terça-feira, 9 de julho de 2024

CADERNO DE CAPA NEGRA


 

OS POEMAS

 

Entrou, dias há, peçonha

clara pelos nossos portos […]

uns dormentes, outros mortos,

alguém pelas ruas sonha.

Sá de Miranda

 

Encontro-me na margem de uma cidade sitiada

pelos reformadores: decepam as cabeças daqueles santos

que eu sempre venerei,

como aquela nossa senhora do ó de abobada celeste

soprada no ventre, a palma da mão no crânio do feto.

 

Deixo-me sentar sobre a árvore da desolação e afago as chaves

da minha solitária idade, comprimindo os dentes até

o sangue das gengivas me molhar os lábios. E

 

João Kniff, que me pressente sob um carvalho, pergunta-me

pela besta divina com os olhos irradiando chamas.

 

Calo-me. Sei que as armas acabaram, que os dias me reservam

só a espera do último assalto sobre a cidade, o saque

dos vermes sobre o corpo.

 

José Manuel Cortês

Junho de 1973 

terça-feira, 18 de junho de 2024

CADERNO DE CAPA NEGRA


 

SOBRE O TEMA DA MAÇA

 

Percorro. Agora penso que me percorro, me assinalo como viagem

carregado pelo possível das outras todas. Não sou um autoclismo puxado – garanto.

Lugares são a minha diferença. No momento, uma cama me distingue,

um olhar poisado sobre uma cadeira, e um quarto com um corpo

que amarguradamente come tempo e maças.

 

Cresço, como pensei primeiro percorro. Mas engano-me. Pois é um tempo,

um tempo marítimo e urbano que enche o copo, tempo de larva de maça.


J.M.C, dezembro de 1972

 

Reprodução da pintura “Jovem Com Uma Maça” de Rafael.  

domingo, 16 de junho de 2024

CADERNO DE CAPA NEGRA

 


SOBRE O RIO DO ESQUECIMENTO

(De 25 de Julho a 18 de Novembro de 1938)

 

Um rio, de afluentes e foz, de bronze líquido atravessando o tempo,

de limite nas margens como qualquer rio. Na memória,

um rio e um tempo com uma passagem

paisagem.

Um rio, exagero no tempo salino, demasiado na memória

para que não nos pareça tampa de túmulo,

rio imóvel (- mas só em mim e onde assinalo

o prenúncio deste sangue fluvial, porque mordem os cães

na memória colectiva com os dentes iluminados na névoa

ou naquilo que nem chegou a se):

 

- Sinaliza aqui o poema a margem como passagem para a imobilidade.

Morrem setenta mil homens e o tempo, sinal de um limite esperando

o corno do touro. O poema só pode dizer que são demasiados homens

e tempo para sedimentos de um rio,

e que ninguém peneira, ninguém lavra esses campos

corporais;

nem aristóteles pode vir clamar tragédias. Porque

 

não há barca de caronte nesta imobilidade. Só os olhos como berlindes

saltando podem assinalar a presença do estertor e do veio sanguíneo

de uma morte líquida, solta por uma margem.

 

 A palavra não o suporta, mas nomeia o nascer do mito, como o nascer da águia, etc..

Alguém piará, mas a palavra não pode sustentar setenta mil homens

gritando, com o seu olho claramente vítreo, com a sua consciência da morte e do

      [ebro.   

J. M. C., janeiro de 73

 

Foto de Robert Capa de um soldado da Quinta del Biberón.


terça-feira, 11 de junho de 2024

ANTÓNIO LOBO ANTUNES

 


UMA REVISITAÇÃO A ANTÓNIO LOBO ANTUNES

Sempre associei a prosa de António Lobo Antunes, desde os seus primeiros livros, a uma enxurrada. Sei que a imagem não é atraente, mas tenho que confessar que foi sempre essa a que tive. Uma torrente que leva tudo à frente: destroços, cadáveres, formas indefinidas, quase imperceptíveis, objectos heteróclitos, amores e ódios, todos arrancados à sua vida comum, mas que só reconhecemos o seu sentido e relevância porque foram assim levados no turbilhão daquelas águas.

Pessoalmente, nunca achei que os seus livros/romances se destacassem pela significação das suas tramas ou porque integrem personagens inesquecíveis (talvez aqui esteja a ser um pouco injusto, principalmente quando me lembro de “O Manual dos Inquisidores”). Mas, segundo creio, nada disso é muito relevante para o autor.

O que distingue António Lobo Antunes é a riqueza (e complexidade) do seu estilo. É aí que reside a sua invulgar “marca-d’água”. É esta enfática dimensão estilística da sua prosa, que foi crescendo de obra para obra, que dá, pelo menos entre as que eu conheço, a “Que Farei Quando Tudo Arde?” uma importância muito particular no conjunto da sua extensa produção narrativa.

Neste estilo, antes do mais, destaca-se o sentido de observação, fruto de uma sensibilidade “treinada” (hoje, definitivamente, não tenho mão para as imagens) a retirar significado de todas as coisas, objectos ou gestos, em particular os mais ínfimos; depois, o tratamento da língua, reutilizando formas verbais com fortes potencialidades polissémicas, forçando-as até ao absurdo, o que lhe permite construir imagens de uma beleza, por vezes, fulgurante; por último, um excepcional sentido do ritmo frásico, principalmente da sua dramaticidade e/ou emotividade, aproveitando todas as figuras de estilo, em particular as anáforas e aliterações, para criar intensidades várias, de forma a arrastar o leitor numa prosódia encantatória. 

Ao concluir a leitura de “Que Farei Quando Tudo Arde?”, na pausa em que nos afundamos, fica-se de garganta apertada, ao percebermos que os destroços, que aquela enxurrada leva, são os de um país (ou de um povo) a que pertencemos. Ou ainda, procurando perscrutar mais fundo naquelas águas turvas, que são destroços da condição humana, que parece irremediavelmente perdida e sem solução. Até que, por fim, temos a iluminação definitiva: naquela enxurrada, vamos também nós, leitores de António Lobo Antunes durante décadas e décadas.

Dizem-me que as suas últimas obras têm cada vez menos leitores, que já ninguém as lê. Não me admira, não me admira, porque a sua leitura há-de ser sempre incómoda. Mas isso não lhes retira importância no quadro da literatura portuguesa (e não só).

A terminar, um pormenor. Intencionalmente, “Que Farei Quando Tudo Arde?” não tem referência de género, tanto podendo ser encarada como um romance ou um poema, na linha desta tendência da literatura contemporânea para a diluição dos géneros. Mas para mim, como leitor, é claramente um romance: tem várias personagens, a maioria delas também narradoras, diversas situações em diferentes contextos temporais e espaciais, inúmeros capítulos (mesmo que não enumerados, dando a entender que a sequência da sua leitura é arbitrária), tudo amalgamado por um estilo que, como já referi, tudo leva na frente. Dir-me-ão que todos esses ingredientes também podem estar na poesia; mas sucede que nesta não são estruturantes, enquanto neste romance o são. Por vezes, desconfio destas indefinições, pois parecem-me sempre resultantes da menorização do romance como género. Será?

