que a última obra nunca será a definitiva levem o escritor a perspectivar a sua profissionalização, isto é, a dedicação exclusiva à actividade que o define. Contudo, já a noção de carreira, associada à criação literária, é desajustada (e contraproducente), uma vez que nesta nada existe de similar a outras actividades profissionais, tais como, por exemplo, a de um médico ou a de um professor, pois não há, de facto, uma progressão. Aliás, no actual modelo em que funciona o mercado, assente fundamentalmente na novidade editorial, nem o número de obras, já escritas e publicadas, dá garantias ao escritor de que a sua última obra não seja encarada como se a fosse a primeira (mesmo que já tenha adquirido algum reconhecimento social). O facto, que comprova esta situação, é que são poucos os casos dos escritores que, com a publicação de uma segunda ou terceira obra, obtêm uma percentagem maior de direitos com estas obras. 

Mas seja-se claro. É evidente que a principal remuneração de um autor deve ser o que consegue auferir com a venda do seu trabalho. Assim é… ou assim deveria ser. Mas também se considera que é importante, em defesa da criatividade literária e da sua soberania, que o autor não esteja totalmente dependente do mercado.

Aliás, na presente conjuntura e até num previsível futuro, essa dependência da remuneração do autor, em relação ao mercado e ao número de exemplares vendidos, irá revelar-se, com o passar dos tempos, irrealista, pois, como se sabe, as tiragens cada vez são mais reduzidas (o desenvolvimento dos meios tecnológicos e a diversidade de suportes tornam cada vez mais irrelevante a dimensão das tiragens*) e o número de leitores tem tendência, há vários anos, a manter-se estável ou até a diminuir. De facto, o aumento da alfabetização e dos níveis culturais da população, e a sua consequente literacia, não se têm reflectido no aumento do número de leitores nem no consumo de livros, já que a oferta cultural é cada vez mais diversificada e os modelos, socialmente estimulados, de ocupação dos tempos livres cada vez mais afastam os consumidores de cultura da leitura. Ora, na nossa perspectiva, estes factos não só penalizam inevitavelmente os escritores, como levarão a fragilizar ainda mais o já de si frágil poder criativo da literatura, com, sem alarmismos, as consequências facilmente profetizáveis para o presente modelo civilizacional.

 

·       *Presentemente, a dimensão da tiragem só tem alguma relevância por motivos de exposição comercial; ou, nos casos de obras com custos elevados de concepção e produção, por necessidade de diluição destes custos numa tiragem maior: é por isso que, por exemplo, e para não sair do universo literário, se torna quase impossível, no actual modelo de edição e comercialização, traduzir e editar obras escritas em línguas não inglesas sem apoios públicos.


UMA ESCOLA DE VIRTUDES ou “FAUT-IL BRÛLER SADE?”

 


II

Em Busca do Leitor

 

É evidente que Georges Bataille, quando assinala, em “A Literatura e o Mal”, o acto artístico como um acto individual soberano e livre, está a enfatizar a sua componente criativa em relação à sua função comunicacional.

Mas um acto artístico é também comunicacional e, por isso, como já foi exaustivamente dito e redito, só ganha sentido com um receptor e, no caso concreto da literatura, com um leitor. A literatura só existe, de facto, com a presença de um leitor e este torna-se determinante (e estruturante) para a sua existência.

Ora, esta determinação, ao transformar inevitavelmente a criação artística num acto social, transforma também o objecto artístico num “bem” que, como forma de atingir o seu receptor, tem a possibilidade de ser transaccionável. O mesmo sucede, obviamente, com a literatura.

Percebe-se assim por que é que a criação artística vive objectivamente, tal como um junco, no meio da intempérie. Pois se, por um lado, o facto de ser um acto individual soberano e livre o aproxima de qualquer homem, dando-lhe uma enorme resiliência, por outro, o facto de ser um acto social minoritário (não vale a pena escamoteá-lo), tendo em conta a sua dimensão transgressiva, dá-lhe um carácter de uma grande fragilidade.

