sexta-feira, 24 de junho de 2022

RACHID O.

 


A Vontade de Ler: Um Autor, Uma Obra

24. Rachid O. (1970-)

É o pseudónimo de um escritor marroquino de língua francesa, radicado em França desde os vinte anos, e que até hoje publicou quatro livros de narrativas, onde assume abertamente a sua homossexualidade e utiliza a sua experiência pessoal como matéria-prima.

Os narradores dos livros de Rachid O., num contínuo monólogo, vão reflectindo, num estilo límpido e lírico, na esquiva felicidade que se corporiza em fugazes encontros e relações amorosas, no fascínio pela cultura e pelo conforto (o “Chocolat chaud” do título de uma das suas narrativas) do modo de vida ocidental, mas também na inevitável nostalgia da beleza e da tepidez da sua terra de origem; e ainda no estigma violento com que a moral e a religião muçulmana os marca por causa do seu estatuto sexual e que se reflecte no repúdio familiar (tanto mais doloroso quanto sentem uma enorme paixão pela figura paterna, pela sua integridade e pelo seu sentido de dádiva).

“Analphabetes”, 2013, o seu último “romance”, mantendo as características dos livros anteriores, tem, provavelmente, um interesse maior, visto que, seguindo o mesmo registo pessoal, abre-se, inequivocamente, a uma maior dimensão política (sem ser, no entanto, uma obra abertamente militante), já que descreve diversas formas e situações de analfabetismo. Analfabetos, segundo o autor/narrador, somos todos nós um pouco, principalmente quando não conseguimos compreender o Outro, e o rejeitamos, ou não somos capazes expressar o que se sente e pensa (como sucedeu confessadamente com o autor durante os dez anos que antecederam este livro). Assim, ao longo da obra, vão aparecendo várias personagens (e situações) que exemplificam esta visão do mundo: o seu pai, recentemente falecido, que era literalmente analfabeto, mas com uma serena compreensão do mundo, o irmão “bem-intencionado” que exige do narrador o abandono do celibato em nome da moral, a jovem mulher que, sob o jugo patriarcal, é humilhada a comprovar a sua virgindade, o prostituto permanentemente difamado, o colono que, incapaz de perceber a prepotência sexual e amorosa do seu estatuto, é vítima do seu amante, etc., etc..

Junho de 2022.

Desconheço a autoria da foto do escritor.



segunda-feira, 20 de junho de 2022

RABEE JABER

 


A Vontade de Ler: Um Autor, Uma Obra

23. Rabee Jaber (1972-)

É um escritor libanês, de expressão árabe, que escreveu dezanove romances em pouco mais de vinte anos. Esta produção literária ininterrupta transformou o autor (um homem com uma vida reclusa e pouco dado a vir a público e a participar em actos mundanos) numa das figuras mais proeminentes da literatura libanesa. A confirmar este estatuto, estão os factos de os seus últimos romances terem sido seleccionados para o International Prize for Arabic Fiction (o mais importante galardão para narrativas em árabe), tendo o seu penúltimo, intitulado (em tradução literal para inglês) “The Druze of Belgrade”, ganho este galardão (rezam as crónicas, que o autor, quando percebeu quais eram as cerimónias públicas em que era necessário estar presente, decorrentes desta outorga, pura e simplesmente, “fugiu” de Abu Dhabi, cidade onde está sitiado o prémio) e de ter sido seleccionado como um dos autores mais importantes de língua árabe com menos de quarenta anos na antologia Beirut39, organizada pelo festival literário internacional “Hay Festival”, em 2007, na altura em que Beirute foi Capital Mundial do Livro. Por último, convém assinalar que Rabee Jaber foi jornalista cultural no “Al-Hayat”, um dos mais importantes jornais árabes (entretanto encerrado), e que a partir de 2014, segundo se pode saber (dadas as dificuldades em conhecer no Ocidente a produção literária árabe, há que efectuar sempre esta ressalva), não publicou mais nenhum livro.

Seja qual for o quadro temporal das obras do autor (Rabee Jaber escreveu alguns romances históricos, como é o caso do já referido), percebe-se que o seu tema nuclear são as guerras religiosas, o que não admira, tendo em conta o percurso histórico do seu país. No entanto, não são tanto os conflitos em si que interessam o autor (à parte, eles estarem sempre presentes como “pano de fundo”, com o seu cortejo brutal de chacinas e de massacres), mas as consequências e os traumas que deixaram. E não só psicológicos (medo, ódio, consciência constante da fragilidade da vida, etc.), mas também de desfiguração de valores e princípios e até de perca de identidade.

Os romances mais referenciados de Rabee Jaber são, para além do já acima citado, “America”, 2010, situado no princípio do séc. XX e centrando-se na emigração como forma de procurar a salvação e a subsistência num mundo destituído de referências culturais comuns, “The Birds of the Holiday Inn”, 2012, contextualizado na guerra civil de 1975-76 e sobre como sobreviver e organizar o quotidiano no seio de uma semelhante situação, “The Mehlis Report”, 2006, sobre os constantes sequestros e atentados a diversas personalidades no seu país, e em torno do relatório da ONU sobre o assassínio do ex-primeiro-ministro Rafic Hariri, e “Byretus, Undeground City”, 2005, com uma componente fantástica acentuada, sobre uma cidade subterrânea de Beirute, onde os seus mortos subsistem e procuram reconstruir a existência que a cidade da superfície lhes roubou.

Mas o romance que suscita mais interesse é “Confessions” de 2008. Não se julgue, pelo título, que este romance tenha algum aspecto de autobiográfico, mesmo recorrendo, em termos de referência, às “Confissões” de Santo Agostinho, pois também aqui a memória é entendida como um “palácio labiríntico com imensos quartos”.

A obra, de uma assustadora violência, tem, como narrador, um homem que viveu toda a infância e adolescência sob a guerra civil libanesa e que soube, pelo pai moribundo, quando lhe contou que tinha decidido escrever a sua história, que tinha sido retirado de um carro, ferido e ensanguentado, com quatro ou cinco anos, onde a sua família original fora toda dizimada num ataque perpetrado por ele e pelo irmão mais velho, no campo de refugiados de Shatila (prática a que se dedicavam frequentemente), e que fora trazido para “substituir” um outro filho dele também sequestrado e assassinado.

Percebe-se que o romance, para além dos temas do ódio, da morte e das sequelas longas do terror, é uma sinuosa indagação sobre a identidade e a memória. Numa linguagem crua, mas ao mesmo tempo poética, o narrador vai questionar-se sobre o valor e o sentido dos referentes com que construiu a sua memória, uma vez que todos os seus registos “arderam”, não sabendo qual é a sua religião nem a sua cultura, e principalmente que “inimigo” vive dentro dele.

Não há, no entanto, nestas “memórias” de um homem sobre a sua infância nem nenhum gosto do macabro (à parte, existirem, obviamente, muitas situações e descrições verdadeiramente brutais), nem nostalgia. Com a serenidade daquilo que é uma necessidade vital, o narrador vai percorrendo, fragmentariamente, a espiral do seu terror mais íntimo, percebendo que, no final, apenas encontrará um buraco negro.