 

Foto do escritor retirada de “New In Almada”, sem indicação de autoria, mas que, segundo creio, é de Pedro Loureiro.


domingo, 9 de junho de 2024

OS POEMAS

 


OS POEMAS

“PULMÃO”

Em 1970, pertencia a um grupo de amigos, na casa dos dezanove/vinte anos, proveniente de várias zonas da Grande Lisboa, que passava o tempo a deambular pelos cafés da cidade. Todos tinham em comum apenas duas coisas: uma obsessiva necessidade de se exprimir por palavras (alguns deles já tinham textos publicados e premiados no suplemento “Juvenil” do Diário de Lisboa) e a consciência de que estavam num momento crucial das suas vidas: ou conseguiam entrar no Ensino Superior (adiando a incorporação militar e afastando assim a inevitável situação de irem “bater com os costados” numa guerra colonial que não entendiam nem desejavam) ou “fugiam” clandestinos para o estrangeiro, iniciando um exílio que na altura parecia definitivo.

Sentiam todos que viviam mergulhados no pântano de um quotidiano asfixiante, cercados por perigosos olhares pidescos, a sonhar com amores que uma moral censória e beata parecia transformar em inalcançáveis. Mas o júbilo da juventude e, principalmente, a convicção absoluta de que a literatura, e a criação artística em geral, lhes iria redimir o futuro, fosse ele qual fosse, fazia-os esquecer por momentos a dramaticidade da situação.

Alguns deles eram oriundos da Outra Banda e, já não sei por que vias, conseguiram convencer a direcção do Jornal de Almada a publicar um suplemento literário. Recordo é que todos nos mobilizámos para atingir esse objectivo e que, assim, conseguimos fazer sair, durante alguns tempos, quatro folhas magrinhas, a que intitulámos (não é por acaso) “Pulmão”. Nele (tudo isto parece espantoso visto aos dias de hoje) começámos a publicar textos, desenhos e fotografias, por nós produzidos, mas também por outras gentes, alguns até de gerações mais velhas (recordo, por exemplo, que o António Barahona enviou alguns poemas e que o Mário Botas alguns desenhos, que lá foram publicados, com enorme entusiasmo nosso).

Vem-me à memória isto tudo, porque, nessa altura, a Fiama Hasse Pais Brandão e o Egito Gonçalves publicavam anualmente, na Editorial Inova (numa edição muito cuidada, com desenhos do Ângelo de Lima e orientação gráfica do Armando Alves), umas antologias de poesia, onde recolhiam o melhor da produção poética portuguesa do ano anterior editada em livro ou em revistas e jornais. Na “Poesia 71”, recolheram do “Pulmão” um poema meu, coisa que me deu uma alegria indiscritível, pois era o meu primeiro texto publicado em livro.

Agora, aos meus olhos, parece-me muito fraquinho (confesso que não me revejo nesta opção estética de uma exasperante repetição de vocábulos), mesmo em comparação com outros poemas que na altura escrevi. Mas, para registo, aqui fica a sua transcrição.

 

A PELE, ENTRE AS PALAVRAS, PAISAGEM

caminho para todas as coisas que faço: árvores são.

lentamente, as coisas me devoram e se sentam sobre o seu repasto.

 tatuado pelas coisas, elas são animais numa caverna.

grandes cavaleiros lançando suas flechas sobre as coisas que vêm,

sobre os animais, sobre as pedras onde nasceram e no único movimento

que puderam fazer.

devagar o animal se torce e berra, devagar ele me atinge.

 

penso assim todos os órgãos que possuo; músculos,

veias, tendões, ossos, todos eles se movimentam e se agarram

às coisas fervorosamente.

unem-se ao tronco das árvores e flechas nascem do meu ventre

 e sou oco e ar e água me atravessa como uma caverna.

vejo-me atado, na mesma posição em que nasci, enterrado em rito.

as pessoas vão então nascendo, saídas dos seus túmulos, destruídas

pela necessidade de se acenderem.

 

Desconheço a autoria da foto.


quinta-feira, 2 de maio de 2024

AUGUSTO ABELAIRA

 

ALGUNS SINAIS

AUGUSTO ABELAIRA

Numa época em que por aqui proliferam os exercícios literários mais ou menos lúdicos e gratuitos de listas de escritores e quejandos, apeteceu-me, um pouco por inveja do que o meu irmão está a fazer para o cinema, começar a sinalizar algumas obras e autores que foram mais ou menos marcantes no meu percurso como leitor e até como pessoa. Parece-me, sinceramente, que é para mim mais prazeroso do que estar a “corrigir” listas de autores nobilitados …

Não é minha primeira intenção nenhum fim altruísta, mas simplesmente lúdico. É o simples prazer de recordar obras e autores que me move, sem stress nem nenhuma pretensão. Aqui aparecerão conforme a minha paciência e disponibilidade. Poderá ser que isso interesse a alguém que leia estas breves anotações, mas esse não é, confesso, o meu objectivo.

Também como já se percebeu, não virão acompanhadas por nenhumas análises nem sequer por qualquer tipo de valoração (já percebi que este não é o local para o fazer). São apenas obras e autores que, em algum momento da minha vida, me acompanharam e me interpelaram. Por isso, serão apenas introduzidas por algumas breves observações de carácter muito pessoal.

E começo por um autor português: Augusto Abelaira.

Ainda era jovem, cheio de sonhos, desejos e ambições, como é costume nessa idade, quando os romances de Augusto Abelaira me acompanharam durante uma temporada. Mais do que crónicas de um certo tempo português, eram companheiros que me questionavam, fazendo-me pensar na minha forma de sentir e de estar. Lá estavam o jogo dos afectos, a roda dos encantos e desencantos, com que construíamos os dias da altura. E tudo numa prosa elegante, harmoniosa, onde, gota a gota, pingava uma existência próxima da nossa e com os mesmos anseios e interrogações.

Mais tarde, já depois de ter lido os seus romances, conheci o homem. E descobri nele a mesma forma de estar, a mesma interrogação permanente sobre o sentido da vida que encontrava nos seus livros. Era um excelente conversador, com uma enorme pachorra para aturar a malta que dele se aproximava, uma espécie de “flâneur” que gostava de estar acompanhado conforme pacientemente deambulava pelas ruas da cidade.

Hoje, parece-me, está um pouco esquecido. Eu próprio nunca mais o reli. Mas é pena. Constatei, no entanto, que alguns dos seus romances foram agora reeditados. Por isso, é justo recordar, por exemplo, “A Cidade das Flores”, “As Boas Intenções”, “Bolor” e “Sem Tecto, Entre Ruínas”. Mas, muito em particular, “Enseada Amena”, com cuja capa, creio que original, ilustro este texto.  


segunda-feira, 22 de abril de 2024

UMA ESCOLA DE VIRTUDES ou “FAUT-IL BRÛLER SADE?”

 


 A Bastilha Nunca Desmoronará

Não me esqueço, nem perco a consciência, de que o apoio directo do Estado à criação literária é um assunto polémico, ambíguo e… perigoso.

Aliás, note-se, que a defesa da dimensão transgressora do acto literário e a afirmação da necessidade da sua absoluta liberdade têm sido os argumentos mais consistentes dos que defendem que o Estado não deve ter nenhuma intervenção no acto de criação literária, preconizando que o seu papel se deve limitar à divulgação e ao conhecimento alargado em termos sociais do património literário já constituído, através da escola e da instalação de meios que facilitem a alfabetização, a promoção da literacia e o acesso ao livro e a outros meios de criação e de informação.

No entanto, já se torna menos compreensível que esta preocupação se agudize apenas com a literatura e seja menos reconhecida para com outras actividades artísticas e culturais. De facto, nesta perspectiva da liberdade de expressão e de criação artística, torna-se difícil de entender porque é que a sociedade encara como mais consensual o apoio do Estado à produção teatral, por exemplo, do que à actividade literária…

Há também quem defenda que, no respeitante aos apoios à actividade literária, o Estado deveria limitar-se à dinamização do mercado livreiro, porque, afirmam, numa perspectiva bem característica de certo neoliberalismo, o seu crescimento bastaria para resolver o problema do financiamento de toda a cadeia do Livro, incluindo, obviamente, dos autores. 