Também se percebe assim melhor como a sociedade encara o acto artístico. Pois se, em termos genéricos, a sociedade considera o acto artístico, e em particular a literatura, como um dos seus patrimónios mais relevantes (é costume assinalar o seu papel civilizacional e, ao nível das nações, em conjunto com a língua, o seu papel identitário), não esquece também que o seu peso social será sempre minoritário, retirando assim as consequências políticas desse estatuto ambivalente. Por isso, se, por um lado, defende, e bem, a promoção das literacias e destaca a importância da arte como via do conhecimento do Outro e de redefinição, até em termos emocionais, do lugar de cada sujeito, por outro, tende a encarar a criação artística como irrelevante (por vezes, até como não-produtiva), e principalmente os seus criadores como figuras marginais, desintegradas, com fraca relevância pública.

Regressemos agora a literatura.

Como já referi, o acto social da criação literária, decorrente da sua necessidade de encontrar um leitor, faz com que perca toda a sua “pureza” original, como acto criativo individual, livre e soberano, e se introduza como um “bem” num sistema complexo (a que tenho chamado sistema literário), onde sobressaem a edição e a comercialização.

É evidente que todos os agentes que intervêm neste processo visam o mesmo fim: dar a conhecer uma obra ao seu destinatário. Mas também é indiscutível que esse objectivo comum não determina que os seus motivos sejam em tudo semelhantes aos que movem o criador literário. Os agentes que intervêm no percurso entre a obra e o leitor, em particular, o editor e o livreiro, têm, naturalmente, outros interesses que podem ou não coadunar-se com a motivação do autor. 

Por outras palavras: a “pureza” Inicial do acto literário, como matriz primordial da criação artística, torna-se, no confronto com a sociedade, um quadro utópico. Porque se é verdade que a literatura só efectivamente existe quando encontra o leitor, a presença deste receptor obriga o acto literário a transformar-se num bem que o levará a correr riscos e condicionalismos.

Assim, se é compreensível que o acto literário, como acto criativo, soberano e livre, não deva ir à procura do receptor que o legitime, também se entende que é obrigatório que se “abra” à sua existência e, para isso, tem de “incorporar” os meios necessários para que seja reconhecido (a edição, a comercialização, a análise crítica e a recepção institucional, etc.), isto é, tem de inevitavelmente confrontar-se com a sociedade, porque é esta, para além de o determinar e o condicionar, que o legitima como acto social, dando-lhe o sentido final.

Um dos potenciais riscos por que passa a obra literária, no processo de transformação de um acto criativo num bem social, é o de procurar a multiplicação dos seus receptores, mesmo que esta não seja uma preocupação prioritária para o criador. É legítimo e inevitável que o editor, ao efectuar um determinado investimento na publicação de uma obra, procure ter, se possível, o máximo retorno desse investimento. E, mesmo que essa não seja a principal preocupação do criador literário, terá que se sujeitar a esta vontade, desde que pretenda que a sua obra se abra à existência do leitor.


segunda-feira, 8 de abril de 2024

UMA ESCOLA DE VIRTUDES ou “FAUT-IL BRÛLER SADE?”

 


 A Literatura e o Mal

 

Lembrei-me, quando escrevia o texto anterior sobre transgressão e arte, da obra de um intelectual (não aprecio esta classificação, dado o seu carácter difuso e genérico, mas neste caso parece-me acertado) que, quando a li, ainda jovem adulto, me atingiu como um raio fulminante. Estou-me a referir a Georges Bataille e, em particular à sua visão, ao mesmo tempo materialista e transcendente, do erotismo, colocando-o no cerne do comportamento humano.

Ainda, se os coros celestiais o permitirem e o desejarem, hei-de escrever sobre ele. Mas agora vou apenas referir-me a “A Literatura e o Mal”, um ensaio que foi publicado pela primeira vez no nosso país em 1968 (o original é de 1957), pela extinta Ed. Ulisseia, traduzido (que intrigante!) por António Borges Coelho.

Neste ensaio, debruçando-se sobre a obra de vários autores, entre eles alguns que já referi, mas também sobre as de Brontë, Michelet, Blake, Proust e Kafka, Georges Bataille analisa o seu poder transgressivo e a sua aproximação daquilo que ele classifica como o “Mal”.

Georges Bataille começa por afirmar que o sentido da literatura é o absoluto, e, por isso, não pode repudiar o Mal, que ele define como o campo dos “actos puros e gratuitos” de destruição, isto é, não sujeitos a nenhum programa e/ou interesse.

É evidente que Georges Bataille, obstinado em superar o pensamento binário com uma dialéctica muito pessoal, entende que a literatura reclama uma “supermoral” ou “hipermoral” (que ele não define; mas que se percebe, ao longo da obra, que assenta na eliminação dos contraditórios só possível pela síncrese do acto literário) e não sujeita aos valores comuns da ética e da moral, isto é, às convenções sociais.