Alguns romances de Rabee Jaber foram traduzidos para inglês, francês, alemão e italiano.

Junho de 2022

Desconheço a autoria da foto do escritor.



quinta-feira, 16 de junho de 2022

GIOVANNI DI IACOVO

 


A Vontade de Ler: Um Autor, Uma Obra

22. Giovanni Di Iacovo (1975-)

É um escritor italiano que, até hoje, já publicou cinco romances, um livro indefinível sobre a cultura pop gótica, alguns contos em antologias, e diversos ensaios sobre a literatura italiana contemporânea e de crítica literária comparada, fruto do seu trabalho como professor e investigador na Universidade Gabriele d’Annunzio de Pescara, sua cidade natal. Durante algum tempo dedicou-se também à gestão administrativa local, é organizador e programador de um festival literário, guionista de programas de televisão e de filmes, e integrou uma banda musical electropop italo-alemã chamada Anticorpi.

Há, na sua obra narrativa, uma fortíssima dimensão lúdica, fantasista até, em que se joga e mescla a iconologia pop e televisiva com os arquétipos da tradição literária e judaico-cristã. Mas essa estratégia narrativa está focada na realidade quotidiana, analisando e satirizando os comportamentos sociais (e culturais) contemporâneos. E os temas podem ir desde os níveis diversos de sofrimento e dor e o efeito anestesiante da televisão (aproveitando, como contexto, a guerra da Bósnia, como é o caso do seu primeiro romance, “Sushi Bar Sarajevo”, 2006), a actual obsessão consumista e hedonista (“Tutti i poveri devono morire”, 2010), a violência sexual, a prostituição e o HIV (“La sindrome dell’ira di Dio”, 2013), ou ainda os modelos românticos, constantemente renovados, das relações amorosas, como sucede em “Confessioni di uno Zero”, 2018.

Provavelmente, o romance mais interessante seja “Tutti i poveri devono morire”. O romance centra-se numa “comunidade” internacional da alta burguesia, conhecida pelo nome de “Cenacolo di Caino”, que se dedica, por simples prazer, a todo o tipo de crimes e de violência sobre as classes mais pobres e desfavorecidas. A questão nevrálgica desta “seita” está em criar todo o tipo de relações e de códigos que permitam a impunidade e a continuidade do massacre. Para narrar esta trama, tão absurda como complexa, de banalização do assassínio, o autor reencaminha-a para “tournures” bem rocambolescas, num estilo sarcástico e delirante, com personagens com comportamentos pretensamente racionais dentro da sua irracionalidade ética. Por último, mas não menos importante, o romance revela-se como uma espécie de sinuosa e macabra parábola sobre a actual sociedade mercantil e sobre o estatuto de consumidores (ou de consumíveis) que todos temos.  

Junho de 2022.

Desconheço a autoria da foto do escritor.

 



sexta-feira, 10 de junho de 2022

MICHAEL KAAN

 


A Vontade Ler: Um Autor, Uma Obra

21. Michael Kaan (1969-)

É um autor canadiano, filho de um pai de Hong Kong e de uma mãe canadiana, que publicou um único romance, “The Water Beetles”, 2017, com que foi finalista do Governor General’s Award (o mais importante prémio literário canadiano) para língua inglesa e ganhou o Books in Canada First Novel Award. Profissionalmente, é administrador hospitalar em Manitoba, sua cidade natal.

O romance (inspirado pelas memórias do pai do autor, que a mãe lhe entregou após a sua morte) inicia-se com um jovem de doze anos, filho de uma muito próspera família de Hong Kong, que, de súbito, vê a sua vida totalmente transformada com a conquista da cidade pelos japoneses em 1941. Depois de uma fase inicial, em que a família se barrica no seu palacete, temendo a violência que corria pelas ruas, os pais optaram, dada a escassez de víveres, dividir a família e “empurrar” os dois filhos mais novos (que inclui o protagonista) e outros familiares para fora de casa, para procurarem no interior da China formas de sobrevivência. Passado algum tempo, o protagonista é capturado pelos japoneses, e retido num campo de concentração, durante dois anos; até que, finalmente, consegue fugir, com o seu irmão, esquivando-se aos seus carcereiros, e regressar a sua casa. Durante a “fuga”, o jovem vê-se mergulhado nos horrores da guerra, constata a fome e a violência das aldeias chinesas, passa maus-tratos nas prisões japonesas e uma atroz fome.

Mas, no capítulo seguinte, constatamos que este protagonista é agora um velho médico, a viver em Kuala Lumpur, sofrendo as dificuldades da sua idade e com a sua incapacidade e inépcia para se adaptar as circunstâncias do tempo presente.

Entrecruzando capítulos entre o passado e o presente da personagem principal, percebe-se que “The Water Beetles”  não é, propriamente dito, um romance sobre os horrores da guerra (à parte, como é evidente, esses horrores estarem bem presentes), mas sim sobre a memória e sobre a forma como, ao longo da vida, os sobreviventes conseguem gerir as feridas silenciadas desse passado. Segundo a crítica, numa escrita contida, mas, ao mesmo tempo, introspectiva e poética, e revelando grande domínio das técnicas narrativas, o romance é, no essencial, uma reflexão ficcionada sobre a gestão da memória, sobre aquilo que ela emudece e recria, e como essa gestão determina, inevitavelmente, a forma de encarar a vida, a relação com os outros e até o próprio luto e a morte.

Junho de 2022.

Desconheço a autoria da foto do escritor.



segunda-feira, 6 de junho de 2022

JEAN-FRANÇOIS HAAS

 


A Vontade de Ler: Um Autor, uma Obra

20. Jean-François Haas (1952-)

É um escritor suíço, de expressão francesa, que começou a publicar romances já tardiamente (com 55 anos), tendo já publicado seis romances e uma colectânea de contos, e obtendo, com essas obras, diversos prémios nacionais (em particular, com o seu primeiro livro, “Dans la gueule de la baleine guerre”,2007).

Os seus romances, sempre focados na realidade contemporânea (a Segunda Guerra Mundial, a exploração económica, os emigrantes e os refugiados, por exemplo), são, antes do mais, complexas parábolas que utilizam diversos registos estilísticos (incluindo o próprio calão), reflectindo sobre a violência e a presença do mal ao longo da história de hoje. Partindo de um confessado humanismo assente em valores judaico-cristãos, a obra de Jean-François Haas parte do pressuposto de que o Mal (assim como, obviamente, a busca do Bem) faz parte da própria natureza humana e, por conseguinte, torna-se determinante compreender como esta “pulsão”, chamemos-lhe assim, pode ser atenuada ou, favoravelmente, reencaminhada para o Bem. Segundo o autor, claramente expresso por diversos meios, é fundamentalmente através do amor (em todas as suas manifestações) e do perdão. Para este “percurso”, é decisivo o papel da narrativa e da ficção, como forma estruturante de situar o homem e compreender a história (que aparece, por vezes, ao nível pessoal, como um factor condicionante desse percurso), e o sentido do belo (ou, por outras palavras, da criação artística) como “farol” para o reposicionar (e até redimir).