Com este objectivo, preconizam, em concreto, o reforço do papel do Estado como cliente, de forma a adquirir mais títulos e exemplares que actualizem permanentemente os fundos bibliográficos das suas redes de bibliotecas e outras instituições (escolas, universidades, etc.). Ou então que apoie a própria produção editorial de forma a esbater os seus custos e a diminuir, por consequência, o preço de venda ao público dos livros, alargando assim as suas possibilidades de aquisição a segmentos sociais com menor poder de compra. Ou ainda que reduza ou apoie os custos de estrutura de editoras e livrarias de forma a dar-lhe maior solidez e resistência às flutuações do mercado. Etc., etc.

Saliento, relativamente à “dinamização do mercado livreiro”, que o Estado já há muito procura satisfazer este objectivo com os seus programas de promoção das literacias e que, como já aqui se referiu, por erros estratégicos ou não, os resultados são pouco mais do que sofríveis. A título de exemplo, recordo, que o Plano Nacional de Leitura criou um programa de selecção de obras (o chamado “Ler+”) que os editores e os livreiros bem aproveitam para promover títulos e reforçar as suas vendas. Pela minha parte, como já salientei, considero que a prioridade dos investimentos públicos deve estar na promoção das literacias; mas isso não deve escamotear a necessidade de integrar programas com outras formas de apoio ao livro e à literatura, como as relacionadas com o apoio directo à criação.

É evidente que o Estado pode e deve “reforçar o seu papel como cliente” com o fito de adquirir fundos bibliográficos para as suas bibliotecas. Simplesmente, como se sabe, a rede de bibliotecas públicas foi concebida e estabelecida para ficar sob a dependência do poder local, e por consequência, não existe, no nosso país, nenhuma “central de compras” (nem creio que fosse uma boa solução). Só que, em parte por este facto, também não existe nenhuma informação fidedigna sobre o volume das chamadas “aquisições Institucionais” (ou públicas), não se sabendo ao certo, no conjunto da administração central e local, qual a sua dimensão financeira nem quantos títulos ou exemplares são adquiridos, tornando-se assim, por conseguinte, difícil calcular até que ponto estas aquisições têm relevância na economia do sector. De qualquer modo, se o reforço destas aquisições pode contribuir para uma melhoria da situação editorial, não pode ser entendida, como é evidente, num papel substitutivo do próprio mercado.

É indiscutível, muito que se questione a sua actuação, que as editoras e as livrarias são agentes culturais muito relevantes e que, por isso mesmo, têm um papel social que as demarca das restantes empresas, e, por conseguinte, devem ser apoiadas. Mas, dada a impossibilidade financeira da universalidade desses apoios (nem financeiramente comportável nem benéfica), é necessário uma complexa definição de critérios que, desde que não sejam correctamente aplicados, podem dar origem a situações discriminatórias e arbitrárias que lesam a concorrência e o funcionamento do mercado. Além disso, só contribuem a médio e a longo prazo, de forma muito indirecta, para uma eventual sustentabilidade da actividade literária, o que não é uma boa perspectiva nem desejável.

Relativamente ao apoio directo do Estado à criação literária, quero deixar bem claro que não sou ingénuo ao ponto de considerar que o Estado não tentará condicionar o acto literário, de forma a domesticá-lo em termos morais e padronizá-lo em termos estéticos.

Convém, no entanto, ter em consideração que, pelo menos nas sociedades democráticas, os Estados nesta matéria são simples executantes da vontade social dominante: é da sociedade, na maior parte das vezes, que “nasce” a vontade de censurar ou de condicionar certas manifestações literárias e que o Estado apenas é, com os meios que tem ao seu dispor, o executante dessa vontade. Neste aspecto, não tenho nenhumas dúvidas sobre este facto.

Por isso mesmo, exige-se que o sistema literário se prepare e organize para esta possibilidade, que, aliás, sempre existiu. É fundamental que o Estado não tenha, nem possa ter, como acima já se percebeu, condições para o fazer. Os criadores literários devem ter, sobre os abusos e prepotências do Estado, uma inquebrável vigilância, individual e colectiva, procurando condicionar os seus julgamentos morais e estéticos. Daí a importância crucial que devem ter as organizações cívicas que congregam os criadores literários em defesa da sua autonomia e na denúncia desses abusos que o Estado perpetre ou pretenda perpetrar, necessitando, para isso, de ter alguma força e relevância social. E a defesa desta autonomia deve ser um bastião que congregue todos os criadores literários, sem falhas nem discussões. Mesmo que algumas das posições dos seus congéneres, expressas nas suas obras, se tornem incómodas, por excesso de independência em relação aos padrões morais e estéticos reconhecidos num determinado momento pela sociedade.

Repare-se que os vários apoios indirectos à criação literária, que o Estado já hoje concede, nunca geraram, que se tenha conhecimento, particulares constrangimentos em relação à autonomia da criação literária, com excepção dos resultantes do facto de os autores e das suas obras já integrarem o sistema literário e, por isso mesmo, já estarem sujeitos a uma consequente avaliação cultural e literária. Mas é indiscutível que a natureza destes apoios é limitada, pois que assentam na fase posterior à criação da obra e visam apenas a sua maior e mais ampla divulgação.

Além disso, também tenho consciência que as entidades da sociedade civil que congregam os escritores serão sempre relativamente frágeis. Essa fragilidade, em grande parte, deriva do simples facto de os escritores não possuírem nenhum estatuto de grupo (ou classe) profissional (não é por acaso que, no nosso país, a entidade com maior relevância e peso social seja a Sociedade Portuguesa dos Autores); mas os escritores, aproveitando a circunstância de a sociedade ainda lhes conceder o estatuto de serem porta-vozes do “sentido cívico”, sempre têm conseguido apontar, pelo menos nas sociedades democráticas, com a sua pena, as situações de prepotência dos podres públicos, em nome da defesa das liberdades e garantias individuais.

Também não tenho dúvidas de que é bastante difícil comprovar factualmente que o Estado teve ou não atitudes discriminatórias, em termos éticos e/ou estéticos, em relação a certos projectos, mesmo que sejam aplicados procedimentos transparentes e critérios rigorosos e objectivos. No quadro de uma matéria inevitavelmente subjectiva, como é a avaliação qualitativa de projectos literários, haverá sempre margem para dúvidas e incertezas.

Como se deve calcular, nem que seja pela minha formação libertária (que muito prezo), estou bem longe de defender uma estatização da actividade literária (assim como de qualquer actividade social e económica). Simplesmente, preconizo um maior e melhor apoio do Estado na presente conjuntura da actividade literária e editorial, desejando que se efectue a curto prazo (e num prazo o mais curto possível). Aliás, nada do que aqui propus está longe do que já está estruturado e organizado em boa parte dos países que assentam a sua vida pública em regimes democráticos.

Haverá, como é evidente, sempre projectos literários (e excelentes, ninguém tenha dúvidas) que não necessitam de nenhum apoio do Estado para que consigam subsistir e sejam até rentáveis, como haverá sempre quem considere que o sistema literário, com maior ou menor participação do Estado, será sempre coercivo e castrador da criatividade individual. Simplesmente, e retomando o problema do princípio, a questão toda está em saber se uma maior intervenção dos podres públicos, criando uma maior sustentabilidade à actividade literária, poderá ou não libertá-la, pelo menos em parte, da tirania do sistema de mercado, possibilitando o aparecimento de uma diversidade de propostas estéticas que não estejam tão sujeitas ao gosto dominante.