De certo modo, entende a literatura como um acto de liberdade absoluta (a tal “liberté libre” de que falava Rimbaud para caracterizar a poesia e que António Ramos Rosa utiliza como epígrafe no seu fundamental livro "Poesia, Liberdade Livre"), como puro acto de criação. Daí que a aproxime dos jogos infantis, considerando-a, tal como estes, que não está sujeita às convenções sociais. Neste sentido, da mesma forma que o chamado “sadismo infantil” é fruto de um universo ainda não sujeito às convenções sociais, a literatura nasce, pela sua própria natureza, num universo “exterior” à moral convencional, podendo aproximar-se do que socialmente é considerado como o Mal.

O importante é assinalar que Georges Bataille entende o acto artístico, e em concreto a literatura, como um acto de pura liberdade e soberania, com os seus códigos próprios estéticos e éticos, e que, por isso mesmo, não pode ser julgado pelo seu afrontamento ou não às convenções sociais, devendo ser analisado, em todas as suas implicações, como uma totalidade orgânica, e, em última instância, pela sua criatividade estética. 


Desconheço a autoria da foto de Georges Bataille

UMA ESCOLA DE VIRTUDES ou “FAUT-IL BRÛLER SADE?”


 

I

Uma Escola de Virtudes

 

A leitura da obra de certos autores leva-nos a reflectir sobre o sentido e o valor da transgressão na literatura. Ou melhor, na criação artística.

Habitualmente, quando se fala em transgressão na criação artística, está a contextualizar-se uma obra em quadros éticos e, eventualmente, estéticos.

Só que, na minha perspectiva, no contexto estético, é mais correcto falar em superação do que em transgressão, pois que, a partir do romantismo, e de uma forma mais vincada a partir do(s) modernismo(s), a orientação dominante foi a da superação dos cânones e modelos estéticos vigentes. Por isso mesmo, creio que o termo transgressão tem mais sentido no registo ético.

Esta distinção parece ainda mais evidente quando se tem em consideração que, ao contrário da orientação programática de superação dos cânones e dos modelos estéticos vigentes, a transgressão ao nível ético não tem sentido como programa.

Ora, a transgressão ao nível ético é antes uma resultante da afirmação compulsiva de desejos e pulsões do criador que, aproveitando a liberdade concedida e determinada pela orientação estética da criação artística, resolve manifestá-los através da sua obra. É esta liberdade que permite ao criador artístico colocar a sua obra fora dos campos da moral dominante, ou até, para utilizar uma terminologia mais actual, para afrontar o “politicamente correcto”. Se regressarmos ao universo literário, foi essa determinação do referencial estético que deu liberdade a escritores, como, por exemplo, Sade, Baudelaire, Rimbaud, Lautréamont, Joyce, Lawrence, Céline, Genet ou Nabokov, de se colocarem num paradigma de valoração ética exterior ao da moral dominante, garantindo, de qualquer modo, que as suas obras fossem reconhecidas pelo seu poder criativo. E, por isso mesmo, transmitam a imagem de ser únicas e soberanas.

Por outras palavras: a arte (e, em concreto, a literatura) não transgride; ela é, pela sua própria natureza, transgressiva. No entanto, este estatuto da criação artística não determina que uma obra tenha uma explícita dimensão transgressora, visto que é a sua própria orientação estética que a situa nesses parâmetros.

No entanto, não se pode afirmar que a arte, como acto criativo (e comunicacional) dos indivíduos, não tenha, inerente a cada obra, um estatuto moral; mas antes que este se manifesta, como nos restantes actos individuais, numa relação tensa com a moral social.

A criação artística, como qualquer outra manifestação humana individual, arquitectando o seu próprio código moral, estará sempre em permanente tensão (para não dizer conflito) com a sociedade, entendendo-se esta como uma unidade orgânica e estruturada por uma rede consistente de normas que, numa determinada conjuntura histórica, reflectem as convenções sociais dominantes.

Entende-se assim porque é que a criação artística em geral não é, nem pode ser, consensual. Para utilizar uma terminologia na moda, a arte sempre será mais ou menos fracturante, no sentido mais profundo do termo, isto é, estará sempre em confronto com as convenções sociais, tanto em termos estéticos como éticos.