Esta doutrina, aparentemente simples, depois contextualizada, em termos romanescos, através de diversos focos e temas, coloca todas as suas obras no mesmo patamar, ainda que os modelos narrativos, com a sua componente experimental, os contextos, as personagens e as situações variem substancialmente.

Mesmo tendo uma similitude estrutural (o fio condutor é a rememoração da existência de um homem) com o seu primeiro romance, o já referido “Dans la gueule de la baleine guerre”,2007, a obra que me chama mais a atenção é a última, “Tu écriras mon nom sur les eaux”, 2019. Deve-se, no entanto, assinalar, nem que seja por mera curiosidade “nacional”, a sua colectânea de contos “Le Testament d’Adam”, 2017, pois, num deles, uma das personagens é um jovem de origem portuguesa, um “secondo”, que se confronta com um professor suíço num exame oral em torno do Tratado de Tordesilhas…

Este romance é uma dupla saga, em redor de dois emigrantes: um suíço, com uma infância de maus-tratos, e outro, um judeu ucraniano, de Odessa, que perdeu os seus, nas escadarias, quando da revolta do Potemkin. Encontram-se em Colónia, e juntos, vão, durante sete anos, na década de vinte do século passado, procurar sobreviver, realizando todo o tipo de trabalhos, mas, principalmente, aproveitar-se dos seus ofícios (um alfaiate, outro sapateiro), para conseguirem economizar e realizar o seu sonho de emigrar, pagando a passagem para os Estados Unidos. Aqui chegados, vão de novo realizar todos os trabalhos que aparecem, até se estabelecerem e constituírem uma empresa. Tudo isto é narrado por um sobrinho-neto do primeiro, que lhe descreveu as inúmeras e dolorosas dificuldades que os dois emigrantes passaram, assim como as suas famílias, envolvidas nas atrocidades e conflitos que atravessaram a Europa e os Estados Unidos durante todo o século XX.

Junho de 2022.

 

Foto do autor de Charles Ellena.




sexta-feira, 3 de junho de 2022

LING XI

 


A Vontade de Ler: Um Autor, Uma Obra

19. Ling Xi (1972-)

É uma autora chinesa que decidiu expressar-se literariamente em língua francesa, após ter emigrado para França em 1998 e aí se ter formado. Começou a publicar em 2006 e tem até hoje duas colectâneas de novelas e dois romances editados. Duas dessas obras foram publicadas por Maurice Nadeau (o director do jornal “La Quinzaine Littéraire” e, provavelmente, desde os anos sessenta, um dos mais notáveis leitores de literatura do séc. XX), o que, por si só, é um garante da qualidade literária da obra da autora.

Como é natural, boa parte das suas narrativas situam-se na China e procuram reflectir as mutações culturais, sociais e económicas da sua população rural e urbana, com a correspondente desadequação e o consequente processo migratório. Mas, como a autora referiu numa entrevista, não pretende realizar um retrato folclórico nem efectuar nenhuma autobiografia (a única excepção, e redigida a pedido de Maurice Nadeau, é uma das novelas de  “L’Épaule du cavalier”, 2016, a que precisamente dá origem ao título da colectânea).

De facto, os romances da autora (“La Trosième moitié”, 2010, e “Gorge des Tambours”, 2022), espelhando um grande arco temporal, e envolvendo várias gerações, não pretendem propriamente “representar” o processo histórico. As personagens apenas reflectem a referida desadequação e a correspondente estranheza social e cultural, expressas numa escrita lírica e, de certo modo, simbólica. Talvez assim se compreenda por que motivo aparece, tanto nos romances como nas novelas, como tema recorrente, diversas formas de androgenia e de metamorfose. A androgenia não é apenas fruto de imposições, sentidas como absurdas, do Estado chinês, mas também de um paradigma cultural que dilui as fronteiras sexuais e o binarismo, e, de certo modo, corporiza o sentimento de desenraizamento cultural e de não-pertença a um lugar.

Por tudo isto, o livro que ainda parece mais fascinante de Ling Xi seja o primeiro, a colectânea de novelas intitulada “Été strident” de 2006. Essas três novelas têm, como personagens nucleares, seres desadequados e em permanente metamorfose: é o velho (em 2070) que recorda quando o seu pai o abandonou, com o sonho de ser poeta em Paris, e que viveu, fragilmente, sempre em contramão aos valores sociais dominantes e que se resigna a ser criador de baratas; o jovem operário, de uma beleza excepcional, que vive o sonho de ser um cantor lírico, que todas as noites se veste de mulher, com quimono de seda, para ir cantar a um salão de chá e que ninguém conhece objectivamente a sua identidade; ou o emigrante em Paris que, incapaz de aceitar o comportamento das suas colegas de escritório, vive num mutismo total, aterrorizado com a ideia de regressar à China, onde foi obrigado a viver a sua infância disfarçado de menina.

Por último, uma pequena nota que poderá ter a sua relevância: não é provavelmente por acaso que as personagens centrais das suas novelas sejam figuras masculinas.

Junho de 2022.

A autoria da foto da escritora é de Catherine Fruchon-Toussaint.

  


  


terça-feira, 31 de maio de 2022

JONATHAN WABLE

 


A Vontade de Ler: Um Autor, Uma Obra

18. Jonathan Wable

É um escritor francês de quem, em termos biográficos, pouco ou nada se conhece. Pelo desenho com que se apresenta publicamente, da sua autoria, e que aqui reproduzo, parece ter cerca de trinta anos. Para além de escritor, é também desenhador e fotógrafo, um entusiasta pelas obras de Julien Gracq e de Jacques Abeille, e animador de leitura em hospitais e em escolas do ensino secundário. Em 2013, publicou um romance intitulado “Six photos noircies”.

O romance integra um conjunto de vinte contos (esta estratégia narrativa, aparentemente simples, pode, desde que interligada em profundidade, revelar-se muito fascinante – veja-se o caso de alguns romances de Faulkner), onde duas personagens, Valente Pacciatore e Tirenzio Perochiosa, respectivamente, um biólogo e um médico, levam uma série de investigações, que se pretendem racionais e científicas, sobre factos muito obscuros, por vezes violentos, outros apenas fantasmagóricos ou alucinados. Como “prova” das suas investigações, o biólogo tira sistematicamente seis fotografias (não se esclarecendo o porquê deste número, se por limitações técnicas ou outras). As investigações (que decorrem em data indefinida, mas que pelo contexto, se percebe que será nos finais do séc. XIX) decorrem nos quatro cantos do mundo (um delas, parece, em Lisboa), muitos deles verdadeiramente recônditos.

Há claramente na obra uma dimensão fantástica e de romance “fin-du-siècle”, muito próxima do “gótico” inglês. Mas o que mais impressionou a crítica é o domínio das técnicas narrativas, o cuidado clássico do estilo e a capacidade inventiva da construção das diversas tramas.