Regressando à figura de Sade, gostaria de afirmar que, lamentavelmente, tenho a absoluta certeza que a Bastilha nunca desmoronará, e que o buraco de agulha, por onde passará a fragilidade da criação literária (e artística), será sempre entre a morte (a guilhotina), pelo menos simbólica, e Charendon (a loucura).

A nós, à actual sociedade, ficará apenas a tremenda responsabilidade de saber como é que se consegue levar a carta a Garcia.

A imagem integra a Biblioteca Digital Gallica.

Lisboa, Abril de2021/Fevereiro de 2022

 

José Manuel Cortês


UMA ESCOLA DE VIRTUDES ou “FAUT-IL BRÛLER SADE?”

 


VII

 Como Tentar Dissipar a Noite e o Nevoeiro

Note-se, no entanto, que nenhum destes mecanismos (já antes referidos) de apoio à literacia e à literatura, por parte do Estado, são, porém, apoios directos à criação.

Ora, a dificuldade primordial dos escritores é, como vimos, falta de tempo para se dedicar às suas tarefas, uma vez que são obrigados, por razões de subsistência, a dispersar-se por outros trabalhos. Este sempre foi a sua preocupação fundamental; mas, presentemente, dada a forma como tem evoluído (?) o sistema editorial e literário, a situação tem tendência a agravar-se, como já amplamente referimos acima.

Não admira, por isso, que os escritores venham cada vez mais a reclamar um papel mais preponderante do Estado em apoio da criação literária: existe a consciência generalizada de que se está a esgarçar a continuidade de um património que consensualmente a sociedade considera fundamental e que o próprio Estado instrumentaliza como bandeira nacional. É compreensível, portanto, a reivindicação dos autores para que o Estado apoie directamente a criação literária, tal como já o faz com outras manifestações artísticas. E que esta pretensão vá obtendo cada vez mais eco social.

A perspectiva deste reforço do papel no Estado no apoio directo à criação literária já não é nova. Creio que, nos tempos modernos, e de uma forma estruturada e sistemática, se colocou, pela primeira vez, em meados da década de sessenta, num país que não tem fama de um grande intervencionismo, os Estados Unidos da América, com o programa, que ainda hoje existe, depois de inúmeras vicissitudes (as últimas no consulado de Donald Trump), do “National Endowments for the Arts”. A partir daqui, este modelo de apoio alastrou para a Europa e hoje já está presente em diversos países de todo o mundo, variando de consistência e dimensão, a par dos restantes programas de apoio directo às outras criações artísticas. 

No nosso país, as primeiras tentativas de conceder apoios directos à criação literária remontam aos finais do século passado e, depois de mais de uma década de interrupção, foram retomados presentemente com o ultimo Governo: é o chamado Programa de Bolsas de Criação Literária.

Simplesmente, esses apoios directos são muito limitados (e não só em número) e bastante constrangedores, por razões técnicas, em relação aos criadores literários.

Na minha opinião, as razões dessas limitações técnicas resultam, antes do mais, porque seguem modelos não adequados à realidade nacional, pois, por um lado, derivam do modelo das bolsas do já referido “National Endowments for the Arts” e, por outro, do das bolsas da área científica concedidas pela Fundação para a Ciência e Tecnologia. Ora, estes modelos orientam-se segundo o princípio da dedicação exclusiva, na perspectiva, pelo menos implícita na sua concepção, de criar condições para a total profissionalização dos bolseiros numa fase posterior da sua actividade. E, como já se percebeu, no nosso país, as hipóteses de os autores se dedicarem exclusivamente à criação literária, e de ser esta a sua única via de remuneração, são muito difíceis e arriscadas, entre outras razões, dada a exiguidade do mercado e ao baixo número de consumidores de livros.

É evidente que os princípios que orientam estas bolsas são genericamente correctos (disponibilização de tempo e concessão com base na avaliação de projectos); mas deveria existir uma maior maleabilidade na avaliação das situações e uma diversidade de apoios que não se confinasse estritamente a um único modelo de bolsas.

Como já se constatou, o modo e o estatuto com que os escritores se posicionam no universo literário são muito distintos e este facto deveria ser considerado para que os apoios públicos à criação literária fossem adequados e correctos (ia a escrever justos, mas parece-me ser um termo objectivamente impróprio). Partir do pressuposto igualitarista, de que a situação socioprofissional dos autores é idêntica ou que ambicionam ter no futuro uma situação similar, não corresponde à realidade e só gera dificuldades insuperáveis e condicionalismos aos possíveis candidatos e limita as possibilidades de um efectivo apoio à actividade literária. Como se sabe, muitos deles não têm condições para efectuar um “interregno” nas suas actividades profissionais, nem ambicionam dedicar-se em exclusivo à literatura num futuro próximo e, estes factos, inibem, como é evidente, que concorram a este modelo de apoios.

Por tudo isto, dever-se-ia partir do pressuposto (e do desejo) de pretender apoiar à criação literária de outras formas que não exigissem a dedicação exclusiva. Certos projectos, alguns deles com enorme valia literária, podem ser produzidos por quem não tem condições para uma dedicação exclusiva e é possível ponderar modelos de apoio que garantam uma dedicação a meio tempo ou que sejam apenas uma forma de reconhecimento da sua pertinência. Por exemplo (mas este é apenas uma hipótese, note-se), e tendo em consideração a actual situação editorial e o mercado existente, para autores com obra já publicada (mas não só), poderia considerar-se uma solução que, através de um protocolo tripartido entre o Estado, o autor e o seu editor, se garantisse e/ou reforçasse a percentagem a que o autor irá receber pela venda dos direitos comerciais da obra futura (concedido na forma de “adiantamento”) para uma determinada tiragem ou de acordo com o modelo em que se processe a edição digital, estabelecendo-se previamente o período da sua realização.

Creio que seria também de toda a justiça que houvesse concursos distintos para candidatos com obra publicada e sem obra publicada. É evidente, e é natural que assim seja, que os júris destes concursos têm possibilidades de uma mais fácil avaliação nos casos de autores com obra publicada que se apresentem com novos projectos do que daqueles se candidatam com um projecto de uma primeira obra (mesmo que os dossiers das candidaturas sejam acompanhados de originais já concluídos): é indiscutível que um autor com obra publicada dá, por esse simples facto, uma segurança acrescida ao júri de avaliação e que essa situação é, por isso, determinante.

Por outro lado, em particular para certos géneros literários (como é o caso, por exemplo, da poesia), a apresentação de um projecto torna-se mais num artifício, mais ou menos retórico ou de pura elucubração intelectual, do que um efectivo programa de escrita. Nestes casos, justificava-se que a avaliação se centrasse mais no corpo de textos já concluídos do candidato, publicados ou não publicados, e sobre a sua valia e pertinência estética.

Além disso, poderia ponderar-se uma maior adequação do período temporal do apoio e/ou da bolsa à especificidade e complexidade do projecto, não se ficando apenas condicionado às actuais periodicidades (seis meses e um ano), perspectivando-se também, como já se referiu, a possibilidade de uma dedicação a meio tempo, alargando-se assim até dois anos.