Por isso mesmo, é que a arte, e em particular a literatura, nunca foi, nem pretendeu ser, uma escola de virtudes. Pelo contrário. E compreende-se por que, de uma forma ou de outra, sempre deu origem ao seu rol de vítimas. Antes do mais, entre os próprios artistas.

É evidente que qualquer obra artística se apresenta como um todo, numa aglutinação de diversas componentes que, mesmo que orientadas pela componente estética, podem e devem ser avaliadas e analisadas. Por isso, é absolutamente legítimo que sejam confrontadas em termos ideológicos. A sociedade procurará sempre defender-se de qualquer “ataque”, inclusive os da produção artística, que considere que afecte o seu percurso ou o seu modelo de organização. Mas essa defesa deverá ser sempre ao nível do debate e não de qualquer acto censório ou condicionante da afirmação estética da criação artística, porque, para isso, não tem legitimidade e deve ser denunciado por quem defende a soberania e a autonomia do acto criativo.

No caso concreto da literatura, que se distingue no universo artístico pela sua forte tónica na narratividade e na argumentação, compreende-se que seja mais chamada ao confronto ideológico. Mas deve ter-se em consideração nesse confronto que a matriz essencial do acto literário está no domínio estético (ou poético), sendo este o referencial determinante na análise do todo que é uma obra.


Foto de Gean Genet de "Die Sonne des Bösen - Kultur - Tagesspiegel"

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

ALFACE

 


O PORTUGUÊS DO ALFACE

 

Para além de alguns leitores indefectíveis, creio que Alface está um pouco esquecido. A prova disso – se, para isso, é necessário prova – é que os seus livros estão todos esgotados e só se encontram em alguns alfarrabistas.

Provavelmente, tal sucede, porque o seu humor e a sua brejeirice são hoje considerados “ideologicamente incorrectos”. Mas é pena, porque Alface é, quase sempre, um admirável estilista e consegue dar um “tratamento” à nossa língua muito pessoal.

Acabei de ler um livro de histórias (contos?), intitulado “O Fim das Bichas” (e com o subtítulo, bem característico do seu humor, “é o princípio das filas”), numa edição muito cuidada e bonita da “Fenda”.

Lá encontrei algumas “pérolas” que aconselho a quem gosta de ler um português bem “burilado” e, ao mesmo tempo, capaz de seduzir e divertir.

Mas há uma para a qual gostaria de chamar a atenção. Chama-se “Por Baixo” e trata (?) de uma realidade que só apenas a minha geração, e aquelas que a antecederam, conheceu: a recruta no período em que o serviço militar era obrigatório. E, em particular, o serviço de recruta “para alferes” na Tapada de Mafra (não é que eu tenha lá “batido com os costados”, mas ouvi e sei tantas histórias de quem por nela andou, e “gravaram-se” de tal forma na minha memória, que parece que as “visualizo” como se por lá tivesse passado).

É magnífica a prosa com que descreve o cerco de humilhações e de sevícias, as torpes bravatas dos medíocres “superiores”, os truques quase infantis com que se procurava “escapar” aos maus tratos e às inevitáveis equimoses emocionais com que de lá se saía, já “formado” e “adulto”. Procurem ler e decerto que irão constatar, como eu, que o português do Alface é modelar na forma como “espelha” o carácter abominável daquele universo de mesquinhez castrense.

A obra apresenta uma “ficha de autor” que, após descrever, na terceira pessoa do singular, de forma absolutamente convencional, alguns dados biográficos, termina com uma frase que procura caracterizar o modo de estar do escritor: “Vive com facilidade.”

Segundo rezam as crónicas, Alface faleceu precocemente, e de um modo súbito, numa sessão pública de leitura e análise dos seus textos. Espera-se, e digo-o com macabra ironia, que se tenha finado com a mesma “facilidade” com que viveu.

Porque desconfio que ele não gostaria, não publico uma foto do seu rosto. Mas da capa do livro que li.   

 

Julho de 2018

 

Nota: Já depois de ter publicado este texto, vim a saber que a Teresa Carvalho publicou um livro sobre o autor, intitulado “Alface. Levantar As Saias Ao Diabo” (Maldoror, 2017) e que a mesma editora reeditou a colectânea de contos “Cuidado Com Os Rapazes”. Mas, no essencial, a fundamentação deste texto mantem-se.