Maio de 2022.



sexta-feira, 27 de maio de 2022

CARLOS LABBÉ

 


A Vontade de Ler: Um Autor, Uma Obra

17. Carlos Labbé (1977-)

É um escritor chileno que, a partir de 2001, publicou oito romances e um livro de contos. Em 2010, a revista Granta seleccionou-o como um dos narradores mais promissores em língua espanhola (em conjunto com Andrés Barba, Andrés Neuman, Pola Oloixarac, Santiago Roncagliolo, Samanta Schweblin e Alejandro Zambra, para apenas referir os mais conhecidos no nosso país). É também guionista (premiado), editor, crítico literário e especialista nas obras de Juan Carlos Onetti e de Roberto Bolaño. Por último, é compositor e músico popular já com cinco álbuns publicados.

O autor, descrente da eficácia dos modelos narrativos do sécs. XIX e XX, que considera que foram totalmente destroçados pelos canais multimédia e informáticos, tem-se dedicado, de obra para obra, à experimentação literária, procurando soluções estéticas e políticas radicais que combatam não só os discursos de “ocultação” dos diversos poderes, mas também a consolidação do capitalismo e a sua maior penetração no tecido social do seu país. Para estes objectivos, Carlos Labbé procura apetrechar-se com os conceitos e as teorias da crítica textual (Barthes, Genette), entrecruzando-os com os arquétipos narrativos das populações indígenas chilenas, fortemente embebidos do sentido do colectivo, das relações entre mundos físicos e espirituais, da presença do sagrado.

Assim, desde “Pentagonal: incluídos tú y yo”, 2001, um romance hipertextual, o autor tem utilizado todo o tipo de técnicas: desde o uso sistemático de diversos fios narrativos entrelaçados, com distintos espaços e tempos, em que as personagens cruzam espaços “reais” para imaginários, às tentativas de criação de romances corais com diversos narradores debruçando-se com perspectivas distintas sobre as mesmas situações, ou o aparecimento de situações similares em contextos distintos, ou as paródias dos modelos dos colectivos de escrita (em que o caso com maior destaque é o colectivo italiano Wu Ming), ou ainda ao jogo exaustivo das referências literárias e a deambulação constante entre subgéneros narrativos. Os romances de Carlos Labbé são, por isso, de uma inegável complexidade, mas de uma leitura unanimemente aceite como fascinante, dado o seu cuidado estilístico neo-barroco, a imaginação transbordante na construção de situações e de personagens e na tessitura do próprio enredo. Saliente-se ainda que em quase todos os romances deste autor se procura dar um papel activo ao próprio leitor, pois muitas vezes lhe concede a possibilidade de optar na sucessão dos capítulos ou dos trechos, podendo, dessa forma, reconstruir a trama como lhe aprouver.

Não se julgue, no entanto, que os romances de Carlos Labbé são meros exercícios lúdicos de literatura. Pelo contrário, estes romances (de onde destaco, de forma quase arbitrária, “Libro de plumas”, 2004, “Navidad y Matanza”, 2007, “Piezas secretas contra el mundo”, 2014, e “La parvá”, 2015) revelam-se como denúncias, com significativa carga simbólica e/ou alegórica, da situação económica e política do seu país, da sua história de violência e brutalidade sobre quem se opõe ao modelo compressor da implantação capitalista.

Provavelmente, pela sua dimensão alegórica, o romance mais fascinante de Carlos Labbé seja o seu último, intitulado “Viaje a Partagua”, 2021 (e que tem uma actual edição em conjunto com “La parvá”), onde se narra a viagem num camião de um  conjunto de emigrantes, mais ao menos clandestino, através de um imaginário país decrépito, prevendo-se que só um deles chegará à “terra prometida”.

Fruto, de certo modo, da ascensão de Trump ao poder (recordo que o autor vive regularmente, boa parte do ano, em Brooklyn) e da pandemia de Coronavírus, o romance parte de pressupostos fortemente radicais e críticos, defendendo a necessidade cada vez maior de depender do colectivo como forma de sobrevivência. Neste contexto, a literatura responde ao desejo irredutível de viajar como fuga à morte (num quadro em que este desejo parece criminoso, sabendo-se, como o autor refere numa entrevista, “que só os mortos podem viajar”), e que a alegria de contar, abstraindo qualquer ideia de modernidade e regressando a um “ponto zero” da linguagem (não generizada e de eliminado binarismo), se sobreporá à tirania das regras económicas e que levará, no final, a que o filho (todos os filhos) permaneça como a divindade donde a vida renascerá.  

Alguns dos livros do autor estão traduzidos para inglês. 

Maio de 2022.

Foto do autor de Juan Farias E.



segunda-feira, 23 de maio de 2022

JUAN LUIS ZABALA

 


A Vontade de Ler: Um Autor, uma Obra

16. Juan Luis Zabala (1963-)

É um escritor basco que utiliza como instrumento de expressão literária a língua do seu povo. Com uma obra diversificada, abrangendo a poesia, a literatura para a infância e juventude, a biografia, o conto e o romance, já granjeou vários prémios, principalmente no domínio do conto. É também jornalista e tradutor.

Segundo a crítica, nos seus primeiros romances, publicados na década de oitenta, “Zigarrokin ziztrin baten azken keak”, 1985, e “Kaka esplikatzen”, 1989, (respectivamente, em tradução literal, “A Última Fumaça de um Imundo Cigarro” e “A Merda Explicada”), com uma estrutura epistolar, existe certas afinidades entre a sua prosa e alguma narrativa da Europa Central (Handke, Bernhard, etc.). Mas é apenas com os romances publicados após um amplo período de interregno, nos finais da década seguinte e no presente século, que consegue um maior reconhecimento do público e da crítica.

Esses romances, alguns deles “inspirados” na sua experiência pessoal, são “Galdu arte”, 1996, que tem como contexto o movimento dos “gaztetxes”, centros juvenis culturais criados com a ocupação de casas devolutas na década de oitenta no país basco (e que já foi traduzido para espanhol com o título “Hasta la derrota, siempre”), “Agur, Euzkadi”, 2000, (em tradução literal, “Adeus, Euzkadi”) e “Txistu eta biok”, 2016, (também traduzido para espanhol com o título “Txistu y yo”) que granjeou um prémio concedido pelos editores e livreiros bascos.

Na nossa opinião, o romance mais interessante é talvez “Agur, Euzkadi”. O romance centra-se na “ressurreição”, nos finais da década de noventa, de Lauaxeta (um poeta e jornalista basco que foi fuzilado em 1937 pelas tropas fascistas de Franco) e que aparece em Guernica, sem saber como nem compreendendo nada do que o rodeia. Depois de um momento de perplexidade, decide aceitar esta nova vida e vai procurar apoio para se saber situar, encontrando-o em Julen, um outro jornalista, que acredita na sua história, e que o leva a conhecer o actual País Basco. Esta trama simples permite a Juan Luis Zabala, através dos diálogos entre as duas personagens, efectuar uma longa reflexão sobre o papel da morte e o sentido da vida, sobre o fluir do tempo, assim como sobre os valores e os modelos da sociedade contemporânea.