Neste sentido, creio que ainda se poderia criar uma modalidade para autores já consagrados (definição que exigiria uma fundamentação com critérios rigorosos e objectivos), com carácter plurianual (três a cinco anos) e com a possibilidade de apresentar mais do que um projecto, que permitisse aos candidatos concluírem a sua obra sem estar tão dependente dos meandros sempre árduos do mercado e do mundo editorial. Nestes casos, já existe sinais suficientes de motivação e de resultados públicos que permitem, com toda a  justiça e valia literária, perspectivar esta hipótese.

Por último, e no caso do famigerado Estatuto do Trabalhador Cultural não enquadrar estas situações, como parece, complementar as apoios e bolsas acima referidos, com apoios de carácter assistencial, para autores que, no final da sua vida literária, por razões de saúde ou de idade, têm dificuldades de subsistências com os rendimentos oriundos da venda de direitos das suas obras ou da Segurança Social. São, felizmente, poucos casos a que isto sucede, mas é de toda a justiça social que sejam assim recompensados, pois não é admissível que um autor que dedicou toda a sua existência a dar corpo ao património literário nacional, se encontre, no final da sua vida ou por incapacidade, mergulhado em situações de miséria, como já sucedeu e foi de conhecimento público.

Não se julgue que o que aqui se avança como propostas exigiriam um financiamento com valores irrealistas e impossíveis de atingir. Não vou, na presente circunstância, adiantar valores ou previsões orçamentais, mas gostaria de que os meus presumíveis leitores tivessem a certeza, sem sombra de dúvidas, daquilo que afirmo.

Simplesmente, era fundamental que a literatura deixasse de ser encarada como uma “arte pobre”, que não necessita de apoios, no quadro dos investimentos públicos: a literatura sempre, repito, sempre obteve, no nosso país, apoios bem abaixo dos concedidos a quaisquer outras actividades sociais e económicas, incluindo, obviamente, as que integram o quadro das actividades artísticas e culturais. E este conjunto de propostas, que aqui se apresenta, não chega para alterar esta situação, tal é a menoridade dos actuais orçamentos orientados em apoio das actividades em redor da literatura (principalmente, se excluirmos os concedidos, em circunstâncias precisas e excepcionais, à sua internacionalização). Por isso, o problema, note-se, não é, nem nunca foi, resultante de qualquer défice financeiro, mas de vontade política, pois que, na sua génese, está uma visão que menoriza a literatura (mesmo que na retórica pública se afirme o contrário) e a coloca com um estatuto irrelevante, sem compreender a sua importância social e até económica (basta constatar a empregabilidade e a facturação do sector do livro, para não referir o seu contributo, através da internacionalização da nossa literatura, para a imagem internacional do país e as suas repercussões globais para a nossa actividade económica). 

Desconheço a autoria da foto.

UMA ESCOLA DE VIRTUDES ou “FAUT-IL BRÛLER SADE?”

 


Em Casa dos Outros

É evidente que os esforços públicos no domínio literário não se têm limitado à promoção das literacias. Nem devem.

Mesmo no caso português, como um pouco por todo o lado, o Estado apoia as iniciativas das associações da sociedade civil que agregam escritores e incentiva a existência de prémios que reconheçam o mérito do seu trabalho. Mas esses prémios, dada a situação remuneratória em que a maioria dos escritores se encontra, tornaram-se, mais do que uma forma de reconhecimento do mérito de obras e de autores, num meio de sobrevivência, pervertendo o seu sentido, como já se referiu. Em muitos casos, dadas as diminutas tiragens actualmente existentes, a fronteira entre o sucesso ou o fiasco de uma obra em termos financeiros, está mais entre ela conseguir ou não obter um prémio literário, principalmente se este for de algum montante pecuniário significativo, do que nas vendas de exemplares que conseguiu atingir. Imagine-se, por conseguinte, a pressão que este facto gera sobre as entidades e os júris que os concedem e como esta situação pode perverter a sua existência…

Uma forma de intervenção do Estado, que já tem mais relevância directa na situação financeira dos autores, é o apoio à tradução e à internacionalização das suas obras.

De facto, presentemente, o(s) investimento(s) necessário(s) para efectuar traduções (em particular, de ou para línguas com um mercado literário de menor dimensão, isto é, de obras que sejam oriundas de um espaço exterior ao universo anglo-saxónico, espanhol ou francês) leva a que sejam encaradas pelas empresas de edição como projectos quase impossíveis, tendo em conta o número muito reduzido de tradutores qualificados, as perspectivas do mercado potencial e as consequentes pequenas tiragens: basta imaginar os custos de tradução de uma obra, por exemplo, de português para dinamarquês ou vice-versa, para perceber como é difícil obter o retorno comercial que compense a sua edição.

Já por diversas vezes referi a dimensão nefasta desta situação em termos civilizacionais: continuo a crer que a literatura (bom, sejamos generosos, também o cinema) é a melhor via para dar a conhecer (e a compreender) uma cultura e o seu respectivo povo, em todas as suas vertentes, e como a inexistência de traduções literárias pode ser (e é) motivo para o aparecimento de sentimentos xenófobos e racistas, geradores de exclusões sociais e de incompreensões que potencializam todo o tipo de conflitos. 

Compreende-se assim os motivos por que, quase por todo o mundo, os Estados decidiram apoiar as traduções das obras geradas nos seus países e a internacionalização das suas literaturas, criando programas que compensem, pelo menos parcialmente, os custos de tradução e de edição, e intervindo em complemento da acção contínua dos agentes literários (quando os há, o que é raro no nosso país).

Mas estes programas, para utilizar um jargão economicista, intervém apenas ao nível da oferta e, mais uma vez, isto só não chega: é fundamental a constituição de públicos nos diferentes países ou universos idiomáticos, curiosos e interessados em conhecer e ler obras das distintas literaturas nacionais, para que os editores se sintam estimulados à realização de traduções e edições.

Daí que estes programas sejam, em complemento, acompanhados por acções e iniciativas que divulguem autores, obras e literaturas nos diversos países, em geral resultantes de parcerias com agentes locais (onde se destacam os editores e as associações de editores, mas não só). Também, mais uma vez, a comunicação social joga nestas iniciativas um importante papel, dada a repercussão que poderá obter a presença de um certo autor ou a representação de uma literatura num determinado público leitor.

Muitas dessas iniciativas passam pela participação em eventos, tais como em feiras do livro e certos festivais literários, que já alcançaram, em resultado da sua periodicidade regular e do seu histórico, uma relevância e uma notoriedade que naturalmente atraem a comunicação social do seu país e até internacional. Por isso mesmo, a presença de autores ou de uma determinada literatura nesses eventos poderão ser uma mais-valia promocional indiscutível e com resultados facilmente comprováveis.

Simplesmente, a participação nessas iniciativas, principalmente de “embaixadas” representativas de uma literatura, tem custos muito elevados. Necessitam, por conseguinte, de ser muito bem ponderadas, perspectivando com rigor a sua utilidade estratégica e eliminando quaisquer interesses particulares que as motive. Além disso, deve compreender-se, dado os investimentos avultados que exigem, que o seu interesse não se limite apenas aos objectivos promocionais de uma literatura, e que se ambicione, com estas participações, não só a dar visibilidade a uma literatura, mas ao país no seu todo, de modo a que estas iniciativas promocionais alcancem benefícios para um conjunto alargado de actividades económicas e sociais e não apenas literárias. No fundo, deseja-se, a reboque da literatura, atingir outros resultados (turísticos, comerciais, de captação de investimentos, etc.), com o intuito de que esses benefícios tenham repercussões globais a nível nacional.

