A Vontade de
Ler: Um Autor, Uma Obra
12. Thomas
van Aalten (1978-)
É um
escritor holandês que já publicou nove romances e uma novela. Além disso, escreveu
dois guiões de filmes, faz crítica literária regular em diversos jornais e
revistas e é professor universitário de Comunicação Social. Para além de ser
muito prolixo, é também bastante interveniente em termos sociais, tornando-se
uma presença regular na comunicação social, em particular na web e nos meios
audiovisuais, a comentar, muitas vezes de forma acentuadamente polémica, não só
a produção literária do seu país, mas também a vida social e política.
Genericamente, pode afirmar-se que as suas posições se situam na esquerda
liberal (ou, provavelmente, de forma mais acertada, num peculiar liberalismo de
esquerda).
Como seria
previsível, o caracter controverso e iconoclasta da figura do autor afectou a
leitura da sua obra e, por conseguinte, a crítica, por vezes, divide-se na sua
avaliação. No entanto, reconhece-se o carácter experimental da sua narrativa, a
vivacidade na construção de tramas complexas, gerando “tournures”
imprevisíveis, as personagens peculiares, os diálogos tocando as raias do
“non-sense”, as situações muitas vezes surrealizantes e o carácter inovador da
arquitectura romanesca, “jogando” com o tempo e o espaço e com a forma de
apresentação das personagens e dos seus contextos. Refere-se ainda a
radicalidade do seu sentido crítico em relação ao modo de vida dos seus
compatriotas, em particular das classes média e alta, e à sua obsessão pelo
bem-estar, pelo consumo e pelo luxo. Por último, na tentativa de contextualizar
as suas narrativas, é costume referir-se a obras tão distintas, como as de
William S. Burroughs, de Denis Johnson, de Bret Easton Ellis, do cineasta David
Lynch, de Michel Houellebecq e de Haruki Murakami.
Sem ter a
pretensão de definir “ciclos” no conjunto da obra Thomas van Aalten, creio que
é possível delinear as suas “flutuações”. Os dois primeiros romances,
“Sneeuwbeeld”, 2000, (literalmente, “Imagem de Neve”) e “Tupelo”, 2001, particularmente
sombrios e terríveis, têm, como personagens centrais, dois jovens da idade do
autor (repare-se que o primeiro romance foi publicado quando Thomas van Aalten
tinha apenas vinte e um anos) e retrata as suas dificuldades, entre a droga, o
sexo e o álcool, em definir o seu percurso, pressentindo que estão a escorregar
para um abismo de destruição e morte; o terceiro e o quarto, “Sluit deuren en
ramen”, 2003 (“Fechar Portas e Janelas”) e “Coyote”, 2006, são distopias, o
primeiro, reflectindo a actual obsessão securitária, e o segundo, mais
experimental e alucinado, apresenta, de forma fragmentária e aparentemente
desconexa, um conjunto de personagens imorais e de situações brutais numa
gigantesca cidade fictícia; o quarto, “De onderbreking”, 2009 (“A
Interrupção”), retoma a personagem de Victor Tupelo (eventual alter-ego do autor),
como um escritor de sucesso que questiona, num diálogo ininterrupto com um
porteiro de hotel (seu leitor), as relações entre realidade e ficção; e ainda “De
schuldigen”, 2011 (“Os Culpados”), que se centra numa família a viver num constante
gozo consumista (composta por um banqueiro falido, em permanente especulação
financeira, a esposa, que passa o tempo em clínicas estéticas e em curas de
desintoxicação, e um filho, que vive à deriva, fugido de casa e em ruptura com
os pais), que, quando se encontra acidentalmente num luxuoso hotel no Dubai, é
vítima de um ataque terrorista, e onde se defende a tese que a falência da actual
sociedade ocidental se deve aos hábitos da classe dominante, o seu principal
inimigo.
Porém, a
partir de “Leeuwenstrijd”, 2014 (“Luta de Leão”), que referiremos mais adiante,
processa-se uma inflexão na obra de Thomas van Aalten, não só por ter uma outra
orientação estética, onde a dimensão experimental é mais atenuada, mas
principalmente porque se passa a centrar na realidade holandesa do séc. XX:
assim, “Henry!”, 2016, o romance seguinte, situa-se na década de sessenta, em
redor do “boom” consumista de revistas “mundanas”, e “Een vrouw van de wereld”,
2020 (“Uma Mulher do Mundo”), na fase de franca expansão económica da Holanda
da década de setenta, que se debruça sobre o vazio hipócrita e entediante de
uma mulher, casada com um próspero homem de negócios, violento e alcoólico, que
descobre que existe um mundo bem distinto da Amesterdão onde vive, através de
uma relação adultera com um jovem surinamês; por último, “Voorstad”
(“Subúrbio”), já no corrente ano, contextualizado na actualidade, sobre as
alterações sociais (e arquitectónicas) num subúrbio abastado, onde os antigos
residentes se confrontam como uma nova população, de origem estrangeira, mas com
meios financeiros suficientes para “contaminar” o seu espaço.
Não há
dúvida que o romance, de certo modo, mais ambicioso, e provavelmente mais
interessante, de Thomas van Aalten, é “Leeuwenstrijd” (“Luta de Leão”). A
estratégia narrativa do romance é bastante simples e comum: a descoberta de um
traje de leão num sótão “familiar” leva um adolescente a tentar descobrir a sua
origem e a conhecer o percurso da sua família durante quatro gerações, desde um
antepassado, imigrante italiano que se fixou, em 1920, como mineiro em Limburg,
até à actualidade. Ao longo de cem anos, é não só a história e as vicissitudes por
que a Holanda passou que são reflectidas, mas também as perspectivas de cada
geração em relação a essa mesma história: desde o bisavô (filho de um militante
comunista, obrigado a fugir do fascismo italiano, e por isso a emigrar para a
Holanda), que se sente asfixiado em Limburg, trabalhando no comércio e de noite
num circo, e que, perfilhando posições liberais conservadoras, se vê envolto em
histórias de espionagem, e que é obrigado, por sua vez, a fugir da guerra para
a América, ao seu avô, socialista e radical, empenhado nas lutas sociais dos
anos sessenta e setenta, ao seu pai, um executivo publicitário, ambicioso e
ansiando por prestígio e promoção social, até à figura central do romance, um
jovem revoltado com o actual modelo social e que procura sistematicamente
assumir posições radicais.
Para dar
realce aos conflitos ideológicos geracionais e aos modos diferentes de reagir
ao fluir dos acontecimentos, o autor resolve não seguir uma evolução
cronológica, entrecruzando as histórias do passado com as do presente, e
apresentando-as sempre na perspectiva do seu actor principal. O “fato de leão”,
que está na origem do título, e que o bisavô utilizava no seu trabalho
circense, assume assim um valor simbólico, pois não só representa o elo
familiar que se sobrepõe aos antagonismos entre pais e filhos, mas também a
diversa energia para, ao longo dos tempos, cada geração teve que incorporar
para superar as dificuldades que vão surgindo.
Maio de 2022.
Foto do
escritor da autoria de Keke Keukelaar.