A crítica refere que existem algumas similitudes entre este romance e “O Ano da Morte de Ricardo Reis” de José Saramago.   

Maio de 2022.

Direitos autorais da foto do escritor pertencem ao Diário Vasco.



quinta-feira, 19 de maio de 2022

CAMILA FABBRI

 


A Vontade de Ler: Um Autor, Uma Obra

15. Camila Fabbri (1989-)

É uma escritora argentina que já publicou dois livros de contos e um romance. Em 2021, foi considerada, pela revista Granta, uma das escritoras mais promissoras em língua espanhola com menos de trinta e cinco anos. É também dramaturga e actriz, tanto de teatro como de cinema.

A crítica, principalmente a dos seus colegas de ofício (Alejandro Zambra, Leila Guerriero, Marta Sanz, Rodrigo Fresán, entre outros), desde o primeiro livro, considerou muito favoravelmente a narrativa da autora, não só pelo seu cuidado estilístico (referindo-se constantemente ao seu classicismo, mas, ao mesmo tempo, ao seu caracter inovador e à sua “desenvoltura”, para utilizar uma expressão já consagrada de Eduardo Lourenço), mas, em particular, ao facto de criar, em cada história, uma ambiência muito própria. Essas histórias, descrevendo circunstâncias inteiramente banais, conseguem transmitir uma sensação de perigo, de catástrofe iminente, que, a seu modo, é, nos dias de hoje, bem comum e universal.

Mesmo aceitando que a autora, em entrevistas recentes, se assume principalmente como contista (“Los accidentes”, 2015, e “Estamos a salvo”, 2022), interessa-me, em especial, o seu romance “El día que apagaron la luz”, de 2021.

No dia 30 de Dezembro de 2004, houve um incêndio na discoteca de Cromañón, em Buenos Aires, quando decorria um concerto da banda de rock barrial (corrente de rock underground genuinamente argentina) Callejeros. No desastre, morreram 194 jovens e ficaram 1432 feridos, alguns deles com sequelas psicológicas e físicas durante vários anos. As consequências culturais, sociais e políticas desta tragédia na Argentina foram muito marcantes. A autora, entusiasta adolescente rockeira na altura, tinha assistido na véspera a um concerto com a mesma banda naquele local. 

Foi este facto que levou Camilla Fabbri a escrever o seu único romance (que ela própria classificou como um romance de não ficção). Para isso, resolveu recolher um conjunto de depoimentos dos sobreviventes e seus familiares e trabalhá-los em termos narrativos. É, obviamente, um romance sobre o luto e a morte; mas é, muito em particular, uma obra sobre uma geração (que inclui a própria autora) e os seus sonhos e anseios de adolescentes, os seus esforços para afirmar-se como uma determinada identidade e a sua perca de inocência. Note-se, no entanto, que “El día que apagaron la luz” não pretende ser um relato jornalístico: a autora coloca-se no centro da trama e reflecte sobre a sua própria adolescência, sobre o contexto em que a viveu e sobre o peso que um desastre tão grave como este assume na sua memória.   

Maio de 2022.

Foto da autora de Alejandro Guyot.



segunda-feira, 16 de maio de 2022

LARS AMUND VAAGE

 


A Vontade de Ler: Um Autor, Uma Obra

14. Lars Amund Vaage (1952-)

É um escritor norueguês com uma significativa obra publicada nos domínios da dramaturgia, da literatura para a infância e juventude, da poesia, do conto e do romance. As suas obras, principalmente de poesia e narrativa, têm recebido diversos prémios nacionais, e dois dos seus romances já foram nomeados para o importante Nordic Council Literature Prize em 1996 (“Rubato”) e em 2021 (“Det uferdig huset”, em tradução literal, “A Casa Inacabada”).

Começou a publicar romances nos finais da década de setenta com “Øvelse Kald vinter” (“Exercício Inverno Frio”), ainda muito dependente da estética literária dominante no seu país do “realismo social”. É com o seu único livro de contos “Kyr” (“Vacas”), 1983, que se percebe que se efectua uma inflexão estética na sua obra, aproximando-se de um discurso mais pessoal e reflexivo. Mas é principalmente com o romance “Rubato” que se torna mais nítida essa inflexão, quando Lars Amund Vaage resolve aproveitar a sua experiência pessoal como músico (a sua primeira, e malograda, orientação artística), centrando-se numa personagem que, tendo abandonado a actividade musical, resolve, bem mais tarde, reflectir sobre os motivos desse abandono, e sobre a importância da criação e da comunicação como via de realização pessoal.

Provavelmente é o seu romance “Syngja” (“Cantar”), 2012, a sua obra mais interessante. Considerada unanimemente como a mais pessoal, “Syngja” tem, como personagem principal, um escritor já consagrado que tem uma filha autista que não sabe falar nem entende a linguagem (como sucede na vida real com o escritor). Sem pretensões autobiográficas, e fugindo, em termos estilísticos, a qualquer registo melodramático, o romance procura expor não só o modo de ser e a vida dessa filha (hoje já adulta), a sua (ir)receptividade aos tratamentos e aos especialistas, mas, sobretudo reflecte sobre as formulas de relacionamento familiar e o papel da linguagem e da necessidade de expressão e comunicação.  Daí que o romance, naturalmente, estabelecendo constantes relacionamentos com a situação do autista, derive para o estatuto do escritor, o seu isolamento estrutural e, por consequência, sobre o papel da ficção como instrumento de aproximação ao mundo e ao Outro. 

Maio de 2022.

A foto do autor é de Helge Skodvin.



sexta-feira, 13 de maio de 2022

ADRIENNE YABOUZA


 

A Vontade de Ler: Um Autor, Uma Obra

 

13. Adrienne Yabouza (1965-)

 

É uma escritora da República Centro-Africana, de expressão francesa, que já escreveu vários livros para a infância e juventude e oito romances e colectâneas de contos (os primeiros escritos em colaboração com o escritor francês Yves Pinguilly). Sem estudos nem formação académica (boa parte da sua vida teve que criar sozinha os seus cinco filhos), passou por diversos trabalhos e ofícios, até que, por fim, “montou” um salão de cabeleireiro na capital, que lhe serviu para ouvir as histórias de vida das suas vizinhas. Devido às guerras civis que recentemente assolaram o seu país, foi obrigada a exilar-se por duas vezes: primeiro, em 2004, para a República do Congo, depois, de novo, em 2013, tendo pedido asilo político em França.