Também é compreensível que se encare com desdém e que se encare censurável este aproveitamento economicista da actividade literária. Mas, mesmo considerando a imensa relevância simbólica da projecção internacional de uma literatura nacional, tem de se aceitar que se possa achar como um despesismo excessivo estas “embaixadas” internacionais, dados os investimentos necessários, se elas não contribuírem para a imagem de prestígio do país no seu todo, no contexto onde se realizam, e não consigam, deste modo, obter resultados que tenham repercussões positivas para um leque alargado de actividades económicas e sociais.

Repare-se, no entanto, como, nestas circunstâncias, já se está longe da criação literária como acto individual e soberano, e, pelo contrário, se transfigurou num bem com um alcance claramente extraliterário, envolvendo até agentes económicos e sociais que, possivelmente, nada têm a ver com o seu universo. Aqui a literatura transformou-se numa marca simbólica de um povo ou de um país, representando a sua cultura e o seu modo de estar.

É evidente que a importância para um povo do seu património literário está muito para além destas situações concretas de representação nacional. Mas deve ser também compreensível que os escritores, assim como os restantes agentes do sector do Livro, desejem ver reconhecido, tal como sucede com outras actividades artísticas, sociais e económicas, por parte do Estado e da sociedade em geral, em atenção e apoio, este seu papel, uma vez que os benefícios destas participações se expandem por toda a comunidade.

Capa da edição em dinamarquês de "O Ano da Morte do Ricardo Reis" de José Saramago.

UMA ESCOLA DE VIRTUDES ou “FAUT-IL BRÛLER SADE?”

 


 Reforçar Os Pilares Da Ponte – 4

 

É neste registo de criar maior visibilidade à criação literária que deve ser também entendida a importância dos festivais literários e das feiras do livro (que são habitualmente acompanhadas por realizações, mais ou menos conseguidas, de promoção da leitura). Mesmo tendo em consideração que remetem ou posicionam o escritor num papel que não é o seu, condicionando à sua capacidade performativa o reconhecimento da sua obra, os festivais literários têm o mérito, não só de concretizarem a alvejada (e reconhecida como gratificante) proximidade entre o autor e o leitor, mas também de contribuírem, em consequência da sua visibilidade mediática, para a referida “ambiência social” propícia à leitura e à literatura.

Em Portugal, nos últimos anos e de uma forma quase súbita, apareceram inúmeros festivais literários, todos eles concebidos e concretizados por parte do poder local. Estas iniciativas visam claramente dois objectivos: por um lado, promover a literacia e o gosto pela literatura entre os seus munícipes (e não só); por outro, dar visibilidade ao seu concelho, através de uma iniciativa cultural que atraísse a comunicação social e o destacasse no conjunto dos restantes municípios. O problema foi que esta súbita proliferação de festivais quebrou esta visibilidade e a capacidade de captação da comunicação social. E esta situação levou a que muitos concelhos, principalmente naqueles em que o segundo objectivo se sobrepunha distintamente em relação ao primeiro, se desmotivassem, quebrando o investimento necessário para que ele se realizasse de forma condigna ou até que os levasse a desistir desta iniciativa. Daí que este “interesse” pelos festivais literários por parte do poder local tenha dado a imagem de ser um fenómeno de moda e não tanto de ser uma genuína forma de promover a literacia e de paixão pela actividade literária.    

Por tudo isto, a constituição de uma rede de festivais literários, bem definida pela sua estruturação e de significativa consistência, deveria ser ponderada e apoiada, com critérios precisos, como sucede um pouco por toda a Europa, por parte dos organismos da administração central que têm responsabilidades estratégicas nas políticas públicas de promoção das literacias e da literatura, não deixando esse ónus apenas para o poder local. Esta opção poderia reforçar a qualidade e a relevância da programação destes festivais, principalmente pela garantia de uma remuneração mais aceitável para todos os agentes que neles participam, dando-lhe uma escala nacional e até internacional e não apenas local.   

Porque não se tenha dúvidas: mesmo que se preconize, ou se considere inevitável, um posicionamento mais “elitista” para a actividade literária, consentâneo com o seu caracter minoritário, a sustentabilidade social desta actividade continua a ser determinante para que continue a estimular o aparecimento de autores e obras que consigam responder com criatividade às problemáticas dos novos tempos e às actuais formas de sentir, pensar e estar. Não é admissível considerar que a pujança e relevância de uma literatura sejam apenas resultantes do mérito das obras que se vão publicando, pois, pensar deste modo, é condenar a actividade literária a um definhamento social gradual que, como já referi, não levará ao seu desaparecimento, mas a um constante e duradoiro confinamento, perdendo cada vez mais significado o seu papel no equilíbrio harmonioso do mundo, como espaço e forma de afirmação ontológica, de recriação e representação do Lugar, de aproximação ao Outro.

Desconheço a autoria da foto.

UMA ESCOLA DE VIRTUDES ou “FAUT-IL BRÛLER SADE?”

 


Reforçar Os Pilares Da Ponte - 3

Tornam-se, assim, compreensíveis os motivos que levaram uma boa parte da actividade literária a “emigrar” para a web. De facto, é para lá que os cultores (leitores e autores) de literatura deslocaram a necessidade de partilha da sua paixão, até mesmo a afirmação da sua criatividade, através de uma panóplia de formas (livros e revistas digitais, sites, blogs, podcasts, redes sociais, etc.) onde, não só se publica (e experimenta) todos os géneros de criação literária, mas, e enfatizo este aspecto, também recensões críticas e algum debate ideológico e estético sobre obras e autores. É certo que esta proliferação juntou o bom e o péssimo numa amálgama caótica, pois a inexistência, na maior parte dos casos, de qualquer filtro qualificado, facilita a publicação de textos (e de opiniões) sem competências nem formação específica, criando crispações e ressentimentos, por excesso de emotividade e falta de fundamentação, e provocando dificuldades de orientação para o leitor/consumidor. Mas, de qualquer forma, é na web que a literatura ainda aparece com uma assinalável vitalidade, e onde é possível manifestar-se algum debate estético, ideológico e literário que, mesmo que não tenha outro mérito, permite perceber qual é o “pulsar” literário da comunidade.

Com esta “absorção” gradual da literatura pelo domínio digital, volta de novo a colocar-se, de forma muito intensa, o problema da transformação do acto literário em bem social (e a consequente remuneração do autor) ou, por outras palavras, a questão da aquisição de um texto, como acto que precede a leitura. De facto, algumas formas de criação literária (em particular, certa narrativa, mas não só, com formas mais estruturadas e desenvolvidas) só aparecem em e-book ou em formato digital codificado e, consequentemente, pago. E, como resultado, estabeleceu-se uma nova hierarquia no universo literário com uma pretensa (e ambígua) diferenciação qualitativa: as obras “boas” são as que se compram, seja no formato analógico ou digital, e as que aparecem gratuitamente na web são meras formas de divulgação ou de relativo interesse literário. Esta hierarquia é, obviamente, errada, porque não corresponde à realidade, mas reflecte bem a ambivalência e a importância da remuneração do autor como critério de valoração. E essa demarcação ainda se torna mais acentuada (mesmo que, nos últimos tempos, e cada vez mais, se venha a esvanecer, conforme vai diminuindo a resistência do leitor de literatura ao formato digital) entre a obra literária publicada em papel e a que se encontra limitada (?) ao espaço virtual.

Ora, esta absorção parcial da actividade literária pelo digital quase nenhuns reflexos teve nas estratégias de promoção das literacias e da literatura no nosso país. Ou, para ser mais claro: é certo que os organismos com responsabilidades estratégicas na promoção das literacias criaram os seus sites e “alimentam-nos” com iniciativas que à distância promovem as literacias e que apoiam os promotores da leitura; mas, para além disso, que eu tenha conhecimento, nenhum programa foi constituído que incentive ou apoie as iniciativas particulares mais relevantes que apareceram na web, principalmente que ajude o consumidor digital a orientar-se na “floresta de informação” em que este meio tecnológico se tornou.

Parece, por isso, evidente (e justificado) que qualquer estratégia pública de promoção das literacias no nosso país deve passar por um maior investimento nos registos do audiovisual e da web. Sem efectuar esta aposta, estou em crer que todo o colossal esforço dos seus promotores, empenhados em conceber e executar inúmeras acções de proximidade, estará condenado a resultados limitados (ou a um relativo fiasco), por não estar escudado e envolto numa ambiência social onde a produção cultural (incluindo, obviamente, a literária) esteja mais presente e revele a sua dimensão mais estimulante de confronto com os convencionalismos estéticos e ideológicos.

Desconheço a autoria da foto.

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Reforçar Os Pilares Da Ponte – 2

 

É também este o percurso, pelos mesmos motivos, que se impôs no domínio do audiovisual. Na rádio, para além de vagas excepções, a actividade literária só tem presença em um dos canais públicos que, desde sempre, não está sujeito ao objectivo imperial da dimensão das audiências. Nesse canal (RDP 2), é regular e diário os programas, alguns deles francamente meritórios, onde se divulga poesia, se debate e analisa algumas das obras recentemente publicadas, se entrevista escritores, e, por último, se efectua algum trabalho de promoção das literacias.

Quanto à televisão, os poucos programas existentes, também apenas nos canais públicos, são, quase sempre, apresentados tarde e a más horas ou, pelo menos, em períodos de fraca audiência, e limitam-se, quase exclusivamente, a promover, com franciscanos meios de produção, as obras que se vão publicando, sem nenhum debate ou qualquer tipo de confrontação de ideias e estéticas, apenas com o fruto da leitura, algumas vezes informada, dos apresentadores e/ou das equipas que os assessoram, acompanhada da inevitável entrevista ao autor. Este modelo, utilizado até à exaustão, gera no consumidor um desinteresse crescente, pois começa a encará-lo como uma mera acção de marketingÉ certo que, por vezes, aparecem, também nos canais públicos, alguns documentários interessantes, sobre escritores e obras, tanto de origem internacional como portuguesa; mas, na generalidade dos casos, não são nem divulgados convenientemente nem estão integrados de forma regular na sua programação, originando que, mesmo no caso do público já interessado por questões literárias, os desconheça ou só venha a tomar conhecimento deles após a sua transmissão.

Porém, não vale a pena apontar o dedo ou diabolizar os empresários e gestores, os directores de programas e os chefes de redacção: quando se procura viabilizar uma empresa de comunicação, seja escrita ou audiovisual, o critério prioritário é, inevitavelmente, o aumento da audiência (o famoso “share”), pois é ele que garante as receitas de publicidade necessárias a essa viabilização, e não tanto um padrão de mérito cultural; e, por conseguinte, a literatura, dada a irrelevância do seu público, torna-se insignificante para alcançar esse objectivo.

Na presente conjuntura, e dadas algumas características com longa duração da nossa sociedade (falta de poder de compra, frágil formação cultural, hábitos enraizados de ocupação dos tempos livres longe da fruição de bens culturais), apenas é possível tentar contrariar (sem grande expectativas) a actual situação de invisibilidade da actividade literária na comunicação social generalista. Por isso, talvez seja mais útil que os poderes públicos, com responsabilidades estratégicas nas promoções das literacias e da literatura, estejam atentos e apoiem (com critérios objectivos e que não assentem em exclusivo na dimensão do público receptor) as iniciativas existentes (em particular as revistas especializadas) e que aproveitem os media estatais para melhor presenciarem a actividade literária no domínio audiovisual, estimulando a inovação e a criatividade na concepção da programação.

Desconheço a autoria da foto.


UMA ESCOLA DE VIRTUDES ou “FAUT-IL BRÛLER SADE?”

 

VI

Reforçar Os Pilares Da Ponte - 1

Veja-se o caso do nosso país.

O Estado democrático conseguiu aumentar significativamente a escolaridade obrigatória e confinar o analfabetismo para níveis irrelevantes, criou duas redes de bibliotecas públicas (as municipais e as escolares), constituiu e colocou no terreno, há já algum tempo, um Plano Nacional de Leitura, fomentou a criação de um tecido de promotores e animadores da leitura para acompanhar o trabalho diário e incessante dos bibliotecários e organizar um conjunto diversificado de acções de proximidade; em resumo, incrementou e implantou os meios necessários para alargar e desenvolver os hábitos de leitura. No entanto, segundo todos os indicadores conhecidos e a opinião generalizada dos agentes do sector do livro, os resultados são pouco mais do que sofríveis.

Poder-se-á afirmar, e é constatável, que a administração central tem diminuído de forma significativa o financiamento necessário, principalmente depois da implantação das redes referidas, para que esses meios possam concluir com eficácia os seus objectivos; mas também é forçoso reconhecer que se tem compensado, pelo menos parcialmente, essa falta com o reforço do investimento da administração local.

É evidente que existem outros condicionalismos que afastam a população da leitura literária e que não basta a implantação de meios que favoreçam as literacias (mesmo que excelentes, sofisticados e actualizados) para resolver esta questão. Antes do mais, obviamente, o fraco orçamento familiar da maioria da população para a actividade cultural que, perante a diversidade da oferta, se inclina naturalmente para um consumo mais barato e acessível, como é a oferta audiovisual, em particular a televisão, e a web: é, de facto, nesses meios que a maior parte do povo português despende os seus tempos livres e é deles que retira a sua necessidade de informação e alguma fruição estética (mesmo que esta seja de fraca qualidade). Esta orientação na ocupação dos tempos livres já tem várias décadas e não é fácil reconverter hábitos há muito enraizados.

Há também quem aluda à frágil formação cultural da população portuguesa (contrariando a propaganda pública que considera as “últimas gerações como as melhor formadas de sempre”) para fundamentar o débil consumo de “bens culturais” e, por conseguinte, também literários. Creio, no entanto, que este argumento, mesmo que potencialmente correcto, está, pelo menos, mal formulado, pois não compreende que, presentemente, esta situação é, antes do mais, uma consequência do referido modelo de ocupação dos tempos livres.

Como é possível contrariar esta “cultura do espectáculo” (no sentido pejorativo deste termo), quando, além do mais, a leitura literária, em contraponto, tem uma imagem social de tarefa difícil, démodée e sem glamour?

Creio que não há outra alternativa que, numa estratégia de promoção das literacias e da literatura, se tente cativar os potenciais leitores onde eles se encontram: na televisão e na web. Sem facilitismos, mas procurando revelar a dimensão mais criativa e inovadora da literatura e, por conseguinte, o seu papel único e insubstituível, em conjugação com as restantes actividades culturais. Além disso, parece-me ser este o caminho necessário para criar uma ambiência social mais atreita à produção literária e dessa forma criar o “clima” que facilite e favoreça o esforço e o trabalho perseverante, e muito meritório, que os professores, bibliotecários e promotores da leitura realizam nas suas acções de proximidade.