Os romances de Adrienne Yabouza centram-se fundamentalmente na situação social e familiar das mulheres africanas, em particular as do seu país, e inspiram-se nas histórias que foi ouvindo às suas clientes e vizinhas. As tramas são, na generalidade, lineares; mas este facto não obsta a que, para além do testemunho sobre as situações vividas pelas mulheres africanas, os seus romances não tenham qualidades estilísticas, com um aproveitamento significativo do humor no tratamento sarcástico de situações bem desumanas, em especial de abuso sexual, e na utilização de africanismos, oriundos das diversas línguas nativas, e que procuram exprimir a ambiência local. Essas tramas percorrem todas as fases da vida destas mulheres, desde a infância e a adolescência (“Le Bleu du ciel biani biani”, 2010) até à viuvez (“La Maltraite des veuves”, 2013, e “Co-épouses et co-veuves”, 2015) e à velhice. Por outro lado, reflectem também o sofrimento próprio das mulheres em contextos de guerra civil, demonstrando como são constantemente utilizadas como despojos (e troféus), e como aquela é sempre gerada por situações de corrupção e de ânsia de partilha, por parte de grupos com interesses específicos e antagónicos, das riquezas públicas (“La Défaite des mères”, 2008, e “La Pluie lave le ciel”, 2019).    

O romance mais interessante parece-nos ser “Co-épouses et co-veuves”, em particular porque se debruça sobre um tema pouco tratado em termos literários: a situação da mulher num quadro social poligâmico (é justo lembrar aqui o carácter percursor da obra da moçambicana Paulina Chiziane, que também se tem debruçado sobre este tema no contexto do seu país e da África Austral).

As personagens centrais de “Co-épouses et co-veuves” integram uma unidade familiar em Bangui, constituída por Lidou e as suas duas esposas, Ndongo Passy e Grekpoubou, e cinco filhos (respectivamente, um da primeira e quatro da segunda), onde não há conflitos nem ciúmes, e, pelo contrário, parece a existir uma certa harmonia erótica e afectiva. À morte súbita do marido, as duas mulheres vêem-se obrigadas a lutar pela sua sobrevivência e pelo seu património, como se fossem irmãs, confrontando-se com a guerra civil, a corrupção institucionalizada, assim como com as trafulhices geradas por uma sociedade marcadamente patriarcal. Saliente-se, por fim, que, mesmo numa ambiência social e política sinistra, existe uma clara jovialidade, composta por um tratamento afectuoso, humorado e optimista, no retrato esboçado das personagens e das situações que estas se vêem obrigadas a atravessar.

Este romance está traduzido para inglês.

Maio de 2022

Desconheço a autoria da foto da escritora.



terça-feira, 10 de maio de 2022

THOMAS VAN AALTEN

 


A Vontade de Ler: Um Autor, Uma Obra

12. Thomas van Aalten (1978-)

 É um escritor holandês que já publicou nove romances e uma novela. Além disso, escreveu dois guiões de filmes, faz crítica literária regular em diversos jornais e revistas e é professor universitário de Comunicação Social. Para além de ser muito prolixo, é também bastante interveniente em termos sociais, tornando-se uma presença regular na comunicação social, em particular na web e nos meios audiovisuais, a comentar, muitas vezes de forma acentuadamente polémica, não só a produção literária do seu país, mas também a vida social e política. Genericamente, pode afirmar-se que as suas posições se situam na esquerda liberal (ou, provavelmente, de forma mais acertada, num peculiar liberalismo de esquerda).

Como seria previsível, o caracter controverso e iconoclasta da figura do autor afectou a leitura da sua obra e, por conseguinte, a crítica, por vezes, divide-se na sua avaliação. No entanto, reconhece-se o carácter experimental da sua narrativa, a vivacidade na construção de tramas complexas, gerando “tournures” imprevisíveis, as personagens peculiares, os diálogos tocando as raias do “non-sense”, as situações muitas vezes surrealizantes e o carácter inovador da arquitectura romanesca, “jogando” com o tempo e o espaço e com a forma de apresentação das personagens e dos seus contextos. Refere-se ainda a radicalidade do seu sentido crítico em relação ao modo de vida dos seus compatriotas, em particular das classes média e alta, e à sua obsessão pelo bem-estar, pelo consumo e pelo luxo. Por último, na tentativa de contextualizar as suas narrativas, é costume referir-se a obras tão distintas, como as de William S. Burroughs, de Denis Johnson, de Bret Easton Ellis, do cineasta David Lynch, de Michel Houellebecq e de Haruki Murakami.

Sem ter a pretensão de definir “ciclos” no conjunto da obra Thomas van Aalten, creio que é possível delinear as suas “flutuações”. Os dois primeiros romances, “Sneeuwbeeld”, 2000, (literalmente, “Imagem de Neve”) e “Tupelo”, 2001, particularmente sombrios e terríveis, têm, como personagens centrais, dois jovens da idade do autor (repare-se que o primeiro romance foi publicado quando Thomas van Aalten tinha apenas vinte e um anos) e retrata as suas dificuldades, entre a droga, o sexo e o álcool, em definir o seu percurso, pressentindo que estão a escorregar para um abismo de destruição e morte; o terceiro e o quarto, “Sluit deuren en ramen”, 2003 (“Fechar Portas e Janelas”) e “Coyote”, 2006, são distopias, o primeiro, reflectindo a actual obsessão securitária, e o segundo, mais experimental e alucinado, apresenta, de forma fragmentária e aparentemente desconexa, um conjunto de personagens imorais e de situações brutais numa gigantesca cidade fictícia; o quarto, “De onderbreking”, 2009 (“A Interrupção”), retoma a personagem de Victor Tupelo (eventual alter-ego do autor), como um escritor de sucesso que questiona, num diálogo ininterrupto com um porteiro de hotel (seu leitor), as relações entre realidade e ficção; e ainda “De schuldigen”, 2011 (“Os Culpados”), que se centra numa família a viver num constante gozo consumista (composta por um banqueiro falido, em permanente especulação financeira, a esposa, que passa o tempo em clínicas estéticas e em curas de desintoxicação, e um filho, que vive à deriva, fugido de casa e em ruptura com os pais), que, quando se encontra acidentalmente num luxuoso hotel no Dubai, é vítima de um ataque terrorista, e onde se defende a tese que a falência da actual sociedade ocidental se deve aos hábitos da classe dominante, o seu principal inimigo.

Porém, a partir de “Leeuwenstrijd”, 2014 (“Luta de Leão”), que referiremos mais adiante, processa-se uma inflexão na obra de Thomas van Aalten, não só por ter uma outra orientação estética, onde a dimensão experimental é mais atenuada, mas principalmente porque se passa a centrar na realidade holandesa do séc. XX: assim, “Henry!”, 2016, o romance seguinte, situa-se na década de sessenta, em redor do “boom” consumista de revistas “mundanas”, e “Een vrouw van de wereld”, 2020 (“Uma Mulher do Mundo”), na fase de franca expansão económica da Holanda da década de setenta, que se debruça sobre o vazio hipócrita e entediante de uma mulher, casada com um próspero homem de negócios, violento e alcoólico, que descobre que existe um mundo bem distinto da Amesterdão onde vive, através de uma relação adultera com um jovem surinamês; por último, “Voorstad” (“Subúrbio”), já no corrente ano, contextualizado na actualidade, sobre as alterações sociais (e arquitectónicas) num subúrbio abastado, onde os antigos residentes se confrontam como uma nova população, de origem estrangeira, mas com meios financeiros suficientes para “contaminar” o seu espaço.   