Porque não haja dúvida sobre esta situação: a produção literária perdeu, e esperemos que não seja de forma definitiva, a batalha por uma maior presença da sua criatividade na comunicação social escrita e audiovisual.

Repare-se na situação da comunicação social escrita.

Naturalmente, com a transição do nosso país para um regime democrático, a oferta artística e cultural foi mais intensa e diversificada, e, principalmente, pôde manifestar-se de forma mais expressiva e significativa. Por isso, os “suplementos literários”, que existiam nos antigos jornais generalistas, transformaram-se em “suplementos culturais” e a literatura passou, entre as restantes manifestações artísticas e culturais, a ocupar um espaço lateral e não central, como até aí tinha sucedido. O debate estético e ideológico começou a processar-se mais em torno das outras actividades artísticas, que conseguiam expressar melhor, e mais publicamente, a sua criatividade, e não quase em exclusivo através da literatura, como anteriormente sucedia.

Esta redução de espaço levou a que a crítica literária, tanto nos jornais diários como hebdomadários, entre outros motivos, se limitasse a comentar as obras que, por razões literárias ou sociais, se justificasse ou se considerasse, em termos redactoriais, como meritórias, quase sempre com breves recensões laudatórias. O resultado é que esmoreceu o debate estético e ideológico em torno da criatividade literária, perdendo vivacidade pública, já que, segundo parece, o juízo crítico ficou implícito na própria selecção que o crítico ou o jornal efectuou antes de publicar a recensão.

Com esta situação, o papel orientador, que a crítica anteriormente tinha para o comum leitor, desvaneceu-se significativamente, e este passou a encará-la como mais uma das formas promocionais das obras que se iam publicando. Repare-se como hoje, a título de exemplo, já quase perdeu qualquer sentido, ou possibilidade de ser concretizada, num jornal generalista, a publicação de polémicas literárias, como anteriormente sucedia, remetendo-as inevitavelmente para as revistas especializadas.

Simplesmente, as revistas ou jornais especializados em papel quase desapareceram por falta de mercado. Os poucos casos (e muito louváveis), que ainda subsistem, foram obrigados a restringir-se ao reduzido mercado literário existente, com enormes dificuldades de gestão e operacionalização, ou são suportados por fundações e instituições congéneres sem fins lucrativos, encarando as receitas obtidas no seu potencial mercado como meros fundos remanescentes.

Para além destas excepções, a reflexão ideológica e estética, em torno da actividade literária, ficou assim quase limitada às revistas académicas. Mas estas, cumprindo o seu papel, têm uma circulação muito restrita, pois foram concebidas e orientadas para a comunicação “inter pares”, apresentando textos e artigos com um natural aparato científico e técnico de difícil decifração para o comum leitor. 

É possível que, com a passagem dos jornais e revistas para o formato digital, como está a suceder nos últimos anos, esta tendência de diminuição da presença da literatura se atenue. Mas, como o critério da dimensão da receptividade continua a ser determinante e, dadas as características minoritárias da actividade literária, esta tendência irá possivelmente manter-se.

Desconheço a autoria da foto.


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V

A Insustentável Distância Da Linha Do Horizonte

Creio que a desmontagem destes lugares-comuns permite perceber qual é a preocupação fundamental de qualquer criador literário e, consequentemente, qual o maior custo da sua actividade: tempo. Condicionado com a necessidade de ter outras profissões, pressionado pelos editores que lhe solicitam mais obras e um papel mais activo na fase da sua comercialização, com o receio de perder leitores ou de ser esquecido, no meio das contrariedades da sua vida pessoal, o escritor vive na permanente neurose (bem antiga, aliás) de arranjar condições e serenidade para prosseguir aquilo que o motiva e que assume ser a coluna dorsal da sua existência. Sem a expectativa de obter resultados financeiros que lhe facilitem a continuidade do seu trabalho, sentindo que um pálido reconhecimento público é cada vez mais difícil de alcançar, o seu vital desejo (e a sua ambição), de levar por diante a construção de uma obra, embate constantemente numa vaga turva de incertezas, de resistências e de incompreensões, obrigando-o, na maior das solidões, a uma disciplina férrea para manter o seu paciente labor.

Ora, é forçoso reconhecer que a evolução da situação editorial, com a presente redução de tiragens, não tem favorecido uma melhoria das condições de trabalho dos escritores e, pelo contrário, tem contribuído para fomentar a errónea imagem social de que a literatura é apenas o resultado de um bando de fanáticos empedernidos que continua, à revelia do andamento dos tempos, a procurar descobrir a beleza cristalina das palavras para contar histórias e redigir poemas. Mais: esquece-se que a palavra continua a ser o húmus onde irrompe toda a realidade e que a literatura escrita (deixe-se de parte a oral, porque essa sempre existiu), em particular a que teve origem no cânone ocidental, está cada vez mais florescente e que irradiou para todo o mundo, transformada pela cultura e pelas tradições literárias locais: mesmo os mais desatentos perceberão que este é um dado indiscutível, ao ponto de ter feito esboroar completamente qualquer construção eurocêntrica (ou ocidental) do universo literário.

Perante esta situação, a contragosto, não consigo perspectivar nenhuma outra alternativa para atenuar os riscos da transformação do acto literário num bem social, libertando-o, pelo menos parcialmente, dos condicionalismos de um mercado cada vez mais global e melhorando assim as condições de trabalho dos escritores, que não seja com o reforço do papel do Estado em apoio da criação literária.

Mas seja-se claro: é evidente que aquilo que, de mais positivo, o Estado pode realizar, em defesa da literatura, é criar condições para a promoção das literacias e, consequentemente, reforçar os hábitos de leitura, democratizando-a e tornando-a, cada vez mais, uma prática quotidiana e essencial da comunidade.

As razões desta posição parecem-me óbvias. Mas também é evidente que, mesmo tendo reflexos na sustentabilidade do circuito literário, os objectivos da promoção das literacias ultrapassam em muito o universo da literatura, pois procuram fundamentalmente aumentar os níveis de formação e o desenvolvimento de competências na sociedade e, por isso mesmo, estão na sequência do papel do Estado no alargamento da escolaridade e da alfabetização.

 Assim, como é facilmente constatável, não é forçoso que o alargamento social da literacia e o aumento dos hábitos de leitura tenham um reflexo proporcional no aumento do consumo de livros e, principalmente, numa maior proximidade da população ao universo literário.

É fundamental ter em consideração esta distinção para perceber que a promoção das literacias, e o desenvolvimento consequente do sentido crítico e, em particular, da sensibilidade e do gosto estético, é apenas condição sine qua non para uma efectiva sustentabilidade da actividade literária, mas não é, por si só, razão suficiente para que o papel social da literatura se acentue e participe, como elemento determinante, no quadro dos tempos livres da maioria da população: hoje, esta maioria, como é facilmente constatável, orienta as competências de leitura adquiridas para outros canais de comunicação e não tanto para o consumo de livros.

Talvez assim se compreenda por que razões certas personalidades, com relevância para a formação da opinião pública, cheguem ao ponto de considerar que a promoção das literacias, numa perspectiva estritamente literária, é irrelevante e até inútil. No entanto, mesmo considerando que estas posições são de um descabido elitismo, não tendo em consideração as funções fundamentais do Estado, é forçoso reconhecer que a batalha interminável das promoções das literacias apenas tem reflexos sociais a médio e longo prazo, e que a sustentabilidade da actividade literária e a dignificação do trabalho dos escritores não pode ficar dependente de resultados que ainda se encontram no campo do plausível.


Desconheço a autoria da foto