Não há dúvida que o romance, de certo modo, mais ambicioso, e provavelmente mais interessante, de Thomas van Aalten, é “Leeuwenstrijd” (“Luta de Leão”). A estratégia narrativa do romance é bastante simples e comum: a descoberta de um traje de leão num sótão “familiar” leva um adolescente a tentar descobrir a sua origem e a conhecer o percurso da sua família durante quatro gerações, desde um antepassado, imigrante italiano que se fixou, em 1920, como mineiro em Limburg, até à actualidade. Ao longo de cem anos, é não só a história e as vicissitudes por que a Holanda passou que são reflectidas, mas também as perspectivas de cada geração em relação a essa mesma história: desde o bisavô (filho de um militante comunista, obrigado a fugir do fascismo italiano, e por isso a emigrar para a Holanda), que se sente asfixiado em Limburg, trabalhando no comércio e de noite num circo, e que, perfilhando posições liberais conservadoras, se vê envolto em histórias de espionagem, e que é obrigado, por sua vez, a fugir da guerra para a América, ao seu avô, socialista e radical, empenhado nas lutas sociais dos anos sessenta e setenta, ao seu pai, um executivo publicitário, ambicioso e ansiando por prestígio e promoção social, até à figura central do romance, um jovem revoltado com o actual modelo social e que procura sistematicamente assumir posições radicais.

Para dar realce aos conflitos ideológicos geracionais e aos modos diferentes de reagir ao fluir dos acontecimentos, o autor resolve não seguir uma evolução cronológica, entrecruzando as histórias do passado com as do presente, e apresentando-as sempre na perspectiva do seu actor principal. O “fato de leão”, que está na origem do título, e que o bisavô utilizava no seu trabalho circense, assume assim um valor simbólico, pois não só representa o elo familiar que se sobrepõe aos antagonismos entre pais e filhos, mas também a diversa energia para, ao longo dos tempos, cada geração teve que incorporar para superar as dificuldades que vão surgindo.   

Maio de 2022.

Foto do escritor da autoria de Keke Keukelaar.



sexta-feira, 6 de maio de 2022

ANTÓNIO XERXENESKY

 


A Vontade Ler: Um Autor, Uma Obra

11. António Xerxenesky (1984-)

É um escritor brasileiro que, desde 2006, já publicou quatro romances e três colectâneas de contos. É também Doutorado em Teoria Literária pela Universidade de São Paulo. Em 2012, foi considerado, pela revista Granta, um dos escritores brasileiros com menos de quarenta anos mais promissores (numa lista de vinte, que incluía os nomes de João Paulo Cuenca, Julian Fuks, Daniel Galera, Michel Laub, Carola Saavedra e Tatiana Salem Levy, para só referir os mais conhecidos no nosso país) e o seu romance “F” foi finalista do Prémio São Paulo de Literatura e a sua tradução francesa foi também finalista no Prix Médicis para literatura estrangeira.

As narrativas deste autor têm três ingredientes bem característicos: um enorme prazer em construir tramas complexas que “brincam” com a realidade, introduzindo elementos fantasmagóricos, como se esta fosse, antes do mais, uma “construção mental”; esta dimensão lúdica leva a que o autor “baralhe” e mescle constantemente géneros e subgéneros narrativos, desde o western, a ficção científica, o policial e as obras fantásticas com mortos-vivos e zombies; por último, que o texto esteja repleto de referências literárias, explícitas e implícitas, como se a referida dimensão lúdica se estendesse à história da literatura dos últimos dois séculos. O resultado parece assim estar perto do que alguma crítica anglo-saxónica tem etiquetado de narrativas de “post-horror”, para além, de facto, de uma certa proximidade à ambiência de alguns romances de Roberto Bolaño (sobre quais António Xerxenesky fez a sua tese de doutoramento).

Torna-se assim compreensível o motivo por que os contextos geográficos (e até históricos) sejam pouco relevantes na sua obra: eles apenas servem para dar um conjunto de referências que permitam dar maior consistência à própria evolução do enredo. Estas opções talvez permitam entender a dificuldade de certa crítica brasileira em classificar (e aceitar) a sua obra (visto que são narrativas de género que por sistema se encaminham para outros universos) e também a perplexidade com que o leitor comum tem acolhido a sua produção literária.      

Não se julgue, no entanto, que a obra de António Xerxenesky se confina apenas a uma dimensão lúdica. Há sempre a intenção de, subliminarmente, ficcionar uma reflexão abrangente: ou a metaficção e as estratégias narrativas (“Areia Nos Dentes”, 2008), ou a literatura como referencial autónomo (“A Página Assombrada Por Fantasmas”, 2011), ou o sentido da arte (“F”, 2014), ou ainda o conhecimento como forma de apreensão do não visível (“As Perguntas”, 2017).

Talvez seja por isso que a obra do autor sofreu uma inflexão significativa no último romance, “Uma Tristeza Infinita”, 2021, onde se atenuou a já referida dimensão lúdica (há apenas alusões a Robert Walser) e se abandonou, pelo menos de forma tão explícita, a ambiência de “terror”.

A trama situa-se na Suíça do pós-guerra e tem, como personagens centrais, um casal, composto por um psiquiatra e uma física, que se encontra na vanguarda dos seus correspondentes conhecimentos científicos: o primeiro, utilizando como instrumento clínico a psicanálise, e abandonando os electrochoques e a aplicação sistemática de farmacológicos para tratar a depressão (a melancolia, como era conhecida na altura); a segunda, dedicando-se ao estudo da estrutura da matéria e das partículas elementares num centro de investigação nuclear. Por conseguinte, as questões centrais deste romance deslocam-se para os limites (em particular, éticos) do conhecimento científico e as suas possibilidades para compreender em profundidade a vida e a realidade material. Mas, paralelamente, reflecte também sobre o sentimento de culpa (boa parte dos pacientes, que o psiquiatra trata e com quem dialoga, estiveram diversamente relacionados com os genocídios perpetrados na II Guerra Mundial e, por outro lado, pairam, como sinistra sombra sobre o trabalho científico da mulher, as bombas atómicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki) e sobre a forma como as opções políticas e pessoais (ou a falta delas) condiciona o percurso individual.   

Maio de 2022

Foto do autor de Renato Parada.



terça-feira, 3 de maio de 2022

NURIA LABARI

 


A Vontade de Ler: um Autor, uma Obra

10. Nuria Labari (1979-)

 É uma escritora e jornalista espanhola que já publicou um livro de contos e dois romances. Logo com a colectânea de histórias “Los borrachos de mi vida”, 2009, obteve o reconhecimento da crítica e do meio literário, ganhando até um prémio relevante, e sendo encarada como uma das contistas mais interessantes da sua geração. De seguida, publicou um romance, “Cosas que brillan cuando están rotas”, 2016, centrado numa jornalista e nas suas incertezas, profissionais e pessoais, quando enfrenta e regista no seu trabalho os efeitos devastadores do atentado de 11 de Março de 2014, ao mesmo tempo que é obrigada a resolver dramáticos problemas pessoais e familiares.

Mas provavelmente o seu romance mais interessante (e que foi, paralelamente, um significativo sucesso comercial) é “La mejor madre del mundo”, 2019, onde a autora lança uma perspectiva peculiar sobre a maternidade, procurando desmistificá-la e principalmente libertá-la dos lugares comuns com que é costume encará-la. A narradora é uma escritora que, aos trinta e cinco anos, tendo problemas de fertilidade, sente uma necessidade obsessiva de ter filhos. Passados cinco anos e dois partos, percebe que a sua vida e o seu corpo se modificaram totalmente. Decide então escrever um romance sobre a maternidade, assumindo-o como uma aposta decisiva: ou o livro se transforma num básico diário, e então, a partir daqui, será apenas uma simples mãe, ou consegue fazer dele uma obra mais universal e tornar-se-á efectivamente numa escritora.

O romance, entrecruzando a autoficção com o ensaísmo (a autora vai, ao longo do livro, reflectindo sobre o que escreveram e disseram algumas figuras marcantes da literatura sobre a maternidade), é redigido com um intenso humor, escalpelizando a situação da mulher e, sobretudo, o estatuto materno na actual sociedade, com uma crueza e um realismo que conseguem alterar a visão de todo mirifica que habitualmente se tem da maternidade.     

Foto da autora de Guillermo Mestre.  

Maio de 2022. 



sábado, 30 de abril de 2022

HOMEIRA QADERI

 


A Vontade de Ler: Um Autor, Uma Obra

9. Homeira Qaderi (1980-)

É uma escritora afegã que já publicou três romances e uma colectânea de contos. Em complemento, decorrente do seu papel de activista dos direitos humanos e, principalmente, em prol da melhoria da situação das mulheres no seu país, e de especialista em literatura persa e afegã, tem publicado outras obras, de carácter mais indefinido, entre o biográfico e o ensaístico.

Aliás, como seria inevitável, a situação social e política, que o seu país tem vivido nas últimas décadas, teve e tem um papel determinante nas opções literárias da escritora. Nascida sob o domínio soviético, impossibilitada de estudar durante o regime talibã, Homeira Qaderi viu-se obrigada a exilar-se com a família, ainda em criança, no Irão, onde se formou em literatura persa e afegã, tendo-se doutorado na Universidade Jawaharlal Nehru, na India. Ainda no exílio, começou a intervir em diversas conferências e organismos internacionais com o fito de denunciar a situação social das mulheres islâmicas, e em particular no Afeganistão, procurando sensibilizar a opinião pública internacional para a sua degradante condição. Em 2011, já depois da queda do regime talibã, regressou ao seu país e começou a dar aulas na Universidade de Cabul, continuando a manter uma forte intervenção pública em defesa das mulheres. Em 2021, aquando da “reconquista” de Cabul pelos talibãs, viu-se de novo obrigada a exilar-se, agora para os Estados Unidos.

A ficção de Homeira Qaderi, escrita em persa afegão (ou dari, como quiserem), é quase inacessível e pouca informação, lamentavelmente, existe sobre ela: reconhece-se, no entanto, que o seu romance “Noqra, a Girl from Kabul River” (numa tradução literal do título para inglês), 2009, é, com as narrativas de Maryam Mahboob e de Spôjmai Zariâb, uma das mais importantes obras de narrativa literária contemporânea escrita por uma mulher afegã.

Por isso, o nosso interesse vê-se assim quase confinado a uma obra de não-ficção, intitulada na edição inglesa por “Dancing in the Mosque”, 2019. O livro, conforme indica o subtítulo, apresenta-se como uma “carta ao filho” (“An Afghan Mother’s Letter to her Son”) e nele a autora narra a sua experiência pessoal, desde a infância sob o poder soviético, os seus esforços (e riscos) para ensinar outras meninas afegãs na fase do jugo talibã, o casamento com dezassete anos no Irão com um marido islâmico e formatado por uma cultura patriarcal e misógina, a dolorosa epopeia que foi o nascimento do seu filho num hospital público em Cabul, a obstinada decisão em estudar literatura e dedicar-se à criação literária, a irrevogável e dramática opção de se divorciar, quando o seu marido, após doze anos de casamento, a informou de que se queria casar com uma segunda mulher, sabendo que essa resolução lhe iria fazer perder qualquer direito, de acordo com a “sharia” e o direito civil do seu país, de cuidar do filho e até de o contactar.

Mas esta obra não se limita a ser um libelo acusatório contra a humilhante situação das mulheres islâmicas no Afeganistão. Dado o seu carácter não-linear, fragmentário e o seu estilo com matizes que vão desde o lírico (principalmente nas descrições das suas relações com a sua avó, na infância, ou com as suas amigas na mesquita) até um realismo cru, mas expressivo, no retrato que efectua do quotidiano asfixiante e perigoso de Cabul, “Dancing in the Mosque” tem um interesse literário que supera bastante o simples registo de um testemunho.

A autoria da foto da escritora é de Tim Schoon.

Abril de 2022.



terça-feira, 26 de abril de 2022

PASI ILMARI JÄÄSKELÄINEN


 

A Vontade de Ler: Um Autor, Uma Obra

8.Pasi Ilmari Jääskeläinen (1966-)

É um escritor finlandês que publicou até hoje três romances e duas colectâneas de contos. Vencedor de vários prémios nacionais, tem cultivado um modelo narrativo, onde, de forma experimental, mescla diversos géneros, entre a fantasia, a ficção científica e o gótico, dando origem a um estilo a que o autor denomina realismo fantasista ou fantasia realista (o que é, obviamente, uma contradicção nos seus termos).

Os seus romances mais conhecidos são “Lumikko ja yhdeksän muuta” e “Harjukaupungin salakäytävät” , em particular devido às suas traduções inglesas, pois foram publicados na prestigiada editora The Pushkin Press, com os títulos, respectivamente,  “The Rabbit Back Literature Society” e “Secret Passages in a Hillside Town”.

 O romance que parece ser mais interessante é “The Rabbit Back Literature Society”, que já foi traduzido para francês, espanhol, galego, italiano, alemão e holandês. A sua trama desenrola-se em redor de uma sociedade literária criada, há muitos anos, por uma famosa escritora de livros para crianças numa pequena cidade finlandesa, entre jovens aspirantes a escritores, e inicia-se quando uma jovem professora é integrada como novo elemento (facto que não sucedia há décadas). Conforme os ritos da sua iniciação se vão desenrolando, e em particular um deles, a que chamam “O Jogo”, começam a acontecer vários mistérios e a revelar-se diversos segredos intrigantes. Entre eles, o desconcertante desaparecimento da própria fundadora da sociedade literária ou a existência de uma biblioteca em que os exemplares de algumas obras clássicas têm enigmáticas variantes de trechos ou até personagens com características distintas das originais, etc., etc.

 Há no romance uma clara dimensão lúdica, mas, paralelamente, a manifesta ambição de construir uma parábola sobre a arte peculiar de contar histórias e sobre o seu saber, quase mágico, na compreensão do mundo.

 

Desconheço a autoria da foto do escritor.

 

Abril de 2022.